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afonsonunes

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04 Jul, 2009

Os meus recados

 

Não é que eu pense que sou capaz de substituir o homem dos recados, pois não me considero um sujeito com vocação para saber todo o reportório que se torna indispensável a quem, não tendo sabido fazer, sabe agora ensinar como se devia ter feito.
Também não custa acreditar que substituir não é imitar. Por isso, eu até admito que seria capaz de substituir o homem dos recados. O que eu nunca seria capaz era de o imitar, porque o meu código de imitação me proibia de mandar um recado sobre algum assunto que estivesse a pesar-me na consciência.
Sim, porque antes de mais nada, é preciso saber o que é um recado. Depois de pensar uns segundos, enviei um recadito ao interior da minha massa cinzenta e, quase de imediato, veio o resultado em forma de mensagem directa, sem a intervenção de tradutores ou outros operadores que costumam intervir nos recados.
Um recado pode ser apenas um aviso, sob a forma de conselho, mais ou menos amistoso, tal como pode ser uma repreensão, deixando implícita qualquer retaliação posterior. Recados podem ser cumprimentos, recomendações, ou até umas compras por encomenda. Mas deixemos as encomendas, que têm muito que se lhe diga.
Motivo de satisfação é quando alguém dá conta do recado, o que quer dizer que se saiu bem de qualquer missão que lhe foi incumbida, ou à qual se dedicou voluntariamente. Pelo que tenho visto, está muito difícil, alguém dar conta do recado.
Ora, aqui chegado, vamos lá aos meus recados que, muito ciosamente, também me sinto em condições de mandar, não sei a quem mas, pode ser que alguém os apanhe por aí a voar, livres como os passarões dos partidos.
Aliás, o que não faltam são passarões, mesmo fora dos partidos, que se encontram completamente livres para mandarem recados a torto e a direito, esquecendo-se de que, em muitos casos, os recados que mandam, deviam ser previamente cumpridos por eles próprios, remetentes, antes de pensarem nos destinatários que lhes fixaram.
Mas, já não é sem tempo, vamos lá mandar os meus prometidos recados. A começar pelo homem dos recados, lembrando-me que o funcionamento das instituições cabe, em primeiro lugar, a cada uma dessas instituições, e que é, cada uma delas fazer exactamente o que lhe compete, sem sacudir a água do capote, quando convém.
Tenho reparado que o homem dos recados está agora muito activo. Ainda me lembra o tempo da cooperação… pois, mas agora voltou-se para a cooperação da amizade. Para a outra cooperação, restam os recados quase diários. Recados em que, em circunstâncias iguais, ou mais graves, as amizades têm o privilégio de ser ignoradas.
Depois, também me lembro que qualquer uma das instituições não deve comportar-se em relação às outras, como se fosse uma verdadeira corporação, pois isso, deve ser deixado para outras instâncias que, qualquer dia, podem ficar à beira de um verdadeiro ataque de ciúmes, por usurpação das suas funções e competências.
Não posso esquecer-me que há instituições autónomas, ou independentes, ou lá o que é, logo, que essas não culpem outras instituições por não lhes darem o que nem sequer podem, nem tão pouco lhes deixariam dar. Logo, dêem a si próprias aquilo que lhes falta. Desde logo, bom senso e trabalho sério.
Finalmente, quando alguma das instituições falha, há outra instituição que não pode falhar. É aquela que tem por missão principal, garantir o regular funcionamento de todas elas. E aqui impõe-se perguntar: Estão todas a funcionar de forma regular?
Se a resposta for afirmativa, os meus recados e os outros, nem sequer fazem sentido.
03 Jul, 2009

Não compreendo

 

