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afonsonunes

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18 Jul, 2009

As quatro gracinhas

 

Ia eu a chegar à beira do jardim principal da cidade e, eis senão quando, os meus olhos deparam com quatro escritos encavalitados cada um em sua estrutura metálica, muito próximas umas das outras, como se quisessem dizer-me que o espaço é a coisa mais importante, para quem ali as colocou.
Duas das frases estavam acompanhadas de fotografias, enquanto as outras duas apenas tinham palavras. Todas apresentavam logótipos bem conhecidos e era evidente que pretendiam comunicar com os transeuntes e também com os automobilistas que circulavam à beira delas.
O jardim irradiava frescura, mas as mensagens do alto das estacas que as suportavam, eram uma espécie de calor reflectido que nos aquecia a testa, mesmo que os olhos não se impressionassem com aquelas visões tão pretensiosas e ao mesmo tempo tão diferentes nos conteúdos.
Uma das mensagens anunciava que eles não andavam a brincar não sei já com quem. Logo pensei que não estamos em tempo de brincadeiras e, muito menos, se os brincalhões andarem a brincar com coisas sérias, como são aquelas que afligem os alvos das suas não intenções.
Depois, como é óbvio, quem diz que não brinca, pode já estar a brincar com alguém que não quer brincar com eles. Nisto de brincadeiras, é preciso ter tino na rugosa, senão lá se vai o divertimento por troca com as arrelias próprias de quem não tem, e parece não querer ter, o mínimo sentido humorístico.
Olho para a segunda mensagem de estaca e leio que quem ficou à porta, não pode ficar sem entrar. Curiosamente, lembrei-me que devia haver ali um problema de chave. Afinal, a chave, que também é a chave do problema, deve estar em algum lado, ou nas mãos de alguém que não deixa sair o cacau, nem deixa entrar quem o quer receber.
Este é um caso em que se pretende que a chave mude mãos. Mas, para que tal aconteça, é preciso que o prédio e a porta respectiva, mudem de dono, porque não é bonito querer mandar na casa dos outros, sem a comprar ou arrendar primeiro. Sobretudo, se não se tiver cheta suficiente para o negócio.
No terceiro par de estacas lá estava bem claro, e bem alto, que eles nunca subiam as pernas, talvez porque já tinham os braços em posição bastante incómoda. É muito difícil eles serem capazes de trabalhar, com tantas limitações permanentes nos braços e nas pernas. Mas, já percebi que eles também não querem nem precisam trabalhar. Alguém fará isso por eles.
Fica-me a dúvida, legítima, como é óbvio, se será mais difícil subir as pernas, ou baixar os braços. Estou em crer que eles não são capazes de fazer nenhuma delas, pois isso implicaria uma ginástica dos diabos. E isso, eles deixam para os outros.
Não podia deixar de olhar para a quarta obra estrutural de berma de jardim, com aquele chamamento, ou incitamento, para avançar Portugal. Deixa-me cá pensar um bocado, a ver se consigo lá chegar. Pronto, já estou na linha de partida. Será que é ele a dar o tiro que manda avançar?
Esperemos que o tiro saia para o ar, senão ainda temos para aí um tiro no pé. Se isso acontecer, é bem provável que não se possa avançar. E então lá voltaremos à eterna questão de, quem não for capaz de avançar tem, estrategicamente, de recuar. Também, não faz mal, já estamos habituados.
Pois, eu sei que só havia quatro. Mas também sei que falta lá uma. Essa, estava presa a uma árvore, com uma corrente, assente no chão, sem estacas. E, segundo me pareceu ler nas entrelinhas, dizia que os bancos só servem para ser assaltados.
Ali ao lado, os bancos do jardim, escangalhavam-se a rir.  
 
