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afonsonunes

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07 Out, 2008

O clima e o medo

 

 
Como a ordem dos factores é arbitrária, pelo menos era quando eu fui aluno, tanto se pode falar de clima de medo, como de medo do clima. Porém, na realidade não é assim, porque o clima, andando quente no que respeita ao medo, ficou muito aquém das expectativas para quem estava cheinho de medo do clima deste verão, que se esperava escaldante e acabou por vir muito mais fresquinho que o esperado.
Mais a sério, há quem goste particularmente de falar de medo em circunstâncias muito diversas. Medo, tanto pode ser um habitante da Média, antiga Pérsia, como pode ser um sentimento de inquietação, devido a um perigo real ou aparente. Quem manifesta medo é uma pessoa medrica, medricas ou medrincas, segundo reza o dicionário dos meus tempos de aluno.
Feito este intróito, passemos ao clima de medo. Anda muita gente com medo, é verdade. E com razão, pois lá diz o povo que quem tem c.´ tem medo. E, que eu saiba, todos temos isso. Agora, o problema está em como acabar com o medo que nos provocam os infelizes das pistolas, das espingardas, reais ou de plástico, que nos apontam à cabeça, para nos tirar o que temos.
Uns querem mais polícias. Outros querem mais prisões. Alguns preferem tiroteio como nos filmes de cowboys. Depois, aparecem uns tantos que vaticinam o fim deste clima, quando houver uma melhoria radical do nível de vida dos infelizes donos das armas porque, dizem, não se combate a violência com violência. Em muitos casos é verdade. Mas, é preciso saber de que violência se trata. Se um desses infelizes mata a sangue frio, logo haverá quem diga, coitadinho, se em resposta lhe derem um tiro.
Segundo essa teoria, temos de dar, oferecer, obsequiar o infeliz, com um bruto Mercedes, com motorista lá dentro e um cartão de crédito ilimitado, para que deixe de nos assustar e, eventualmente, de nos matar.
Bom, a ser assim, vai morrer muita gente até que chegue esse tempo, pois as previsões mais optimistas apontam para uma percentagem cada vez menor de candidatos a Mercedes e, ainda menor, a beneficiários de cartão de crédito ilimitado.
Sendo assim, coitados desses infelizes, que vão ter a vida complicada. E, coitados também, dos cidadãos que vão continuar medricas para sempre.
Mas, talvez não seja bem assim, pois temos esperança que ainda há quem viva com os pés bem assentes na terra e não viva de sonhos, que tão depressa são coloridos demais, como logo se transformam em tenebrosos pesadelos.  
06 Out, 2008

Mamã eu quero

 

 
Pudera, não havia de querer uma coisa tão desejada e tão difícil de conseguir, apesar das muitas facilidades que se apregoam por aí, havendo até quem se aventure a falar de facilitismos. Pelo contrário, há quem fale de dificuldades de toda a ordem, mesmo no que toca àquilo que eu estou farto de pedir à minha mamã, sem resultado. E ela só me não dá aquilo que não pode, pois não é diferente de todas as mamãs do mundo, quando se trata dos seus filhos.
Sem mais rodeios vamos ao fundo da questão. O que eu mais queria era segurança, tanto em casa como fora dela. A minha mamã já me explicou que há muita gente importante a conversar sobre o assunto e disse que está convencida que não são eles que cometem esses crimes de assaltos e mortes a cada dia que passa. Não é que não pudessem ser potenciais arguidos, mas diz que é mais sensato desconfiar de desconhecidos que a gente nunca viu em lado nenhum, por causa de possíveis ameaças subsequentes.
No seguimento da conversa maternal, confessei que me parecia aconselhável um grande consenso nacional no combate a esse flagelo, convidando-se todas as partes interessadas para um encontro informal, onde estariam representantes dos assaltantes, dos assaltados, dos advogados, dos polícias e dos juízes. A minha mamã soltou logo um hum de nariz torcido, como se eu acabasse de sugerir o maior disparate do mundo. Foi então que eu esclareci que sempre ouvi dizer que as coisas se devem resolver pelo diálogo franco e leal entre todas as partes.
Aí, a minha mamã puxou dos galões e fez-me ver que a minha ignorância era tal, nesta complicada matéria, que me tinha esquecido da parte mais importante para a resolução do conflito. E, sem me deixar piar a mais leve dúvida, logo acrescentou que eu esquecera o representante do governo, de preferência, ao mais alto nível, ou seja, o primeiro-ministro. E veio o desabafo cruelmente repreensivo: aprende, filho, que eu não duro para sempre.
Meio corado pela reprimenda, meio envergonhado pela ignorância, enchi-me de coragem e pensei que, já agora, valia a pena despejar o resto da ignorância que ainda tinha cá dentro. Sabe, mamã, quem deve lá estar no futuro é o secretário-geral, que ainda não existe, logo, o governo não tem nada a ver com isso, pois todos os outros fazem parte de órgãos de soberania ou de órgãos independentes, que não aceitam interferência de ninguém, muito menos do governo, nas suas missões de grande relevo para a salvaguarda da liberdade e da democracia.
Ah! – exclamou a minha mamã com surpresa – E os ladrões?...
06 Out, 2008

