Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

12 Out, 2008

Fundos no fundo

 

 
É muito importante ter dinheiro, que o digam os guerreiros das bolsas e os combatentes dos negócios, que não param um momento em prol das guerras permanentes que lhes bombardeiam a mona com projécteis que vão do simples cêntimo, vezes não sei quantos, até aos milhares de milhões que resultam de somas astronómicas que lhes bloqueiam a capacidade de contar pelos dedos.
Mas, sem dinheiro, é a incapacidade de pensar como arranjá-lo, que desbloqueia a tentação de declarar guerra aberta a tudo o que possa ser agarrado sem ter que pensar em como consegui-lo. É aqui que entra novamente quem tem dinheiro, vítima abastada de quem não tem nada, antes da transferência dos fundos movimentados sem autorização do titular sacado. Há quem lhe chame roubo.
Sem que nada o fizesse suspeitar, surgiu inesperadamente um sacador muito mais eficaz e volumoso que o vulgar salta muros ou arromba portas, fazendo diminuir por artes mágicas, as nossas bem intencionadas poupanças com vista ao futuro, entregues a muito custo, durante anos a fio, como garantia de uma reforma menos penosa. É assim que, neste momento, quem estava a pensar que poderia, mais tarde, comer um bifinho semanalmente, daqui a uns anitos, vai ter de se contentar com uma sardinha, se nessa altura ainda houver subsídio para as pescar.
Toda esta nossa previsível condenação, se deve à abominável gula de papa fundos incontroláveis, cuja ambição não cabia nos limites da sua imaginação, supondo-se que já teriam ao seu serviço uns tantos lunáticos que, imperceptivelmente, estariam a transferir biliões de triliões, para o espaço, a fim de os depositarem na Lua e em Marte, onde os julgariam mais seguros que neste planeta terráqueo, infestado de pigmeus irracionais.
Os nossos fundos estão a descer vertiginosamente a cada dia que passa, e nós vamos esticando o pescoço para o abismo, tentando alcançar com a vista, o ambiente que está para lá dele. Por enquanto não vemos nada, nem tão pouco descortinamos o que dizem as vozes que se ouvem em surdina na direcção do poço que parece não ter fundo.
Mas, há quem diga que sim, que o poço tem fundo, e que os nossos fundos já lá bateram. Sendo assim, dirão os optimistas com um sorriso amarelo, que já podemos estar tranquilos, porque já não podem descer mais. Bateram no fundo.
Porém, os realistas dirão que gostariam mais de ouvir quem vai lá, ao fundo, resgatar os fundos que outros deixaram resvalar pelo abismo que parece intransponível, mas estão certos de que não serão os pigmeus irracionais que arriscarão a pele para salvar o que destruíram. Nem tão pouco serão os lunáticos, os nossos salvadores.
É por isso que, no fundo, somos todos nós que estamos a mergulhar lentamente nas águas turvas, onde ninguém pode garantir-nos que ainda encontraremos lá os nossos fundos.