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afonsonunes

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Julgava eu que os países que tinham chanceler não tinham primeiro-ministro. Também já ouvi dizer que a julgar morreu o outro, provavelmente sem nunca ter tido oportunidade de saber o que era uma coisa ou a outra, tal como acontece comigo, que ainda não percebi lá muito bem para que serve qualquer deles.

E então por cá, onde temos o mau hábito de acreditar que tudo o que existe é bom, até ao dia em que as coisas desaparecem por obra e graça de algum iluminado do momento. Ora, neste momento, pensava eu que muita coisa já devia ter desaparecido, segundo uma profecia que me passou em frente de um ouvido que estava mais atento.

Não sabia, nem imaginava, que até podíamos ter um chanceler, apesar de ter alguma lógica a compensação atribuída a alguém que não conseguiu ser primeiro-ministro. Também se pode pôr isto no feminino, atendendo a que temos o bom hábito de não discriminar ninguém, nem positiva nem, muito menos, negativamente.

Eu, ingénuo, é que pensava que nesta era do novo ciclo havia muitos cargos e honrarias que estavam destinados a ir às malvas. Este ingénuo também pensava que, segundo o princípio da utilidade pública, se começaria a cortar por cima da árvore, que é onde os rebentos mais energias consomem, sem dar os correspondentes frutos.

Mas, tudo indica que se vai cortar por baixo, aos milhares, naqueles que trabalham, para que os de cima, os que mandam, tenham cada vez menos trabalho, a mandar trabalhar os poucos que ficarem. Mas, mais inteligente se me afigura que se mantenham todos aqueles que não fazem mesmo nada, mas têm títulos majestosos.

É que eu não posso imaginar um país em que as pessoas não tenham um chanceler às ordens. Até porque toda a gente sabe o que pode pedir a um chanceler, não podendo prescindir do que ele lhe pode dar. Pelo contrário, acho muito justo que não haja chefes nas repartições públicas, nos hospitais, nos quartéis, nos ministérios, na presidência, enfim…

Aqui, sim, nenhum chefe faz falta, porque eles só servem para fazer fretes aos superiores deles e fazer a recolha das colectas que entram pela porta de serviço. Portanto, é muito mais útil um chanceler, que até tem nome estrangeiro para que ninguém julgue que é um verbo-de-encher à portuguesa, ou um chefe com ordem para desaparecer.  

Não, que fique bem claro que é um chanceler às ordens de todos os cidadãos para o que der e vier, até porque se trata de alguém multifacetado, multi-habilitado e multi-disponível, para resolver todas as tarefas e todas as dificuldades que façam a cabeça em água aos preocupados cidadãos deste país difícil de entender.

Depois, só vai para chanceler quem tiver dado provas de que não vai a reboque de ninguém, nem precisa dos amigos que tem para ser melhor que toda a gente. Também não precisa de concursos, de testes, de entrevistas, mas apenas de provas que, uma vez provadas, são indiscutíveis e não passíveis de qualquer reclamação ou contestação.

É este critério, de concepção completamente virgem no nosso sistema de preenchimento de vagas em tudo quanto é sítio, que vai vigorar no futuro imediato, em contraposição ao velho sistema dos amigos, dos cartões e dos presuntos, agora definitivamente enterrado, conforme foi largamente anunciado antes do novo ciclo se iniciar.

E agora, caros concidadãos, os que tiverem unhas é que tocam guitarra. A coisa está mesmo preta para muitos que as não têm. Porém, para compensar, vamos pensando que, se há muitos chefes a mais, se há um chanceler às ordens, talvez se possa prescindir de um chefe no governo.