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afonsonunes

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17 Jun, 2009

Deixa-me rir

 

Cada qual tem a sua maneira de reagir às situações que se lhe deparam no dia-a-dia, tal como cada qual tem a sua maneira de as viver quando lhe tocam na pele. É natural, e não é isso que torna as pessoas melhores ou piores que as outras, como muitas vezes parece depreender-se daquilo que vemos e ouvimos.
Há quem tenha uma certa tendência, julgo que um tanto egocêntrica, para exprimir as suas opiniões de forma a colocar outras pessoas pelas ruas da amargura, como se isso lhe desse um prazer especial, por estar a contribuir para influenciar opiniões alheias, quando não, com a convicção de que tudo o que diz, é uma verdade indiscutível.
Quantas vezes se verifica que essas verdades, não só são discutíveis, como facilmente se demonstra que não resistem à mais simples análise dos factos que as envolvem. E, infelizmente, essa prática vem-se tornando recorrente, resultando num aparente sucesso no imediato mas que, a prazo, e com a sistemática repetição do processo, vai conduzindo à real identificação de tais métodos e intenções dos seus autores.  
Certamente que essas pessoas, também ouvem opiniões de outras pessoas que opinam em sentido contrário. Estas divergências de opinião são normais e até salutares, tendo em conta que ninguém é senhor absoluto do conhecimento e do saber. E, já agora, do conhecimento e do saber que possui, quem se adjectiva com mimos menos dignos.
Por esta ordem de ideias, quem não pensa como elas, depreende-se que lhes mereçam o mesmo respeito, que não têm para com quem põem permanentemente pelas tais ruas da amargura. Essas pessoas não admitem que lhes faltem ao respeito, e muito bem, mas respeitar os outros, isso é que elas não sabem.
Quando se insiste em ridicularizar alguém de forma persistente e continuada, sempre com o mesmo tipo de argumentos e insinuações que, espremidos não dão em nada, seria mais curial que, por comparação, se fizesse uma reflexão sobre o eu e o ele ou ela.
É fácil ir na onda que não afoga ninguém, ou, como agora se diz, ir atrás do que está a dar. E o que não está a dar mesmo nada, é reprimir impulsos, conter desejos, encarar realidades, que podiam e deviam manter-se dentro dos limites do razoável civismo a que todos os cidadãos estão vinculados, ainda que só moralmente.
É fácil achincalhar, em nome de uma luta que, por mais que se diga que é corajosa e justa, não passa de uns assomos de procura de qualquer coisa que, por não ser clara, anda escondida nas brumas da mente. Mas, tudo se adivinha no tempo devido.
O resto, são desesperos, ou simplesmente exageros, que por vezes me fazem rir.
 

 

