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afonsonunes

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04 Nov, 2011

Do Brasil sem humor

Portugal descobriu o Brasil e, suponho eu, levou para lá muita coisa boa que os brasileiros desconheciam e certamente que ainda hoje darão graças a Deus, como eles costumam fazer quando sentem as suas benesses, por esses tempos da chegada da civilização. Civilização rima com colonização, mas é melhor não entrarmos por portas travessas.

O que eu quero dizer é que os portugueses ensinaram então umas coisas os brasileiros. Mais tarde os brasileiros fizeram felizes muitos portugueses que foram para lá em busca daquilo que não encontraram em Portugal. Mais tarde ainda, muitos brasileiros e mais brasileiras, vieram para Portugal em busca do que não tinham lá.

Há quem diga que são dois povos irmãos e pelo que se tem visto ao longo dos tempos parece que não restam dúvidas de que há sangue comum a correr nas veias dos dois povos. Agora, para mim, acaba de acontecer uma lição de vida que nós, portugueses, não devíamos deixar de aproveitar para pôr muitas coisas em ordem nesta bagunça em que o país vive.

E esta lição é muito simples e muito fácil de assimilar: O Brasil prende, Portugal solta. Claro que me refiro a gente que está a contas com a justiça e sobre a qual a justiça já se pronunciou. É evidente que também me estou a referir a gente grada em prestígio e em fortunas que, sem qualquer espécie de dúvidas, comandam as operações que lhes dizem respeito.

Mas, no Brasil, a justiça não pára. Em Portugal, não avança. Em Portugal, o advogado entope a justiça com requerimentos e recursos, conseguindo imobilizá-la durante anos, até à prescrição dos processos. No Brasil, pelo menos uma vez, a justiça é capaz de prender o advogado que tente enganá-la, paralisá-la, ou obstrui-la, para fugir à sua acção.

O Brasil quer ver preso um barão, ou tubarão, que se considerava a coberto do dinheiro que foi buscar, onde a justiça diz que sabe. Em Portugal, Oeiras city e outras, há coisas que impedem a prisão de barões e tubarões condenados, graças ao dinheiro que nós e a justiça sabemos onde o foram buscar. E que a justiça não consegue recuperar um cêntimo sequer.

No Brasil, a justiça pede a prisão preventiva dos indiciados. Em Portugal a justiça não consegue meter na prisão os seus próprios condenados. Mas consegue deixar manter vivos tabus de justiça que, por mais que digam que não, apenas conseguem servir de barragem de fumo para iludir a opinião pública.

Portugal acaba de receber do Brasil uma das maiores batatas quentes de sempre, dado o valor moral que ela traz dentro de si. Daí que as mãos que a recebem fiquem queimadas se lhe não derem um destino condigno com a sua dimensão. O Brasil acaba de ensinar Portugal a lidar com aquilo que nunca soube lidar: com grandes batatas quentes.

Se a batata quente trouxesse apenas dinheiro nas suas entranhas, havia de se arranjar maneira de alguém ficar sem ele. E esse alguém, podia ser o roubado, o ladrão ou, como em tantos casos, os contribuintes através de manobras indemnizatórias mais ou menos complicadas. Mas o problema não é só de dinheiro.

Alguém ficou sem a vida e essa não se paga com dinheiro, seja ele digno ou indigno. Paga-se exclusivamente com a cadeia, com o sol aos quadradinhos por muitos anos ou, mais eficaz ainda, com muitos anos de sombra para melhor reflexão sem calores na cabeça. Daí que todos os esforços tenham de ser feitos para que a lei não esteja nunca do lado do criminoso.

Obviamente, o criminoso só o é de facto, depois de julgado e condenado mas, para isso, é preciso fazer com que tal aconteça, nos moldes estabelecidos pela justiça, sem manobras jurídicas e sem estatutos de qualquer espécie. A justiça… tem de ser justa.