17 Jul, 2009

Corridos e fugidos

 

Este verbo correr entrou no glorioso campo da polémica ao ganhar duas novas sapatilhas, devido a estudos profundos das suas origens remotas. Até aqui só conhecíamos as corridas onde, por sinal, até temos registado progressos muito interessantes, em provas que sempre nos corriam muito mal.
Porque sempre há gente que tem um jeito especial para umas piadinhas brincalhonas, já me chegou aos ouvidos que nós, os portugueses, temos uma propensão admirável para dar à sola. Se eu estiver a interpretar bem esta especialidade, também eu estarei incluído no número de atletas que gostam de correr, no sentido de fugir de algo ou de alguém.
No entanto, ainda não ouvi dizer que somos, ou sou, fugido, tal como já tenho ouvido dizer que há quem seja corrido. Começo a desconfiar que ser corrido e ser fugido, não será bem a mesma coisa, aguardando pois as últimas explicações dos novos intérpretes dos tais estudos profundos que começam agora a ser conhecidos.
Esses estudos surgiram precisamente no centro do país, país tão profundo como os estudos, que devem ter concluído que o touro não é corrido na arena, tal como ninguém é corrido do emprego, nem nenhum político será alguma vez corrido do lugar, vulgo tacho, que desempenha há mais ou menos tempo, com assiduidade e bom comportamento. Dizem eles.
Portanto, cá temos o corrido que não existe. Também não consta que o touro seja fugido, senão teríamos uma fugida de touros e não uma corrida dos ditos. Já me parece que tem alguma lógica dizer-se que há trabalhadores fugidos dos empregos, mesmo quando alguém os obriga a fugir. O que eu não conheço mesmo, é que haja políticos fugidos dos tachos.
Se acrescentarmos aos fugidos e aos corridos, umas pedradas lançadas no meio desta confusão gramatical, então a coisa complica-se ainda mais, porque há pedradas de muitas qualidades e feitios. Deixando de lado aquela pedrada que fica depois da dose, ou mesmo antes dela, temos a pedrada que é mesmo feita com pedras e, segundo estatísticas especializadas, por vezes resulta em cabeças partidas e outros revezes.
Porém, segundo os tais estudos profundos mais recentes, baseados em factos antiquíssimos, talvez do tempo de Viriato, a pedrada é uma manifestação de carinho, é a pedra de toque da amizade que necessita contacto, no caso, entre a pedra e a cabeça, tal como o beijo ou o abraço, que tão carinhosamente estamos habituados a distribuir. Que ninguém se admire se as manifestações amorosas mais íntimas passarem, de um momento para o outro, a ser celebradas à pedrada.
Agora imagine-se a reacção de gente mais medrosa ou desconfiada que, não aderindo a tais manifestações, passa a andar fugido à pedrada, o que determinará o seu isolamento social e, sobretudo, o seu isolamento sentimental ou, pior ainda, o seu isolamento conjugal.
Em contrapartida, surgirá em breve tamanha onda de meiguice e de amor, que mudará o mundo, tão carecido que está nessa matéria tão sensível, que os estudiosos já desesperavam por não encontrar solução que fizesse essa incrível mudança.
Afinal, era tão fácil. Bastou que toda a gente ficasse a saber que o remédio é, simplesmente, sermos todos corridos à pedrada. Haja inovação.
 
16 Jul, 2009

Quero fazer ondas

 

