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afonsonunes

afonsonunes

08 Nov, 2011

TOCA A PRENDER

Já é tempo de se passar das palavras aos actos e fazer a vontade às sumidades que sabem mais que ninguém, quando toca a satisfazer as suas mentes iluminadas. Se elas dizem que está na hora de meter na cadeia cidadãos que, no entender deles, deviam estar lá dentro, não há que hesitar, dentro com eles.

Mas, há um pequeno senão: se lhes fazemos a vontade, também tenho todo o direito a mandar meter lá dentro todos aqueles que eu penso que já lá deviam estar há muito tempo. Simplesmente, porque todos os cidadãos são iguais perante a lei. Ora, a vontade deles não pode estar acima da minha.

Sim, porque a vontade de cada um tem de estar subordinada ao cumprimento da lei. Portanto, eles não podem mandar prender quem eu julgo que está inocente, a menos que me dêem a prerrogativa de ser eu a decidir que, quem é culpado, vá imediatamente para trás das grades, aguardando lá pelos que vierem a ser considerados iguais a eles.

O grande problema reside no facto de se falar demais em quem anda cá fora legalmente e não se falar nada de quem devia estar lá dentro, nos termos que a lei já determinou. Porém, uma vez que não são estes os critérios a seguir, então nada melhor que começar a recolher todos aqueles que falam mal e demais.

Assim, toca a prender quem insulta a torto e a direito. Que mais não seja, porque todo o cidadão, seja ele qual for, tem direito ao bom nome. Uma vez que a justiça não consegue o cumprimento desse preceito, a melhor solução é ignorar a justiça e encarregar alguém que prenda a olho, toda essa gente para quem não há lei nem justiça.

Nunca como hoje se insultou de maneira tão vil e tão cobarde. Basta ler jornais, ouvir por qualquer forma determinados energúmenos, para se verificar que até os mais altos representantes do país são achincalhados com nomes de fazer corar um crocodilo, como se esse fosse um direito à liberdade de expressão.

E tal estado de coisas não motiva grandes parangonas informativas, nem levanta polémicas de bradar aos céus. Tudo normal. O presidente é uma grandessíssima coisa e tal, só porque não faz o que cada um deseja. Um governante é tudo o que cada um imagina, só porque não governa ao gosto de toda a gente.

Mas, um jogador da bola sente-se muito ofendido na sua honra, só porque um outro jogador lhe chamou negro ou preto. Ainda por cima de mão na frente da boca, sinal de que teve o cuidado de não o contaminar com algum gafanhoto que inadvertidamente lhe pudesse sair da boca. Sinal de boa educação.  

Esta complicação inaudita num jogo de bola, onde aos árbitros se chamam os mimos que todos conhecemos, onde os dirigentes se esgadanham verbalmente todos dias, onde os comentadores se arrepelam em defesa dos seus puros, levanta uma tempestade informativa como se acontecesse qualquer coisa de muito pior que o orçamento do estado.

Comparando estes privilegiados, a quem não se pode mostrar o que eles são, com os desgraçadinhos da política, que não se podem queixar de nada, nem podem beliscar nada nem ninguém, temos aí uma ideia de quem merece mesmo ser preso. Como sempre, as opiniões variam consoante a pureza das intenções dos opinantes.

Não adiantam grandes investigações que duram anos, produzir dezenas ou centenas de arguidos, fazer julgamentos que nunca mais acabam, como tem acontecido ao longo dos tempos. Com todo o dinheiro gasto em tudo isto, até se podia evitar que tanta gente vá para as filas das câmaras e das misericórdias de malga na mão.

É por isso que, na dúvida, haja quem prenda todos os que, sabendo o que fazem, sabendo o que dizem, só são capazes de fazer asneiras e só conseguem dizer disparates. Haja quem tenha a coragem de ser mais corajoso que a justiça. Toca a prender.