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afonsonunes

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17 Nov, 2010

Bipartidarismo

 Não é por acaso que o Sol está cada vez mais em baixo no Outono, ou não estivesse cada vez mais tapado por umas nuvens estranhas que mais parecem rolhas, daquelas que os seus admiradores, comentadores e colaboradores tanto dizem detestar quando denunciam outras, sob a forma de suspeitas, muitas vezes infundadas.

Ou talvez seja porque nesta altura do ano o Sol arrefece, a temperatura baixa e as pessoas mais resistentes desviam-se das nuvens sombrias que o Sol não perfura. Na verdade, há quem se sinta penetrado por raios e coriscos vindos do tal astro rei que nos selecciona e nos priva da sua luz, mesmo mortiça e, ao que parece, bastante castradora.

Para mim, muito mais estranho que o Sol, são os muitos que, estranhamente, tudo consideram estranho, como se a liberdade de pensar e de opinar estivesse vedada a alguém, mesmo a quem tem cargos importantes neste país. Depois, pior ainda, é o modo como aqueles distorcem tudo o que não lhes interessa ouvir.

Não custa nada deduzir que, segundo esses estranhos cidadãos, os governantes não podem abrir a boca. Senão, cada vez que a abrem, ou entra mosca ou sai asneira, que é como quem diz, ou estão a dizer mal da oposição, o que é uma heresia, ou estão a dizer mal de si próprios ou dos outros governantes, o que é um sinal de que o governo está de pantanas.

Por mim, gostava de entender esta espécie de democratas que eles são, reafirmando a todo o momento o seu direito de dizer tudo, mas mesmo tudo, enquanto negam aos seus odiados, o mais elementar direito à opinião, quer enquanto governantes, quer enquanto cidadãos que nunca devem deixar de ser.

Por outro lado, dentro do nosso espectro partidário, verifica-se outra estranheza de me deixar um tanto obtuso, que é um pouco mais que estranho. Trata-se da convergência, principalmente, do PSD com o PCP, em tudo quanto se relacione com questões que visem fazer abortar medidas propostas pelo PS.

No meu curto entender, as diferenças ideológicas entre eles deviam ser de tal forma que os colocariam quase sempre em campos opostos de qualquer discussão política. O que acontece é, exactamente, o contrário. Ambos, estranhamente, estão quase sempre juntos para que nada de essencial mude na sociedade portuguesa.

Esta realidade, que aparece aos meus olhos como indesmentível, mostra-se quando folheio a maioria dos jornais, onde não há, actualmente, alternativas à corrente de direita dominante, como na informação das televisões, onde a do estado se mostra a mais sectária e a mais tendenciosa, não só em política, como noutras actividades do país.

O negativismo está instalado, e bem instalado, graças ao poder cada vez mais subjugante do capitalismo selvagem, que alguns combatem de língua, ou de escrita, mas que o adoram como meio de se manterem no topo de qualquer coisa. Veja-se uns tantos colunistas de jornais de referência, como o DN, par não ir mais além.

Até parece, ou talvez não seja apenas aparência, que se misturem os da direita com os da esquerda, a odiar a mesma coisa, que é a coisa que lhes mexe na algibeira. Até podiam e deviam defender o que lhes interessa, que eu bem sei o que é, mas podiam e deviam fazê-lo com um mínimo de decência, de educação e de boas maneiras.

Podem defender-se ideias sem atacar a dignidade e a honra das pessoas, estejam elas no patamar mais baixo ou mais elevado da sociedade, sejam elas mais ou menos graduadas culturalmente em relação àqueles perante os quais tanto se põem em bicos dos pés para ver se lhe chegam aos calcanhares.

E, sobretudo, não pensem esses montes de inteligência, pelos vistos quase sempre inútil, que toda a gente vai pelo seu palavreado. Como já tenho ouvido dizer, as aparências iludem. E de que maneira. Talvez por isso, essas inteligências raramente se viram em lugares onde pudessem mostrar o que valem.

