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afonsonunes

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23 Nov, 2011

Vamos dormir

Neste dia de quinta-feira vinte e quatro do onze do onze, vou fazer aquilo que muita gente andou a fazer durante muitos anos e que, provavelmente, ainda haverá quem faça, com a desculpa de que não tem para fazer. Pois eu, que sempre tive o vício de trabalhar, vou para a caminha e espero dormir o dia todo.

Isto, se não fizerem muito barulho na rua, com o argumento de que neste dia é proibido fazer seja o que for, excepto barulho. Muito barulho, para lembrar a quem está a fingir que trabalha, que mais vale dar dois murros na mesa e vir para a rua juntar-se aos que não têm sono, nem vontade de deixar dormir os preguiçosos.

Só ainda não sei como vou resolver o problema das minhas refeições pois, certamente, vai ser muito difícil encontrar quem me venha trazer o pequeno-almoço à cama. Até porque também não estou a ver quem se atreva a acender o fogão, o meu e o dos outros lá fora, nem que seja para aquecer um simples copinho de leite.

Portanto, estou com muito receio que não possa estar todo o dia deitado na cama sem pequeno-almoço e, se isso acontecer, tenho quase a certeza de que não conseguirei mesmo dormir o dia todo. Sobretudo, quando chegar a hora da sopinha e do meu pratinho de batatas fritas com qualquer coisa que não dê muito trabalho a mastigar.

Mas, é ponto assente que eu não quero fazer nadinha neste dia, senão teria de ouvir a minha consciência a chamar-me traidor da classe trabalhadora, lembrando-me que o meu dever incontornável é morrer de fome, se não puder resistir, pois é preferível morrer como herói de uma causa justa, que sobreviver através de uma traição.

Aliás, tenho um argumento a meu favor. Não sou capaz sequer de fritar as batatinhas, quanto mais descascá-las e cortá-las ao jeito de as meter no óleo. Ou no azeite? Ora, quero lá saber, se não vou fazer nada disso. Quero mesmo é dormir descansadinho, se me deixarem e se a fome não me começar a fazer comichão na boca do estômago.

Agora tive uma ideia luminosa e ia preparar-me para ir à rua e abastecer-me, nestes minutos que faltam para me meter debaixo dos lençóis. Não resisti a dar um soco na cabeça, em sinal da minha estupidez nata. Nem sequer devia ter pensado nisso, pois é sabido que antes da meia-noite já está tudo fechado a sete chaves.

A propósito, como é que todas as outras pessoas, milhões delas com certeza, irão resolver este problema. Mas porque é que eu não pensei nisso mais cedo. É o que eu digo, ando sempre a aprender coisas depois de já não precisar delas. Mas, realmente, os restaurantes, os cafés e as tascas, devem ter de blindar bem as portas por causa dos assaltos.

Sim, porque a fome é negra. Já estou a relacionar porque razão já se falou em tumultos nas ruas, com os governantes a prometer que não havia motivos para que os cidadãos estivessem com medo. Ao fim e ao cabo, um pouquinho de fome não faz mal a ninguém, pois o maior problema não é a fome: é o excesso e a fartura.

Por isso é que os governantes também têm aconselhado os cidadãos a que cortem nas gorduras, em lugar de só pensarem em encher a malvada a toda a hora. Mas há uma coisa que me anda cá a fazer uma grande confusão. Julgava eu que os governantes também eram cidadãos mas, perante o que vejo, parece-me que não.

Bom, estou a falar de cor e isso não é bonito. Ninguém me garante que eles não vão fazer o mesmo que eu, repetindo o que, provavelmente, mais fazem todos os dias. Apesar de não estar certo do que penso, não vou deixar de ser obediente e respeitador dos meus deveres de cidadão cumpridor, não fazendo barulho e dormindo sem incomodar ninguém.    

Por isso é que eu já estou resignado. Vou mesmo já para a caminha e que ninguém me chateie até daqui a vinte e quatro horas. Se tiver fome e não dormir, fico contente porque, pelo menos fiz um esforço pelo bem do meu país.