No país da democracia mais avançada do mundo, que não digo qual é, pode-se chamar todos os nomes a toda a gente, que isso é uma manifestação e fruição de liberdade plena, que não pode ter condicionantes, seja lá de que natureza for.
Nesse mesmo país, podem meter-se as maiores galgas, ainda que bem maiores que a honra de quem as profere, que não tem problema nenhum, pois a defesa da honra só se pratica na sala da democracia e apenas com a finalidade de proporcionar umas graçolas e umas risadas para descontrair.
Nesse mesmo país, há apenas umas ligeiras excepções que não podem ser esquecidas. Trata-se dos membros do governo que, por motivos mais que justificados e justos, não podem usar da liberdade que todos os outros usam.
A própria sala da democracia só permite liberdade total aos deputados, sem excepção mas, ai de um membro do governo que use a mesma liberdade para com um deputado. Está lixado, quando não, linchado, antes de pedir desculpa, até às próprias bancadas, de boa madeira, mas extremamente sensíveis e delicadas, ou não assentassem nelas, altos rabos da ‘rabugência’ nacional.
Ainda nesse país, um ministro, julgando fintar um deputado que usava da sua habitual liberdade de expressão, ergueu dois indicadores à altura das fontes, precisamente, porque não podia usar da palavra no mesmo tom do seu interlocutor. Quis fintar, acabou fintado.
Tenho muito orgulho do meu país, mas não tenho orgulho nenhum de assistir, mesmo pela televisão, a cenas de sujeitos que não são do meu país, nem deviam sequer ser autorizados a uma estadia turística do tipo de escapadela.
Para mim, tão ladrão é o que vai à vinha como o que fica ao portão. E isso é que ainda não ouvi ninguém dizer. Já alguém se preocupou com a provocação? Já alguém perguntou a si próprio se gosta de ser insultado? Já alguém pensou que quem não se sente não é filho de boa gente?
Pois bem. Dantes, no tempo em que os animais falavam, esses problemas resolviam-se à ‘cachaporrada’ entre os dois animais desentendidos. E não havia bancadas. Agora, não. Um vai para o olho da rua, enquanto o outro, promovido a herói nacional, fica sentado a coçar-se na cómoda cadeira da bancada dourada. Talvez até tenha direito a uma lápide para perpetuar a memória de tão histórico acontecimento. Talvez até haja uma cerimónia anual para lembrar tão grata efeméride.
Ainda bem que no país a que me orgulho de pertencer, não há animais do tempo da cachaporrada mas, parece-me que era preferível que certos homens resolvessem os seus problemas de instintos primários, em locais privados e apenas entre eles.
Mas, isto não foi um problema fortuito, entre dois… Naquele local e àquela hora, muitos outros tinham exactamente o mesmo estado de espírito. Só que não optaram pelo gesto. Preferiram a linguagem, que nem sempre foi menos limpa que o tal gesto. A diferença está na cabeça toda e não apenas na língua.
 
02 Jul, 2009

Vai dar caganeira

 

Podem chamar-lhe diarreia, se não souberem o que é caganeira. No caso presente, que é uma anormalidade social que vasa demais, relativamente ao que come, prefiro o termo antigo, por mais original e até possuído de uma certa graça, já que vem de um verbo que já muita gente esqueceu que é o que mais faz na vida.
Mas, deixo essas merdices que o país parece assumir cada vez mais, por iniciativa dos amigos das mentiras, tal como fazem os amigos das verdades. E até dos amigos que se especializaram em transformar mentiras em verdades, e verdades em mentiras, suponho eu, porque precisam de uns aparelhos auditivos, agora muito acessíveis no mercado da especialidade. Sim, porque eles não ouvem bem o que os outros dizem.
Ora, por força desta inusitada obratória verbal, estamos a caminhar, inevitavelmente, para um período em que os comes e bebes, além de escassos, vão passar a ser muito mais inapropriados a estômagos frágeis e inadaptados. Dou como exemplo, o excesso de língua e a falta de linguado, ou a falta de batata e o excesso de batatada.
E isso são apenas dois simples exemplos, de entre o muito que nos espera em termos de influências maléficas para desregular o percurso intestinal, desde a boca até lá abaixo, onde tudo desagua em silenciosa ou ruidosa caganeira.
Sinceramente, nem sei porque me deu para desopilar desta forma tão indigna e mal cheirosa que, não tenho dúvidas, faz virar a página a quem aqui chegou. Peço muitas desculpas, mas estou certo que uma ou outra pessoa mais benévola, que as há, fará o sacrifício de aturar esta minha madureza.
Esta encorajadora esperança radica no facto de uma grande parte dos portugueses já estar mais que habituada aos muitos apanhados por esse já vulgar desatino, que o praticam a tempo inteiro e, quantas vezes, com remunerações extraordinárias. Ainda que não saiam do reservado onde se aliviam.
Não me surpreende nada que assim seja, pois o que não falta são reservados individuais e colectivos, sempre abertos, sempre preparados para que as caganeiras não provoquem situações incómodas para quem as tem e para quem tem de lhes suportar as indesejáveis consequências. 
Porém, isto só será assim, enquanto os reservados estiverem abertos a amigos da verdade e da mentira. No dia em que os amigos da verdade expulsarem os amigos da mentira, após assumirem o controlo e utilização dos reservados, então a caganeira vai transformar-se numa chatice mais enervante que qualquer tipo de gripe.
Tudo indica que os amigos da verdade vão querer ocupar todos os reservados de forma individual e exclusiva, cada um com a sua chavinha no bolso, para não ter de aguardar a saída do anterior. Vai ser o fim da macacada.
E o pior é que os amigos da verdade, vão ficar todos à rasquinha, quando concluírem que, afinal, todos tinham verdades diferentes. Então, a caganeira será mesmo uma pandemia arrasadora, com os reservados fechados, ou ocupados sempre pelos mesmos.
01 Jul, 2009