Já estava farto de ouvir dizer que a campanha para as europeias havia sido uma lástima. Que ninguém havia dito nada de novo, nem nada de jeito. Que apenas tinha havido discussão sobre questões relacionadas com roupa suja e afins.
Eis que, entretanto, se começa a dizer que alguém havia feito uma grande campanha, mesmo uma campanha extraordinária. Talvez eu tenha ouvido mal. É que, não me admiraria nada que se quisesse dizer extra ordinária, tendo em conta as opiniões correntes, ao longo dos dias anteriores.
Também ouvi dizer muitas vezes que, a agora grande vencedora, não tinha condições para se aguentar até Outubro. Que não tinha propostas, para além de não acertar no ritmo de dança com a comunicação social. Que os barões andavam em manobras. Que tirar a maioria absoluta aos outros, já seria uma grande vitória.
Ainda ouvi dizer que há umas tantas famílias de corruptos e não só, a contas com a justiça. Que há quem queira as famílias políticas abaixo das outras. Estas confusões de famílias, dão-me cá uma embirração que nem queiram saber. É que, assim, acabei por não saber se havia de assinar por cima ou por baixo, e de que famílias.
Pois, eu sei que tudo isso já é passado e que, por acaso, até correu tudo muito bem. A vida tem destas coisas. Quando a vida parece perdida, eis que tudo renasce das cinzas e tudo fica ouro sobre azul. Até algumas famílias ficam a parecer aquilo que não são. No caso, não azuis, mas laranjas. Enfim, como alguém de cabeça baixa já disse - é a vida.
Tudo isto, para dizer que tudo muda num instante. Os corruptos mudam de família. Os inaptos passam a heróis. Os infelizes passam à felicidade suprema. Os malandros descem, finalmente, às profundezas do inferno.
Pelo que tenho visto e ouvido à minha volta, parece que tudo isto já aconteceu.
Agora, à nossa frente, temos um futuro risonho, com um único senão. Vamos ter de pagar a conta da mudança. Pois, é preciso meter obras em casa, porque os velhos inquilinos deixaram tudo escavacado. É preciso pagar as dívidas que eles deixaram, mesmo dizendo que já as lá encontraram. É preciso pintar o país quase todo, porque ele, realmente, mudou de cor.
Sim, realmente é preciso pagar muita coisa que vai ser necessário fazer mas, isso não tem importância absolutamente nenhuma. Nem sequer faz falta o cómodo cartão de crédito, ou o cheque com a importância em branco.
É fácil de explicar. Se os novos inquilinos se aguentarem muito tempo, cá estamos nós para pagar com língua de palmo. Se, por qualquer infelicidade inesperada, a estadia for de curta duração, quem vier a seguir que pague a conta.
Alguém se admira? Alguém tem dúvidas? Pois olhe para trás, mas mesmo muito para trás, e diga quando é que não foi assim.
É caso para dizer – coisas do arco-da-velha.
 
15 Jun, 2009

Ingratos

 

Ingratos são, mais ou menos, todos os portugueses, porque não sabem reconhecer todos os benefícios que recebem, ou receberam, dos políticos que os amam até à loucura. Que se sacrificam até à exaustão pelos seus queridos concidadãos, sendo muito bem capazes de abdicar dos seus direitos, que até são poucos, para colmatar dificuldades pontuais ou permanentes dos deserdados da sorte ou do estado.
Podemos facilmente constatar esta realidade, olhando para a sociedade que temos onde, se alguém passa por dificuldades de perder a cabeça, são exactamente os políticos. Porque os cidadãos podem ter uma ou outra dor de cabeça mas, com uma pastilha dos genéricos, que agora até são de borla, adeus problema. Os políticos, não. Quando têm um problema na cabeça, só têm um remédio que os pode salvar. É cortar a cabeça. 
Mesmo depois de os políticos a terem perdido, os portugueses ainda continuam a ser ingratos para com eles. Por exemplo, chega a ser crueldade, ver como um político com um currículo quase inigualável, que criou pontes entre o país e o resto do mundo, por onde circularam biliões, ser tratado como um reles traficante de moeda falsa. Não, a cadeia não foi feita para heróis desta estirpe.
Um político, outro exemplo, que um dia foi a Porto Rico passar férias, teve a ideia luminosa de tentar criar um Portugal Rico. Podia simplesmente ter-se ficado por uma Lisboa Rico, não soa bem, talvez um Porto Rico na foz do Douro. Mas, dentro da sua modéstia, começou pelo princípio. Primeiro, fez-se, ele próprio, rico, sempre com o Portugal Rico no pensamento. Se ele já era, ainda faltavam os outros.
Os ingratos, só deixaram que ele se ficasse pelo princípio. Mais, certamente que ninguém vai acreditar mas ele, mesmo muito rico, não tem nadinha dentro dos bolsos. Já foi confirmado, depois de o virarem de pés para cima e cabeça para baixo. É inacreditável, mas toda a riqueza dele deve estar por aí, nas mãos desses ingratos que não o deixaram criar o Portugal Rico.
Ele sabe do que fala quando diz que não há gratidão. Porque ele sabe perfeitamente que lhe roubaram a ideia do Portugal Rico, que o não deixaram concretizá-la, porque os ingratos andam agora a recomeçar o seu projecto. E vão começar pelo princípio, tal como ele.
Mas, pior que isso, muito pior, para os ingratos, são todos aqueles políticos que, depois de perderem a cabeça na política, foram recuperá-la no mundo dos negócios. Chamam-lhes corruptos. Ora aí está outra ingratidão que, só por pura distracção se desculpa, a quem perde a memória de um momento para o outro.
Quando esses políticos estavam no activo, não deixavam de gritar, rua com eles, fora daqui, e por aí adiante. Agora que eles estão sossegadinhos, quase sempre caladinhos, que só incomodam porque ganham bem, com franqueza… Será que os ingratos querem ir para o lugar deles? Tenham calma, também chegará a vossa vez.
Realmente, alguém disse que na política não há gratidão. Eu assino por baixo. Ingratos. 
14 Jun, 2009

