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afonsonunes

afonsonunes

22 Set, 2011

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Quando vejo ou oiço alguém a falar muito alto, logo me vem à ideia que deve tratar-se de pessoa que, para lá de ser surdo, deve estar a tentar disfarçar a razão que não tem. Quem ouve mal, também não se ouve a si próprio. Quem não tem razão, grita por todos os lados, convicto de que, assim, convence melhor quem o ouve.

Mas, pior que esses, são todos aqueles que se expressam, oralmente ou por escrito, com aquela linguagem chamada de carroceiro. Não peço desculpa aos carroceiros que conduziam carroças, porque já não existem. Mas, ficaram cá, os tais sujeitos que têm sempre a boca cheia de coisas que só os pobres animais podiam ouvir sem dar resposta.

Em parte, hoje já nos habituamos a eles e às suas coisas sujas, mal cheirosas e impróprias, fazendo o possível por passar com os olhos ou os ouvidos quanto possível ao lado e, se for preciso, tapando o nariz com dois dedos bem apertados. Embora isso não nos impeça totalmente de sentir a sua porca presença, proporciona algum alívio.

É evidente que há sempre um trauma qualquer, ou outra coisa parecida com isso, que justifica esses procedimentos. São os típicos casos da cegueira política ou da cegueira futebolística. A coisa duplica se ambas as cegueiras se acumularem no mesmo sujeito, ganhando foros de uma doença múltipla de características altamente preocupantes.

Não é difícil observarmos fenómenos destes na rua, por vezes em pessoas falando sozinhas, talvez porque já deixaram de ter alguém que queira ouvi-las. Mas, se passarmos os olhos pela informação escrita, na parte em que os leitores têm acesso por qualquer forma a expressar as suas opiniões, há quem não prescinda de julgar os outros, pelo que tem dentro de si próprio.    

Para essas estranhas individualidades o mundo devia ter como bíblia, o seu próprio pensamento. Em futebol, só devia haver um clube. O seu. Esquecem-se que, depois, não tinham com quem jogar. Não tinham a quem ganhar. Não tinham a quem insultar. Não tinham com quem desopilar para limpar sua mente repleta de teias de aranha.

O mesmo se passa no mundo da política. Só devia existir um partido. O deles. Esquecem-se que, depois, não haveria incompetentes, não podiam sequer pensar em imbecis, não encontrariam quem mamasse a vida inteira do orçamento, nem podiam perder tempo a inventar nomes que, certamente, teriam de guardar, por ficarem muito bem em si próprios.    

Para quem só vê o paraíso do seu partido ou do seu clube, faria bem em ocupar-se exclusivamente a enaltecê-los, contar os seus feitos, as suas virtudes. Porque, ao pretender e tentar falar do inferno dos outros, tudo sairá confuso e disforme, com imagens do seu paraíso sobrepostas às imagens do inferno dos outros.

Por mais esforços que faça para tentar ver com um olho para cada lado, mesmo que mobilize binóculos, óculos, lentes ou monóculos, incolores ou coloridos, nada corrigirá a partidarite ou clubite agudas, de que padece, talvez desde pequenino, talvez com o perigoso risco de se tornar irremediavelmente incurável.

Hoje tudo tem cura. A ciência está maravilhosamente desenvolvida e nós temos dos melhores médicos do mundo, até na especialidade da visão. Com um pouco de atenção e cuidado, dificilmente se chegará à cegueira. Não há nada como poder ver tudo a olho nu.