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afonsonunes

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14 Mar, 2010

Gaba-te cesta...

 

…que hás-de ir à vindima. Isto se houver um certo cuidado na escolha da data da vindima que, a ser tardia, torna-se inoportuna, podendo resultar numa missão completamente inútil, semelhante à daquele cão que passou pela vinha, depois de ela ter sido vindimada por outros.
A cesta que muito se gaba das uvas que recolheu ou vai recolher, pode ficar vazia como a barriga do cão, pois já os meus antepassados diziam que coisa gabada é coisa borrada, e eles lá sabiam do que falavam. Para mais, nessa altura, ainda eles não pensavam que os gabanços, as vinhas, as vindimas e os cães, haviam de vir a ter tanta relação com a política.
Hoje, porém, toda a gente nota que os outros se gabam muito mas não fazem nada, mas os outros também já repararam que aquilo de que os acusam é praticado, a toda a hora, pelos seus acusadores. Sim, isto dito desta maneira, é uma confusão danada, mas eu pergunto se alguém acha que não vivemos no meio de inúmeras confusões danadas.
A mim, que sou esquisito para caraças, parece-me que num país de gente séria e honrada, graças a Deus, parece-me, repito, que é um disparate e um abuso alguém estar a afirmar, a reafirmar e a continuar a reafirmar a toda a hora, que é um homem sério e que os portugueses sabem muito bem que ele é mesmo sério.
Oh pá, então e os outros? Eu, por exemplo. Também terei de andar a dizer por aí em todo o lado que sou sério? Então eu, tal como os outros portugueses, teremos todos, de andar todos os dias e a todas as horas, a dizer em coro que somos tão sérios como ele? Ou, se não dissermos nada, será que nenhum de nós é sério?
Ora gaita para estas considerações, têm razão, mas não deixo de pensar no gabanço da cesta que há-de ir à vindima, no dia em que se vão vindimar os votos, na grande vinha que é o país. País cheio de dúvidas e de incertezas que eu não posso esclarecer, mas que sempre digo que eu, falando sempre verdade, sou o único em quem se pode acreditar. E não posso dizer mais nada. Aliás, bem me parece que já falei demais.
Mas, há outra cesta, feita pelo mesmo cesteiro, com a mesma verga, mas com um número abaixo no tamanho, todavia igualmente garantida quanto à qualidade, já comprovada em vindima legítima, onde teve o azar de ter chegado um pouco tarde, após a passagem de outros vindimadores que pouco lá deixaram para ela.
Apesar disso, esta meia cesta, pouco mais de meia no seu conteúdo interior, garantiu que já foi muito bom o resultado da sua vindima, acima do objectivo delineado, pois a vinha havia sido vandalizada pelo cão que passou antes dela, comendo as melhores e a maior quantidade de uvas e, pior ainda, deixando a vinha em estado lastimável.
É uma missão muito ingrata, esta de estar a falar de vindimadores de votos, principalmente, quando se misturam animais domésticos com pessoas que às vezes parecem selvagens, especialmente, quando pretendem meter o seu passado no presente dos outros.
É muito difícil avaliar o grau de destruição da vinha, pensando apenas no seu estado actual, deixando de fora a avaliação dos estragos provocados ao longo de muitos anos. É que não foram apenas os animais domésticos a danificá-la e apenas num só ano.
A vinha já resiste há muitos anos, às atrocidades de toda a ordem, mesmo as que lhe foram infligidas pelas cestinhas de mão, de toda a espécie de predadores selvagens.
Portanto, quando me lembro das cestas que se gabam que são as melhores do mundo, lembro-me logo das maiores borradas.  
 

 