As ondas que mais aprecio são as que vogam pelo meu pensamento num vai vem que tão depressa me enche de satisfação, quando o seu movimento se traduz em esperança, como me deixa altamente frustrado, se não descubro saída para essas ondas, que rebentarão contra a parede da minha mente, que fica tão dura como qualquer outra parede.
Pessoalmente, penso que as ondas, mesmo quando rebentam, nunca se extinguem, dando lugar a outras que nascem em sua substituição. Para mim, as ondas são sempre as mesmas, que avançam e recuam, que lutam contra tudo o que as impede de se expandirem, tanto na planura da mente, como nas areias serenas de qualquer praia.
As ondas do mar revoltam-se contra as altas falésias que lhes cortam a vontade de ir mais além, mas não lhes cortam a bravura da sua revolta, nem as impede de mostrarem a sua raiva, expressa na espuma que espalham em redor das rochas que as martirizam.
Há muitas pessoas que não gostam de fazer ondas, talvez porque se impressionem com a inutilidade da luta das ondas do mar, eternamente condenadas a bater em vão, sempre nos mesmos obstáculos. Essas pessoas também não acreditam no sucesso do seu bater contra tudo e todos os que lhes roubam as forças para continuar lutas aparentemente infindas e inúteis.
Quem não gosta de fazer ondas, esquece que, como diz a sabedoria popular, a água tanto bate até que fura. E, como se sabe, as ondas do mar são água, cheia de força indomável, demonstrando que sempre fará ondas, que nunca vai dizer que não gosta de fazer ondas.
Ora, tal como o mar, a mente humana é imensa, é profunda, e é tão indomável como ele, quando se arma de igual força e independência, quando levanta o seu rumor permanente, que abafa tudo o que lhe queiram dizer no sentido de a levar a desistir de espalhar as suas ondas no ar, até que alguém as capte e ajude na sua difusão.  
É por isso que eu não desisto de fazer ondas, nem que seja apenas para colocar ao lado de outras ondas que avançam, de outras ondas que recuam para ganhar outra dimensão, quase sempre mais avassaladora, e de certas ondas que parecem morrer na praia, onde se transformam em espuma que voa como sonho enganador.
Bem podem as ondas rebentar contra as rochas inertes, estender-se suavemente na praia para delícia dos veraneantes, ou galgar as falésias aparentemente intransponíveis, que o homem e a mulher saberão criar as suas ondas de optimismo ou de pessimismo, para imitar o mar selvagem que tudo nos dá e tudo nos rouba.
Também a mente humana nos vai trazendo sucessivas ondas, algumas plenas de promessas de tempos vindouros mais felizes para tanta gente que só conheceu, e só conhece ainda hoje, as ondas da desventura e da tristeza. Também é a mente humana que descarrega diariamente as piores ondas de violência que atingem o mundo inteiro.
A única certeza que paira sobre as nossas cabeças, é que as ondas vão continuar a bater nas rochas e, como sempre, quem se lixa é o mexilhão.
15 Jul, 2009

Suja, suja, suja

 

É evidente que suja, só pode ser ela. E, se ela está suja, é normal que cheire mal, logo, é compreensível que nos incomode, pelo menos, a todos aqueles que não gostam de coisas ou pessoas que façam sujeiras, ainda que o façam com cara de anjinhos, que apenas nos põem a pensar em diabruras.
Há quem não goste que se fale nela. Até é compreensível, segundo a minha lógica da batata porque, com ela, essa gente vive e convive nesse meio que a suja a ela, e a todos os que querem, e tudo fazem, para que a sujeira se sobreponha a tudo o que devia ser decência e boas maneiras.
Ela ainda nem sequer se tornou efectiva pois, tal como a pré-mamã, também se encontra na fase pré, o que quer dizer que ainda a procissão vai no adro e o andor ainda nem sequer saiu da igreja. Mas, cá fora, os fiéis esperam pacientemente que as suas rezas e os seus sacrifícios se transformem no milagre da bonança.
Pela amostra que constitui a pré, restam poucas dúvidas de que ela será bem pior que todas as recomendações éticas, ou os aconselhamentos feitos nos recados angelicais vindos das alturas. Porque ela está mais virada para baixo, com muitos sinais de que vai descer cada vez mais, à medida que a sua voz se vá perdendo no meio do calor da discussão estéril, em que os ouvidos ficam completamente obstruídos.
Antes de o ser já está suja, precisamente, porque se convenceu que o não pode ser, convincentemente, se não vomitar porcaria por todos os lados. Não quer dizer que haja porcos e porcas em todo o lado, embora os melhores prognósticos nos forneçam as piores indicações.
Suja, mas mesmo muito suja, porque ela só vê sujeira em todos os outros, esquecendo-se de que uma simples espreitadela a um espelho, lhe revelaria o quanto ela é apenas uma parte de tudo aquilo que lhe enche a vista e a boca.
Ao pensar nela, vejo uma série de rostos desfigurados, vejo expressões de gente que já não sabe o que há-de dizer para impressionar, não a nós, simples números de caderno eleitoral, mas àqueles que, como ela, estão prontos a descarregar toda a sujeira que vão ouvindo a cada momento mas que, com todo o gosto, ainda lhe acrescentam mais uns pozinhos da sua autoria, para que, também eles, não saiam limpos da sua relação com ela.
Já ouvi dizer que ela será a mais suja de sempre. E é sabido que já as houve bem sujas. Estou convencido que será mesmo. Se me perguntassem porquê, eu responderia que ela não tem ninguém que, como lhe compete, fale de si e do que tem para nos oferecer.
Em contrapartida, ela apenas lava roupa suja, muito suja, a várias vozes, como se todos eles tivessem de mudar de roupa a cada minuto que falam.
Ela, como não podia deixar de ser, é a campanha eleitoral que aí vem. O melhor sintoma de que assim será, é a pré-campanha que nós já vemos por aí. Suja, suja, suja. 
13 Jul, 2009

