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afonsonunes

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Começo por esclarecer que a mim não me faz falta nenhuma, do mesmo modo que não me faz falta nenhum outro político, de nenhum outro partido. Isto, na medida em que não tenho nada que me afaste ou aproxime de qualquer um, tal como a minha vida em nada é afectada por causa de simpatias ou antipatias nesse campo.

Contudo, faz-me muita falta, como a qualquer cidadão, ter um governo e ter governantes que assegurem a vida normal do país, sem a qual isto não passaria de uma bagunça danada. Portanto, temos de ter um governo. O que acontece é que em lugar de bons governos e de boas oposições, temos tido aquilo que os seus resultados demonstram.

Para não variar, a tendência é para a continuidade, senão para o agravamento, à medida que o actual governo vá sendo obrigado a assumir como seu, o bom ou mau desempenho da governação. Porque, quer se queira, quer não, Sócrates vai saindo de cena, de todas as cenas em que, justa ou injustamente, lhe assacam todas as responsabilidades.

Com verdade ou sem ela, como sempre aconteceu com todos os governantes, a quem fica compete olhar para a frente, sem passar os dias a lamuriar-se de heranças e a inventar desculpas para tentar minimizar as suas incapacidades para resolver problemas antigos, já que sem esses resolvidos, os actuais ficarão sempre na gaveta.

É, pois, de esperar, que Sócrates vá fazer muita falta a muita gente que, ou está convencida, ou insiste em enganar-se a si própria, de que esta conjuntura é fruto de erros de uma só pessoa, nos anos em que essa pessoa esteve no poder. Num país, quando as coisas correm mal, há sempre muita gente que não fez o que devia.

Sócrates vai fazer falta a toda essa gente. Enquanto alguém puder agora desculpar-se com ele, vai aliviando as costas. Mas o tempo é implacável, por vezes cruel, ao não pactuar com arranjinhos de ocasião, ou deixar que o esquecimento enterre os factos que já não resolvem os problemas do futuro, por mais que se pretendam manter na agenda mediática.

Há cerca de uma dúzia de anos que Sócrates anda nas bocas do mundo. Essas bocas também vão sentir muito a falta dele, já que não conseguem eleger um substituto entre muitos que bem mereciam tirar-lhe esse lugar de relevo. Substituto que até estaria bem mais próximo das relações dos que não podem passar sem alimentar a sua abundante e fértil imaginação. 

Não adianta que nos venham agora com ‘futuros recentes’ ou passados actuais, porque tudo isso são sinais de que anda muita instabilidade nas cabecinhas que tinham obrigação de se manter bem frescas e aptas a reagir aos grandes desvios internos, evitando sempre acontecimentos colossais que queiram fazer crer que são desvios de fora.

Nesse sentido atrevo-me a sugerir que se evite o uso exagerado do slogan ‘permite poupar’ pela afirmação de que se ‘vai recuperar’ e ‘tapar os buracos’, com o que anda por tantos bolsos cheios do dia para a noite, de gente intocável do BPN e o que se esconde na Madeira, para que se tirem, pelo menos esses pecados, dos ombros de Sócrates.

A Sócrates o que é de Sócrates e a Coelho o que é de Coelho. Até agora, parece que há ainda a tentação de se querer perpetuar o primeiro numa toca de que já saiu, enquanto o segundo tudo faz para que não vejam nele o senhor dos Passos perdidos. Até há quem diga que lhe parece ver neles uma certa semelhança.

Isso, porém, não é motivo para que Coelho mude de toca, para demonstrar que Sócrates tem mesmo de continuar a fazer muita falta na toca que já não é dele.