Tudo começou sob o signo dos quatro anos de um mandato, em que se ficou a saber que, em lugar de três, havia quatro beligerantes nas corridas eleitorais que eu diviso no horizonte alaranjado, nestes dias em que a meteorologia nos incomoda com as suas previsões de céu muito nublado, ainda que, por enquanto, por nuvens muito altas ou nevoeiro muito baixo.
 Aparentemente, um dos candidatos começou a campanha ilegalmente, já que entrou no recinto da corrida sem ter adquirido o respectivo bilhete de entrada ou, em alternativa, não ter requisitado o certificado de concorrente. Depois, também errou, ao escolher entrar na corrida que não lhe diz respeito, apenas com o intuito de fazer sobressair a corrida na qual vai entrar, mas sobre a qual ainda não reflectiu um único minuto.
Os outros três candidatos também não estão isentos de uma certa ilegalidade, dado que entraram numa corrida, cujas inscrições ainda não abriram. Aliás, só um dos três poderá vir a entrar nessa corrida ou seja, apenas o vencedor desta pré-eliminatória terá acesso à corrida que ainda não se sabe se é daqui a uns meses ou daqui a uns anos.
Mas, a campanha para esta pré-eliminatória, passou-se sempre e só, à volta de quem nela não entrou, nem podia entrar, tal como o quarto candidato, ambos artistas cabeças de cartaz de um espectáculo que lhes não dizia respeito. Um, que se assumiu como interveniente activo ao lado dos três, e como interveniente passivo, em relação ao sujeito também passivo, que nada tem a ver com isto.
Os três candidatos activos desta beligerância que começa a decidir-se hoje, sábado, dia treze de Março de dois mil e dez, são uma espécie de desejados por poucos e pouco amados por muitos, tendo em conta que o verdadeiramente desejado se encolheu, embora não tenha ficado em casa, enquanto os seus indefectíveis, ou não lhe seguiram o exemplo, ou foram ao espectáculo completamente contrariados.
Já o quarto candidato, que ainda tem um longo ano para reflectir, na certeza de que vai mesmo, está hoje muito atento, como sempre, a tudo e a todos aqueles que contribuam para que o espectáculo do próximo ano, o seu, seja aquilo que os seus planos já reflectem, mas que a falta de uma cómica decisão familiar ainda esconde.
Este sábado não será um dia qualquer para estes três candidatos, não só porque dará indicações muito seguras sobre qual deles vai ter de inventar novas fórmulas verbais de ataques guerreiros a quem ainda não é candidato a nada, como vai ter a grande responsabilidade de vir a ser o fiel intérprete da vontade do candidato do próximo ano.
Mas, este sábado promete ser também um dia de muitos contrastes e de muitas reclamações, antes do seu início mas, sobretudo, depois de se terem fechado as portas com muitos discursos no bolso, que dele não chegarão a sair. Não será por falta de liberdade de expressão, mas talvez por falta de expressão da liberdade de ler discursos.
Seguramente, como já ouvi dizer com um misto de esperança e de ódio, serão três gajos porreiros a estar em confronto entre si mas, e esta é a grande virtude que lhe reconhece muita gente, serão três irmãos de sangue, mesmo sanguinários, muito unidos contra um perigoso sacana sem lei.   
Ali ao lado, o quarto e próximo candidato, revolvendo e remexendo a língua devido à boca seca, ainda conseguirá movê-la para informar que não pode dizer nada mas, como sempre, dirá o que pensa mentalmente, no interesse dos seus portugueses.
 
12 Mar, 2010

A 'boyada'

 

Como sou muito criativo desde os tempos em que tinha o mau hábito de jogar à bola, volta não volta lá estou eu a criar situações e palavras que ainda ninguém tinha tido a virtude de descobrir, talvez porque andem muito atarefados a tentar descobrir outras coisas que, a mim, nem me passariam pela cabeça, se não as ouvisse tão repetidamente.
A minha criatividade deu-me hoje para inventar a boyada, que é uma coisa em que todos falam, como se todos os outros estivessem lá metidos, mas que ficamos todos indignados, mais, ultra ofendidos, se nos acusarem, ou a alguém das nossas intimidades, de pertencerem também a essa grande boyada nacional.
Ainda não aprendi que não devemos andar com estes estrangeirismos que só servem para irmos esquecendo os termos muito nossos e tanto ou mais expressivos que os dos outros. É certo que a boyada nem sequer ainda foi inventada no estrangeiro, até porque é uma mistura, concordo que é uma má mistura, de boy com a portuguesíssima ada, outro produto da minha infindável criatividade.
Esta grande descoberta ocorreu-me depois de ter associado a nossa letra ‘i’ ao ‘y’ dos camones, quando me debruçava sobre o significado da também nossa, boiada. Daí que tivesse desde logo o impulso de pensar que os boys deles, eram os nossos bois. Como tenho ideias muito puras e sentimentos de muito altruísmo, vi logo que não podia ser.
E muito menos podia ser, quando me apercebi que por cá também temos boys, embora os camones não tenham bois, vá lá saber-se porquê. Eu sei, mas faz de conta, adiante. A verdade, porém, é que, por cá, ninguém quer ser boy, talvez porque estejam a cair na minha confusão inicial, depreendendo-se que também não queiram ser tratados como bois.
 Ainda admito que aquelas pessoas com menos instrução, caso dos tratadores dos bois, tenham alguma dificuldade em lidar com estas aparentes semelhanças entre boys e bois, ou entre boyada e boiada. Sim, porque eles sabem tudo sobre os bois, mas não sabem nada sobre os boys logo, não perdem tempo à procura das diferenças e das semelhanças.
Contudo, eu, que não trato de bois nem de boys, que já me apercebi de algumas semelhanças, como por exemplo, a prerrogativa de marrarem uns com os outros, quando toca a caracterizarem-se em comum, confesso que lamento profundamente que, com cabeças tão desiguais, mas com culturas muito semelhantes, se confrontem tão estupidamente.
Mas, se julgarem que isso lhes limpa a honra, aqueles que a tiverem, claro, deixo aqui mais uma criatividade que muito contribuirá para que boys e bois se enfrentem em local perfeitamente adequado, com todas as condições de luta, tanto para eles como para os aficionados dessas lides.
Como a arte dos bons cavaleiros e dos bons mestres das pegas está com alguns problemas com os defensores dos direitos dos animais, as arenas estão a ficar com uma utilização abaixo do que era. Então, poderiam libertá-las nos dias de trabalho, de segunda a sexta, para que os boys e os bois se defrontassem com toda a energia e coragem que os caracterizam, enquanto os sábados e domingos ficariam disponíveis para as chocas e seus acompanhantes.
Parece-me que talvez não fosse descabido fazer-se uma discussão séria desta matéria, de forma que ela tomasse a legalidade que é justo que ela tenha. Como é óbvio, essa discussão só pode tomar assento na sede da democracia, local da imparcialidade total, onde se sabe que não há boys nem bois, garantia de que ali não haverá nunca, uma coisa que se chama tourada.
Muito menos qualquer indício de uma pega de caras, de uma boiada, ou de uma boyada. Nem pensar.
 
