Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

Quando não queremos ou não podemos dizer certas coisas, não há nada mais prático que arranjarmos um papagaio que se encarregue de propalar alto e bom som aquilo que não era para sair do segredo que devia ficar bem guardado dentro das quatro paredes onde temos os nossos desabafos mais íntimos.

Aquela sala do conselho tem sabido guardar bons e maus segredos com uma discrição invejável, atendendo a que certos meios de comunicação não conhecem obstáculos quando se trata de descobrir, por vezes nem eles sabem onde, os mais insólitos casos que só o chegam a ser para eles próprios.

Porém, essa sala do conselho não podia continuar invulnerável a tudo e a todos para lá de uns dias de expectativas emocionais vindas do além, ou não fossem elas uma espécie de sonho dourado de muitos anos, qual cadeira de sonho de uns, ou o fim da miragem que, finalmente, chegou como a boa nova da tão desejada nova oportunidade.

A sala do conselho não podia, nem devia, assim de repente, perder a inviolabilidade das suas decisões e das suas discussões, saudáveis como não podia deixar de ser. Daí que, atendendo à conveniência extrema de passar a palavra proibida, se tenha optado pelo método do papagaio amigo que diz tudo o que eu lhe digo.

Assim, não se quebrou a promessa do exterior e, lá dentro, só o papagaio não calou aquilo que não era para se dizer cá fora. Até porque só um papagaio não sabe que há segredos muito embaraçosos para quem os segreda na presença de um papagaio que não controla o bico, por mais amigo que ele seja do seu amo e senhor.

Pode mesmo considerar-se um desvio colossal da língua do amo e um desvio abismal do bico do papagaio, considerando que o segredo, afinal, era conhecido e reconhecido, com assinatura e tudo, por uma série de subscritores que haviam lido e relido, mesmo as letrinhas mais pequenas daquele dito segredo.

Depois, como é costume, ao sair da boca do papagaio, o segredo foi bem espremido, de modo a que, numa corrida contra a verdade secreta, se cortasse a meta e se entrasse logo de seguida num evidente acerto de contas. Do papagaio não se sabe o nome. O amo e senhor, entendeu que não devia falar mais nisso.

Aliás, vai mesmo ter de falar mais, e muito mais, porque está em causa a assinatura de gente que, em termos de contas, de desvios e de metas, nada tem a temer da confrontação dos segredos revelados por um papagaio que fala mais do que pensa, se é que alguma vez soube pensar, para lá de ter o pensamento estagnado no passado.

O pior mesmo é que isto prova que é muito grande a tentação de cuspir para o lado, quando as coisas começam a cheirar a esturro. Nunca tive ilusões de que desta vez não seria assim, tal como tem sido largamente repisado, aliás, como tantas outras banalidades que até parecem grandes descobertas como as dos anos mil e quinhentos.

É o caso da independência do conselho do papagaio e da independência do conselho dos segredos. Um não tem nada a ver com o outro, ouvi dizer. Mas, na realidade, por mais que me digam que não, o papagaio vai estar muitas vezes ao serviço estratégico do conselho dos segredos.