Esta gente acha tudo muito estranho, quando sentem que lhes toca contribuir para que outros fiquem menos vulneráveis. Depois, é vê-los a tentar defendê-los, com grande alarido, como se não fosse evidente que eles se defendem, exclusivamente, a si próprios.

Estranhamente, não consigo ver certos ferrenhos atacantes conotados com o PSD e o PCP em relação a figuras ligadas ao PS, mas não tocam em figuras sempre ligadas ao PSD. Acho estranho, muito estranho. Por mim, podem atacar à vontade, mas acho muito estranho que o façam só para um lado.

Será que há quem seja militante ou simpatizante em regime de bipartidarismo? Além de estranho, também acho muito curioso, este estranho Sol que só aquece alguns.

 

Milagre é um acontecimento que só acontece por intervenção divina, directamente, ou por intermédio de candidatos a santos ou a santas. Recuos são aquelas acções de marcha atrás que todos os que não gostam do governo costumam utilizar sempre que queiram reivindicar alguma vitoriazinha sobre o dito.

 A minha atenção, sempre muito vigilante e ainda mais implacável, tem-se centrado na evolução das relações palavrosas entre o governo, socialistas incluídos, e os ditos social-democratas, depois da nova liderança e, especialmente, depois dos peques e dos sucessivos acordos de viabilização dos mesmos.

Aquela fase guerreira do homem que não dava nada, que não transigia com coisa nenhuma, que queria tudo deitado abaixo, para ele poder construir de novo, nunca se soube bem o quê, já deu lugar a sucessivos abrandamentos, que foram deixando bem claro, que nem só de palavreado pode sobreviver um candidato a líder de um governo. 

Sobretudo, quando dentro das suas hostes, a contestação começou a assumir foros de insustentável, dadas as muitas argoladas que tiveram saídas de ferradura a ecoar a pateadas muito difíceis de abafar, apesar das tentativas de dissimulação do sentido dos contextos originais. A começar pelas tentativas de não colagem a certas visões presidenciais.

Parece bem evidente que houve, tanto em relação ao governo, como em relação ao presidente, uma dose elevada de amaciador de maneiras, de vozes e de ameaços, que só poderiam acabar em lenta marcha atrás, por causa do efeito que tem a palavra recuo, que tanto gostam de empregar noutras circunstâncias.

Também parece bem evidente que a estratégia de não dar um minuto de descanso ao governo, deu como resultado serem eles, os atacantes, a não ter um minuto de descanso para se defenderem dos ecos que os seus ataques massivos acabavam por suscitar dentro e fora das suas portas, cada vez mais vulneráveis.

Tal estratégia, demonstrou que, em lugar de desgastar o governo e levar o presidente a acompanhar esses malabarismos estratégicos, começava a colocar em risco a sua própria continuação na liderança partidária, como forma de acabar com sonhos de uma noite de euforia. Porque os governos e os presidentes desgastam-se por si próprios e não pelo que deles dizem os outros.

Claro que a força do mais poderoso acaba sempre por vir ao de cima. No caso presente, a força do presidente que, num momento que começa a ser decisivo para a sua continuação no cargo, tinha necessidade absoluta de não agitar as águas. Havia pois que amansar as feras que se digladiavam dentro das jaulas das quais só ele tinha as chaves.

Por outro lado, o presidente, não podia, nesta fase, entrar em guerra aberta com o governo e com o partido que o sustenta, para não perder o controlo de muitos dos seus eleitores dessa área, em favor de um adversário que pode vir a ser perigoso. Mas que, em princípio, se não houver erros tácticos, tudo indica que ficará pelo caminho, tal como já aconteceu no passado.

Foi assim que surgiu o recuo milagroso, ou o milagre dos recuos de todos os que já se viam como bem instalados governantes, ainda antes de lhe entregarem o poder. O recuo dos que viam o país de calças na mão, fez com que passassem a vê-lo viável, mesmo de cinto apertado a segurar as calças no lugar devido. O recuo dos que queriam o FMI já, esqueceram-se dele para já.

