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afonsonunes

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20 Nov, 2011

Roubos vitalícios

 

Roubar é uma coisa que muita gente sabe fazer. Roubam uns à descarada, roubam outros com muita ciência e até há quem seja verdadeiro especialista na arte de bem roubar. Verdade seja dita que também há quem roube inocentemente, porque são tantos a roubar que, às tantas, a roubalheira parece ser a melhor maneira de parecer ser sério.

Os inconscientes acham que roubar é uma maneira de colaborar com os amigos ou conhecidos, como se sentissem estar a ser solidários com quem acha que não tem o que merece e vai daí, toca de meter a mão onde lhe parece que o produto do seu roubo não adianta nem atrasa quem fica roubado.

Hoje não estou voltado para os profissionais do roubo, os que assaltam bancos e casas com mais ou menos violência, pelo que os deixo em paz, como fazem alguns profissionais que estão no campo oposto. Hoje só me apetece falar de gente séria que rouba, não para sobreviver mas, simplesmente, para viver melhor que ninguém.

Gostava de saber quantas pessoas no país têm aquela coisa que se chama subvenção vitalícia, ou reforma vitalícia, porque desempenhou um serviço altamente remunerado, mesmo por muito pouco tempo, e que é acumulável com vencimentos no sector público ou privado, bem como com outras reformas de qualquer espécie.

Dadas as circunstâncias em que o país e os portugueses se encontram, aquilo não são subvenções, nem pensões, nem nada. Aquilo são roubos à pobreza de todos aqueles que querem ganhar alguma coisa e não os deixam. São roubos à solidariedade que é devida a todos os cidadãos que trabalham e lhes roubam parte do produto do seu trabalho.

Como roubo é tirar parte de uma pensão para a qual se trabalhou toda a vida. Ora, essas subvenções vitalícias, que são legais, como é evidente, não serão mais legais que os vencimentos e reformas dos trabalhadores. Logo, quando as leis não são aplicáveis a todos os cidadãos da mesma maneira, alguém está a ser roubado. Por culpa de quem fez as leis?

É isto que me leva a deitar assim umas contas por alto, as quais, apesar de eu ser muito baixo, não devem andar muito longe da exactidão. Assim, diria eu que neste país de ladroagem, andam para aí uns milhões a trabalhar e a pagar impostos, para que o estado dê, de mão beijada, subvenções, pensões, subsídios, cartões, senhas, a milhares que só sabem gastar.

E que, de tudo o que lhes dão, ainda se livram de pagar impostos, com legalidade ou sem ela, mas que fogem dos impostos como o diabo da cruz, é uma certeza que ninguém quer confirmar. Depois, dizem-nos que são poucos, que não é por aí que o problema se resolve. Pois eu digo que era por aí que o problema se começava a resolver.

Porque sempre ouvi dizer que, onde todos pagam, nada custa a pagar. É assim que surge aquela mensagem tão ouvida hoje por todo o lado: ‘ai ele é isso?’ Então não resta outra hipótese senão fazer o mesmo que eles. Certa ou errada, esta teoria contribui muito para a degradação do clima social de que tanto se fala.

Seja lá para o que for, todos entendemos que temos obrigação de contribuir, desde que o possamos fazer na exacta medida em que o nosso esforço contributivo não esteja desproporcionado em relação aos restantes cidadãos, cada um na exacta medida das suas possibilidades e não no estatuto social de que goza ou usufrui.

O que eu lamento profundamente é que toda a gente que goza desse estatuto especial, fale de tudo e mais alguma coisa como soluções para o problema, mas esquece sempre estas situações intocáveis de roubos, quando comparadas com os do estatuto da arraia-miúda, onde tudo se pode cortar, no caso, roubar, mesmo sem dó nem piedade.          

Que os interessados não falem desse mistério ainda entendo. Já não se compreende que os partidos que dizem estar sempre do lado mais desprotegido da sociedade, tal como corporações e associações que tanto apregoam solidariedade, não reparem nesses roubos vitalícios que são autênticos vícios incorrigíveis.