10 Mar, 2010

Mas queriam o quê?

 

Parece que toda a gente já estava à espera que viessem aí grandes sacrifícios, e o maior problema parece que residia apenas em saber se o governo seria capaz de ter coragem suficiente para tomar as medidas que se impunham. Não sou eu que vou afirmar se teve, ou não teve essa coragem, uma vez que não sei se isto lá vai assim.
Mas há uma coisa que eu sei e essa é aquilo que toda a gente estava à espera. Temos de pagar aquilo que muita gente andou a gastar sem o ter. Quando digo temos, quero dizer que devemos ser todos a pagar, mesmo aqueles que, como eu, não gastaram nada que não tivessem. Isto porque é óbvio que os culpados ou beneficiários por si só, não conseguiriam pagar todos os calotes que os credores exigem ao país.
Considerando que a sociedade se pode dividir em pobres, classe média e ricos, é fácil adivinhar quem vai aguentar com a factura maior. Os pobres, de um modo geral só recebem, e isso, no meu entender, muito bem, pois sempre defendi que tudo deve ser feito para lhes proporcionar os meios que satisfaçam um mínimo de qualidade vida.
Aliás, sempre ouvi defender esse princípio a quase toda a gente das outras classes socais, embora na hora de o concretizar, haja muita marcha atrás, em nome de uma obrigação do governo, qualquer governo, em assumir essa função. É verdade, pois cabe ao governo redistribuir aquilo que cobra dos contribuintes de todas as classes sociais.
Se é verdade que em Portugal há muitos pobres, também é verdade que há muito poucos ricos assumidos. Logo, não se pode ajudar os pobres apenas com o dinheiro dos ricos, coitados, a não ser que se pretenda que os ricos passem a ser pobres, depois de pagarem os impostos. Para mim, este é um exercício meramente brincalhão.
Mas, continuando com este raciocínio, resta a classe média que, pelos vistos, ainda é muito mais numerosa do que por vezes se pretende fazer crer. Portanto, por exclusão de partes, é à classe média que tem de se recorrer para tapar os buracos que, diga-se a talhe de foice, também tem grande responsabilidade por boa parte desses buracos.
Se cada um dos indivíduos que a compõem meter a mão na consciência, haverá uma boa porção deles que encontrará motivos para não se expor demasiado, em tantas manifestações de desagrado, do tipo de quem está a ser roubado escandalosamente quando, repito, em certas circunstâncias, se alguém andou, e ainda anda a roubar…
Pois, eu sei que muita gente está a pensar no estado e em muitas roubalheiras que por lá vão. Mas, na hora do toque a rebate, o estado já lá não tem o produto dos roubos, nem isso chegaria para pagar o que se deve. Como os governantes não são o estado, senão e apenas seus representantes, o estado são os pobres, a classe média e os ricos.
Voltando ao princípio, se os pobres só recebem, se os ricos não podem ficar pobres, sobra a classe média para desenrascar a situação. Com toda a naturalidade, digo eu, porque há muita gente na classe média que faz vida de rica. Podendo ou não fazê-la, o que é certo é que quem faz de conta que é o que não é, então que pague como gosta de ser e como tanto gosta de mostrar que é.
Aliás, a atitude dos ricos é muito mais coerente do que a da classe média. Alguns ricos, como dizia um deles há tempos, são ricos mas fazem vida de pobres, ao contrário da classe média. E não custa até acreditar que também há pobres que fazem vida de ricos. Vá lá perceber todas estas contradições de uma sociedade moralmente injusta.
Mas, a grande verdade, é que ninguém está verdadeiramente interessado em que se corrijam as evidentes injustiças que temos na frente dos olhos. São os governos que não querem, ou não os deixam, mas são também todos os cidadãos bem instalados, e são muitos, de todas as classes sociais, que tudo fazem para que nada mude.
Depois, para tapar o sol com a peneira, anda por aí tudo num reboliço de polémicas com assinaturas, agora, já mais que reconhecidas. Quem não os conhecer que os compre.
 

