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afonsonunes

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18 Nov, 2011

Saltos e assaltos

 

O nosso país foi vítima de um assalto à vista desarmada por três caras destapadas que, por enquanto, dizem que deixam a garantia de uns tantos mil milhões que virão de tempos a tempos. Mas, o que eles levam já, sem serem perseguidos pelas nossas autoridades é a faculdade de proferirem o sermão que ninguém lhes encomendou.

É mais que sabido que o produto desse assalto se vai cifrar numas centenas de milhões a cobrar lá mais para diante, quando os nossos bolsos não escorrerem mais que uns míseros cêntimos. Como a minha inteligência não é muito arguta, tenho alguma dificuldade em prognosticar de onde irão eles tirar essa massa toda.

Já não nos bastam os constantes assaltos com caçadeiras curtas, com pistolas a sério ou a fingir, com carapuços ou com lenços na cara, ainda temos de levar com estes engravatados que até têm cara de quem não faz mal a ninguém. Ao contrário dos outros, estes têm a vantagem de nos assaltarem com a nossa concordância, melhor, a pedido dos de cá.

Mas, nem tudo são vantagens, bastando atender ao tempo que duram esses assaltos. Aqueles a que já estávamos habituados não duram mais que um minuto e toca a cavar que se faz tarde. Os assaltantes que vêm de fora demoram uma eternidade a fazer um só assalto, em várias voltas, mas muito mais agressivo, apesar de mais lento no tempo.

Tenho a certeza que há muita gente que, como eu, preferia aquela vidinha de há uns tempos atrás, em que lá tínhamos um assalto ou outro, de vez em quando, sem nos irem ao fundo dos bolsos. Mas deixavam-nos pensar pela nossa cabeça e até não se importavam mesmo nada que andássemos a fazer figuras tristes. Mas era a nossa vontade.

Abro aqui um parêntese para salvaguardar a hipótese remota dos tais clientes ou donos do BPN serem forçados a entregar o que lá foram buscar à socapa. Para isso, teriam que nacionalizar parte de Cabo Verde, além de várias propriedades privadas em muitos locais de todo o país. Mas isso é muito difícil, por constituir um monstro de mega processo.

Depois, trata-se de gente que soube dar o salto para um escalão social que não está ao alcance de quem pretende deitar-lhe a mão. Com a agravante de que, quem tinha possibilidade de lhes deitar a mão, já apertou essa mesma mão muito amistosamente, se é que não teve mesmo a honra e o privilégio de já lhe ter ido ao beija-mão.

De qualquer forma, os assaltantes à vista desarmada não vão ficar de mãos a abanar depois de concluído o trabalhinho trimestral que, se for preciso, passará a mensal, ou mesmo quinzenal, se os saltos se forem revelando curtos demais. Mas isso depende apenas da sua incomensurável sabedoria em visar cheques.

Na qualidade de país assaltado resta-nos apenas implorar a misericórdia divina para que os assaltantes não sejam demasiado cruéis, sujeitando-nos à condição de assaltados permanentes e, cumulativamente, à submissão a todos os assaltantes internos que, com os de fora, mantenham uma estreita cooperação.

Este parece ser o maior perigo que nos espera. Não porque nos vejamos privados de mais ou menos dinheiro que, de qualquer modo, deixaremos de ter. Mas corremos o risco real e mais que provável, de ter-mos de nos sujeitar a transformarmo-nos em assaltantes de baixo valor para podermos manter a pele em cima dos ossos.   

Há por aí quem fale em dar o salto, como forma de fugir a esta triste sina de ser assaltado permanentemente ou, em alternativa, andar por aí promiscuamente a assaltarem-se uns aos outros. É bastante claro que isso de dar o salto já foi chão que deu uvas. Ninguém é capaz de arranjar um lugarzinho seguro para onde se possa ir descansado.

Provavelmente, a grande maioria dos portugueses até aceitam que não temos outro caminho, agora, que não seja sujeitarmo-nos a este salto de cavalo para burro. O que muitos não compreendem é a razão porque não se toca nos bolsos dos que voam ou voaram muito de avião, ou se deslocam por terra em máquinas voadores sobre rodas, tudo saído do OE.    

Portanto, a única hipótese que nos resta, aqui ou em qualquer lado, é aceitar esta vida de sobressaltos. Mas aqueles que nos meteram nisto, também não escapam a essa hipótese, com a agravante de que esses vão estranhar muito mais a situação.