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afonsonunes

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A política tem ideias extraordinárias que se destinam a serenar os espíritos mais reactivos após as mudanças de governos. Como se do governo que lá vai, estivesse tudo dito, e do próximo, só se pudesse falar, quando já não valesse a pena dizer nada. Na verdade, sempre se sobrepõe a paixão à racionalidade.

O estado de graça é parente do benefício da dúvida, pois ambos os estados de alma dos eleitores se verificam no início de cada mandato. Os que ganham o poder aproveitam para dar largas ao seu contentamento nesse período, enquanto os que o perderam aproveitam para se refazer do choque sempre difícil, ao passar para a mó de baixo.

O primeiro governo de Sócrates deve ter batido todos os recordes de estado de graça, enquanto o segundo não resistiu a mais de cerca de metade da sua duração normal. Este governo de Passos, agora com cerca de um mês, parece já estar a perder a graça e a ouvir a consolação possível do benefício da dúvida.

Estas diferenças visíveis talvez queiram dizer alguma coisa a quem for capaz de fazer uma retrospectiva isenta de paixões exacerbadas, que não vale a pena fazer neste momento. Precisamente, porque muita poeira ainda não assentou, mas vai assentar, pois nem todas as paixões conseguem sobreviver às leis do tempo.

A verdade é que nós, portugueses, andamos há demasiado tempo a dar o benefício da dúvida a governantes e políticos que, de ciclo em ciclo, nada mais nos deixam que uma desilusão profunda de que as dúvidas nunca se esclarecem e os benefícios sempre se esfumam, deixando no seu lugar os habituais prejuízos que não param de se amontoar.

Já nem vale a pena culpar este ou aquele, melhor, estes, aqueles ou os outros, por tudo o que temos de pagar daqui em diante, porque também não podíamos excluir as culpas de todos, aquelas que cabem ao povo em geral e, particularmente, aos muitos mentores abalizados que têm a pretensão e o proveito de orientar a opinião que faz lei nesta balbúrdia.

Seria um erro que pagaríamos muito caro, se os actuais governantes e os seus mais acérrimos seguidores e defensores pensassem que não lhes cabe responsabilidade nenhuma pelo passado do país e pelo estado em que o encontraram agora. Basta que olhem à sua volta, que meditem no que fizeram e disseram ao longo dos anos e terão aí a resposta.   

Não basta dizer que acabaram de ganhar eleições e que, por isso, têm a confiança do povo, para todas as medidas que vão tomando. Convém não esquecer que substituíram um governo que também havia ganho eleições, mas que não o deixaram completar o mandato que esse mesmo povo lhe tinha dado.

Não basta dizer que o povo é bestial quando elege uns e é uma besta irracional quando depois os deita abaixo. O povo nem sempre é sábio, mas também não é tão estúpido como por vezes o querem fazer. O povo tem culpas porque tem os seus interesses, composto como é por cidadãos que, normalmente, põem os seus interesses individuais, acima dos colectivos.   

O povo tem dentro de si muitos cidadãos egoístas que impedem, em muitas circunstâncias, a existência de uma sociedade mais justa e livre. Mas, que ninguém se esqueça de que é o povo que manda, sempre que é chamado a decidir. E ninguém está livre de ser apanhado e multado numa curva perigosa da estrada, quando mais tranquilo se julga.

À cautela, nunca será demais pensar na hipótese de um percalço de percurso, que mais não seja aquele contratempo que advém do facto de, como diz o povo, não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. No caso presente, não estás livre de que te façam a ti, aquilo que fizeste aos outros.

É evidente que isto não é uma profecia, nem sequer um desejo. Mas, é uma hipótese, que não quebra, por si só, o estado de graça, nem retira o benefício da dúvida.