 

Há muito tempo que não tinha uma conversa lúdica com a minha prima Ambrosina e isso já me estava a fazer falta, pois o bom senso dela costuma compensar os meus desvarios imaginativos, principalmente, em períodos de calma doentia, como os que temos atravessado nos últimos tempos.
Realmente isto nem parece um país que gosta de falar mal e de ouvir quem fala bem. Anda tudo de bico calado, tudo conformado com o que lhe dão e o que lhe dizem, tudo satisfeito com o que vê e o que ouve, até se esquecendo de ver um pouco de boa televisão e ouvir um bom programa de rádio para sair da rotina da felicidade fácil.
Ora aqui é que entra a minha querida prima Ambrosina, mulher de ideias em onda curta e visão em alta definição. Então, nesta conversa debaixo do guarda-chuva, começou por me explicar que já andava desesperada com este tempo de encharca gente que não faz nada, mas que gostava de fazer muita coisa que não sabe.
Como ela tem dois genros nessa cómoda situação, lembrou-se que eles podiam ser úteis à sociedade e, principalmente, às suas queridas esposas, filhas, como é óbvio, da minha prima sempre atenta e incansável no que toca à vida familiar, nestes dias de crise que ela não aceita assim de mão beijada, como aqueles que até gostam desta calma social.
Lá me foi dizendo que gastou muito do seu tempo e do seu sono, a pensar na maneira de pôr os seus dois genros a funcionar em termos de luta pela vida, coisa que eles pareciam nunca mais perder tempo com isso. É a tal coisa, dizia-me ela, quem pode estar calmo e sereno, para que há-de andar à procura de chatices?
E continuava, vê lá tu primo, que me disseram que essa coisa de trabalhar é uma doença, por causa do stress, dos horários, dos impostos, das discussões sobre promoções, das greves e de outros montes de problemas que nunca mais acabam. E depois que, se era um emprego privado, havia aqueles patrões exigentes. Se era emprego do estado lá estava o governo e as suas tiranias a tirar-lhes o sossego e a calma.
Como é que eu, lamentava, uma sogra como deve ser, podia conformar-me com uma coisa destas. Não, tinha de me impor e dizer-lhes muito claramente que, se não prestavam para ser empregados de ninguém, tinham de se meter no mundo dos negócios. Aí, com toda a prudência, avisei a minha prima que era preciso ter muito cuidado, porque esse era um mundo cheio de armadilhas muito perigosas.
E tu julgas que eu não sei? Perguntou ela levando o dedo indicador direito abaixo do olho esquerdo. Até parece que não me conheces, primo. Caramba, como sabes, estou farta de ver negócios, negociatas e negociadores de primeira e de segunda. E até já me meti em alguns e nem me saí lá muito mal. Seguiu-se um daqueles sorrisos malandrecos.
Mas afinal, prima, atalhei eu para abreviar, qual é a tua solução para todas essas complicações familiares? Que eu saiba os teus genros ainda não estão a negociar nada, pois não?
Ah, isso é que estão. Garantiu-me convictamente. Primeiro aconselhei o mais novo a comprar uma rádio. Aquilo não dá muito, mas para começar não é mau. Sempre se conhecem outros grandes negociantes. Depois, o mais velho ficou revoltado, e exigiu que o aconselhasse a comprar uma coisa melhor para ele.
Olha primo, tive de fazer um grande esforço para não arranjar ali um problema de ciúmes laborais. Mas lá me surgiu uma grande ideia. Aconselhei-o a comprar uma televisão.
Oh prima, desculpa lá, mas eu ainda não vi nada. Eles continuam na boa-vai-ela.
Ora, primo. Quando a gente tem boas ideias, há logo quem tenha montes de inveja. Houve um grande alarido porque consideraram que era uma concentração de meios na família. Depois os meus genros também se desentenderam e os negócios estão assim numa espécie de banho-maria, porque ambos querem a televisão, por ser a cores.
Oh prima, tanto esforço… Pois é… Disse ela com amargura. Eles continuam a discutir o negócio e o pior é que já me condenaram a ir tomar conta dos netos, para não ter mais ideias luminosas.
 
