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afonsonunes

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O dia de S. Martinho deste ano tem a curiosidade de nos mostrar o que são 11+11+11, ou seja 33 ao todo. Tenho quase a certeza de que isto não tem nada que ligue o cerimonial do dia, ao número, a não ser que alguém de mais idade na sua comemoração, atinja aquele ponto de dizer trinta e três com a voz a pedir mais um copinho dele.

Neste dia diz o povo que se deve ir à adega e provar o vinho. Claro que isso era dantes, quando muita gente tinha as suas uvas, o seu vinho e a sua adega. Hoje, quem ainda pode apanhar um pifo, está mais virado para a cerveja. Porque o vinho não é lá muito jeitoso para acompanhar tremoços e amendoins que estão cada vez mais no lugar do petisco.

No entanto, ainda há uns tantos que bem podem comemorar o S. Martinho com um bom vinho, bom e caro, com certeza, acompanhado de qualquer coisa, também cara, claro, muito mais cara que as castanhas, que também se apreciam neste dia em que algum exagero consumista à refeição, ou fora dela até se desculpa.

Estou a lembrar-me de uns senhores que hoje se fartaram de discutir umas coisas à volta de outra coisa chamada orçamento, por vezes tão excitados e tão preocupados com números que, aposto, nem deram pelos três onzes do dia, nem pelos trinta e três, mais preocupados que estavam com o ‘trinta e um’ em que estavam metidos.  

Com votos, declarações de voto, num corrupio de deixa passar, embora com o pensamento no bota abaixo, mas onde o medo de faltar a massinha fez abafar sentimentos de rebeldia que, já se sabia, nem o dia de S. Martinho faria uma surpresa desagradável. Fica a dúvida sobre se o resultado não seria diferente, se a votação fosse depois do petisco.

Não, nem pensar, porque estas coisas, como são muito sérias, já estavam decididas há algum tempo, precisamente por causa do S. Martinho, um dia muito perigoso em termos de decisões importantes, como é a decisão de votar num orçamento, mesmo que ele seja muito atarraxado ou cheio de folgas, com copos de doçura ou de amargura.

Apesar das comemorações do dia terem, por uma questão de horário de sexta-feira, de ficar para mais tarde, a castanha começou a ser distribuída logo a partir da tomada do pequeno-almoço, sempre com aquela grandeza de alma de que todos os espíritos de bancada já vão possuídos, ao ultrapassarem a zona mista dos passos perdidos.

Interrogo-me sobre o que estarei a pensar daqui a um ano, no dia de S. Martinho, depois de ter ido à adega e ter provado o vinho da última colheita. Espero bem que o possa provar sem o antecipado amargo de boca, da aprovação do orçamento ocorrida hoje, não sei se com boas ou más castanhas.