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afonsonunes

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12 Set, 2011

Olá, prima Balbina

Espero que não me leves a mal mas hoje tive de me virar para ti. Estou mesmo sem vontade de me dirigir aos do costume, talvez porque eles também não se dirigem a mim. Acho isso perfeitamente normal. Do modo como as coisas estão, não vale a pena andar a gastar o nosso latim com quem só sabe expressar-se em burrês.

Daí, querida prima Balbina, que me tenha subido cá uma coisa pela espinha acima e tenha decidido que só tu podes apaziguar este meu estado de sítio mental. Claro que isto não tem nada a ver com o estado que nos come as magrezas, nem com o sítio onde ele nos coça, sem que tenhamos comichão, nem tão pouco com a mente de quem só nos mente.

Já reparaste com certeza, ou não tivesses tu um olhinho de primeira, que a gente já não tem um metro quadrado para estar sossegado. Estamos piores que as crianças nas salas onde os pais as metem a troco de um balúrdio mensal. Sim, porque elas têm mesmo, por lei, um metro quadrado para chatear quem toma conta delas.

O nosso metro quadrado, mesmo que fosse só nosso, ficava muito mais reduzido, pois a nossa barriga ocupa-o quase todo. Quando digo a nossa barriga, não estou a falar da tua, prima Balbina, pois está-se mesmo a ver que és bastante elegante e, que se note e que eu saiba, também não estás grávida, pois não?

Só me faltava que tu estivesses de barriga cheia e não dissesses nada cá ao teu primo, pois bem basta que ninguém do governo me passe cartão quando estou de barriga vazia. Aliás, é para isso que eu tenho uma grande, uma enorme estima por ti, e não tenho a mais pequena vontade de sorrir quando oiço ou vejo os do governo a piscarem-me o olho maroto.

Diz-me cá, querida prima Balbina, tu já foste capaz de fixar o teu olhar penetrante em algum daqueles ministros que mais aparecem nas televisões? Agora me lembro, há dias confessaste-me que te tinha dado uma enxaqueca quando estavas a ouvir as medidas de cortes, que tu julgavas que eram medidas de corte e costura.

Não é por nada, prima Balbina, mas convém teres em atenção que, se tentas penetrá-los profundamente com o teu olhar, tens de estar de pé atrás, porque a especialidade deles é penetrarem com agilidade extrema nos bolsos, mesmo nos de quem nem sequer vira os olhos para o lado onde sabe que eles estão.

É evidente que eu não quero assustar-te, até porque sei que és uma prima como deve ser. Não faltaram já ocasiões em que eu vi que um sorriso teu, um sorriso daqueles que te faz torcer o nariz de uma orelha para a outra, pondo os brincos a tilintar, logo os fazes pensar que vai sair tumulto de pobreza para as ruas.

E aí, quem começa a tremer são eles e o que se ouve tilintar lá ao longe são campainhas de alarme que se tornam muito ruidosas à medida que se aproximam. No entanto, evita chamar-lhes aqueles nomes feios, do género de mentirosos e ladrões, visto que, mais que tu e que eu, eles sabem perfeitamente o que isso é.

Olha, prima, como sabes, há quem passe a vida a roubar e a viver de expedientes. Depois, para disfarçar, ou encobrir essas actividades, armam em sérios e desatam a chamar mentirosos e ladrões a quem lhes não caiu em simpatia, que é como quem diz, a quem não lhes quis estender a mão.

Agora aqui entre nós, prima Balbina. Já tenho reparado que no calor da dialéctica também deixas escapar uns piropos, por exemplo, contra o despedido Sócrates. Sim, sabes muito bem os nomes que lhe chamas. Sabendo eu que tu não tens fontes seguras sobre a matéria, fico a pensar que vais no embrulho de falar sobre o que não sabes.

Como também sei que tu não és aquilo que lhe chamas, ao contrário de outras pessoas, estranho que não chames esses nomes a quem a justiça já identificou e há muito que anda a enrolar, embora estejam em causa verbas astronómicas que, ainda por cima, pagas e não bufas, atirando o ódio para o sítio errado.

Olha, prima Balbina, não sou advogado de defesa de ninguém, mas também não sou de calar em relação a tudo aquilo que me querem impingir. Sabes porquê, prima? Porque penso pela minha cabeça. E na minha cabeça não cabe aquele mau hábito de emprenhar pelos ouvidos. Além disso, penso também que emprenhar, ainda não é coisa de homens.      

E, quanto às mulheres, prima Balbina, têm essa nobre função genética, mas não é pelos ouvidos. Embora isto possa parecer sermão, sabes bem que não sou padre. Beijos, prima.