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afonsonunes

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Este governo liderado por Passos Coelho nasceu com o rótulo de personalidades classificadas de muito competentes em áreas técnicas de cada ministério, facto que fez com que as pessoas mais inclinadas a conceder o benefício da dúvida, criassem expectativas mais que benevolentes acerca do futuro do país e do próprio governo.

A expressão, governo de legislatura, tem enchido a boca dos seus membros e dos seus fãs, naturalmente, mas também de muita gente que acredita piamente que qualquer mudança conduz sempre a uma melhoria da situação existente. Sabemos que nem sempre assim é. Logicamente, nesse caso, lá se pode ir o governo de legislatura.    

Porém, este governo tem as costas suficientemente quentes com a presença constante da troika, para usar do poder de uma maioria que, em outras circunstâncias, nunca poderia tomar determinadas decisões sem que houvesse mesmo aqueles acontecimentos que já começam a temer, embora falem neles em jeito de conselhos ou avisos aos cidadãos.

O reconhecimento de que a situação é muito complicada, é um travão aos ímpetos mais exaltados, tal como o é, o comprometimento do maior partido da oposição nas dolorosas medidas acordadas. Mal será se essas medidas extravasarem para o campo do aproveitamento da situação, por parte do governo, para impor princípios que lá não estão.

Ter as costas quentes é uma coisa que dá muito jeito em situações difíceis e bem sabemos como este governo as tem a escaldar, até no plano interno, em que pode contar, como tem sido evidente, com o apoio, a complacência e quase sempre com o silêncio comprometedor de quem lhe podia causar dificuldades várias, como aconteceu com o governo anterior.

Obviamente, ter as costas quentes não dá apenas para se fazer o que se não deve. Também serve para tomar decisões necessárias e mal recebidas que muito dificilmente poderiam ser tomadas com as costas a descoberto. Algumas já estão anunciadas e com as quais concordará facilmente quem quiser ver um país mais eficiente e mais organizado.

Há, pois, alguns sinais positivos no calcanhar de Aquiles da governação, principalmente, onde o corporativismo e a falta de seriedade de muitos profissionais têm levado o estado à exaustão de recursos que fogem do verdadeiro destino que lhes competia, para os bolsos de tantos egoístas que só vêem o seu próprio umbigo.

Para que o governo possa lutar com tantos e tão poderosos inimigos da causa comum é mesmo preciso ter as costas bem quentes. Sem a troika não teria com certeza. Talvez por isso, a antiga obsessão de defender a sua vinda, mesmo quando ainda não era líquido que fosse esse o melhor caminho a percorrer. Daí que tanto o tenham forçado.

Mas, continua válida a possibilidade de que se podia ter feito esta união forçada, sem qualquer troika, mas isso foi chão que deu uvas. A sede de poder tudo suplanta e tudo suplantou. Vamos lá ver se as costas quentes conseguem superar todas as sedes que, previsivelmente, vão continuar a levantar a cabeça por cima do calor das ideias.

Já se fala muito em tumultos, em contestações e suas consequências. O problema é que tudo isso só será possível se o governo não tiver o bom senso de se lembrar que tem de ser justo com os cidadãos todos e não apenas querer proteger alguns com a caridadezinha das migalhas, relegando-os para a sopinha das misericórdias.

O governo tem as costas suficientemente quentes para que todos os ministérios entrem com a determinação do da Saúde e do da Administração Interna, por exemplo, nas medidas que já foram anunciadas, mas nunca poderá ficar atacado de paralisia no ministério da Justiça, da Defesa ou daquele que tutela o desporto. Outros têm de acabar com o sono que nos dão.

O ministério da Segurança Social, por seu turno, parece já ter começado a tirar o sono a muita gente, sendo talvez aquele que fornece indícios de maior calor nas costas, como se tivesse um cobertor felpudo, daqueles que se compram em pleno Inverno em qualquer feira de renome por esse país gelado.

Também está evidente que o governo tem de usar o calor que tem nas costas para mexer mais e falar menos no ministério da Educação e no da Agricultura. Dos outros ainda não ouvi falar, talvez porque estejam a gozar as merecidas férias de Verão. Pode ser que entrem agora cheios de força e de energia solar da praia, acumuladas nas costas dos seus responsáveis.

Se todo o governo não aproveita agora a ocasião em que tem as costas quentes, mal deles, pois podem ir para a reforma, apesar de serem ainda muito novos. Mas mal de nós também, que somos bem capazes de ficar sem trabalho e sem reformas. E com as costas geladas.