Leiria três

 

Eis uma obra de arte da câmara de Leiria, que já referi aqui por mais duas vezes. Trata-se da Rua do Alambique, em Marrazes, cujo piso abateu em 13 de Fevereiro. Já vamos em Julho e a rua continua em estado de sítio para os carros passarem, enquanto os peões para chegarem à Av. Adelino Amaro da Costa têm de dar uma grande volta, depois de atravessarem montes de cascalho poeirento e escorregadio.
A Junta de Freguesia de Marrazes, também ignora completamente este atentado ao direito de acesso minimamente decente às residências e garagens, ainda que esse acesso seja provisório. Mas, apregoa-se o bem-estar do cidadão e trata-se dele assim. Carros a estragar-se, perigos eminentes, caso dos tubos do gás natural pendurados ou estendidos no chão, ao ar livre, tal como os cabos da electricidade, além de perigo de derrocadas com as chuvas, etc.
Câmara de Leiria/Freguesia de Marrazes, eis uma parceria sintonizada na onda do deixa andar, sabe-se lá porquê. Mas o porquê deve existir e pode ser que um dia se conheça. Entretanto, quem mora na rua do Alambique, não é gente certamente. 
Mais de cinco meses de martírio já lá vão. E, com as obras paradas, sem sabermos porquê, nem por quanto tempo, talvez lá para o Natal, que é tempo de paz, de concórdia e de boa vontade, a câmara e a freguesia a quem pagamos impostos, nos ofereçam a prenda de uma rua decente, limpa e segura para todos os residentes.
‘Leiria é a minha casa’, é propaganda que já foi. Para os residentes na Rua do Alambique foi, e continua a ser, o martírio de ter uma casa no lugar errado, no entender da Câmara de Leiria e da Freguesia de Marrazes, que bem podem arranjar as mais lindas frases publicitárias para os seus projectos e para os seus sonhos. Pena é, que não transportem tudo isso para o campo da realidade, para as pessoas, para a gente que devia ser a preocupação da sua acção, a motivação dos cargos que ocupam.
Agora, para a nova candidatura, a cidade está cheia de outra frase bombástica. ‘Viva Leiria’. Falta acrescentar, ‘Morra a Rua do Alambique’. Aliás, há mais de cinco meses que está mesmo morta, enquanto os seus residentes são tratados como mortos, tal o esquecimento a que foram votados por quem devia dar-lhes aquilo a que têm direito. O direito a uma vida digna, igual à das pessoas que lha negam. Nada mais, Nada menos.
Todas as tentativas de chamar a atenção para esta situação, têm caído em saco roto, o que faz pensar o óbvio. A mim, pessoalmente, até me faz pensar na bola. Mas, vá lá saber porque raio de motivo uma coisa destas aparece assim na minha bola? Só se for porque as coisas da bola têm outras soluções, que a Rua do Alambique não tem.
Eu não sou candidato a nenhum cargo político, logo, não estou muito preocupado com as frases que aparecem nos cartazes de rua, sejam lá de quem for. Mas, como cidadão da rua mártir de Marrazes e de Leiria, apetece-me gritar: ‘Viva a Rua do Alambique!’, mesmo que esquecida, prejudicada, roubada, super perigosa, onde apenas se movimentam pessoas e carros por regos que a água das chuvas abriu, com tubos e cabos de gás e electricidade estendidos por todo o lado.
Por isso, repito, viva a Rua do Alambique!
12 Jul, 2009