Líder, eu?

 

Não penso noutra coisa desde que me conheço, assim como quem já me conhece, não pensa ver-me senão a liderar. Isso só prova que eu sou um líder nado e criado, com uma liderança nos pés e outra na cabeça. Que ninguém pense que estou a delirar, ou a inventar um estilo de auto propaganda.
Eu sei que sou um líder, porque me lidero a mim próprio há muito tempo. Mas mesmo muito tempo. Aliás, quando se descobriu que o Mourinho era um líder mundial, já eu era um líder na minha casa. Melhor, na casa dos meus pais. Tanto assim é, que quem decidia se comia as papinhas ou dava um berreiro, era eu e mais ninguém.
Quando o Ronaldo se transformou no segundo líder mundial português, a seguir ao Mourinho, já eu era o líder que falava mais qu’a Gaia toda. Nem no Olival e arredores, havia quem me batesse em palheta, apesar da concorrência ser muito forte por essas bandas.
Por tudo isso, muito estranho agora que andem por aí uns sujeitos muito distraídos a perguntar-me se eu quero ser líder. A resposta é óbvia e directa. Não quero ser líder, simplesmente, porque já o sou, há muito tempo. Já sei que haverá quem diga, à pois, não sabia, nunca tinha reparado nisso. E eu apenas digo, distraídos.
Agora, isto para todos os distraídos acordarem, tenho a acrescentar que é lamentável que só agora tenham reparado num líder tão claro como eu. É inaceitável que um líder tão evidente e tão vidente como eu, não tenha sido reconhecido muito mais cedo, porque a minha voz é inconfundível quando falo verdade.
Quero sobretudo salientar que não quero ser líder a qualquer preço. Não quero ser líder, sacrificando lideranças que me deixaram passar. Não quero deixar ninguém sem emprego, por isso, eu vou ultrapassar legalmente, que é dentro da velocidade legal, de modo que os ultrapassados continuem na sua velocidade de cruzeiro.
Quero ser líder, mas com o meu preço devidamente esclarecido e transparente para que, daqui a alguns dias não venham chamar-me corrupto, como eu já fiz a tantos, e com toda a razão. Porque eles não têm qualquer hipótese de virem a ser líderes como eu. Não torçam o nariz, que eu explico tudo muito bem explicadinho.
Como já referi, o Mourinho foi o primeiro grande líder mundial português. Actividade, treinador de futebol. O Ronaldo foi o segundo grande líder mundial português. Actividade, jogador de futebol. Pois, está tudo em suspenso, para ver quem vem a seguir. Mas eu explico já.
O terceiro grande líder mundial português, está-se mesmo a ver que sou eu. Actividade, político de verdade. Local de desempenho, algures no mundo. Preço, qualquer um, desde que não seja a qualquer preço. Tenho consciência que sou o terceiro líder mundial, porque se fosse o primeiro…
Atenção, eu não quero ser confundido com outros políticos portugueses do mundo, como aqueles que ainda por lá andam, ou mesmo com aqueles que já por lá andaram. Eu quero mesmo ser o líder de todos eles.
 