Os Taca-tuca

 

 
 
Os Taca-tuca estão a inundar os meios de comunicação social e ameaçam tornar-se tão insuportáveis como certos meninos mal criados que já não respeitam nada nem ninguém.
 
Em tempos idos, nos chamados tempos da outra senhora, usavam o tratamento de excelência quando se dirigiam a certas personalidades da vida nacional, suponho que como sinal de respeito pelos serviços que prestavam à comunidade e, ou, pelo cargo superior que desempenhavam.
 
Não estou certo que isso se devia a ordens superiores, mas não me admiraria nada. Toda a gente sabe que os tempos são outros.
 
As excelências que outrora usavam sempre fato e gravata, andam hoje de colarinho bem aberto e em mangas de camisa, como qualquer plebeu de vão de escada, ou mesmo como os ilustres trabalhadores dos mais variados estratos sociais. Isto quer dizer que o vestuário se democratizou e a linguagem acompanhou a moda.
 
Hoje, o você está na berra, tanto de baixo para cima, como de cima para baixo, dando sequência a uma certa preocupação das classes mais elevadas pretenderem baixar artificialmente o seu nível social, enquanto as classes mais baixas, pretendem dar a entender que não são assim tão baixas.
 
Os Taca-tuca estão um pouco mais avançados. Já não há excelências para ninguém e até o você está muito limitado. O tu-cá-tu-lá, ou seja, a antiga linguagem dos caldeireiros, já está generalizada, principalmente, quando falam dos mais altos representantes do estado.
 
Quando apanham um ministro pela frente, até parece que andaram com ele na escola, com a particularidade de deixarem bem claro que o ministro andava então, na primeira classe e eles na quarta classe. Ainda falo em classes, porque me trazem à ideia os desclassificados que há em todas as classes sociais.
 
Ser desclassificado não é defeito, mas é uma condição, na qual se não pode perder de vista a qualificação daquele com quem se fala. Não para o tratar por excelência, ou por tu, ou por você, mas para reconhecer a diferença entre um desclassificado, muito ou pouco ignorante, e um qualificado, sempre acima da ignorância.
 
Os Taca-tuca não são capazes de transmitir informação sem meterem nela o bedelho da sua imaginação, onde predomina a ânsia da polémica, sem a qual não há notícia que valha a pena. Daí que, ao recolherem essa informação, lhes não saia da ideia o tuca-tuca das perguntas parvas ou perniciosas, mas no mínimo repletas de um veneno disfarçado de petulância, muitas vezes transmitido em taca-taca, na esperança de um deslize de quem fala com eles.
 
Se tal acontecer, vai ser uma festa, se o visado ocupar um cargo importante e for, simultaneamente, de uma cor que não agrada ao caça asneiras ou ao seu superior hierárquico. Mas, o normal, será conseguirem dar sempre uma versão conveniente, mesmo quando o original é inconveniente.
 
De um determinado tema, conseguem sempre retirar um anti-tema. Do todo que não lhes agrada, haverá sempre uma parte a que podem dar a volta no sentido que lhes convém. 
 
Os Taca-tuca são os arautos do atraso daqueles que os vêem e os ouvem sem pestanejar. Ao contrário, podiam ser arautos do desenvolvimento e da cultura, Podiam mostrar bons exemplos, a começar nas suas próprias boas maneiras, contribuindo para a educação de quem não teve oportunidade de as aprender na devida altura. Podiam contribuir para que a verdade não fosse tão atropelada a toda a hora, a começar por eles próprios. Podiam ser tudo, mas ao contrário do que são agora.
 