Unhas encravadas

 

Em boa verdade não sei o que isso é mas, como tenho bom ouvido, quando me convém, apercebi-me de umas descrições aflitivas de sofrimento, de quem já passou as passinhas do Algarve com esse flagelo de lhe apetecer andar descalço, por não suportar a pressão do sapato sobre a tal unha em situação irregular.
Situações irregulares é o que mais encontramos por aí e, no entanto, até já somos capazes de andar com certas pedras no sapato, porque não conseguimos deitá-las fora, ainda que nos descalcemos vezes sem conta. E, bem sabemos como elas são tão irregulares, a ponto de nos morderem da ponta dos dedos até ao fim dos calcanhares.
É um facto que há pessoas que deixam encravar as unhas, mesmo sabendo que há pedras no sapato que já bastavam de incómodo. Também é um facto que há pessoas que se transformaram em autênticas unhas encravadas, nos pés e nas mãos das corporações onde se meteram, e por lá se mantêm, porque ninguém é capaz de acabar com o ‘desencravanço’.
Quando me ponho a pensar em partidos políticos logo me vêm à lembrança as unhas encravadas, apesar de nunca ter tido essas dores, como já referi. Mas dói-me a alma por ouvir tanta baboseira sobre as virtudes da divergência entre elementos importantes do mesmo partido.
Como é fácil de comprovar, essas virtudes só são realçadas por quem está por cima. Quem está por baixo, não vai nessa conversa, porque nada o demove de querer correr com quem pretende substituir, estando-se marimbando para a regra da democracia, que obriga à lei do voto e da eleição.
Não o conseguindo, transforma-se numa autêntica unha encravada que, ‘partindo’ o partido, provoca dores de cabeça aos responsáveis pelo seu funcionamento. Sim, porque a unha não se desencrava por si só, nem há um meio indolor de a desencravar e, muito menos, de a arrancar à má fila.
Mais dolorosa se torna, quando essa unha encravada, se encontra infectada entre carne de dois partidos, fazendo queixas e ameaças a um, enquanto distribui sorrisos e abraços a outro. Pergunto a mim mesmo se isto terá alguma coisa a ver com a tal saudável convivência democrática, ou a desejável divergência de opiniões.
Para mim uma simples unha encravada, pode ser uma simples maleita que se cura com higiene e desinfectante, após troca de impressões com o médico assistente ou, nos casos mais graves, obrigará à tomada de anti-bióticos e, se necessário, à cirurgia para cura ou remoção da unha incurável.
Também haveria o caminho do transplante da unha encravada para a mão ou o pé mais compatível e menos susceptível de rejeição, mas essa já seria uma opção que caberia à própria unha encravada que, normalmente, por motivos exclusivamente economicistas, não admite sequer encarar.
Depois, falando de outras unhas mais complicadas e mais volumosos, vai-se dando uma no cravo, outra na ferradura, que é como quem diz, vai-se dividindo hoje e fazendo de conta que se quer unir amanhã, para que o marfim continue a correr e a rejeição de ambos os lados não estrague a futura operação. Que nunca terá nada a ver com cirurgia.
Se alguém está a pensar apenas numa unha encravada, bem pode alargar o pensamento, porque não é difícil descobrir outras, por entre as brumas dos dedos dos pés e das mãos de quem passa a vida a encravar, pensando que é desencrava. 
11 Jul, 2009

O Bazófias

 

