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afonsonunes

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Estou farto de ouvir dizer que o país tem de mudar mas, na verdade, quando alguém muda alguma coisa, quase sempre muda para pior. Até me apetecia tirar dali o quase, não fora o linchamento que os arautos de todas as liberdades me sentenciariam de seguida, porque a minha liberdade seria zero em comparação com a sua liberdade total. 

Ao contrário do que acontece em algumas partes do mundo, onde as mulheres são sentenciadas com um número variável de chicotadas quando esquecem o código feminino a que estão vinculadas, eu virava isto das avessas, transferindo esse código para certas condutas masculinas de cá.

Porque, no meu entender, o código recomenda chicotadas a mulheres de lá, que não fazem nada de mal, enquanto os homens de cá recebem elogios e recompensas por fazerem coisas bem piores que as delas. Principalmente, coisas do foro da língua, no que toca à expansão de um código privativo de certa libertinagem.

Então como é que eu vou compreender que uma mulher de lá, apanha uma catrefada de chicotadas por conduzir um carro, enquanto um homem de cá, atropela a sociedade toda com as suas tropelias e inconveniências e recebe um arraial de deferências dos muitos que beneficiam e fazem a apologia do mesmo código.

Dizia eu atrás que virava isto tudo das avessas porque já percebi que os nossos códigos, ou não prestam, ou não são cumpridos conforme mandam os seus articulados. Claro que não está neles expressamente que se deviam aplicar as tais chicotadas que as mulheres de algumas paragens têm de suportar.

Ora aí é que está o busílis da questão. Se não há castigo para aqueles que até recebem prémios por tudo o que fazem de mal, então que se lhes aplique o código da chicotada, ainda que seja por determinação sumária das vítimas dessas arbitrariedades ou dessas imbecilidades, ainda que simplesmente verbais.

A justificação é simples e é baratinha para a época que atravessamos. A via judicial é cara, demorada e ineficaz, dado que obedece a outros códigos que as vítimas só conhecem depois de lhes terem sido aplicados. Já para não falar nos problemas das prisões que vão caindo em desuso, pois começamos a ficar presos em casa.  

Com o código da chicotada está tudo simplificado. Mas, primeiro é preciso elaborar o código, onde deve constar claramente o que se fez de mal e o correspondente número de chicotadas a suportar pelo delinquente. Óptima tarefa para quem gosta de tarefas difíceis, que é o caso de, indirectamente, manobrar o chicote na direcção que lhe interessa.

Obviamente que as chicotadas se devem aplicar nas costas dos que só sabem fazer alguma coisa de língua e, mesmo essa, muito mal feita. Portanto, cinco chicotadas para os primários, vendo as penas agravadas de cinco em cinco, cada vez que reincidirem. Se for o cinto a servir de chicote, o lado da fivela deve ficar na mão do fustigador.

Bom, isto é apenas um exemplo, porque eu não sou legislador, não gostaria de o ser, nem sou suficientemente inteligente para dizer que faço as coisas difíceis que não sei fazer. Depois, também não quero sujeitar-me a apanhar umas tantas chicotadas por estender a língua para fora da boca, gesto que pode ser considerado desrespeitoso.

Enfim, chicotadas já é o que mais temos por aí, mas essas ainda não são crimes, embora me pareça que, pelos indícios, aqueles que mais as merecem, são aqueles que desejam poder aplicá-las aos que não os bajulam.

Enfim, vida demasiado fácil, para quem só gosta de fazer coisas difíceis, embora as não saiba fazer bem.