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afonsonunes

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23 Out, 2011

Sem Sócrates

Bem perto estão os tempos em que Sócrates era o único culpado de tudo o que aconteceu na Europa e no mundo, como se todos os líderes a nível global se tivessem curvado às suas ideias despesistas e aos seus desmandos de meter no bolso tudo o que apanhou à mão, como qualquer vulgar larápio ou beneficiário de bancos que foram à vida.

Porventura, há quem queira fazer crer que Sócrates era obrigado a prever então, os efeitos de uma crise que, ainda agora, os novos Sócrates, não conseguem atinar com os seus efeitos e consequências. Afinal, tudo o que já estava planeado e pronto a ser aplicado para resolver tudo e mais alguma coisa, simplesmente, foi bafo que se esfumou subitamente.

Ainda há quem já se tenha esquecido que todos os organismos mundiais, nessa altura, faziam previsões semanais, a rectificar as anteriores. Só os iluminados de cá, que então se limitavam a vaticinar que estava tudo mal, como de costume, se vangloriam agora de que já tinham previsto tudo. Pois, mas agora, continuam a não prever nada em concreto.

Porventura, há quem já se tenha esquecido que, ao rebentar a crise bancária americana, as instâncias europeias e nacionais, as ditas forças anti Sócrates, PR e todas as oposições, não se contiveram em exigir que nada devia faltar a estes e àqueles que, ao fim e ao cabo, era dar, dar e não deixar de dar, a todos os pretensos coitadinhos.   

São esses, precisamente, que hoje se queixam de que Sócrates deu tudo a todos. São esses que se esquecem de que, então, se dizia que em tempos de crise era preciso gastar para estimular a economia, teoria que Sócrates aceitou de bom grado. Logo, não queiram alguns descarregar as culpas que também têm no cartório, e são muitas, de muitos.

Esses muitos queriam e conseguiram que Sócrates se fosse embora. Mas, agora, é altura de perguntar a todos esses, bem diferentes nos seus objectivos, se estão satisfeitos com a situação que criaram, ou se, afinal, há uns que estão mais satisfeitos que outros. Ou ainda, se todos têm motivos para pensar que mais lhes valia terem estado quietinhos.

Uns porque, se estavam mal, passaram a estar pior. Outros porque, de mandados, passaram a mandar. Mas, até estes, já devem ter visto que o mando nem sempre é um favo de mel. Porque as abelhas nem sempre estão dispostas a deixar que lhe assaltam as colmeias, só porque os assaltantes julgam que é fácil roubar o doce a quem o produziu.       

É bem evidente que Sócrates não foi o mártir da pátria, sacrificado por um qualquer bando de malfeitores. Sócrates foi mais um, entre tantos dos seus antecessores. Foi mais um, que esteve no lugar errado, quando abriu a caça à malandragem. Só que os malandros já estavam nos seus abrigos quando começou o tiroteio.

Por cá, Sócrates deu muito jeito, pois foi o mal me quer entre os lírios da cidade, foi o alvo que serviu para ser crucificado em lugar daqueles que só serviram para o içar para alto da cruz. Que ainda não lavaram as mãos ensanguentadas, mas correm o risco de estar à espera do momento de verem derramado o seu próprio sangue.

Sócrates também deu jeito para servir de capa a todos os que roubaram o país em níveis absolutamente escandalosos e a quem ninguém foi ainda capaz de pedir um cêntimo. Porque ninguém se lembra destes mas, em contrapartida, resmunga-se, vocifera-se, contra o larápio Sócrates, só porque, falando-se nele, não se fala nos outros.

As políticas têm de ser contextualizadas. Criticá-las fora desse contexto, pode ser muito fácil, depois de ver as consequências. Sobretudo, sem ter em conta as condicionantes do momento. Se era possível a quem decidiu, decidir de outra forma. Se quem agora critica, não foi co-responsável com as decisões então tomadas.

Mais, se muitas dessas decisões não foram exactamente forçadas por quem agora as critica e delas se serve para se armar em salvador de uma pátria ameaçada pela totalidade de todos os que sempre se consideraram seus salvadores. É que nisto de política, de políticos e de críticos, o que vamos vendo é que cada um, na sua aflição, tenta salvar-se como puder.

Recorde-se que, então, tal como agora, todos os organismos internacionais, sempre elogiaram a actuação do governo anterior. Até cá, houve a célebre cooperação estratégica. Curioso. Lembro-me do amistoso ´porreiro pá´, da sorridente amizade alemã, dos abraços franceses, tal como da intimidade com o BCE. Nessa altura, os entendidos não faziam críticas à Europa.

Portanto, até encontrarem bons argumentos condenatórios, deixem lá o Sócrates em paz, não cometam os erros que ele cometeu e tentem fazer melhor que ele, se forem capazes. Todos teremos muito a ganhar.