07 Mar, 2010

Falta a Dra Maria

 

Um jornal lisboeta lembrou-se de mandar escolher as oito mulheres mais influentes do país, mas esqueceu-se de nos revelar qual o tipo de influência que elas exercem, e sobre quem a exercem. Só assim poderíamos avaliar da justeza das escolhas pois assim, fica-me, a mim, a sensação de que andaram à procura de outros atributos.
Pelas fotos publicadas não me parece que tenham tido em conta a beleza física para a selecção, apesar de haver ali gente muito simpática. Ainda tentei dar uma olhadela para as vestes, mas tive de desistir, pois nem nisso as fotografias são elucidativas. O que se vê perfeitamente são os penteados, mas aquilo é tudo uma armação com técnica a mais.
Sim, mas aquilo é uma selecção de influenciadoras, o que deixa pressupor que movem influências ao mais alto nível logo, as vestes e os penteados devem situar-se também a esse nível, senão lá se vai a eficácia da influência. Porém, ainda estou a reflectir nos resultados da acção destas oito mulheres, sabendo-se que são apenas oito de entre milhentas.
Ora isto não é um assunto para ser tratado de ânimo leve, pois não tenho dúvidas de que elas mandam muito peso na sociedade e no país. Sendo assim, há-de haver homens por detrás de tudo isto, porque o peso delas é, exactamente, obrigá-los a sentarem-se a seu lado e ouvirem as suas sugestões, os seus conselhos, as suas exigências…
Como sou um tanto exigente dei comigo a avaliar as capacidades de cada uma delas, no sentido de eleger a mais influente de entre as oito escolhidas. Porém, logo me veio à ideia de que aquilo não teve critério com ponta por onde se lhe pegue. Atendendo ao homem mais influenciável, a mulher mais influenciadora só pode ser a Dra Maria, que não consta nas eleitas. 
Em contrapartida, a Dra Barroso, que só pode influenciar o Dr Mário, aparece na lista. Ora isto não tem lógica nenhuma em termos de influências, pois não se pode desligar poder com influências. Ninguém acredita que o Dr Mário ainda tenha assim tanto poder, para receber e dar influências, seja lá no que for.
Também me surpreende que ainda haja quem acredite que a Dra Manuela tem alguma influência. Só se for para dizer aos seus três delfins para não fazerem tanto barulho inútil como ela fez. Porém, quando junta a sua pequena influência, à da Dra Judite, aí a coisa fia mais fino, pois esta última vai beber muita água às fontes de Sintra e isso faz toda a diferença.
Além de que, duas em uma, numa estação de televisão, onde entram homens influenciáveis, homens influenciados e homens que vivem das influências, transformam aquilo numa influenza infernal de jogos de influências. Ora aqui, sim, está a verdade verdadinha, pois a lista das oito, deve ser liderada por ambas, a par, porque ficam a milhas de distância de todas as outras eleitas.  
Não me venham para cá a votar na Mariza, pois eu não acredito que uma voz daquela qualidade, sirva para mais qualquer coisa que não seja cantar. Quando muito pode comover ou divertir muita gente, agora influenciar… Só se for a Dra Morgado, desviando-lhe a atenção dos apitos, com a suavidade da sua música. Mas, não acredito.
Quanto às outras ilustres senhoras, entendo que é uma ofensa fazer-lhes isso. Não estou a ver nenhuma delas a dizerem ao governo o que deve ou não deve fazer. Só se fosse a meter uma cunhazita para as suas obras de caridade. Mas devem estar a bater na porta errada. Agora, que ninguém as confunda com os influenciadores do chefe do governo.
Aliás, só agora reparo. Mulheres com muita influência? Mas, que é lá isso? Meter influências é crime. Aposto que andaram a convencer o Sócrates a fazer das dele. É preciso averiguar já isso e pôr tudo em pratos limpos. Deve ser instaurado um inquérito de imediato. E depois do inquérito é preciso tirar consequências.
Se alguém ainda tinha dúvidas, que abra os olhos. Está mais que provado.
 

 

