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afonsonunes

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27 Out, 2011

A caminho do céu

Não perco, nem podia perder, a imagem de felicidade que vi no mensageiro que me proporcionou o privilégio de ouvir anunciar a boa nova de que estávamos no bom caminho. Só ainda não percebi a razão pela qual eu próprio estou nesse bom caminho, pois não me vejo a caminhar, nem me parece que o vá fazer tão depressa.

Em boa verdade sinto que estou, e vou estar parado, com uns passinhos atrás de vez em quando, porque a vida é o que é e não o que toda a gente gostava que fosse. Mas não adianta nada fazer de conta que estamos todos desgraçadinhos. Até porque logo viriam os de sorriso permanente, limpar-nos as lágrimas ou a prometer-nos o seu bem-estar.

Depois, gostava de saber qual é o bom caminho. Não é difícil de perceber que tal depende do que está em causa. Há quem prefira os caminhos a descer porque, dizem, ò abaixo todos os santinhos ajudam. Mas também há aqueles que só vêem os caminhos a subir, ou não tivessem sempre em mente a permanente subida do que ganham.    

Felizes os que se deslumbram com o caminho do céu, estreito, difícil mas pleno de felicidade no final da caminhada. Sobretudo, porque temem os caminhos do inferno, embora mais fáceis, mais largos, mais cómodos. Este é o destino anunciado para todos aqueles que não se conformam com a felicidade dos que vivem apenas dos seus sonhos.

É para mim um terrível desengano ver mensageiros felizes ao anunciar-nos que estamos no caminho certo. Depreendo eu que nos querem dizer que estamos a caminhar para o céu. A caminho da felicidade a que só teremos direito quando lá chegarmos. Ao céu. Enquanto andarmos por cá, na terra, com eles, só teremos direito ao inferno.

Por mim, não quero passar a vida com esse dilema metido na cabeça. Quero passar a vida percorrendo o caminho que eu escolher, e não calcorriando caminhos que me são impostos para que outros, ao contrário do que desejam para mim, ganhem o céu no paraíso terrestre que eu e outros lhes proporcionamos.  

Não é fácil escolhermos um caminho digno que nos leve a estarmos de bem com a nossa consciência. Mas é muito mais difícil satisfazer esse desígnio se o caminho que nos impõem é um sulco por onde escorrem irracionalidades e injustiças que nunca conduzirão a qualquer destino sério, mas sim à vala comum dos que nunca souberam ou puderam falar.

Não sei, pois, se estamos a caminho do céu ou do inferno, mas sei que muitos seres humanos, no mundo inteiro, sempre viveram no inferno. Também sei que as labaredas que lhes queimam o corpo são cada vez maiores. Sei ainda que, além desses, há aqueles seres humanos que sentem já o calor a aproximar-se perigosamente sem poderem fugir.  

Bem poderão os mensageiros do sorriso garantir que esses seres humanos estão no bom caminho para chegar ao céu. O bom caminho que eles têm metido no seu íntimo, é exactamente o caminho que um dia os levará a prestar contas a alguém. Também eles terão o seu céu ou o seu inferno.

São insondáveis os caminhos do destino. Não sei se já ouvi isto em qualquer lado.