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afonsonunes

afonsonunes

27 Set, 2011

Segurito

Sempre tive muita relutância em aceitar que alguém se meta em algum lugar reservado para onde não foi chamado. Admito que pode haver diversas formas de definir o que é um lugar reservado mas, em princípio, é onde alguém tem legitimidade para decidir sem ter de submeter a sua decisão à apreciação ou opinião seja a quem for.

Serve este intróito para entrar na forma como se podem estabelecer relações de proximidade entre governo e oposição ou, para ser mais preciso, entre governo e oposições, embora isto tenha pouco ou nada a ver com as oposições que não têm qualquer hipótese de chegar ao poder, mesmo em coligações imaginárias.

Ora o novel oposicionista maioritário Tó Zé, que apresenta a novidade de, além de ser Zé como o seu antecessor, tem mais o Tó, o que, já de si, representa uma vantagem de tomo. Não quer isso dizer, nem por sombras, que ele seja um dois em um, tal como não significa que esteja em desvantagem só porque possam pensar que é mais Tó que Zé.   

Aliás, bem se tem esforçado por demonstrar que é mais segurito que filósofo, tal como pretende mostrar desde já que não hesita em ir à procura de meter o bedelho onde é evidente que não é desejado. Nesse sentido, já começou a dar passos em direcção ao Pedro, já que o Pedro parece pouco disponível para esperar por ele.

Talvez Segurito pretenda fazer esquecer a diferença abissal entre o filósofo que já não filosofa e o seu velho amigo Passitos curtos e sem direcção definida. Daí que queira aproveitar a maré para tentar ir remando calmamente, para se não dizer que está à espera que o amigo se transforme em mais um náufrago mártir.

Seguro, Segurito, voluntarioso e colaborante, sabe que não pode entrar a matar em matérias que lhe possam granjear os mesmos epítetos do seu antecessor, preferindo entrar no diálogo que já celebrizou outra época, ainda que toda a gente saiba que diálogos desses, só podem ser diálogos de surdos, como sempre acontece quando o poder não está para aí virado.

Segurito tem de compreender que o seu amigo Passitos tem mais que fazer que dar-lhe ouvidos. Já bem lhe bastam os chatos companheiros de permanentes e intermináveis reuniões, onde ainda têm assento muitos faladores que já deviam ter perdido o lugar por troca com alguns que foram, ou estão para ir à vida.

Portanto, Segurito devia passar à prática de uma oposição personalizada, do tipo de governação personalizada do seu antecessor, mestre em filosofia também ela personalizada, mas nunca subordinada à pretensão alheia de uma colaboração envenenada, colaboração que, nem agora, virá alguma vez a ser partilhada e isenta.

Diálogos de hipocrisia são tudo o que menos este país precisa. Se deles apenas resulta propaganda táctica, não faz sentido que se perca tempo com eles. Muito menos quando o governo tem uma maioria que lhe permite fazer o que bem entende e o maior partido oposicionista, o do Segurito, apenas pode andar à volta da mesa a abanar o…

Nestas circunstâncias, por uma questão de dignidade, quem é oposição que proceda como tal, fazendo a sua estrita obrigação, que não é pequena, indicando projectos alternativos. E quem é governo que dedique o seu tempo a fazer a sua obrigação, que é muito grande, concretizando os projectos de que o país precisa urgentemente.

A grande responsabilidade, a maior de todas elas, reside no facto de o governo ter ou não ter a coragem de aceitar os projectos alternativos, quando sejam melhores que os seus, sem que as oposições tenham que lhe andar a dar palmadinhas nas costas para que lhes seja concedida a graça de uma concessão do tipo de contrapartida por qualquer outra graça.

Seguro não ganha nada em ser um segurito mostrando que não é filósofo, querendo conversar com quem, mesmo sendo amigo, tem apenas aquela disponibilidade que não pode negar em função do seu cargo. Seguro tem apenas de mostrar-se seguro nas suas ideias e firme nas suas convicções onde quer que intervenha. E a mais não é obrigado.

Senão, fica-me, a mim, a ideia de que o Segurito já fica satisfeito se o Passitos lhe der uns minutos de conversa a sós, de tempos a tempos. Certamente que já se considera alvo de uma atenção muito especial. E, vamos lá ver se não espera aproveitar essa atenção para introduzir o tema sempre presente da distribuição dos boys, tão querido de ambos os partidos.

No entanto, firmeza de convicções e segurança de ideias, são coisas que não se vêem nem se sentem nos dois lados da barricada. É por isso que eu vejo mais o passitos que lá vai tolerando e o seguritos que lá vai indo.