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afonsonunes

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Se é verdade que temos agora uma geração à rasca, que não arranja meio de ter cheta, nem para as despesas da cerveja e do tabaco, também é verdade que já tivemos uma geração desenrascada que arranjou maneira de encher os bolsos, as casas, as garagens e os armazéns de montes de dinheiro, tanto dinheiro que só podemos dizer que foram colossos dele.

E se foram colossos dele, é porque houve ali qualquer coisa de colossal que, passados ‘prá’ aí uns vinte anos do aparecimento desses heróis colossais, lá se conseguiu arranjar uma designação adequada para fenómenos que nunca tínhamos visto nesta pacata terra de gente mais ou menos séria. Propensa à asneira pegada, mas séria.

A designação adequada, desvio colossal, foi lançada no meio da confusão de quem, perdendo a tradicional seriedade, se mostra realmente muito confuso, ao tentar desviar os holofotes das suas hipócritas verdades, para outras paragens que convém manter na zona sombria, para que não haja um choque colossal na opinião pública.

Começam agora a compreender-se as origens dos desvios colossais e dos seus colossais desviadores, tudo gente muito séria, muito verdadeira e muito amiga dos interesses dos mais desprotegidos, além de verdadeiros patriotas, que sempre se mostraram disponíveis para todos os sacrifícios em nome do interesse nacional.

É esta a geração desenrascada que hoje, contrariamente à geração à rasca, todos têm mais ou menos cabelos brancos, mais ou menos carecas, mas todos, e são muitos, têm fortunas colossais vindas do além, talvez por via divina pois, quase todos, senão mesmo todos, sempre disseram de viva voz, que Deus é grande.

Tão convincentemente o apregoaram aos quatro ventos que houve muita gente, gente séria, que acreditou no mundo novo que eles prometeram. Evidentemente que esse mundo novo existiu e existe. Só que não saiu dos seus domínios e foi criado exactamente à custa de quem acreditou neles e, em muitos casos, com entusiasmo e alegria.

Esse mundo novo tem agora essa geração desenrascada que determina tudo o que a geração à rasca não pode ter. Mas determina também que tudo aquilo que eles puderam tirar, que foi tudo o que apanharam à mão, sem olhar aos donos, não pode agora ser devolvido a esses donos, antes os obrigando a pagar os prejuízos de tudo o que lhes foi tirado.

Quase todos eles devidamente identificados na opinião pública, apesar dos tais desvios que tentam lançar a confusão, facilmente se vê como o país vem sendo enganado, roubado, assassinado, desde há muitos anos, mas nunca como o foi por esta geração desenrascada que arrecadou fortunas que deviam ter servido para dar de comer a milhões de portugueses.

Que vivemos num país à beira de economicamente assassinado, parece não haver dúvida. Porque temos assassinos impunes a quem certa gente influente manifesta incondicional apoio, quer através do júbilo com que anuncia que ninguém lhes toca, como através da ginástica que fazem para arranjar distracções alternativas.

Falar de casos de polícia para quem gastou o que não tinha, dando a muita gente o que nunca teve, pode ser discutível. Isso será bom para quem beneficiou e mau para quem quer tudo para si próprio. Estes, se algo lhes corre mal, são como as aves migratórias. Levantam voo, desaparecem durante uns tempos. Depois, é como se não tivesse acontecido nada.

Não falar de casos de polícia onde os verdadeiros malfeitores andam à solta, gozando da maior impunidade e da simpatia de quem só quer polícia para aqueles que lhe estragam os interesses é, no mínimo, ser solidário com esses criminosos.

Tudo porque essa geração desenrascada tem raízes muito fundas e conta com a ajuda de muitas ervas daninhas que crescem à sua sombra.