Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

11 Out, 2008

Vaquinhas em fila

 

Foi uma descrição ternurenta, aquela que o presidente nos ofereceu, depois de breve visita a uma exploração leiteira no norte, a propósito de chamar a atenção do país para alguns casos de sucesso de jovens que não passam a vida a lamentar-se, preferindo beber um bom copo de leite e mostrar aos mais velhos como se faz.
A cena escolhida para mostrar o seu entusiasmo foi a ordenha mecânica, salientando o modo como as vaquinhas, em ordenada e tranquila fila, se dirigiram para a sala de ordenha, onde se detinham sete ou oito minutos, em perfeito ritual disciplinado, deixando escorrer o leite com toda a normalidade, após o que saíam com igual ordem e tranquilidade. A esta descrição falta a ternura da exactidão das palavras.
Mas, o que não faltou ali, foi o leite. O leite derramado com prazer. O leite que vai dar de mamar ao país, mesmo àquele país que não conhece as vaquinhas, nem as filas de espera para o dar, nem a ordenha manual ou mecânica, mas conhece perfeitamente o pacote de litro, que devia ser de borla, no seu douto entender.
Lá longe, no meio do mar, a doutora do leite, desta vez não consultou o presidente sobre o que devia dizer. Vai daí, no seu aparente insucesso, não falou do leite dos Açores, nem da ordenha das vaquinhas, provavelmente porque teve medo de estragar a qualidade do leite, ou talvez tenha tido medo, do medo das vaquinhas açoreanas. Vai daí, falou do medo que outros lhe metem, e que ela sente, e que ela receia, e que ela tem medo que não consiga chegar ao pacotinho de leite do seu pequeno almoço.
No norte do país apareceu um leite extraordinário, um leite que faz crescer física e mentalmente aquela juventude que constrói e arrisca, com o pensamento posto em todos os que apostam num pequeno almoço regular e saudável, para todos aqueles que gostam de bom leite.
Nos Açores, andou leite em promoção, leite comum a preço de saldo, leite que deprime mais do que estimula, pensando talvez em lautos jantares onde o leite só aparecerá disfarçado nas doçarias da sobremesa.
Afinal, se é necessário conhecer a opinião do presidente sobre o que vai lá pelo longínquo leste europeu, porque raio não se poderá ouvir também, sobre os pressupostos que levam à escolha do melhor leite para o pessoal?
E dizem por aí que o presidente gosta tanto de leite, como leite gosta do presidente. Só que nem sempre parece.