Que não se pense que venho para aqui pedir que se deite abaixo a reacção, porque isso é uma coisa do passado muito distante. Aliás, toda a gente sabe que em Portugal só há um homem que está autorizado a deitar abaixo os meios que lhe não sirvam os fins. Por isso, ainda há quem diga que ele tem muita reacção dentro dele. Talvez por isso, ele seja único.
Cada vez percebo menos a razão porque ele, chefe do governo, não pode dizer nada, sem que lhe caiam em cima todos os virtuosos e virtuosas deste país, enquanto não se coíbem de lhe lançar diariamente umas coisitas, sempre as mesmas, porque pensam que ele disse ou fez isto e aquilo. Que, aliás, nem quero saber se fez ou não fez, quando olho para os outros.
Uma dessas coisitas diz respeito a uma suspeita de que ele mentiu. Bom, ele já mentiu muitas vezes, e vai voltar a mentir muitas mais, segundo esses puritanos. Isso só seria grave se todos esses puros acusadores, nunca tivessem mentido, em casa, na rua, no gabinete de trabalho, no partido ou na assembleia. Gostava de os ver jurar a pés juntos que não.
Cá por mim, não tinha dúvidas em dizer que ninguém deve cuspir para o ar. Como também não tenho dúvidas em afirmar que, sem querer armar em advogado de ninguém, também chego a um ponto em que não gosto de embarcar no rol da ignorância ou da má fé, no qual vejo estar a cair uma enorme nódoa de perseguição desleal e desonesta.
Não compreendo como se pode ser um renitente e continuado agressor verbal de alguém, quando depois, não só não aceita, como ainda se indigna, se esse visado lhe responder. Como se os argumentos de uns fossem sempre sagrados, enquanto os argumentos do outro fossem sempre diabólicos.
Divergências são divergências e eu sei as que tenho e em relação a quem as tenho. Mas não alinho em armar em juiz de ninguém e muito menos a antecipar-me ao trabalho que lhes compete. Não embarco nessa de dizer que os juízes são bestiais se decidem como eu gostaria, e são umas bestas se decidem como eu não gosto.
Suponho que sei guardar os meus gostos e desgostos para coisas bem mais pessoais e dentro da lógica daquilo que me diz respeito, incluindo aí a defesa dos meus direitos cívicos, mas sempre dentro do limite dos direitos dos outros. Não vejo outra maneira de ser coerente para comigo próprio e para com todos aqueles que conheço ou não conheço sequer.
Quando sai cá para fora uma notícia daquelas que chocam alguém, há de imediato a chamada reacção dos que têm a ver com a mesma e dos que se enfurecem ou se enchem de gozo com ela. Quantas vezes, na pressa de reagir, se dizem os maiores disparates, só porque não se deram à paciência de reflectir um pouco sobre o que aconteceu.
Um governante não pode dizer que há gente que não paga impostos, porque logo o obrigarão a concretizar quem é que não paga, ameaçando-o e rotulando-o dos mais terríveis crimes de ofensa à sociedade. Em contrapartida, qualquer responsável, do mais baixo ao mais alto de qualquer corporação ou associação, mesmo qualquer vulgar cidadão, pode dizer que o governante é um gatuno que lhe rouba o seu dinheiro.
Quase toda a comunicação social está numa fase em que só é notícia tudo que for contra o governo ou próximo dele, nem que seja dito por um qualquer ignorante ou malévolo ‘opinador’. Tudo o que for dito em favor do governo é simplesmente ignorado, ainda que seja dito por individualidades de relevo nacional e internacional, ou especialistas na matéria em causa.
No caso do primeiro-ministro é bem notório que andam uns tantos, muitos, claro, a ‘rabear’ à volta dele, mesmo que não tenham como ir além das suas suspeitas e das suas desconfianças. Se ele se defende, está a vitimizar-se, se ele se cala, está comprometido, se interpela alguém, está a ser arrogante. É caso para dizer como o anúncio. Que raio de democracia é esta.
Há quem pense que, só porque são muitos a dizer a mesma coisa, tem de ser verdade o que dizem, pois acrescentam que não há fumo sem fogo. Há quem diga que ele devia entender que não tem condições para continuar no cargo, por causa de tantas suspeições. Eu diria que, enquanto houver apenas fumo, ainda que muito fumo, o perigo é apenas a intoxicação.
Falem, falem todos, a solo ou em orquestra, mas deixem falar também aqueles de quem falais. Mesmo que eles mintam, mesmo que eles digam disparates. Estarão ao mesmo nível que vós. A verdade é que temos juízes de mais fora dos tribunais, enquanto lá dentro temos de menos.
Isto, na minha ideia, não é política nem é nada. É lama só comparável aos lamaçais das enxurradas que o país está a suportar. Porque quando se tem razão, fala-se direito e directo, não se anda sempre à volta do mesmo montinho, que não se sabe se é estrume, se é batata podre fora do lugar. 
É por isso que não vinha mal ao mundo se antes da reacção, viesse sempre um momento de reflexão.
 
