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afonsonunes

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Há quem não goste de ouvir certas vozes e há quem não possa ver certas combinações de letras, só porque formam palavras de que não gostam, ou gostavam de ver nelas outras combinações. Ouve-se dizer muitas vezes que a falar é que a gente se entende mas, com gostos esquisitos, tudo se complica.

Nesta fase complicada, em que o mundo evolui num sentido que é caminhar em contra-mão para quase toda a gente, verificamos a todo o momento que a falar já ninguém se entende. Quase toda a gente opina, de preferência sobre o que não sabe. Quase toda a gente nos quer impingir a razão que sabe que não tem.  

Há quem oiça falar em alhos e logo lhe associe os bugalhos que lhe enchem a mente. Há quem olhe para um texto e logo fique enjoado só porque vê muitas letras juntas, pensando que se trata, provavelmente, de uma sopa de letras ou de uma montanha de hieroglíficos, dos quais há que fugir quanto antes.

Olhamos para certas parangonas sensacionalistas e ficamos a pensar que as pessoas e o mundo estão a descambar para a parvoíce. Há momentos em que nos é difícil localizar a sua verdadeira dimensão, enquanto não vamos à origem do facto em causa. Depois, não tardará a vermos que a parangona, afinal, não passou de uma obra de um autor em delírio.

É assim como se tivesse visto uma ovelha calma a pastar num prado. Fechou os olhos e logo viu um rebanho de ovelhas em grande pânico, porque no meio delas se infiltrou uma alcateia e desatou a matar a torto e a direito. O visionário abriu os olhos e logo descortinou uma matilha que, esfaimada, ia comendo dos estragos provocados pelos lobos.

O maior problema resulta dos visionários que envolvem pessoas concretas nos seus delírios, aproveitando uma ou outra palavra, de uma ou outra notícia, para criarem as suas montanhas que, depois de revolvidas cuidadosamente com um olhar sério, muitas vezes nem sequer nos surpreendem com o habitual ratinho inofensivo.

Cá para mim, que gosto de ler o que vejo sem lhe acrescentar visões, estas coisas acontecem por qualquer deficiência que leva esses autores, de discursos orais, de prosas ou de imagens, a serem afectados por um qualquer cansaço dessas actividades, que os leva a fazerem os seus juízos sem se debruçarem minimamente sobre aquilo que viram.

Ora, que eu saiba, ninguém é obrigado a ver o que não gosta. Por exemplo, quem não gosta de ler, ou não tem propensão para interpretar correctamente o que lê, deve dedicar-se à pesca, embora com muito cuidado, pois pode muito bem começar a ver tubarões no meio da água, onde nem sequer se vê um peixe-cabeçudo.   

Mas, fora de água, os cabeçudos não se cansam de meter água à sua maneira, pois não perdem uma única oportunidade para vender o seu peixe, esquecendo-se de que o peixe putrefacto não é aceite como fresco, só porque é vendido a pingar água da guelra. Portanto, também para esta actividade, é preciso ter algum jeito.

Enfim, ler bem ou ler mal, falar ou meter água, eis a questão. Agora, sem dúvida, quem não quer ler, é como se não soubesse. Quem se cansa sem ler, sem escrever e sem falar, é porque já nasceu cansado. Mas, as letras e as palavras, não têm nada a ver com isso.