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afonsonunes

afonsonunes

13 Nov, 2011

Poupem-nos

Permitam-me que comece com aquela barbaridade que oiço todos os dias da boca de governantes de agora, aliás, como já ouvia de governantes anteriores, melhor, de governantes de todos os tempos: o país não compreenderia se não fizéssemos assim. Lá na deles, fazer assim, é fazer da única maneira que eles admitem.

Muito gostam os governantes de falar em nome do país, que o mesmo é dizer em nome dos portugueses, quando não os ouviram minimamente, ou mesmo quando sabem perfeitamente que os portugueses não concordam com as suas birras estratégicas ou com as suas asneiras mais que evidentes.

Gostam imenso de dizer que não há alternativa às suas decisões. Mesmo que lhe metam pelos olhos dentro que sim, que há, eles inventam mil e um argumentos para não atender a nada nem a ninguém, só porque pensam que seria um acto de fraqueza aceitar a correcção de uma ou outra decisão menos acertada.

Como está muito em voga dizer-se, os recuos provocam um medo tremendo de serem considerados um perder da face perante as contestações, que são vistas quase sempre como braços de ferro que se não podem perder. Sobretudo, o poder, que muito excepcionalmente admite que podia fazer melhor.

Nestes dias em que muito do futuro do país se discute, afirma-se que há disponibilidade para aceitar todas as propostas, desde que não sejam criativas. Logo de seguida, afirma-se que não há espaço para discutir alternativas. Como é evidente, tudo isto tem a ver com meios financeiros que, ao que dizem, não se conseguiriam de outra maneira.

Obviamente que essa coisa do dinheiro para um governo, que é o que está em causa, tem sempre mil e uma maneiras de se arranjar, de se gastar ou de se desperdiçar. Porém, o que é óbvio, é que os governos estão amarrados a compromissos clientelares ou tutelares a que se não podem eximir.

É aí, precisamente, que ficam atados de pés e mãos, ao não poderem mexer nesses compromissos obscuros que vão contra os outros compromissos assumidos e que deviam ser respeitados conforme o mandato recebido de quem os elegeu e que deviam estar acima de todos os interesses marginais.

É indubitavelmente mais fácil tirar um salário a quem depende dele para necessidades básicas, que tirar uma reforma a quem tem várias, algumas de valores e origens escandalosas, quando comparadas com os salários obtidos à custa de muito trabalho árduo. Como se a legalidade de umas, apagasse o legítimo direito dos outros.

Como se, comparativamente, não fosse um escândalo, a acumulação de um cargo público, bem remunerado, com uma ou mais reformas. Como se fosse mais justo ser reformado e estar no activo ao mesmo tempo, que ser trabalhador e ver parte do seu salário a voar para parte incerta e ver a miséria a sobrevoar a sua casa e a sua família.

Como se fosse a mesma coisa cortar no que ganha um funcionário que não vai além da média, ou mesmo muito abaixo da média de vencimentos da função pública, ou não cortar nos salários e reformas que ascendem a muitos milhares de euros mensais, de muitos intocáveis que escapam a todos os sacrifícios. E tantos outros casos que só não vê quem não quer.  

Depois, ouvimos dizer orgulhosamente que os portugueses compreendem a situação e aceitam-na, ao que parece, com muito orgulho, por estarem a contribuir para dias melhores. Sim, estão a contribuir para dias ainda melhores do que já tinham, todos aqueles que deviam ter vergonha da opressão asfixiante a que sujeitam muitos milhares de seres humanos.        

Mas, já que não querem ver as alternativas, que são muitas, ao menos que nos poupem a ouvir impropérios que, por vezes, roçam a dignidade de quem está na sociedade com uma postura, apesar de tudo, muito mais digna do que quem nos provoca a todo o momento.