05 Mar, 2010

Última hora

 

Ao contrário da roupa velha que diariamente encontramos nas páginas dos jornais e nos telejornais de sábado a sexta, estas que vou abordar hoje são mesmo notícias fresquinhas, tão fresquinhas que algumas delas ainda não saíram mesmo.
Começo exactamente por aquela que mais impacto está a ter junto da opinião pública, especialmente, daquela que diz acreditar em tudo o que ouve, seja lá quem for a produzir o ruído. Pois bem, sem mais fazer render o peixe, informo solenemente que o governo acaba de transformar o PEC em PIR.
Exactamente, o Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC), acaba de mudar de nome para Plano de Instabilidade e Retrocesso (PIR), segundo esclarecimento do governo, para ter aprovação garantida no hemiciclo, depois do executivo ter recebido ameaças muito claras de que tinha os dias contados.
Segundo apurei junto das minhas fontes inexauríveis, o governo até nem se importava de dar o fora quanto antes, desde que os seus sucessores não viessem com aquela do pântano e com a outra de que só tinham feito asneiras. Ora, sabemos que há quem sabe, que os membros do governo já usam galochas há muito tempo e que, quanto a asneiras, eles garantem que não fizeram metade daquelas que ouviram aos outros.
Mas, o PIR está cheio de novidades que lhe dão duzentos por cento de credibilidade, tanto interna como externa, mas a primeira é muito mais importante, porque é nela que a segunda se baseia para emitir as suas opiniões. Isto, apesar de toda a gente saber que em Portugal, no século vinte um, ninguém pode emitir opiniões. Desde logo, nem o governo.
O PIR já resolveu esse problema, até porque não custa muito dinheiro. Está lá previsto, com a consequente dotação orçamental, que todos aqueles que dizem que não podem falar, lhes seja dada gratuitamente uma chucha, para ver se deixam de fazer aquele berreiro que incomoda que se farta, com a condição de a utilizarem vinte e quatro horas por dia.
Outra novidade do PIR é a ligação de todos os computadores de jornalistas e comentaristas, em rede, à PT e ao BCP, por se reconhecer que são os dois maiores e melhores centros de purificação jornalística do país. Não é conhecida nenhuma reacção negativa a esta novidade, havendo até três ou quatro meios de comunicação que já bateram palmas à medida.
Reconhecendo o grande impacto que chegará à justiça via fax, O PIR determina e manda publicar que tudo o que ela ouviu no silêncio dos estúdios privativos, deverá ser entregue aos cuscos que estão fartos de bocejar, obrigando-os a gramar aquilo tudo de uma só vez, nem que demore uma semana a passar pelos ouvidos, mas sem comer nem beber, antes de acabarem a tão desejada tarefa.
O Plano tem duas grandes vertentes como o próprio nome indica. Acaba de vez com o velho conceito de que a estabilidade é que era boa. Nada mais estúpido, pois a instabilidade garante a verdadeira liberdade de agir, mas não fazer. Garante que não se pense mais nessa treta de que é preciso produzir, para ter. Assegura que se recebe sempre, venha lá ele de onde vier.  
A outra vertente substituída, o crescimento, é pura e simplesmente banida do PIR. Como já se viu, nunca crescemos como os altos suecos, ou como os pequenos chineses. Então, se não conseguimos crescer, há que mudar de política. Vamos para o retrocesso, ao menos esse, já o conhecemos de ginjeira e de há muitos anos.
Em boa verdade, o PIR tem todas as condições para ser aprovado por unanimidade e aclamação, assim ele seja lido de ponta a ponta, antes de ser discutido. Sim, que ele também lá tem uma alínea que proíbe terminantemente que alguém fale sem o ler, bem como uma outra alínea, que proíbe que o discuta, quem não souber ler.
Fartos de um PEC que só serviu para nos dividir, que venha o PIR para nos unir, dentro das modernas normas da discussão especialmente participada. O meu voto vai para o ‘pir'.
 

 