Bazófia é uma espécie de indivíduo cheio de fanfarronice para quem a vida não passa de uma exaltação constante de pretensas qualidades da sua pessoa, ainda que todos vejam nele uma espécie de guisado de restos de comida que, curiosamente, também pode ser bazófia.
Em ambos os casos não passa de um requentado fanfarrão, cuja prosápia só engana os mais distraídos, ou desconhecedores do currículo, normalmente, recheado de acontecimentos que já o têm devidamente referenciado, apesar de todas as jactâncias dos seus próximos, presos a alguns interesses mais ou menos visíveis.
Mas, deixo esse indivíduo singular e passo ao Bazófias no plural, embora continue a falar apenas de um, e esse, bem conhecido no país inteiro, devido à sua localização, onde se tornou fonte de inspiração de doutores e vazadouro de sonhos e ilusões que marcaram vidas para sempre.
Coimbra dos doutores é a cidade do Bazófias, Mondego para a geografia, mas é também albergue para uns tantos bazófias que, infelizmente, existem por todo o lado, para nossa estupefacção quase diária, ao conhecer um após outro, com mais ou menos eco nos veículos comunicacionais que os transportam até nós.
Da cidade do Bazófias veio agora mais uma remessa de importantes e destacados membros da classe política que pugna pela transparência e amor à verdade, sempre prontos apontadores de dedo contra corruptos e toda a espécie de inaptos para o desempenho da causa pública.
Bons exemplos para quem não sabe imitar os seus excelentes ensinamentos, e melhores exemplos ainda, para justificar mais uns recados sempre bem dirigidos por quem de direito. Mas, como de costume, os seus nomes serão propositadamente omitidos, para que seja alargado o âmbito do seu destino.
Segundo alguns entendidos, nada na vida se pode separar da política. Tudo o que nos acontece de bom ou de mau, vai cair nos seus braços, quase sempre demasiado cheios para que nos sintamos cómodos ao cair neles. Isto, quando nem sequer evitamos cair desamparadamente no chão, por falta do apoio protector desses braços enganadores.
Por amor à transparência e à verdade, especialmente, neste período político tão emocionante, gostava de saber as cores que pintam cada um dos bazófias que se vão abotoando com o que vai desaparecendo dos lugares mais diversos, onde deviam permanecer, para bem de todos nós, pagantes desses tão frequentes desaparecimentos.
Sim, isto seria política a sério e política de verdade. Hoje é fácil arranjar listagens de tudo e de todos. Portanto, senhores da estatística, façam-me lá esse favorzinho. Os tribunais já estão informatizados, logo, deve ser fácil saber quantos são de cada cor do espectro colorido nacional.
Depois, numa altura em que tanto se propala a necessidade de se esclarecer devidamente, sem contas de cabeças erradas, quem anda a enganar-nos todos os dias, digam-nos quais os números dos computadores, pois eles seriam um bom tira teimas para eliminar macaquinhos do sótão e retirar verdades que são bem capazes de ser mentiras.
Em boa verdade, não gosto mesmo nada de bazófias. Mas adoro o Bazófias que corre à beirinha de Coimbra que, não sendo limpo, não consegue enganar ninguém.

 