Ainda o recuo de todos os que queriam o governo fora, antes de Setembro, para prometerem agora serem os campeões da estabilidade governativa, sem falarem mesmo em Abril ou Maio próximo, como data da mudança dada como certa. Ou os recuos no orçamento, na revisão constitucional, no julgamento por crimes de não se sabe bem de que criminosos.

Lá que houve milagre presidencial, houve. Se não foi pelos motivos citados, então é porque ele, emérito sabedor de estados de sítio, terá aconselhado o adiamento da entrada em cena dos seus fiéis, até que o sítio fique num estado menos sitiado. Lá para depois de Janeiro, se não for antes, tudo ficará mais claro.

De qualquer forma, para bem ou para mal, são bem visíveis os recuos e o milagre que os causaram.

 

Já estou farto de ouvir dizer o contrário, a propósito de tudo e de nada, como se na vida da gente, a coisa se resolvesse com a outra coisa a clamar que era a mesma, ou a lamentar-se que não era a mesma. A verdade é que sendo a mesma, ou não sendo a mesma coisa, há sempre alguma coisa que não deixa de chagar os nossos ouvidos.

Estamos realmente numa era em que a coisa já foi muito melhor, principalmente, para todos aqueles que, e são muitos, não podem sequer imaginar que há qualquer coisa que já não é a mesma, daqueles tempos em que a coisa lhes corria às mil maravilhas, sem que tivessem de mostrar que tinham de fazer qualquer coisa.

Por causa disso, toca de querer dar a volta à coisa, através da criação de bodes expiatórios, dizendo que são gente má, mesmo da pior espécie, responsável pelas modernices calamitosas, com a esperança de que o tempo volte para trás e anule aquela volta à coisa, servindo de esponja apagadora de todas as coisas que lhes servem de estorvos e desmancha-prazeres.

O que mais me surpreende é que todas as coisas que eles querem de volta, são coisas que já só existem nas suas imaginações murchas, onde não deixam de ver as mesmas coisas de sempre que, curiosamente, nunca tiveram nada a ver com os outros mas, apenas e simplesmente, com os seus próprios interesses e egoísmos.

Daí que apregoem aos quatro ventos que a coisa não vai lá com os outros, mas apenas com eles próprios a fazer coisas que nunca souberam fazer e nunca terão o mais pequeno rasgo de génio para que a coisa lhes corra menos mal sequer. Com eles colocados lá no sítio que tanto desejam, nunca veríamos outra coisa que pudéssemos dizer que não era a mesma.

Na melhor das hipóteses, depois da troca, não iríamos além de constatar que era a mesma coisa porque, para pior, já nos basta esta coisa que todos eles nos arranjaram, sem que nós tivéssemos encomendado coisa alguma. Mas, quem está a pagar, e vai continuar a pagar, essa coisa que não encomendamos, somos nós, os protectores deles.

A única coisa que tenho como certa, é que também eu sou protector deles, porque não tenho coragem de, no momento próprio, fazer de uma cruz, a coisa que contribua para lhes tirar a coisa de vez, embora isso só pudesse acontecer se houvesse mais uns milhões a fazer a mesma coisa que eu. Ora isso é que é uma coisa muito difícil, porque há protectores que nunca souberam ser mais que protegidos.

Não me venham pois dizer que, se coisa e tal, não era a mesma coisa, só porque a coisa, neste momento, não está lá grande coisa, nem para uns, nem para os outros. Ora deixem-se disso pois, mais coisa menos coisa, o que interessa a todos, é serem mesmo os donos da coisa, ainda que ela, a coisa, esteja estragada, podre ou mal cheirosa.

Portanto, isto, esta coisa do poder é, e será sempre a mesma coisa. Com uns ou com outros, digam lá o que disserem, não tenho dúvidas, era a mesma coisa.    

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    

  

09 Nov, 2010

Olhos em bico

É exactamente como tenho andado nestes últimos dias. Com os olhos em bico, talvez porque as imagens que me têm chegado pela televisão, não deixam dúvidas. Vejo muita agitação do meio chinês, mostrando um entusiasmo contagiante com a visita a Portugal do máximo representante do seu país.