13 Jun, 2009

Jeitos

 

Cada um vai descobrindo os jeitos que tem, à medida que vai crescendo. E há mesmo quem veja crescer os jeitos muito mais do que cresce fisicamente. Isto para não falar no crescimento mental e intelectual, onde os jeitos ou a falta deles, se notam à vista desarmada.
Como nunca ninguém me disse que eu tinha jeito para qualquer coisa, comecei de muito novo a trabalhar, coisa que me parece que não é preciso ter grande jeito. Ao menos, podia ter sido eu a descobrir que tinha jeito para não fazer nada. Mas sempre tive esta mania, que não é jeito nenhum, de ser diferente daqueles que mais falam e menos fazem.
Depois, lá aparece um de vez em quando, que diz saber desde pequenino, que tem jeito para isto ou para aquilo. Para exemplo, cito o caso de vários Ronaldos, quase todos brasileiros, mas um português também, aliás o maior, que têm aquele jeito no pé, e na cabeça, que lhes veio do berço, sabe-se lá porquê.
Não sabemos nós, mas devem saber as mamãs e os papás, pois devem lembrar-se muito bem das voltas, ou das fintas que deram ou fizeram, na devida ocasião. Aliás, toda a gente deve ter jeito para dar as suas voltas e fazer as suas fintas, só que os resultados é que são muito diferentes de caso para caso.
É por isso que encontramos tantos jeitosos e jeitosas, gente com jeito, note-se, para a bola, para a dança, para as corridas, para a medicina, para as descobertas, para viver à custa dos outros, e muitas outras actividades e especialidades. Tudo bons modos de vida, porque em todos eles se ganha muito dinheiro, senão não eram bons.
Mas, descobri agora, que há um modo de vida para o qual é preciso ter jeito desde muito novo. Aliás, eu não descobri nada, porque foi um jeitoso, que me parece que só agora se apercebeu que o era revelando, desde logo, esse segredo escondido de que, desde pequenino, lhe pareceu que tinha muito jeito para a política.
Realmente, eu estou inteiramente de acordo com ele. A generalidade dos políticos precisam de ter um jeito muito especial parra fazer a política que eu vejo fazer à minha volta. Porque eles fazem uma espécie de política de frases feitas, quanto mais estupidificantes melhor, quanto mais sensatas pior.
É preciso ter muito jeito para dizer bem, aquilo que eles sabem perfeitamente que é muito mau. É preciso ter muito jeito para ser capaz de vender banha de cobra, mesmo a quem sabe o veneno que a cobra tem dentro dela. É preciso ter muito jeito para se envaidecer a cada sorriso que recebe e a cada salva de palmas que ouve.
Porém, quando chegar a primeira derrota, todo esse jeito terá o sabor de um arrependimento profundo de o ter confessado. Só então reconhecerá, que há jeitos que mais valia estarem escondidos, porque de súbito, lá vem o dia, quase sempre inesperado, em que o jeito se transforma em aselhice.
O jeito para a política que vem de pequenino, normalmente, morre muito antes de se chegar a velhinho.
12 Jun, 2009

Eu também quero

 