Então, sim, podíamos nós, os que ouvimos e vemos os Taca-tuca, olhar para eles sem fazer uma careta esquisita.
 
 
05 Out, 2008

Os Taca-tuca

 

 
Os Taca-tuca estão a inundar os meios de comunicação social e ameaçam tornar-se tão insuportáveis como certos meninos mal criados que já não respeitam nada nem ninguém.
 
Em tempos idos, nos chamados tempos da outra senhora, usavam o tratamento de excelência quando se dirigiam a certas personalidades da vida nacional, suponho que como sinal de respeito pelos serviços que prestavam à comunidade e, ou, pelo cargo superior que desempenhavam.
 
Não estou certo que isso se devia a ordens superiores, mas não me admiraria nada. Toda a gente sabe que os tempos são outros.
 
As excelências que outrora usavam sempre fato e gravata, andam hoje de colarinho bem aberto e em mangas de camisa, como qualquer plebeu de vão de escada, ou mesmo como os ilustres trabalhadores dos mais variados estratos sociais. Isto quer dizer que o vestuário se democratizou e a linguagem acompanhou a moda.
 
Hoje, o você está na berra, tanto de baixo para cima, como de cima para baixo, dando sequência a uma certa preocupação das classes mais elevadas pretenderem baixar artificialmente o seu nível social, enquanto as classes mais baixas, pretendem dar a entender que não são assim tão baixas.
 
Os Taca-tuca estão um pouco mais avançados. Já não há excelências para ninguém e até o você está muito limitado. O tu-cá-tu-lá, ou seja, a antiga linguagem dos caldeireiros, já está generalizada, principalmente, quando falam dos mais altos representantes do estado.
 
Quando apanham um ministro pela frente, até parece que andaram com ele na escola, com a particularidade de deixarem bem claro que o ministro andava então, na primeira classe e eles na quarta classe. Ainda falo em classes, porque me trazem à ideia os desclassificados que há em todas as classes sociais.
 
Ser desclassificado não é defeito, mas é uma condição, na qual se não pode perder de vista a qualificação daquele com quem se fala. Não para o tratar por excelência, ou por tu, ou por você, mas para reconhecer a diferença entre um desclassificado, muito ou pouco ignorante, e um qualificado, sempre acima da ignorância.
 
Os Taca-tuca não são capazes de transmitir informação sem meterem nela o bedelho da sua imaginação, onde predomina a ânsia da polémica, sem a qual não há notícia que valha a pena. Daí que, ao recolherem essa informação, lhes não saia da ideia o tuca-tuca das perguntas parvas ou perniciosas, mas no mínimo repletas de um veneno disfarçado de petulância, muitas vezes transmitido em taca-taca, na esperança de um deslize de quem fala com eles.
 
Se tal acontecer, vai ser uma festa, se o visado ocupar um cargo importante e for, simultaneamente, de uma cor que não agrada ao caça asneiras ou ao seu superior hierárquico. Mas, o normal, será conseguirem dar sempre uma versão conveniente, mesmo quando o original é inconveniente.
 
De um determinado tema, conseguem sempre retirar um anti-tema. Do todo que não lhes agrada, haverá sempre uma parte a que podem dar a volta no sentido que lhes convém. 
 
Os Taca-tuca são os arautos do atraso daqueles que os vêem e os ouvem sem pestanejar. Ao contrário, podiam ser arautos do desenvolvimento e da cultura, Podiam mostrar bons exemplos, a começar nas suas próprias boas maneiras, contribuindo para a educação de quem não teve oportunidade de as aprender na devida altura. Podiam contribuir para que a verdade não fosse tão atropelada a toda a hora, a começar por eles próprios. Podiam ser tudo, mas ao contrário do que são agora.
 
Então, sim, podíamos nós, os que ouvimos e vemos os Taca-tuca, olhar para eles sem fazer uma careta esquisita.
 