Rugas a mais

 

A nossa democracia é jovem demais para ter rugas no rosto, daquelas rugas que transmitem uma imagem de que o tempo já levou muito do que havia para dar. Ora, a juventude não joga com as rugas logo, qualquer coisa aqui não bate certo. Ou aquela já não é tão jovem como se diz, ou estas apareceram tão precocemente que denunciam qualquer anormalidade funcional.
Objectivamente, uma democracia de trinta e poucos anos tem, necessariamente, de ser considerada jovem. Tão jovem que até se lhe perdoam muitas leviandades, algumas delas bem dispendiosas, principalmente, para os bolsos menos guarnecidos. Dizem que é próprio da idade.
Também as rugas são próprias da idade, embora elas não apareçam em rigorosa consonância com ela. Quer isto dizer que pode não ser velho quem tem rugas, nem ser novo quem as não tem.
Tal como o rosto das pessoas, a democracia pode não ter sinais visíveis de idade avançada, mas ter sinais interiores de que há rugas abundantes no pensamento, que indiciam uma certa deterioração da sua qualidade.
Há gente velha com ideias novas e há gente nova com ideias velhas. Não é por isso que a democracia rejuvenesce ou envelhece, por ser praticada por mais gente velha, ou menos gente nova. Porém, as experiências serão naturalmente diferentes logo, as leviandades terão tendência a ser comparadas com as rugosidades da mente.
Todas as comparações são potencialmente perigosas. A nossa jovem democracia tem sofrido muitos contratempos causados por teimosas comparações entre gostos e contra gostos, entre gente com ideias e gente idiota, entre rostos cheios de rugas e pensamentos repletos de rugosidades, entre caras sem pêlos e caras mais ou menos barbadas.
Toda esta gente de contradições tem de existir, porque ela faz parte do país e do mundo e, entre ela, estamos nós todos. Estão todos aqueles que falam de mais e fazem de menos, e ainda todos aqueles que não fazem nada, para além de estragarem aquilo que alguns fazem de bom.
O país e o mundo estão numa fase de contacto entre o fazer e o destruir, entre a conversa e a obra, entre a realidade e o imaginário. Mas, sobretudo, entre a seriedade e a manha, entre o rigor das palavras e a truculência das frases feitas.
Caras lisas ou enrugadas, tanto faz, desde que não nos assustem com o seu excesso de pó de arroz, ou o seu excesso de rugas provenientes de rostos permanentemente crispados.
Assim, receio bem que o país, ele próprio, acabe por ficar demasiado cedo, com rugas a mais, o que pode não ser sinal de sensatez.
 

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