Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

16 Ago, 2011

Misericórdia! ...

Ainda não será este o grito do momento, mas há indícios de que não faltarão já, pedidos de compaixão feitos em surdina, não propriamente por quem vive mesmo miseravelmente, como sempre viveu, mas por gente que já viveu bem, ou muito bem, e agora se vê numa situação mais ou menos aflitiva.

Entre estes, e aqueles que ainda pedem esmola na rua, mais ou menos ruidosamente, sentados junto a portas muito movimentadas, há uma diferença assistencial que choca. Os pedintes de rua, por mais que tentem obter a comiseração de quem passa, não são ouvidos, nem sequer vistos, por quem tanto diz estar atento à pobreza.

Os que constituem a chamada pobreza envergonhada obtêm com alguma facilidade o apoio assistencial de entidades como as câmaras municipais e as misericórdias. Os que pedem na rua são ignorados, sem que ninguém, polícia incluída, se dê ao trabalho de verificar se são, ou não, casos de urgente atenção e auxílio.

Se isto não é um caso de comiseração pela desgraça alheia, não compreendo o estado que tanto diz voltar-se cada vez mais para as instituições de solidariedade social, nomeadamente, as misericórdias, todas elas recebendo recursos significativos para exercer essa função assistencial, com a responsabilidade moral de a executarem bem.

Do vocabulário corrente dessas instituições constam palavras como compaixão, piedade ou caridade, mas também, não raras vezes, se verificam termos como negócios ou discriminação na admissão dos seus assistidos, principalmente, no tratamento e alimentação de idosos, relativamente ao que podem pagar para estar ali.

Associa-se muito as misericórdias a instituições de caridade e esta, a uma acção religiosa onde predomina o tratamento com base no amor e na fraternidade. Talvez porque a igreja e as religiosas foram o seu suporte durante muitos anos. Hoje, na sua grande maioria, encontramos ali, gente assalariada, por curtos períodos, sem qualquer formação específica.

Com as coisas a rumarem neste sentido, eu e muitos cidadãos, a maioria dos cidadãos, teremos à nossa espera, num futuro próximo, uma santa casa da misericórdia que nos acolherá quando precisarmos daqueles cuidados que até agora nos eram prestados nos hospitais da rede pública a que tínhamos direito, sem discriminações.

Misericórdia! … Este é também o meu grito quando vejo o espectáculo da Quarteira, a que outros se seguirão, em que tanto se fala de contenção e de sacrifícios e depois o que se vê ali em frente dos olhos, é esbanjamento, ostentação e uma ofensa sem nome à pobreza e à substituição dos meios dignos de vida, por meios de institucionalização da pobreza.

Dirão que tudo isto faz falta à democracia. Pois eu diria que a democracia não é nada disto. A democracia aproxima, não separa. Se é preciso cortar, tem de se começar por cortar os excessos destes democratas que têm origem no assalto aos bolsos dos contribuintes obrigados a contribuir mesmo para sustentar indignidades alheias.

Indignidades que continuam a servir de desculpas indignas de quem as oculta e omite, para seu benefício. Indignidade de quem tolera e protege o que se faz na Madeira. Indignidade de quem não quer falar dos indignos que roubaram o BPN. Indignidade quando nos pedem coisas brutais ou colossais que nunca foram capazes de dar a ninguém.

Misericórdia! … Volto a levantar a minha indignação pelo que se passa no submundo do futebol, devidamente evidenciado logo na primeira jornada da liga. Ninguém põe cobro aos desmandos de uma trupe de ‘apitadores’ e seus maestros que tudo subvertem aos olhos de toda a gente que não tem óculos demasiado coloridos.

Misericórdia! … É o suspiro que este povo resignado espera de muitos dos seus algozes, ao longo de muitos anos. Mas agora, com redobrada esperança de que haja mesmo misericórdia muito especial para a sua sobrevivência. Senão, só lhes resta solicitar, de joelhos e com toda a humildade, que lhes seja concedido o golpe de misericórdia.