Em boa verdade eu não quero nada, porque já é tanta gente a querer, que não iria sobrar nada para mim, mesmo que eu quisesse. Quando muito, não tenho alternativa à sublime vontade de quem me manda pagar tudo aquilo que os outros querem. E, quando os outros querem, abro um largo sorriso, meto a mão no bolso e pago.
Quem me veio com essa conversa de, eu também quero, foi a minha vizinha que, ao ver-me aproximar de casa, ficou à minha espera. Desconfiei logo que ia receber uma lição de economia doméstica, no seguimento de outras, que já faziam de mim, um apetrechado licenciado pela universidade da porta da minha residência.
Desta vez, começou por me lembrar que tinha todo o direito a ser ressarcida dos cinco contos de reis que tinha encontrado dentro do colchão, e dos quais se esquecera completamente. Foi mesmo por acaso que lá fui meter a mão, disse-me ela.
Aconselhei-a a ir ao Banco de Portugal. Aí já eu fui, replicou com nervosismo. Afinal, os cinco continhos estavam em moedas. Ela não compreendia a razão porque o banco não deu pela falta daquelas moedas todas, durante largos anos, com a validade perdida, logo, tinha de lhe dar o dinheirinho de volta, em euros.
Oh vizinha, isso agora é muito complicado, disse-lhe eu a medo. Complicado, uma ova! Então, o Banco de Portugal não faz o que deve, tem de dar dinheiro a todos os prejudicados, e a mim, nada? Não, se tem de dar o dinheiro aos clientes de todos os bancos que não o têm, também tem de me dar o meu.
Oh vizinha, mas o seu colchão não é um banco. E lá está o vizinho a torcer as coisas. Até parece que ainda não percebeu que o meu colchão é mais seguro que um banco. Eu não peço nada que voou. Eu só peço a troca do velho pelo novo, percebe? É muito diferente. O banco não perde nada. Nadinha mesmo.
Não tive outro remédio senão baixar as orelhas mais um bocadinho, dizendo que ela tinha todo o direito de pedir e esperar pela resposta. Qual, quê! Replicou ela furiosa. Eu não peço, eu exijo. E se me começarem a dar música, vou ter com aqueles que agora vão lá para a Europa, esses que sabem bem das maroscas do Banco de Portugal, e depois logo vemos se não me vêm ainda pedir desculpa.
Oh vizinha, não se esqueça de exigir também os juros dessa massinha. Tem toda a razão, vizinho. Ainda não me tinha lembrado disso. E olhe que é mesmo muito dinheiro. Se me pagarem juros iguais aos que recebiam os do banco particular, faça-lhe as contas.
E depois de coçar a cabeça por uns instantes, prosseguiu. Espere aí vizinho. Porque será que os tais da Europa não disseram nada sobre isso? É estranho. Então o estado diz que não lhes dá o dinheiro, e eles calaram-se?
Pois é, vizinha. Isso quer dizer que, para esses deputados europeus, o estado não fez bem, nem fez mal, pois não apoiaram, nem condenaram. Olhe as suas moedas, vizinha.
Não, isto não fica assim, vizinho. Eu já vi escrito em qualquer lado que o estado dá milhões à banca. Logo, eu também quero.
 
11 Jun, 2009

Sim, papá

 