Sinceramente confesso que estou a ficar muito preocupado comigo próprio, porque cada vez me convenço mais que estou a ouvir coisas que ninguém disse, nem sei se coisas que alguma vez se possa imaginar que pudesse terem existido.
Isto até é capaz de ser grave, penso mesmo que posso estar à beira de alguma doença do foro ‘mentirológico’, semelhante em tudo a alguns pacientes que ainda hoje julgam que não têm doença nenhuma.
Já ouvi dizer por aí, umas cento e cinquenta mil vezes, que a crise está aí e está para ficar. Depois, já ouvi outras tantas vezes, que a nossa crise não tem nada a ver com a dos outros. Por mim, já pensei cento e cinquenta mil vezes que isso é verdade. A minha crise não tem nada a ver com a deles, nem a deles com a minha.
Todos os dias oiço falar neste número assustador de cento e cinquenta mil. Não sei de onde é que vem, mas suponho que é o número de mentiras que os políticos todos juntos já disseram nos últimos quatro anos.
Se dividirmos os cento e cinquenta mil, vá lá, por uns milhares de políticos no activo, até nem são muitas mentiras para cada um. Agora o que não se pode é cair no engano de querer atribuir as cento e cinquenta mil mentiras apenas a uma ou duas dúzias deles.
Em dois dedos de conversa pode falar-se de cento e cinquenta mil asneiras por dia, no que diz respeito ao país e aos portugueses. Se pensarmos que há uns milhares de políticos que dão dois dedos de conversa a muita gente por dia, é fácil deduzir que até nem são muitas asneiras por cada um, ao contrário do que muita gente pensa, que as asneiras são exclusivas de uma ou duas dúzias de políticos.
Admitindo que houve para aí cento e cinquenta mil portugueses a ficar espantados com os dois dedos mais famosos do país e do mundo, temos de concluir que o dono desses dois dedos, fez mais pelo bom nome do país, em termos de linguagem gestual, que os cento e cinquenta mil que só sabem ficar de boca aberta, quando alguém faz alguma coisa que se veja lá fora.
Não sei porquê, mas este número de cento e cinquenta mil, cheira-me a qualquer coisa que já foi dita mais do que esse número de vezes. Mais, parece-me até que esses que dizem essa coisa há quatro anos, se já tivessem aprendido a ler e a ouvir como deve ser, já teriam poupado a largada de cento e cinquenta mil demonstrações de ignorância em quatro anos.
É natural que eles tenham um objectivo bem definido. Mas, se assim é, não se compreende como não sabem o que são os objectivos dos outros. Como não se compreende que não saibam que os objectivos podem não ser alcançados, desde que haja factos imprevisíveis que impeçam o seu cumprimento. É dos livros. Há mais de cento e cinquenta mil dias.
Não quero acreditar que haja cento e cinquenta mil portugueses que não compreendam uma coisa tão simples.
08 Jul, 2009

Sobremesas

 

A sobremesa do pessoal das classes média e baixa, actualmente, consiste em levantar os olhos da mesa onde acabou de se enganar o estômago com o tradicional pratinho de sopa, e concentrá-los, os olhos, no ecrã da televisão, que também serve para enganar o dito, com os ditos que nos oferecem da dita.
É por isso que também eu sou contemplado com essas sobremesas que, por sinal, já me têm causado alguns destemperos que chegam à raiz dos cabelos. Dependendo de quem me serve, lá me convencem a aceitar fruta ou doce, pois sou muito receptivo aos argumentos do porta-voz do menu televisivo.
Confesso que tenho uma certa tendência para as guloseimas, principalmente, aquelas que têm nomes mais animalescos, por fazerem aquele contraste que me fascina, que vai do doce ao azedo selvagem, numa simbiose de paladar e excitação. Devo ter uma parvoíce qualquer debaixo da língua, que me faz degenerar para ali.
Por exemplo, a última sobremesa que me encheu as medidas foi uma taça, grande, de lágrimas de crocodilo. Serviu-ma aquele rapazote baixo e gordo, que deve comer sobremesas até dizer basta. A maneira como ele me induziu a aceitar aquelas lágrimas de crocodilo, até me levou a pensar nas lágrimas que ele choraria se eu não aceitasse a sua sugestão.
Sob a pressão de tão forte vontade de me convencer, ainda lhe perguntei se ele não teria uma baba de papagaio pronta a sair, pois eu prefiro sempre o artigo que estou a ver no momento e, sinceramente, não via nenhum crocodilo por perto, naquele instante. Até porque o meu olhar não se desviava do homem gordo que me parecia babar-se mesmo.
Perante a insistência nas lágrimas de crocodilo, que eu estava quase a ver cair-lhe dos olhos, já meio alaranjados, e a falta de resposta à baba de papagaio, voltei a interrogá-lo sobre se não teria ao menos uma baba de camelo que, essa sim, já não era novidade para mim.
Mas, qual baba de papagaio ou baba de camelo, o homem apenas conhecia as lágrimas de crocodilo porque, dizia ele, eu não estou aqui a vender os meus produtos, que são apenas de consumo interno, enquanto as lágrimas de crocodilo são o meu produto de importação, de marca branca, aqui para nós, de contrabando, mas que é garantido por mim, quanto à qualidade. Palavra de crocodilo, acrescentou com muita verdade e sinceridade.
Ainda lhe lembrei que por cá não havia crocodilos mas, num gesto de boa vontade, sugeri-lhe que havia uma sobremesa excelente, que podia resolver-lhe o problema de convencer a clientela, sem a necessidade de andar por aí a derramar lágrimas de crocodilo, vindas sabe-se lá de onde.
O homem hesitou, como crocodilo quase cego de sono. Oh homem, acorde, quase lhe gritei. Se quer vender sobremesas aos montes, volte-se para as barrigas de freira. São dos tempos dos conventos e são feitas lá em casa.
Afinal, quem acordou fui eu. A televisão já nem sequer estava ligada e a minha sobremesa já tinha acabado há muito tempo.