Acho muito estranho que o maior e mais influente líder do mundo venha às compras a Portugal pois, segundo rumores agoirentos, vem comprar mercadoria de pior qualidade que aquela que os chineses vendem nas suas lojas, no nosso país. Isto está em colisão frontal daquilo que é convicção generalizada de que a China não faz maus negócios.

É por isto mesmo que ando com os olhos em bico. Ou talvez não, se vier a concluir que os bicos andam por outros olhos, eventualmente, por parte dos muitos chineses que vêm lá de tão longe para aproveitar as pechinchas que ninguém quer. Ou acontecer ainda, que esses bicos estejam nos olhos dos portugueses que vêem o seu país na banca rota.

Ora, se a China não faz maus negócios, temos de concluir que veio a Portugal fazer negócios da China, comprando, se preciso for, por exemplo, a cidade de Lisboa inteirinha, incluindo o Tejo na parte que não pertence à outra margem. Segundo fontes que me servem em exclusivo, o pagamento será feito pela compra de dívida soberana.

Isto quer dizer, mais ou menos, que eles ficam com Lisboa e nós ficamos sem uns tantos calotes que eles levam para Pequim, para colocar no museu lá do sítio. Será um sucesso, o facto de os chineses verem, ao vivo, o que é uma dívida soberana, coisa que eles nem imaginam o que seja essa coisa.

Quanto a Lisboa, quando chinesa, deixará de ter muros para ter grandes muralhas, com soldados e polícias por tudo quanto é sítio, mas limpa de todos os que não fazem lá falta nenhuma. Eu nem quero falar nisto, senão ainda levo com alguma coisa na cabeça, a qual ficará muito mais chata do que já está.

Nem quero pensar que poderia ficar com olhos em bico numa cabeça chata. Porém, isso nem é hipótese que se coloque a quem, como eu, é um defensor de boas relações entre pequenos e grandes chineses, bem como entre Pequim sem portugueses e Lisboa cheia de chineses a comprar tudo, até os nossos calotes, e a vender a cangalhada que eles não querem para nada.  

Porém, o maior perigo para a nossa pátria muito amada, é o assédio a altos dirigentes políticos, alvos da cobiça de altos dirigentes chineses, que já demonstraram por gestos, que estão muitíssimo interessados em os levar, alguns, claro, para superintenderem lá, à implantação de partidos mais ou menos como os nossos.

Esta cobiça deve-se, naturalmente, ao bom desempenho desses dirigentes nos nossos partidos, tomados como exemplo de experiência, rigor e competência. Relembro que os chineses não fazem maus negócios. As verbas das transferências em perspectiva, calcula-se que cobririam largamente as importações de toda a cangalhada deles durante um ano.

Há ainda uma pequena dúvida que não foi possível esclarecer junto de ambas as partes negociadoras. É saber quem estará à beira de se mudar para a China, com todo o seu potencial de oratória na bagagem. Consta, no entanto, que Sócrates não está incluído no pacote negocial, com o argumento de que ele é insubstituível e imprescindível cá, para gerir os interesses chineses resultantes dos negócios agora efectuados.

Sim, já sei, será uma pena. Mais uma oportunidade desperdiçada. Já me constou que até ele, quando viu a lista de transferências, ficou com os olhos em bico. 

 

08 Nov, 2010

Ena tantos!...

 

Com que então estavam à espera de cento e cinquenta mil no Marquês de Pombal. Certamente que estavam a contar que o Benfica ganhasse ao Porto e fossem festejar para ali. Só que se esqueceram que o joguito não era nesse dia e o Benfica nem sempre está para aí voltado. Além de que nem sempre o deixam estar voltado para onde quer.

A verdade é que o cálculo não é o forte de muitos calculadores, quanto ao número de manifestantes que vão para as ruas. Acho mesmo que eles só têm a virtude de serem sempre muito optimistas e isso é um sinal positivo. Esperar, vem de esperança, e esta é sempre a última coisa a morrer. Só espero que não se reformem tão cedo, estes calculadores de meia tigela, por causa das cotas sindicais que pagam tudo..