Longe vão os tempos em que os meninos e as meninas ouviam os conselhos paternais em sentido, de olhos baixos quando o assunto não era muito do seu agrado, e de boquinha calada, para não arriscar um dos castigos próprios da época.
Hoje, não só esses castigos são praticamente inexistentes, como já não há bocas caladas quando o papá dá conselhos. Mas, a verdade é que parece que também já não são muitos os papás que dão conselhos, assim com aquele ar solene de antigamente.
Talvez para suprir essa espécie de lacuna, temos agora, periodicamente, uma espécie de papá conselheiro vindo do éter, que nos diz tudo o que devemos fazer, e ainda tudo o que não devemos fazer. Pela minha parte, considero que se trata de um papá às direitas, e não tenho dúvidas de que muita gente o considerará um papá como deve ser.
Só ainda não consegui perceber o motivo porque, sendo os seus conselhos do agrado geral, não se vê que sejam seguidos como mereciam, com o mesmo entusiasmo com que são aplaudidos.
O papá, por sua vez, olha para todos os filhos, e tem muitos, como se fossem de muito tenra idade. Daí que repita a todo o momento, portem-se bem, não andem à bulha uns com os outros, isto é, à traulitada, não dêem erros quando escrevem, não digam asneiras quando falam, tenham cuidado com as caneladas quando jogam à bola, não comam muitos bolinhos senão ficam umas bolinhas, enfim, e coisas do género.
Ora acontece que, na maioria dos casos, os filhos já estão noutra, até porque não são poucas as histórias que ouvem contar acerca de alguns cotas. Depois, olham para o papá e não vêem que ele próprio se preocupe muito com as coisas que lhes aconselha, desde logo, essa ideia de não comerem muitos bolinhos. Sim, é verdade que ele não está uma bolinha, mas lá que come muitos bolinhos, lá isso come. Nota-se, perfeitamente, quando fala com voz doce.
Depois, uma parte dos rebentos está sempre desconfiada de que ele tem filhos e enteados. E a maneira como está sempre a mandar recados de uns para os outros, só confirma essa ideia, embora ele diga que é amigo de todos por igual. Uma gaita! Diz logo um dos mais reguilas.
O papá tem essa grande convicção de que é um homem perfeito e está certo de que os filhos não duvidam de que é mesmo. Ele diz, e os filhos aplaudem, até porque vão vasculhar a sua vida passada e apenas encontram virtudes nos seus cadernos. O papá fez tudo bem feito ao longo da sua vida, embora houvesse alguns ingratos que não seguiram os seus conselhos, queixando-se depois das consequências da sua independência em relação ao paternal.
De tempos a tempos gosta de reunir a filharada toda, para lhe lembrar que está no mau caminho e, então, lá vai mais uma ensaboadela geral, tipo barrela mas, cheio de força interior e razão exterior, exorta-a a fazer aqueles milagres que ele tão bem conhece, visto que já os tratou por tu noutros tempos.
Eu, como um dos muitos membros do clã, exorto todos os meus colegas, a escutarem bem o que diz o papá, mas ainda os exorto mais a fazerem o que ele manda. Quando não gostarem de algum conselho mais requentado, perdão, mais requintado, mandem-lhe um recadinho, ou uma mensagem. Isso chega. Lembrem-se que é o que ele faz.
10 Jun, 2009

Te cuida

 

Muita festa, muitos foguetes verbais, daqueles que não têm canas para apanhar. Mesmo assim, houve muita gente à procura delas. Das canas, claro. Mas, bem vistas as coisas, se houve foguetes, foi de lágrimas, porque os outros, os das canas que os festeiros não conseguiram apanhar, foram para os seus parceiros de luta.
É um facto que a maioria absoluta morreu ontem, embora tenha o funeral adiado para daqui a uns meses. Isto porque o cadáver ainda não está de posse do cangalheiro e, sem cadáver, não pode haver funeral. Isto, para desgosto de quem já pediu a certidão de óbito, só porque lhe cheira a cera de velório.
Em contrapartida, acaba de nascer uma minoria absoluta que, tudo o indica, vai ser de pão com rosa, ou de pão com laranja. Tudo vai depender dos próximos episódios de continuação das lengalengas. É uma questão de mais verdades que mentiras, ou de mais mentiras que verdades.
Nesse aspecto, as mentiras e as verdades andam por aí à procura de quem as queira apanhar, convictos que elas estão completamente separadas por um muro, para mim, o muro da vergonha, para outros, o muro das grandezas que a imaginação continua a querer ressuscitar de entre os mortos.
A maioria absoluta que agora, tudo o indica, vai dar lugar à minoria absoluta, cometeu o erro de encanar a perna à rã, provavelmente, à espera que o pão com laranja, não passasse de pão seco pois, normalmente, quando as laranjeiras criam nova flor, as laranjas velhas caem podres, no chão.
Afinal, viu-se agora, o pão seco resultou das rosas que murcharam. Porém, em seu lugar, não cresceram laranjas para juntar ao pão, antes se vendo crescer blocos e foices que, em termos de acompanhamento de pão, ainda não se sabe bem como vai ser. Mas, digo eu, talvez estejam garantidas umas sandes de qualquer coisa.
Dos blocos já veio o aviso prévio, para que as laranjas se cuidem, o que pode ser entendido como uma indicação de que as rosas podem respirar um pouco, uma vez que já estão murchas, logo, inofensivas. Laranjas activas e ofensivas deixarão, pois, de ser aliadas de blocos e foices, que vão aliviar a pressão sobre as rosas. Ou não?
Temos pois em perspectiva uma minoria absoluta, a grande arma contra a maioria absoluta que, certamente, só era má, porque era rosácea, pois virá a ser muito desejada pelos citrinoss, quando estiverem em risco de caírem no chão, como ainda estará na memória de quem não a tem muito curta.
A verdade é que as nossas maiorias ou minorias, absolutas ou não, citrinas ou rosáceas, desde os primórdios da nossa democracia, nunca atinaram com o caminho mais indicado em direcção ao benefício do povo. Antes deram sempre primazia aos interesses daqueles que, chamando corrupto a tudo quanto mexe, lá conseguiram sempre esconder os verdadeiros corruptos. Que já estão mais ou menos à vista. Apesar de certas cegueiras.
E, apesar de tudo o que parece mudar, lá vai continuar tudo na mesma, pois, se as rosas murcham com o tempo, as laranjas apodrecem ao cair da laranjeira. Por isso, te cuida. 
 
