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afonsonunes

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04 Out, 2011

O tipo e o gajo

O tipo, cada vez que abre a boca, tem de dividir o que diz em pontos, tantos mais, quanto mais importante for o que mete entre números e pontos e vírgulas. E importantíssimo é falar do gajo, o tal que foi, mas já não é. Portanto, vamos lá seguir essa metodologia começando, naturalmente, pelo princípio, que é, nem mais nem menos, o ponto de partida.

1º. – Sempre que me virem de boné azul é sinal de que estou numa feira, num mercado, ou numa arruada, locais onde o vento pode descobrir-me a careca, coisa que não acontece em recintos fechados, onde tenho a protecção do barulho das luzes, que não consegue os decibéis suficientes para disfarçar o que é pele do que é cabelo;

2º. – Presentemente, sou um tipo que já não tem tempo para andar nesses ‘mercadecos’, nem nessas ‘feirecas’, onde só se fala de coisas baratas, coisas que eu já detesto, desde que passei a dedicar-me aos grandes acontecimentos, onde tenho oportunidade de aconselhar negócios de grande vulto para o país e para o meu prestígio, evidentemente;

3º. – Como sou um tipo objectivamente directo e frontal, gosto de lembrar a toda a gente, cá dentro e lá fora, que o país está assim, pois, assim mesmo, como está, por causa do gajo que eu e outros tipos obrigámos a pô-lo assim, com as nossas exigências e imposições na feira política a que também chamam assembleia;

4º. – Esse gajo teve a sorte de fugir sempre à justiça divina, porque eu sou um tipo benevolente e solidário, pois se ele teve um ou outro caso, eu tive tantos que seria um escândalo resolverem os dele e deixarem os meus para trás, com a desculpa de que não havia meios nem tempo para os resolver;

5º. – Até porque os negócios do gajo eram à superfície, enquanto os meus foram subaquáticos, isto é, na profundidade dos oceanos, embora também tivesse um ou outro caso à sombra de frondosos sobreiros que acabaram por secar. Claro que tudo isso não foi negócio de bolota nem de cortiça, porque eu não vendo carne de porco nem rolhas;

6º. – Segundo dizem os entendidos, eu tive o bom senso de não ficar com um cêntimo sequer, porque o partido está sempre primeiro que eu. Ao invés, o gajo parece que não deu um cêntimo ao partido, preferindo mandar tudo lá para fora, estando por saber em nome de quem, porque a minha justiça não pôde ver nele o que não viu em mim;

7º. – Eu sou um tipo que tento não falar dessas coisas, mas não posso calar o facto de o gajo ter enterrado milhões na Madeira e no BPN, quando já sabia que isso era a bancarrota de que eu não falo. Tal como não falo dos que encheram os bolsos e dos amigos a quem levaram o conforto de juros que nem o gajo conseguiu lá fora;

8º. Já que a Madeira veio a talhe de foice, confesso que tive de me pôr a pau com os desmandos que espero vir a resolver com o incrível lá do sítio. Mas, que não fiquem dúvidas de qualquer espécie. Se eu falo da Madeira é porque não quero, nem posso, perder a oportunidade de comparar o incrível com o gajo;

9º. – Quem tiver os dois bem abertos já reparou certamente que a táctica de dizer que não ia com o gajo, resultou em pleno no continente. Sim, o gajo foi, mas foi sozinho e para outro lado. Agora, na Madeira, também digo que não vou com o incrível. Vamos ver se resulta, mas aqui, se for preciso, eu vou com ele para o palácio, gostosamente e de braço dado;

10º. – Portanto, para mim, grandes feiras, agora, só com grandes negócios. O boné azul, só muito raramente subirá à minha cabeça, porque nos grandes salões não há aragem que me desmanche as voltas de tapa carecas. Agora, estou mais voltado para descobrir a careca do gajo que tem muito mais cabelo que eu;

11º. – Suspendi por cerca de quatro anos, no mínimo, os meus discursos pró agricultores e pró velhinhos, porque tenho junto deles quem lhes trate da saúde. Estão devidamente orientados nesse sentido. Por solidariedade com colegas meus, também não falo de crimes, nem de bandalheiras, nem tão pouco de misérias ou injustiças;

12º. – Garanto solenemente que eu sou um tipo porreiro, dos sapatos até ao boné, embora o gajo tenha usado fraudulentamente o chavão ‘porreiro, pá’. Mas não foi para mim. Até porque ainda não tive oportunidade de ter essa satisfação. Mas, com a ajuda dos meus discursos por pontos, estou certo que não tardará.

Não há mais pontos porque o próximo seria o 13º. Portanto, aqui parou, que o tipo é supersticioso. Quanto ao gajo, resolveu ir passear para o Parque dos Príncipes, porque nunca gostou de passear no Parque Eduardo Sétimo.