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afonsonunes

afonsonunes

02 Ago, 2011

Os últimos anos

Usando aquela linguagem típica do jardim da celeste, diria que o desconhecido que descobriu agora as políticas erradas dos últimos anos, andou esses mesmos últimos anos a suspirar pelo momento de poder abrir a boca sem o perigo, julga ele, de entrar aquela mosca que obriga a língua a pavonear-se, agitada pelas cócegas das patinhas e das asinhas a dar a dar.

De todas as políticas erradas desses tais últimos anos, a pior, terá sido, sem dúvida, aquela sagrada união entre os cristãos bons e os cristãos maus que permanentemente se juntaram aos fariseus e aos ateus, no sentido de bloquear o recinto onde todos poderiam rezar as suas orações, como parece que são obrigados a fazer agora.

A cantiga das políticas erradas já é conhecida há muitos anos e tem direitos de autor. E este, que fez a descoberta só agora, bem pode vir a ser responsabilizado pelo seu uso indevido, visto que nem é dele, nem da sua família política, a autoria da tal tirada, que tanto sucesso tem conseguido com a consagrada designação de cassete.

Aliás, todas as políticas são sempre erradas para alguém, portanto, é de uma pretensão sem nome, dizer que nunca mais se repetirão as políticas erradas dos últimos anos. Vamos a ver em breve se não aparecerão outros como ele, a dizer que estas, sim, foram as mais erradas de todas as que já nos impingiram ao longo de muitos e muitos anos.

Não custa ver quais foram as políticas erradas que se resumem, cá e em muitos outros países, no simples facto de se gastar mais do que se tem. E, nesse aspecto, toda a gente tem de aceitar que é preciso mudar de vida. O que não adianta é andar a levantar poeira para iludir a realidade.

E ainda, quanto aos últimos anos, estou a ver as opiniões generalizadas e os discursos inflamados de quem, através deles, condicionou a vida do país e permitiu que as coisas se degradassem como veio a acontecer, sem nunca darem o mínimo contributo para a união de esforços que não se cansam de pedir agora.

Isto não é o jardim da celeste, onde tudo precisa de ser renovado menos o mais velho e relho de todos os que lá existem. Isto não é o país do herói de Massamá, que diz uma coisa e faz exactamente o seu contrário. Isto não pode ser o país onde todos tenham de passar mal, para que meia dúzia de nababos tenham as fortunas a crescer milhões em cada dia que passa.  

Não basta falar a toda a hora nos últimos anos. É preciso dizer quantos são esses últimos anos. É que os meus últimos anos vão para lá da década de noventa e não tenho dúvidas de que os salvadores de agora pensam, ou pelo menos dizem, que foram os últimos seis anos, mais coisa menos coisa.

Por enquanto, essa coisa dos últimos anos ainda vai pegando, porque os enganados ainda agora começam a sentir na pele, a diferença que vai do palavreado do antes, até à realidade do depois, a qual ainda não mostrou mais que nebulosas intenções. É verdade que algumas coisas que dizem estão certas. Mas depois, essas, não as fazem.

Mas, também é verdade, que muitas das coisas que atribuíram aos últimos anos, já caíram por terra como folhas mortas de um Outono cinzento, a que não se seguirá mais que um Inverno gelado de mãos metidas em bolsos vazios, e ainda sem a esperança de uma Primavera reconfortante, ao menos para os olhos e para os ouvidos saturados.

E não nos basta o consolo de nos sentirmos os salvadores da pátria, só porque salvamos os nossos opressores, que são todos aqueles que, nesta conjuntura, não dão um cêntimo de seu para salvar o país, exigindo que sejamos apenas nós, e só nós, a salvá-los a eles, porque o país são eles, e apenas eles.

É que a gente cansa de ver e ouvir sempre a mesma coisa de há muitos, muitos anos a esta parte. Não me venham só com os últimos, porque eles, os únicos sábios, também não serão os últimos e, quem sabe, se não estarão entre os primeiros. Para quê, não sei bem ainda.