 
 
 
09 Jun, 2009

De esguelha

 

Tenho a sensação de que o país anda de esguelha consigo próprio, ou não fosse bem visível o modo como uma grande parte dos seus referenciais se comportam e transmitem a ideia de que anda tudo de candeias às avessas. Ora, sendo assim, nada mais podemos esperar que, por acidente, ou por suicídio, acabemos por cair no fundo do charco, que até há quem veja nele a sua própria salvação.
Com tanta gente a olhar de esguelha para tudo e para todos, é inevitável que tudo vá parando, para conforto de quem não gosta mesmo de fazer nada e, mais ainda, para quem lhe faz impressão que ainda haja alguém que queira fazer alguma coisa.
Não é possível voltar aos primórdios da civilização, em que ninguém andava de esguelha com ninguém, embora se matassem uns aos outros por dá cá aquela palha. Nesses tempos, quem não se mexesse em busca de comida, bem podia protestar de pau na mão, que não lhe restava mais que morrer à fome.
Hoje, temos civilização, temos regras e temos leis, por vezes tão complicadas, que para mais não servem, que permitir que possamos assistir a caturrices de toda a ordem, de uns senhores que andam permanentemente de esguelha com outros senhores, que também só sabem olhar de esguelha para eles.
E o pior é que já ninguém é capaz de olhar de frente para os que andam de esguelha, e ter a determinação de acabar com toda essa ‘esguelhice’ estúpida e teimosa, mas de tal maneira entranhada, que parece já fazer parte dum aparato de democracia, que eles criaram, e de que se orgulham certamente, pois dele não se demarcam um milímetro.
Todos falam muito em diálogo mas, logo que se encaram de esguelha, lá despejam o monólogo intransigente e imutável, por mais horas, dias, meses, ou anos, que passem a arranjar, ou a inventar argumentos, para que nunca decidam nada. Nem sempre são todos iguais, mas a verdade é que também não se pode ceder, sempre que se é olhado de esguelha.
O caso da eleição do Provedor de Justiça é um bom exemplo. Já perguntei a mim mesmo, quem é que mais olha de esguelha e para quem, neste caso. Quem é que quer diálogo e quem é que apenas quer conversa de faz de conta. Ou ainda, a quem é que interessa que a situação se mantenha neste impasse.
Outra singularidade política, é a palavra, sim, a palavra de uns políticos e de outros políticos, tão próximos, ou tão afastados, com olhares de frente, ou com olhares de esguelha entre eles. Uns põem as mãos no lume por outros, mas nunca sabemos se se queimaram ou não. Enquanto uns juram a pés juntos que estão inocentes e quase ninguém acredita, outros julgam que lhes basta afirmar que, se eles o dizem, é porque é. E, curiosamente, quase toda a gente acredita. Palavras, palavras.
De esguelha andam as conversas da campanha que agora vai terminar, sem que ninguém tenha vislumbrado o que é que eles querem, afinal, para lá do simples, lógico e interessante facto de quererem ir para o bem bom. Sobre isso nada disseram. Como já olhei de esguelha para eles, mas com muita atenção, concluí que, nas legislativas, eles vão falar sobre a Europa.
É por tudo isso que o país anda de esguelha consigo próprio.
08 Jun, 2009