 

 
O país está cheio de vítimas de toda a espécie de catástrofes que nos caem em cima diariamente, o que nos conduz à constatação de que já não há um único português verdadeiramente feliz. Pois, estão a pensar naqueles… E eu estou a pensar que nem esses já têm vontade de abrir um modesto sorriso para as câmaras de televisão.
Quanto aos outros, anda por aí uma onda de suspiros e desabafos contagiantes, a ponto de já se encarar a possibilidade de deslocalizar o país para parte incerta, dada a impossibilidade de encontrar por cá as encomendas necessárias e suficientes para a salvação nacional. Ainda não há muito tempo, encomendas eram o que não faltava na nossa praça e completamente disponíveis para todo o serviço.
O país está uma vítima pegada. Calcule-se que se soube agora que um honrado chefe de família teve de emigrar para as vindimas, para ganhar o dinheiro suficiente para pagar os livros do filho que vai entrar agora para a escola. Não fosse a perspicácia de um jornalista como deve ser, lá ficaríamos nós sem conhecer este drama familiar. Uma tragédia inigualável, num país que, segundo fontes próximas do delírio, já deve estar perto de deixar de ter vindimas.
Mas, ainda temos com fartura quem nos diga o que faz o Zé dos Anzóis, o Tó Melancia ou a Joana Salsinha, todos com as suas actividades milenárias em vias de extinção, por falta de apoios para os sachos, para os ancinhos e para as galochas. Estranha-se, porém, que ainda ninguém lhes tenha dito que a sua salvação está em ir para as vindimas, remédio santo para salvar situações verdadeiramente catastróficas.
Se todos encararmos a salvação do país por este prisma, ele não só será viável, como resolverá o problema do coro dos apavorados, dos medrosos e dos desconfiados, que até poderão beber um pouco de sumo das uvas do ano anterior, depois de um dia de trabalho insano nas vindimas salvadoras.
Já é muito velho o slogan de que beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses. Ainda será? Mas, não há dúvida de que solta a língua e faz sorrir.
03 Out, 2008

A massa e o sangue

 

 
É difícil estabelecer uma relação lógica e razoável entre massa e sangue, sobretudo porque a massa se presta a muitas cogitações, à cabeça das quais aparece o tentador vil metal, o pilim, aquilo com que se compram os melões, ou o vulgar dinheiro, para ser mais concreto. Depois, há uma infinidade de massas que nem vale a pena perder tempo a enumerá-las.
O sangue, por seu turno, é um líquido mais ou menos viscoso, mais ou menos colorido, dependendo de quem o fabrica e o traz em circulação dentro de si próprio. Tem tudo a ver com o seu hospedeiro, podendo provocar-lhe dores de cabeça ou apertos no coração mas, seguramente, não lhe amassa o corpo, embora lhe possa amassar as ideias, se atingir o ponto de ebulição.
Contudo, isso não justifica afirmar-se que há uma relação entre a massa, seja ela qual for, e o sangue que nos permite manter o estatuto de seres vivos. É por isso que não se compreende aquela frase corrente, “ está-lhe na massa do sangue”. É uma sentença definitiva, sem recurso possível.
Alguém, cujo nome propositadamente não me ocorre, disse que Salazar teve negócios com Hitler e o regime nazi, tal como Sócrates teve negócios com Chávez e o seu regime comunista, terminando a sua ignominiosa comparação, com a tal arrancada patriótica de “ está-nos na massa do sangue”. Como falou, ou melhor, escreveu no plural, penso que estava, principalmente, a fazer um juízo de si própria pois, pelo que me toca, nem o meu sangue tem massa, nem a minha massa tem sangue.
Não me admiraria nada se a comparadora buscasse apenas o seu momento de glória, através de um sensacionalismo estúpido e gratuito, que tem sempre alguns receptadores da sua igualha. Sim, porque quando interessa, metem-se dentro do mesmo saco, ditadores assassinos que se impuseram como tal, misturando-os com líderes democraticamente eleitos pelos seus povos. Infelizmente, há quem não entenda a diferença. Talvez tenham massa bruta a mais dentro do próprio sangue.
É provável que não haja remédio na farmácia para tão difícil maleita, mas há uma sugestão doméstica dos antigos, que consiste em misturar um pouco de sangue do doente, com umas gotas de suor proveniente de trabalho sério. Depois juntam-se algumas lágrimas vertidas, após uma reflexão profunda sobre os erros passados. Este preparado não é para tomar. É para olhar com respeito, sempre que a tentação da asneira se mostre na eminência de atacar.
Isto não nos está propriamente na massa do sangue, mas trata-se de uma verdadeira massa redentora das consciências mais duras, que só uma mezinha milagrosa pode salvar.
Vale sempre a pena tentar.
 
