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afonsonunes

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02 Nov, 2011

Caldinho à Ângela

Se a Ângela jogasse à bola era assim uma espécie de incrível em noite de bruxaria. Mas ela joga noutro campeonato e consegue ter uma cláusula de rescisão muito maior que a do incrível. Daí que também não haja quem lhe pegue, apesar de serem muitos a rondar-lhe a porta, na esperança de conseguirem uma prova do seu caldinho.

Todas as receitas têm os seus segredos e o caldinho da Ângela não foge à regra. Esse segredo tem o selo de garantia da verdadeira master chefe da Europa, título que ela ostenta com muito orgulho mas, sobretudo, com muita convicção e até com muita arrogância, que lhe vem dos segredos e dos ingredientes metidos na sua panela, esta submetida à força do seu fogão.

Porém, o que a torna mais incrível que o dito cujo, é o privilégio de ter podido utilizar os tomates gregos nas suas receitas, especialmente no caldinho à Ângela, o mais célebre dos caldos europeus, pela sua textura cremosa e pela sua cor alaranjada, propriedades derivadas da célebre e revolucionária tomatada grega.

Tudo tem corrido muito bem à chefe Ângela, tanto no seu reduto como em todo o espaço europeu, nomeadamente, em Portugal, onde o caldinho é saboreado com estalos da língua, mas sempre com avisos de que nós não o podemos fazer porque, como é bem evidente, os tomates portugueses não são como os gregos. 

Para que não haja confusões por más interpretações, esclareço que os tomates portugueses são mais clarinhos, enquanto os gregos são mais a tender para o escuro, tendo sempre presente que os tomates podem ser mais alaranjados ou mais avermelhados. Daí que o caldinho à Ângela não pode ser aceite na Grécia, como o é em Portugal.

Depois, os tomates gregos já estão mais maduros que os portugueses, não sei se por uma questão de clima ou de rega. A menos que eles sejam sensíveis, como as plantas de interior, às carícias e aos sorrisos de quem as trata. Seria uma questão interessante a ser estudada por quem tenha sensibilidade para essas questões tomatais.

Mas, voltando ao caldo da Ângela, tudo indica que os gregos não estão dispostos a ceder os seus tomates para um caldo que acaba por ir parar à boca dos alemães e dos franceses, principais consumidores dessa preciosidade culinária. Vai daí, já estão a dizer à master chefe que os têm lá no sítio devido, mas que são deles.

Obviamente que isto é o mesmo que o incrível levar um pontapé nos dele, prostrando-o na relva, com as mãos a apertá-los como se os quisesse espremer. Ora o mesmo não pode fazer a Ângela porque os não tem, mas derrama lágrimas da cor dos ditos, já que o seu caldinho nunca mais será o mesmo, só porque os gregos têm bons tomates, mas são deles.   

É aqui que entra o interesse nacional em jogo. Estou mesmo a ver que a Ângela, desapontada e desesperada com a nega dos gregos vai, inequivocamente, voltar-se para nós e determinar que os nossos tomates vão direitinhos para a sua fábrica de caldinho onde, provavelmente, ela arranjará um corante para disfarçar a cor mais suave dos nossos.

Sinceramente, não sei se os gregos se meterão num caldo melhor ou pior do que o da Ângela. Também não sei se os benefícios da cedência dos tomates portugueses à Ângela, nos trarão benefícios ou prejuízos. É uma questão que os nossos especialistas, que os temos em grande quantidade, não deixarão de ter já devidamente estudada.

O que eu sei sem perigo de me enganar e sem qualquer espécie de dúvida, é que os gregos têm tomates de muita qualidade. Que eles acham, bem ou mal, que não são para os beiços dos alemães e dos franceses, ainda que derretidos em caldinhos à Ângela.

De salientar que são caldinhos de tomate grego, em risco de extinção ou, no mínimo, causadores de muita azia por essa Europa toda. Em Portugal o risco é mesmo de vómitos muito azedos.