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afonsonunes

afonsonunes

06 Nov, 2011

Oh, és tão linda!

Espero que ninguém pense que venho para aqui cantar a musiquinha da Mula da Cooperativa que, por muita graça que tenha, não é para aqui chamada, até porque a minha maneira de ser não está voltada para os coices. Eu até nem tenho nada contra as mulas nem contra as cooperativas, ou não fosse bonito dizer, mesmo aquilo que não se sente nem se pratica.

E, para preâmbulo já chega. Hoje, é para ela que me quero voltar. A primeira coisa que tenho de explicar é o ‘oh’, interjeição que define todo o meu enlevo ao depor no seu rosto o meu fulminante olhar. Rosto que não é apenas o resto de um corpo, mas simplesmente o corpo de uma beleza e de um encanto sem par.

Apesar do meu olhar fulminante, ela não reage. Nem ousa cruzar o olhar dela com o meu, num tom de desprezo pelo meu sofrimento, por não me ser permitido cruzar os seus caminhos e desviá-la para a minha rota, tirando-a dos seus domínios onde se torna demasiado cruel e indiferente a tudo o que não sejam os seus prazeres.

Sim, porque eu noto que ela sente um prazer enorme em fazer sofrer quem se deixa subjugar pelos seus desejos, pelos seus caprichos, pela dureza das suas intenções, como foi o meu caso. Agora, olho-a, fulmino-a com o olhar, que já só implora a piedade de me compreender e a atenção de conhecer o meu sofrimento.

Tudo fiz para lhe agradar, para passar para o lado dela, para ser ao menos um dos seus eleitos, ganhando o privilégio de usufruir das suas benesses, de pertencer ao mundo dos seus encantos, de ter aquele prazer de olhar e ser olhado, regalado com o desejo de poder partilhar tudo o que ela pode dar a quem está do lado dela.

Tudo em vão. Vejo-a a olhar para a imensidão do horizonte longínquo, onde não há rostos, onde tudo é vago, onde não há regras nem leis, onde a sua vontade determina e as suas ordens são facadas de uma frieza que gela os corações mais quentes. Ela tem tanto de beleza sedutora como tem de crueldade que convida à submissão a roçar a escravidão.

Se ela é linda de se morrer por ela, é porque à volta dela tudo tem de ser feio, porque ela adora ser única, ter a exclusividade de ser inigualável, de ter tudo o que os outros não têm, de se apropriar de tudo o que não precisa, para que muitos fiquem sem nada. Todo o mundo está com os olhos postos nela, uns a chorar, outros mostrando-lhe os seus melhores sorrisos.

Ela é um mundo de contradições. Ama o dinheiro, adora quem tem dinheiro, mas oprime quem não tem nada e insiste em tirar-lhes o que eles não têm. É tanto mais cruel, porque sabe que o seu poder é efémero, porque sabe que há sempre uma maneira de a vencer, de a subjugar, de conseguir que ela desapareça tal como chegou. De surpresa.

Só que ninguém, nem ela própria, nem quem subitamente vai ter a felicidade de a vencer, sabem quando chega esse momento. Muitos não lhe conhecem sequer o nome, mas sabem que ela anda no meio deles. Com ela, são muitos os que se governam, que se safam, que passam por cima de muita gente que, apesar de espoliada, continua indiferente.

Ela é a Crise. A linda Crise por muitos tão cortejada, que ama a riqueza, que faz mais ricos os ricos e mais pobres todos os que não são ricos. Porque são apenas estes que pagam as loucuras da linda Crise para com os seus amantes.