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afonsonunes

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16 Jul, 2011

O país em cuecas

Aqui há uns anos atrás estávamos de tanga e agora estamos em cuecas. À primeira vista parece que há uma evolução positiva no que toca ao combate à obscenidade que muita gente verá nesta situação, embora dependendo do modelo de cuequinha que for usado e apreciado nesta espécie de teste de stress à nossa poupança.

Em princípio a tanga é ainda mais fresca que a cueca, permitindo uma ventilação mais eficaz das zonas mais susceptíveis de serem atacadas pela transpiração. Nestes dias de calor, é um verdadeiro suplício colocar qualquer outro vestuário por cima daquelas pecinhas tão agradáveis nestes tórridos tempos de Verão.

Muito bem andou a ministra da agricultura ao suprimir algumas gravatas no seu ministério. No entanto, eu teria ido muito mais longe e determinaria que, no campo, ou na cidade, na rua ou em casa, toda a gente aliviasse a roupa até ao limite da decência, isto é, sem transformar o país num campo de nudistas.

Pois não é à fresquinha que se anda nas praias sem que ninguém se escandalize? Não é com todo o alívio que se dispensam os incómodos calções e camisas nas piscinas públicas ou privadas? Então, está na hora de aliviar o país destes preconceitos que, ainda por cima, significariam um grande corte nas facturas de toda a gente e do próprio estado.

Para começar - lá vai entrar a minha imaginação - parece-me que seria extremamente pedagógico realizar-se um conselho de ministros no centro do Terreiro do Paço, com todos os participantes em traje de ir ao banho. Seria até um bom exemplo daquela inovação que toda a gente espera deste governo.

Corria-se o risco de se juntarem alguns manifestantes reclamando um banhinho no Tejo, ali em frente, recordando os bons velhos tempos da audácia nadadora marcelina. Mas, nada que obrigasse alguém a constipar-se por causa da brisa. Largamente compensadora de todos os riscos, seria a vantagem de ideias arejadas e decisões fresquinhas tomadas sobre o joelho nu.

Depois de tal reunião magna do executivo, nada voltaria a ser como antes. O país jamais voltaria a lamentar as lojas de vestuário que todos os dias fecham. Os lojistas desistiriam de vez do coro de lamentações de que não há dinheiro para compras. Podiam ir para as fábricas exportadoras, onde veriam como se faz o que se vende bem lá fora.

Teria de haver uma reorientação total de todos os ministérios no sentido de se criarem novos hábitos de consumo, obrigando toda a gente, de todo o país, a regular a entrada do sol nos edifícios públicos e privados, de forma a não exagerar no esforço pedido ao astro-rei. É que nem toda a gente se lembra que o sol também desgasta a nossa energia.

Basta recordar que, quando brilha demais, ou por muito tempo, lá vêm dias nublados, ou até de chuva, para corrigir os excessos de consumo. Portanto, é fundamental a regulação das persianas, dos cortinados, dos envidraçados nos tectos, etc. Principalmente, muita atenção àquelas pessoas que abusam dos óculos escuros.

Nem quero imaginar como poderia ser este país, se toda a gente andasse em cuecas durante um verão inteiro. Os corpos bronzeados não seriam exclusivos de uma classe privilegiada que pode ir a banhos e mostrar as cuecas. Que, só por si, representam um motivo de especial interesse, com os olhos sempre a pesquisar o que anda por perto.

E aquele colorido que transformaria as nossas tão tristes ruas e avenidas, ao que dizem da cor da crise, em agradáveis paisagens onde a vista se passeasse sem pensar nesse maldito dinheiro que tudo nos tira, em lugar de tudo nos dar. Por favor, deixem-nos ver cuequinhas rosa, laranja ou amarelas, que a nossa vida muda de imediato.

Imagine-se o que se pouparia em água, sabão, detergentes, máquinas de lavar, de secar e de passar, mão-de-obra e muito mais, se não fosse preciso usar tanta roupa diariamente. As cuecas poderiam ser a salvação do país. Mais, as próprias pessoas não necessitariam de banhos tão demorados devido à menor transpiração. Até no gás…

Não me venham cá dizer que se sujavam mais cuecas, por andarem mais expostas. Admito que sim. Mas isso era mais cueca menos cueca. É preciso ter em conta que também se transpirava menos das mãos.

Senhoras ministras e senhores ministros, mãos à obra depressa, e à cueca, senão acaba-se o Verão. E no Inverno é preciso pensar no sobretudo e na gabardine.