 

Isso era quando o pão era cosido naqueles fornos aquecidos a lenha. Agora já não tinha graça nenhuma, porque é tudo feito em série e já nem os padeiros devem saber como se faz o pão de princípio até ao fim. Eles sabem que os fornos eléctricos aquecem depressa e que a massa do pão sai das máquinas onde entrou farinha, água e não sei se mais qualquer coisa.
Depois, enche-se o forno, que se esvazia uns tantos minutos depois. Ora, se isto de trabalhar assim, é ser padeiro, então vou ali e já volto. Cá para mim, ser padeiro era ter uma ferramenta constituída por uma pá de madeira com um grande cabo, que servia para pôr ou tirar um pão de cada vez, de qualquer recanto do forno.
Isso é que me fascinava naquela profissão escaldante. Uma ferramenta daquelas dava para muita coisa, segundo a minha imaginação, nem sempre muito lógica, nem tão pouco, suficientemente bem-intencionada. Sim, porque as boas intenções não apareceram só agora, com esta geração que nunca viu o padeiro.
Mas eu vi muitos padeiros de pá comprida na mão. E compreendi sempre que a pá também podia servir para tratar da saúde a quem quisesse meter a mão na massa sem o consentimento do padeiro. E ele era muito cioso de que só ele é que podia fazer isso, já que fazia parte do seu manual de procedimentos.
E ai de quem não tivesse na devida conta o comprimento da pá, que ia ao interior do forno e voltava. Sujeitava-se a ver o padeiro de pá em riste ou, pior ainda, se insistisse em querer ver o padeiro das avessas.
É por essas e por outras que eu cheguei a ter aspirações a ser padeiro e a manobrar a pá comprida, como se de uma espada de brincar se tratasse. Só que eu imaginava aquela brincadeira muito a sério, principalmente, quando pensava naqueles de que não gostava.
Depois as coisas ainda se complicaram mais, quando ouvi falar daquela padeira que resolveu correr uns tantos franceses à pazada e, se calhar, isso criou em mim aquele desejo anormal de despachar para dentro do forno, alguns portugueses mais chatos que os franceses, mesmo sem fogueira lá dentro.
No entanto, eu achava que, com a pá em acção, conseguia que eles se mantivessem lá, por muito tempo, ainda que tivesse de lhes mandar uns pães lá para dentro, para os manter quietos e calados.
Mas, repito, isso era no tempo em que havia padeiros e pás de padeiro. Hoje já não há nada disso. Mas continua a haver chatos iguaizinhos aos franceses. Esta coisa da globalização, também chegou ao pão e aos padeiros. Já ninguém faz farinha com ninguém e já toda a gente pode meter as mãos na massa, sem receio de levar com a pá.
E, assim sendo, lá se foi o meu sonho de ser padeiro.