 
 
02 Out, 2008

Tento na língua

 

 
 
Já lá vai o tempo em que era preciso ter muito cuidadinho quando se punha a língua a passear pela vida alheia, sobretudo pela vida de certas personalidades mais ou menos importantes, muito ciosas da sua vida intocável, ainda que poucas vezes irrepreensível. Falava-se então em respeito e falta de respeito, mas a verdade é que havia muito daquilo que ficou na memória colectiva como a lei da rolha.
Como tudo na vida tem a sua época, temos agora a possibilidade de pôr a língua a passear onde nos apetece sem que alguém se preocupe com isso, mesmo aqueles que teriam motivo para as morder com raiva. Contudo, nem pensam nisso, pois apenas veriam os seus males agravados, optando pelo silêncio e esperando que a onda passe.
Porém, como em tudo na vida, há sempre aquelas excepções que por vezes nos deixam de boca aberta, para não dizer que ferem estupidamente a mais que compreensível lógica da coerência. Para ilustrar esta afirmação basta ir ao encontro de dois exemplos bem na berra da nossa sociedade, mediatizados por excelentes aproveitadores de polémicas de capoeira.
Vamos primeiro à política, ou não fosse ela um brinquedo de estimação de muita gente. Política que, além da brincadeira, ainda dá a comida a muitos brincalhões. Ora, é bem evidente que todos os dias há quem se divirta, mesmo espumando abundantemente pela boca, ao lançar ofensas pessoais, pelas formas mais diversas, a quem está a cumprir legitimamente as mais elevadas funções do país. Qualquer tentativa de meter na ordem os malcriados, seria considerado um acto de ofensa às liberdades individuais.
Contudo, o maior agressor nesta matéria, no seu reino do Atlântico, não permite a mais leve crítica à sua actuação, recorrendo frequentemente aos tribunais, para ser indemnizado por ofensas à honra que nunca teve para com os outros. É o que se chama um homem honrado.
Vamos agora ao futebol, o campo onde se joga muita política. Também no reino da bola há dirigentes que podem lançar as mais torpes atoardas em todas as direcções, embora com alvos seleccionados, sem que os órgãos máximos se manifestem minimamente contra tais práticas que destroem a credibilidade da mais popular das modalidades desportivas. Ao contrário, se forem outros dirigentes a levantar a sua voz contra a impunidade de quem tudo falseia ou tenta falsear, é certo que terá processos disciplinares em cima e ameaças de processos em tribunal. E aqui ninguém está no meio do Atlântico, mas parece que há alguém que sente viver numa ilha de privilégios.
Na política e no futebol, a credibilidade é o segredo do sucesso e a alma do negócio que anda por ali misturado, por muito que se queira fazer ver o contrário. Mas, ao menos, que seja um negócio sério.
Porém, antes de mais nada, haja tento na língua para todos os que pretendem imitar as víboras.
  
 

Toda a gente pode estar perfeitamente tranquila porque não está a nascer nenhuma nova crise. Bem nos bastam as que já temos e mais as que não o sendo, temos de as aceitar tal qual nos são vendidas e como se o fossem de verdade. Quanto aos arranhões, também podem estar tranquilamente descansados que não há gatos a arranhar seja quem for.

O que acontece é que nós portugueses, temos uma língua muito difícil, o português, que dá água pela barba a muito boa gente cá do burgo. É curioso que qualquer chinês ou ucraniano fica a falar português ao fim de pouco tempo de permanência entre nós. Não precisou da nossa primária, nem dos nossos cursos de formação pós laboral, para trabalhar entre os portugueses que ainda trabalham, ou vender chinesices como os comerciantes portugueses que não são capazes de vender portuguesices.
Daí que tenhamos de reconhecer que falar português não é assim tão difícil como se apregoa. Mas, cada vez assistimos a mais polémicas do diz que disse mas não disse, de certos políticos, em relevantes lugares da vida nacional. Mas, curioso é também o modo como uma data de comentadores e analistas políticos interpretam as palavras que ouviram, muitas vezes confundindo-as com as palavras que gostariam de ter ouvido. É caso para perguntar se, para eles, a língua portuguesa é mais difícil que para os chineses ou ucranianos, que sabem perfeitamente o que lhes querem dizer e arranham suficientemente o português de modo que todos entendamos perfeitamente o que eles querem dizer.
Porém, mais estranho ainda, é que a língua portuguesa se deixe arranhar por gente tão ilustre, mas com arranhões completamente diferentes em circunstâncias perfeitamente iguais. Ao menos que arranhem todos da mesma maneira.
Rica língua portuguesa que não tem culpa nenhuma de haver quem a trate como pobre.

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