Vozes

 

Tenho quase a certeza que ainda ninguém imaginou José Sócrates a dar uma gargalhada como a Júlia Pinheiro, ou a fazer um discurso de campanha eleitoral com a voz bonita e harmoniosa de Paulo Rangel. Ao pensar nisso, logo me vem à ideia aquilo que a gargalhada podia significar de felicidade, tal como a voz ‘rangélica’ podia ser fonte de toda a credibilidade do mundo.
E que bem que ficaria a voz de Moura Guedes em Rodrigues dos Santos, bem como o piscar do olho direito dele, no olho direito dela, enquanto Vasco Valente descansa de olhito fechado, à espera que ela abra os dois. Ao pensar nisso, imagino como a um, teria um rosto reciclado, enquanto a quatro, teria uma cara lavada e podia dispensar Vasco Valente que, assim, iria para a caminha a horas decentes.
Também a voz de Vital Moreira podia fazer coro com a voz de Paulo Rangel, com mais oitava acima ou abaixo, de barítonos a condizer com a massa física do primeiro, e a arranhar a lógica da largura peitoral do segundo. Ao pensar nisso, logo me vem à ideia o desperdício de qualidades, quando ambos podiam misturar as vozes, dando um exemplo de bem falar, com toda a frescura juvenil das suas gargantas.
Vamos supor que Jorge Gabriel tinha a voz de Ilda Figueiredo, e que Sónia Araújo tinha o privilégio de poder usar a voz de Pinto da Costa. Em primeiro lugar, tenho a certeza que nunca mais haveria conversa de ‘chacha’ na um, por parte dele, nem tanta dança por parte dela. Em segundo lugar, a música, sim, essa seria bem diferente. Ao pensar nisso, acho que tive uma boa ideia.
Na minha imodesta opinião já há algumas semelhanças entre a voz de Ferreira Leite e a voz de Moura Guedes. Mas, para ficarem em sintonia perfeita, havia todo o interesse em ouvi-las em dueto na sexta-feira à tardinha, sob o efeito clarificador dos holofotes. Como assistente de sessão, ficava bem a presença e a voz atiradiça de Paulo Rangel. Ao pensar nisso, fico com a sensação de que estaria em presença de um trio maravilhoso.
Encontrei muita dificuldade em aliar a voz forte e máscula de Paulo Portas a outra figura de prestígio igual ao dele. Não foi fácil. O melhor que encontrei foi o vozeirão de José Sócrates, quando ambos se encontram na Assembleia. Só têm o defeito, as vozes, claro, de destoarem um bocadinho, sim, só um bocadinho, da finura de voz de Paulo Rangel. Ao pensar nisso, fico com a ideia de que as recentes obras de remodelação do hemiciclo, ficaram muito aquém do desejável, em termos de condições acústicas.
Em contrapartida, Cavaco Silva tem uma voz perfeitamente enquadrada com o Parlamento, tal como Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã. Falta-lhes apenas a imaginação bucal de Marcelo, que não é gago, o sorriso de voz de Vitorino, que não engana, e a lata sonora de Judite de Sousa, que não se engasga. Ao pensar nisso, fico com a língua enrolada, incapaz de dizer o que penso.
Pois é. Quem já está sem voz sou eu, pois não ignoro que há vozes que não chegam ao céu. A minha, sem dúvida, porque já está tal qual, muitas das vozes que eu já tenho muita dificuldade em ouvir, apesar de largamente lançadas para os ares. Mas o ar está pesado e as vozes não sobem. Ao pensar nisso, fico com a ideia de que só o silêncio chega ao céu com toda a facilidade.