Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

 

Duas da manhã, ei, aí vou eu de avião em classe micro turística, para dar uma forcinha especial, neste momento de especial fraqueza para os portugueses, mas que eu, com esta viagem super económica e com todo o meu esforço, saberei transformá-la no estímulo que o país precisa para que os meus amigos recuperem tudo o que bem merecem. Bonito!...

Sim, eu disse os meus amigos, leram muito bem, pois se eu quisesse tinha dito os portugueses. Porém, isso não corresponderia à verdade e, como muito bem sabem, faltar à verdade não é comigo, nem com os meus amigos, mas com os outros, que ainda estão bem frescos nas vossas memórias e nas nossas, claro.

Esta viagem de ida e volta à Colômbia não é uma pêra doce, até porque ela pretende fazer esquecer as poucas-vergonhas que se estão a passar em torno do futebol, por causa das desconfianças injustificadas de quem só pretende criar confusões para ver se começam a ganhar os que normalmente perdem e se começam a perder os que normalmente ganham. 

Que ninguém tenha ilusões de que eu vou dar a volta a isto. Todos os portugueses podem estar certos de que, comigo, quem tem ganho vai continuar a ganhar e quem até aqui tem perdido, vai continuar a perder. Isto não é uma promessa para não cumprir. Isto é uma garantia de quem tem a certeza de que novidades, novidades, só a minha palavra.

Foi precisamente por isso que eu fiz o grande sacrifício de vir à Colômbia. Foi para garantir que os jovens portugueses vão continuar a não sofrer golos, mas passem também a cortar a direito por entre os defensores brasileiros que até têm fama de coxos. Mas, sobretudo, para que os jovens portugueses saibam que comigo presente, vão ganhar tudo, sempre.

Claro está que a partir das duas da manhã de sábado, dia em que em Portugal se vai deixar de influenciar os resultados, toda a gente só vai pensar que eu estou na Colômbia para salvar Portugal e os portugueses de uma onda de injustificadas ofensas à honra de quem ajuda a ganhar jogos que têm obrigatoriamente de ser ganhos.

Comigo é assim. Que ninguém me venha cá dizer quem é que deve ganhar e quem é que deve perder. Isso são ossos do meu ofício, ou não estivesse eu habituado a lidar com touros de duzentos quilos, em touradas reais, transmitidas em directo pela televisão que, finalmente, vou leiloar dentro de pouco tempo.

Bastaria o facto de eu ter vindo à Colômbia elevar a moral desta rapaziada que se habituou a não marcar, mas também a não sofrer, para que sinta a felicidade de me considerar o maior conquistador de prestígio para o nosso país, tão caluniado até há dois meses atrás, mas no auge do prestígio desde há um mês, e nos píncaros do futebol desde as duas da madrugada.

À hora a que escrevo estas linhas ainda não sei se a minha viagem de regresso se fará com a comitiva, como porta-bandeira nacional, ou se me esconderei no porão de um avião de carga, para não onerar demasiado a deslocação. Não admito a segunda hipótese, porque sou e serei sempre um vencedor logo, não admito que o futebol tenha contingências estranhas.

Pois é!… Desta vez é melhor meter a língua no saco e vir mesmo no porão do avião de carga para fugir aos jornalistas que irão com certeza perguntar-me o que vim eu aqui fazer. Estava tudo a correr tão bem. Fico a pensar se não teria sido eu a dar aquela dose de azar, através da minha exibição oral após a chegada à Colômbia, de que a selecção não precisava nada.

Já tenho a experiência de acontecimentos anteriores em que a euforia de antes é proporcional à decepção de depois. Mas insisto em cometer a mesma burrice, como se não fosse preferível fazer a festa depois de os êxitos estarem confirmados. Sei que não sou só eu a dar estes tristes espectáculos, mas eu devia preocupar-me apenas comigo.   

Do mal, o menos. A selecção portou-se bem, apesar de levar três de uma só vez. Mas também marcou dois, o que não era muito normal. Quanto a mim, gastei pouco nas viagens, falei de mais à chegada, mas não falei à partida. Achei que, nestas circunstâncias, o protagonismo devia ser dado aos intervenientes no acontecimento.

Só tive pena de não ter ficado em Lisboa e ir depois à chegada ao aeroporto dar a todos esses protagonistas um abraço de consolação. Mas, a viagem à Colômbia, que eu não conhecia, foi uma tentação irresistível. Que fique claro, que a viagem de regresso, no porão, foi de borla.