Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

Há que tempos que ando a ouvir falar de um estado gordo e vejo quase diariamente um ataque sistemático à suposta gordura dos cidadãos que trabalham, situados nas tão faladas classes médias, umas mais altas outras mais baixas mas, todas elas, muito abaixo das gorduras que nunca mais alguém vê atacar.

Temos realmente um estado gordo, mas não cabe na cabeça de ninguém com a massa cinzenta na sua coloração normal, pensar que a gordura do estado se reduz, deixando os cidadãos que trabalham para o estado com o seu físico reduzido a pele e osso, simplesmente porque são mandados para casa sem qualquer meio de se alimentar.

Em boa verdade, assim, é fácil e cómodo o estado vangloriar-se de que está a fazer o maior corte da despesa histórica dos últimos cinquenta anos, ou, numa segunda versão, o maior corte histórico da sua despesa. E, tudo isto é dito como se fosse o estado que estivesse a fazer um esforço colossal para conseguir emagrecer, e não os cidadãos cada vez mais magros.

Já não consigo perceber se o ministro quis realçar a despesa histórica, o corte histórico ou uma disfunção gramatical, mas percebo perfeitamente que as verdadeiras obesidades neste estado a arrastar-se em completa organização disfuncional, continuam a ser alimentadas com a tradicional e velhinha extravagância.

Portanto, o estado, como sempre o tem feito ao longo de décadas, continua a assobiar para o lado, quando não para trás, como se tudo tivesse sido culpa de outros, limitando-se a prometer o que esses outros já nos haviam prometido, quantas vezes promessas falhadas por culpa dos que agora prometem acabar com aquilo que criaram ou ajudaram a criar.

Na altura de começar a actividade governamental, até há coisas muito interessantes que gostamos de ouvir, caso do emagrecimento do estado, caso da criação de condições para que tenhamos um país com mais e melhor justiça, mais e melhor educação, mais e melhor estado social, com uma mais justa distribuição de riqueza.

Porém, o tempo vai-se encarregando de mostrar como tudo isso são ilusões que passam como fugazes sonhos de uma noite que se segue a um dia de intenso cansaço, em que o corpo cai na cama e fica imóvel até ao nascer do sol. Mas, com ele, nesse acordar de volta à realidade, depressa nos sentimos nos tentáculos da vida que sempre tivemos.

Lá vamos nós para os braços de quem nos retira todas as probabilidades de criar uma pequenina reserva de gordura, porque ela não é compatível com a manutenção das obesidades do estado e dos seus obesos sustentáculos. Que sempre nos dizem que vão ser reduzidas, mas que, na realidade, vemos sempre a aumentar.

Reduzem-se, sim, os que servem para ajudar os contribuintes a ter a vida facilitada, porque até parece que o estado só pode emagrecer cortando nos que fazem falta, nos que vão engrossar as listas do desemprego ou o rol de reformados com idade de ainda terem muito para dar ao serviço público. Tudo se faz para distribuir pobreza em lugar de riqueza.

As anafadas barrigas dos anafados gestores, altos dirigentes e representantes do estado não são consideradas gorduras do estado, embora se saiba que elas constituem a origem do estado de sítio a que isto chegou. Há décadas que se conhecem os monstros que existem na sociedade e as monstruosidades que ocasionam.

Quando se descobre que algum dos obesos se abotoou com uns milhões, que gastaram à margem e ao arrepio do estado, logo o estado nos vai, pressuroso, meter a mão nos bolsos para que o estado fique com as continhas em ordem. Sim, porque nós somos uma espécie de banco do estado, onde o estado vai levantar o que precisa.

Logo, as gorduras do estado são sempre repostas pelas energias, mesmo que em estado muito débil, dos esgotados cidadãos, em lugar de se procurarem fontes de armazenamento ilícito que proliferam com conhecimento de quem tem a obrigação de lhes seguir o rastro e fazê-las entrar no circuito que as leis determinam.

Parece que a euforia da mudança da incompetência para a suprema competência se vai diluindo em cada dia em que ouvimos um governante. Parece que os foguetes da festa já estoiraram todos, alguns deles nas mãos dos que mais deitaram. É sempre assim. Quem muito brinca com o fogo, acaba por se ir queimando.

Já nos tiraram todas as gorduras que deviam ter sido tiradas de outras barrigas. Agora só nos resta esperar que, como diz o povo, nos limpem o sarampo.