Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

24 Set, 2011

Cromos

De há uns tempos para cá ando obcecado com a ideia de que tenho de arranjar uma maneira de ganhar algum para tapar os meus próprios buracos que, no entanto, são buracos decentes que nada têm a ver com os indecorosos buracos modernos de que vou tendo conhecimento a conta gotas, mas onde as contas são rios de milhões.

A minha ideia anda à volta de um negócio que me parece ter todas as condições para convencer os que entram com o pilim, ao comprar o meu produto, ou não estivessem nesse mercado, personalidades que já provaram que foram capazes de levar os portugueses para onde lhes deu na real gana.

Ando cá a magicar na maneira de valorizar essas personalidades como cromos, a colar numa caderneta de papel aos quadradinhos, como antigamente, bastando passar-lhes a língua pelas costas, onde há cola de sabores, e colocar um em cada quadradinho, onde simplesmente vai aparecer um nome, pelo qual ficaram, ou vão ficar, na nossa história.

O grande sucesso da colecção vai basear-se na dificuldade de conseguir que saiam, no acto da compra, alguns dos cromos, os mais raros da colecção, enquanto outros, os mais vulgares, servirão para trocas, pois cada coleccionador ficará com os bolsos cheios de cromos repetidos, enquanto os poucos que lhe faltarem, nunca mais aparecem.

Para melhor compreensão do meu esquema de negócio passo a dar exemplos dos mais valiosos em termos de trocas. Um Catroga vale dez Cavacos. Pode parecer um contra senso mas não é, pela simples razão de que o primeiro, tendo sido discípulo do segundo, conseguiu agora mostrar-lhe como é que se fala direito, mesmo mijando torto.

Um Victor vale exactamente o mesmo que um Teixeira, pela simples teoria de que ambos descobriram que o nosso dinheiro andava todo lá por fora, razão pela qual ambos resolveram fazer omeletas com ovos estrangeiros, sabe-se lá de que galinhas e de que galos que lhes puseram as patas em cima das penas.     

Um Portas vale cinco Passos. Ainda tenho algumas dúvidas neste câmbio, devido à grande instabilidade dos negócios da estranja, que o primeiro representa, e os buracos e cortes nacionais com que o segundo está confrontado. Mas, nisto de trocas e baldrocas, são dois cromos que muito valorizarão o meu negócio.

Será preciso dar vinte Relvas por um Seguro. Aqui, a valorização vem exclusivamente do facto de um cromo seguro, como é o segundo, dar muito mais garantias de longevidade no lugar onde se encontra, que as relvas de estação que, como é normal no nosso clima, ora muito frio, ora muito quente, queima e seca qualquer espécie vegetal rasteira.

Um Jerónimo com apêndice verde vale um Francisco e meio. Esta transacção cromática tem valores muito instáveis, devido a ciclos de altos e baixos relativos à cotação sazonal do Francisco. Depois, estes cromos têm uma relação muito estranha e sincronizada com alguns dos restantes cromos da colecção.

Ainda pensei meter aqui a insularidade, mas cheguei à conclusão de que não dava. Se, por um lado, temos um cromo que podia competir com os do continente, do outro lado, temos um creme de banana insular que mais parece um creme tipo banha. Aí, pensei, não, ninguém vai comprar. Além disso, não se pode comparar um creme com um cromo.

Como é óbvio, não se faz uma colecção apenas com estes cromos. Temos cromos para todos os gostos. Do presente, no governo, na assembleia, nos órgãos, fora dos órgãos, na sociedade. Do passado, gente com nome, gente a quem chamam nomes, gente que ainda fala, gente que já se calou porque ninguém os quer ouvir. Enfim, cromos para trocas.

Interessante é saber como estão os câmbios cruzados. Um Cavaco pode valer até dois Passos, enquanto meia dúzia de Catrogas podem ser trocados por um Teixeira. Mais curioso é que um Portas vale, no mínimo, trinta Víctores, embora haja quem diga que nunca se devem comparar cromos que são mesmo incomparáveis.

E para terminar, que para exemplos já basta, falta acrescentar que há um cromo, como acontece em todas as colecções, que é exemplar único. Para o conseguir é preciso gastar muita massinha. Com esse não há trocas possíveis. Quem tiver a sorte de o comprar, será o único a completar a colecção. Obviamente, trata-se do cromo Sócrates.