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afonsonunes

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22 Out, 2011

DÓI-DÓI

A saúde dos portugueses nunca esteve tão em baixo como nestes tempos dolorosos em que toda a gente tem o seu dói-dói. Uns manifestamente espalhados à flor da pele, outros escondidos no mais recôndito das suas entranhas. Como em tudo na vida, há quem se queixe sem dor e quem não se queixe mesmo quando a dor os destrói.

Muitos destes dói-dóis são como os das crianças muito pequenas, que ainda não compreendem verdadeiramente a gravidade nem a dimensão de cada um dos dói-dói. Para aqueles que são mais aparentes que reais, basta que a mamã ou o papá beijem esse dói sem dor para que o choro pare de imediato.

Ao adultos são muito mais imprevisíveis que as criancinhas no que toca a dói-dóis. Principalmente, porque não se calam com um ou mais beijinhos no local doloroso. Com a atenuante de que nem sempre se consegue localizar devidamente esse local logo, também os beijinhos podem ir para o local errado.

Ao analisar este fenómeno dos dói-dóis que apareceram com a conjuntura, verifiquei que estão a provocar autênticas debandadas de cérebros, melhor, de crânios, para o estrangeiro. E o que mais me preocupa é que esses crânios não ficam por lá. Ao fim de poucos dias estão de regresso, não sei se por vontade própria, se por mando de quem os não acolheu.

Se tal fenómeno se deve a que os dói-dóis que os levaram a sair do país, não encontraram remédio lá fora, isso quer dizer que, realmente, são mesmo graves, podendo considerá-los dentro de uma gravidade muito superior aos vulgares dói-dóis, passando à classificação de doenças infecto-contagiosas.

A situação está a tornar-se alarmante, bastando recordar quem tem sido mais afectado nestes últimos tempos, em que os dói-dóis de conjuntura até aconselhavam vivamente a que ninguém saísse do país. Em primeiro lugar, para que se tratassem cá dentro. Em segundo lugar, para que não trouxessem outros vírus de lá para cá.

De Belém, volta não volta, lá sai uma caravana infindável de gente com destino ao aeroporto, onde se metem num daqueles aviões onde a dor não entra, mas vão à procura de uma qualquer cura, para reconfortante destino, sem saber minimamente quais os dói-dóis que os fazem mudar de ares e, na dúvida, sobre se não acabam por ter falta de ar.

De S. Bento não há dia em que não saiam viajantes nos mais variados meios de transporte, grátis, com meio bilhete, bilhete inteiro ou bilhete de luxo, sempre com fundadas esperanças de que encontrem nos seus destinos quem lhes venda ou aconselhe o elixir da cura dos mais sofisticados dói-dóis que os põem nesta mobilidade interminável.

Do Rato também se verifica um movimento semelhante, embora de dimensão muito menor, como é óbvio, mas com o intuito de descobrir lá fora, o antídoto para a pandemia nacional de dói-dóis que abriram buracos por toda essa casa do Rato. A esperança reside, sobretudo, em descobrir uma variedade de queijo que faça esquecer o que lá vai.

Da Madeira, com um dói-dói maior que a ‘elha’, maior até que o ‘contnente’, desapareceu alguém que jurou ainda há dias que, ‘daqui não saio, daqui ninguém me tira’. Pressupõe-se que, assustado, mas sem qualquer espécie de medo, foi consultar o mago, o único mago que ainda lhe falta insultar, para que lhe ponha tintura no seu enorme dói-dói.

A verdade é que todos estes e outros clientes de curandeiros lá de fora, lá vão fazendo pela vida, à custa daquilo que mais dói aos cidadãos anónimos que lhes pagam as fugas constantes, sofrendo, poucos dias depois, mais dói-dóis com a constatação de que eles regressam sem terem obtido cura nenhuma.

Porém, há sempre quem não tenha dor de nada. E quem sinta um enorme gozo com os dói-dóis daqueles de quem precisa.