Ao que parece, o eixo da terra sofreu um pequeno desvio por causa do terramoto do Chile. Deve ter sido muito pequeno, mas qualquer desvio é sempre um grande problema que por vezes até dá em desvario, ou não obrigasse, normalmente, a que as voltas que dele resultam, nos dêem a volta ao juízo.
Também a terra ficou com as voltas afectadas, embora eu ainda não tenha dado por isso, talvez porque tenho andado muito preocupado com aquelas pessoas que já padecem de um mal ainda não identificado, na minha opinião, resultante de um qualquer desvio do eixo, mas não me parece que seja o da terra.
Ora, o maior problema que eu temo, é que essa deficiência danifique o motor central com os solavancos resultantes de um eixo deficiente que, por sua vez, danifica os carretos. São estes sintomas que causam a minha preocupação, pois são cada vez mais, os indícios de que tal se reflecte mesmo nos carretos, e isso dá de imediato aquela sensação de se estar sobre rodas quadradas.
Já não é a primeira vez que oiço falar de pessoas que têm deficiências nos carretos e, sinceramente, foi com muita dificuldade que cheguei à conclusão de que se trata de um problema extremamente grave. Para isso, foi necessário lembrar-me da bicicleta, ou do automóvel, para lá chegar.
A roda pedaleira ou o motor são uma espécie de cabeça humana de onde sai a força do movimento, sendo os carretos os transformadores dessa força e os controladores da sua utilização. Se a cabeça está desregulada o corpo é que paga, tudo porque os carretos já moeram o juízo, principalmente, se ele tiver sido pouco ao longo dos tempos.   
Há quem confunda carretos com parafusos, mas há uma diferença fundamental entre eles. Os parafusos são muito mais pequenos que os carretos, além de que pode haver quem tenha um ou mais parafusos a menos, enquanto os carretos, que não se perdem, apenas ficam desdentados como qualquer maxilar com uso a mais.
Tudo isto para concluir que anda muita gente fora dos eixos. Não vou dizer que é por causa do terramoto do Chile, porque não tenho dúvida de que, antes dele, já havia parafusos a menos e carretos carecas. Mas, também não tenho dúvidas de que, após aquele sismo, e sujeitos como estamos a outros, tudo se vai agravar consideravelmente.
À primeira vista, estas peças que parecem bastante resistentes, ficam como manteiga quando aqueles que as albergam na sua cabeça, deixam que esta fique como a cabeça de um alambique quando em plena laboração.
Pior ainda se os carretos se passam com a cegueira do ódio, ou os parafusos se desenroscam com as voltas de pensamentos turvos.
 Assim, nem são precisos terramotos para nos fazer sair dos eixos.
 
03 Mar, 2010

O padre PSD

 

Não sei porquê, mas ao olhar para o actual PSD vejo à minha frente um padre na igreja, cumprindo o santo sacrifício da missa diária. E vejo nessa igreja uma espécie de Assembleia da República, com os deputados e as deputadas transformados nas beatas e beatos que se sentam nas primeiras filas dos bancos dessa igreja.
O padre que eu vejo ali, tem uma imagem permanente no pensamento, imagem que não é mais que o demónio em pessoa, não reparando sequer que tem à sua volta muitas imagens santificadas, muito mais de acordo com a celebração da santa missa, que devia constituir a manifestação da sua devoção e das suas orações.
Não é só o padre que pensa no mafarrico, pois as beatas e os beatos das bancadas da frente, dizem sempre ámen, à visível comunhão de pensamentos que os une naquela espécie de missa excomungada pelos ocupantes dos bancos da retaguarda, considerados ali como os ateus e defensores das teses diabólicas.
O padre da minha imaginação aceita a toda a hora que os praticantes de outros credos assistam à sua missa. E canta com eles algumas orações que mais fazem parte do cerimonial religioso dos seus acompanhantes, que propriamente do ritual que se esperava que o padre mantivesse no ideário do seu culto e na tradição das suas missas.
Depois, também um pouco à revelia dos estudos e práticas que aprendeu no seminário, ao longo de tantos anos, aderiu apaixonadamente a um certo tipo de folclore que contrasta de forma eloquente com os salmos que se comprometera a cantar, o que constitui, para os crentes mais tradicionalistas, um imperdoável pecado mortal.
Há quem afirme que Deus só há um, embora os crentes lhe atribuam vários nomes, consoante as suas convicções e as suas preferências sobre a maneira de exteriorizar a sua fé. O padre que eu vejo no meu imaginário também é único, principalmente, na sua capacidade de aglutinar, de juntar, de orar, em consonância com todos os discordantes, e sobre tudo o que é dissonante.   
Esta missa, este padre e esta igreja, correm o risco de estar a fazer a apologia de credos menos praticados e com muito menos praticantes, podendo vir a perder influência para os ateus que, perante aquilo que eles consideram incongruências de oratória, têm muitas hipóteses de verem crescer os seus créditos junto dos hesitantes e mesmo de alguns crentes menos convictos.
A afluência à missa, por mais que os crentes não queiram acreditar, depende muito de como ela é dita. E a maneira como ela é dita, depende quase exclusivamente do padre que a diz.
Não consigo perceber de onde me veio esta incompreensível ideia de associar um padre ao PSD que, ainda por cima, é um padre único, numa igreja onde ele não é o único pregador, mas também não é o único pecador, embora só veja os pecados dos outros, quando eles não rezam as suas orações. Até porque a maioria reza com ele.
Para complicar ainda mais a situação, o padre PSD vê-se a braços com a difícil e ingrata tarefa de ter três sacristães que, também eles, comungam de maneira diferente. Um quer que seja ela a meter-lhe a hóstia na boca, à maneira antiga, outro quer que seja ele a pôr-lhe a hóstia na mão, à moderna, o terceiro, quer servir-se ele próprio do cálix divino.
As beatas e os beatos das primeiras filas da igreja, por enquanto, olham para os sacristães com a esperança de que chegue a padre, aquele que mais se enfurecer com o mafarrico.