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afonsonunes

afonsonunes

22 Nov, 2011

Peninsulândia

 

Os nossos irmãos espanhóis vivem dias de euforia por se terem visto livres de um governo que, dizem eles, os conduziu à situação actual do país. Estou farto de tentar lembrar-me, sem o conseguir, onde foi que eu já ouvi a mesma coisa. E estou convencido que eles também já ouviram essa coisa, embora numa voz um bocado sumida, lá ao longe.

Sem querer dizer que eles, os nossos irmãos, são muito ou pouco esclarecidos, tenho impressão de que são capazes de padecer um bocado de surdez, ainda que naquele estado pouco notório. Mas, já há quem note aquele sintoma inicial, que é a fase de estar frequentemente a perguntar, ‘o quê?’, aos seus interlocutores.

Ora, isso tem acontecido sempre que alguém lhes fala em grego, em português ou, ultimamente, em italiano. Não é porque eles não dominem esses idiomas, pois eles até são poliglotas. É, simplesmente, porque eles são dos tais que só ouvem o que lhes convém. E então quando lhes dizem para olhar para os seus irmãos, eles dizem logo, ‘quem?’

Mas, lá muito no fundo, eles até nos respeitam muito. É ver como fizeram agora lá, o que nós fizemos cá, há uns meses atrás. Festejaram com o mesmo entusiasmo, como se a vida deles tivesse mudado da noite de domingo para a manhã de segunda-feira. E vão, com certeza, continuar a festejar durante mais uns meses, imitando as nossas continuadas alegrias.

Para nós, portugueses, isto é uma bênção divina. Já havia quem andasse um pouco desanimado por ter de festejar com algum isolamento, porque somos poucos, não dando para fazer as coisas em grande. Agora, com todos os nossos irmãos connosco, a festa tem tudo para ser de arromba.

Tempos houve em que já se admitia a hipótese de nos juntarmos aos nossos irmãos, porque isto por cá estava mau e lá até estava muito bom. Não será caso para dizer que as coisas se viraram do avesso mas, a verdade é que eles, os nossos irmãos, resolveram massivamente fazer exactamente o que nós fizemos.

Portanto, a minha sagacidade diz-me aqui ao ouvido que eles, os nossos irmãos, estão desejosos, mesmo ansiosos, por se juntarem a nós, fazendo da península o grande bastião de desenvolvimento da economia alemã, antes que ela própria dê o berro e, então, não haveria península que resistisse ao dilúvio.

Os nossos irmãos já andavam assustados com os cânticos que vinham dos lados dos Pirenéus, na medida em que a leste deles, a música era totalmente dissonante. É que os franceses e os alemães, embora muitas vezes desafinados, lá convenceram os portugueses a fazer coro com eles. É fácil imaginar como se sentiam os espanhóis no meio destes, mesmo sem os italianos.

Entre nós e os espanhóis há todas as condições para uma união de facto. Até já ouvi dizer que eles já arranjaram dezassete jardins iguaizinhos à nossa Madeira. Só ainda não conseguiram arranjar dezassete carnavais iguais aos do nosso jardim. Mas, quanto à música que se ouve em todos eles, parece que não se vislumbra qual a maior desafinação.

Aqui, na já arquitectada Peninsulândia, está a desenvolver-se o maior projecto franco-alemão de combate à falência do sistema bancário europeu e, consequentemente, de combate à riqueza excessiva dos pirosos da classe média. É preciso, pode ler-se no projecto, tirar-lhes a presunção de que são ricos, metendo-lhes a pobreza à frente dos olhos.

Daí que sejam eles os escolhidos para pagar a factura da reposição nos bancos, dos fundos que outros de lá desviaram para fins eminentemente de apoio a famílias altamente carenciadas de vergonha na cara. Além de peninsular e franco-alemão, é um projecto que isenta as elites de se meterem nisto, além dos que já deram tudo o que tinham a dar.   

É evidente que um projecto desta dimensão tem de ter uma sede à altura da grandeza da Peninsulândia. Daí que já esteja assente que ficará em Oeiras City, naqueles terrenos imensos que se descobriu agora que não tinham dono. É por isso que o eixo franco-alemão vai passar a chamar-se simplesmente, ‘Eixo Berlim Oeiras’. 

Mas, o projecto visa outros horizontes. Num futuro próximo, arranjar derivações para Atenas e Roma, onde os preparativos para as festas ainda estão à espera de verba. Depois, numa segunda fase, para Viena e Bruxelas, onde já se ouvem os foguetes da alvorada. Mais tarde, para toda a Europa, com a França e a Alemanha a serem os bombos da festa.

Está mais que visto. Acabou-se a nossa solidão, sempre na cauda de tudo. A Peninsulândia vai fazer de nós, um dos maiores da Europa. Vamos tratá-los todos por tu e dar-lhes conselhos. Mais, de quando em vez, mandamos-lhes recados.