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afonsonunes

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As palavras são como as cerejas porque, comendo uma, essa puxa sempre por outra. Gosto de ler o que por aí se escreve, acima de tudo, porque sou confrontado com as mais diversas opiniões, coincidentes umas, contraditórias, outras. Depois, interessantíssimos, são os comentários que tudo isso gera. De amigos, de conhecidos e desconhecidos.

Neste período político de abundante nebulosidade, é natural que quase tudo seja encarado como uma superfície frontal que se instalou por cima das nossas cabeças. Dela resulta que sejamos atingidos por períodos de chuva de palavras, mais grossa ou mais fina, além de levarmos, por vezes, com uns relâmpagos de trovoadas dispersas que toldam a vista.

Normalmente, muito do que se passa, se deve ao que dizem os que mandam chover, apesar de também terem os seus erros meteorológicos, bem mais gravosos que os dos meteorologistas que nos enganam com previsões diárias de bom tempo. Mas são os manda chuva que nos pregam as secas que uns adoram, outros detestam.

Ora aqui é que está o busílis da questão. Tomo como exemplo, o incontornável tema da austeridade. Vem o governo e repete até à exaustão que não há alternativa às medidas que tomou. Que aceita sugestões ou propostas, mas vai logo avisando que não aceita discutir o que não consta das suas decisões.

Porque, afirma, elas são sérias, realistas e necessárias. Penso que ninguém de boa fé, neste momento da nossa triste vida colectiva, pensa que podemos continuar a vida que temos levado. Penso que, como já foi dito por muita gente, nunca um governo teve tanto apoio à imposição de medidas duras como este.

Mas, então porque se movimenta tanta gente de todos os níveis, contra este estado de coisas que o governo não aceita discutir abertamente, sempre com a teimosia de que tem de ser assim mesmo e ponto final. Não se trata de birras de oposições ou malabarismos eleitoralistas, pois basta olhar para as personalidades que se pronunciam.

Do presidente, a gradas figuras do principal partido do governo, o tom é muito crítico, para não falar de gente com créditos firmados na Europa e no mundo. Teremos então de pensar que todos eles são irrealistas, ou que todos têm interesses ocultos, para acreditar que apenas o governo e os seus apoiantes são infalíveis e isentos nas suas visões da situação?   

Sendo a austeridade essencial e aceite como tal por quase toda a gente, temos de nos voltar para a forma como ela está a ser imposta. E isso tem que ver com quem mais a paga, ou seja, quem é mais sacrificado com as medidas encontradas para a pagar. Tem a ver com a já falada equidade, mas parece que ela assusta muita gente.

Gente que lhe convém ir sempre ao encontro do óbvio. A necessidade, a obrigação, o patriotismo, a sobrevivência e não sei que mais. Falem da equidade, convençam os críticos da sua existência e da razão de ser da não inclusão nos sacrifícios, dos que mais contribuíram para esta catástrofe que atingiu o país, que são aqueles que mais contribuíram para ela.

Que houve muitos erros no passado, houve, mas então ninguém se excluiu de participar neles. Que continua a haver muitos erros no presente, há, mas o pior de todos eles, é a imposição de que sejam sempre os mesmos a pagá-los. E é isso que se contesta, muito justamente, com consequências muito mais gravosas do que pensam os que não querem ver.

A prova disso mesmo, é a espiral de violência que se vai desencadeando por todo lado, enquanto agora, ainda se olha apenas a indisciplina que, dizem, não só não resolve nada mas, até prejudica. É verdade, se não olharem para os sinais que nos mostram. Procurem as causas, e verão como se ganha tempo, dinheiro e razão, se demonstrarem abertura e lealdade.

Porque essa argumentação de que quem ganha eleições tem legitimidade para tomar todas as medidas que entende, mesmo que diga que são imprescindíveis, só tem razão de ser se for totalmente cumprido o programa sufragado. Basta referir o último governo, que não cumpriu o mandato para que foi eleito.

Neste momento, não é difícil pensar que é o governo que se comporta como se estivesse a lutar contra inimigos imaginários. Inimigos que o governo, na verdade, não tem. Basta que saiba distribuir os sacrifícios com a tal equidade.