Segundo um americano e seus alunos da Universidade Nova, não foram contados os esperados cento e cinquenta mil manifestantes, nem sequer os cem mil anunciados pelos sindicatos e publicados na comunicação social em grandes parangonas. A coisa terá ficado numa cifra umas milésimas mais reduzida.

Os estudos dessa equipa foram cuidadosamente planeados e executados de acordo com métodos diversificados, abrangendo fotografias tiradas de planos superiores, contagens directas por sectores e ainda através de imagens do Google Earth. Os resultados foram surpreendentes e demonstram bem a parvoíce que reina em certas figuras do meio.

Nem os esperados, nem os divulgados cem mil, mas, imagine-se, oito a dez mil manifestantes, não assistindo aos discursos finais, mais que cinco mil pessoas. É caso para dizer que não foram 150, nem 100, mas, no máximo 10. Milhares como é óbvio. Não fosse o rigor com que tudo isto foi explicado, eu diria que estavam a brincar com a gente.

Agora, depreendo que quem tem andado sempre a brincar com toda a gente deste país são esses sindicalistas que não passam de trapaceiros, em todos os números que dão das greves e das manifestações, que vão ao desplante de dizer que as greves não se fazem contra o governo, ou que os números que dão lhes são dados pela polícia. Ora a polícia garante que não divulga os seus números.

Depois, todas as mentiras que dizem esses trapaceiros, aparecem com grande destaque na comunicação social, que faz fé em tudo o que lhe põem na frente. Daí se deduz que nela já não há jornalistas que vejam com os seus olhos, que oiçam com os seus ouvidos, ou que pensem e calculem pela sua cabeça. Em lugar deles, devem andar uns tarefeiros a quem pagam pouco, para verem muito menos ou, fecharem os olhos, os ouvidos e a mente, a tudo o que não interessar e, estamos fartos de ver, é muito mais do que se imagina.

Esta crise que nos atormenta, vai revelando minuto a minuto, crises e mais crises que se amontoam umas nas outras, que nos cercam, nos envolvem, como se a salvação do país tivesse de passar pelo arrasar de tudo o que existe, para que tudo o que vier tenha de ser novo.

Porém, já estou preparado para ter muito cuidado com tudo o que parece novo por fora mas é velho, bolorento de velho, por dentro. Tal como sei que nem tudo o que reluz é oiro, também sei que é preciso saber distinguir o oito do oitenta. Ensinaram-me isso logo de pequenino.

Aliás, entre o oito e o oitenta vai, grosso modo, a mesma proporção de dez para cem, logo, dos dez mil, para os cem mil. Já não é a mesma coisa se a proporção for de oito para cem. É obra. Como palpite, é uma cegueira, como informação, é uma fraude, como acto político, é uma vigarice. A tudo isto já estamos habituados.

 

Eu diria que nem com uma boa lambreta lá vamos, quanto mais a dar à perna, com passos maiores ou menores, ou não se tivesse já chegado à conclusão que hoje já ninguém está para romper as solas dos sapatos, até porque a própria sola já não se usa. Nem propriamente nas botas-de-elástico, muito recordadas e saudosas para quem ainda não as descalçou.

Portanto, mais vale nem sequer pensar em passos, coisa do passado, em que não havia tanta gente com passes sociais, tantos meios de transporte público onde ninguém paga, porque também ninguém trabalha, mesmo os que fazem o frete de andar neles oito horas por dia a olhar para o relógio.

Mas é que nem me falem em passos, numa altura em que já toda a gente anda com os pés no ar, dentro dos seus carros, muitos deles autênticas bombas, já que o crédito bancário é muito mais fácil para coisas que se vejam, em contradição com a aquisição de quase tudo o que realmente faz falta. É por isso que cresce o número de pessoas que dão como perdidos os passos inúteis.

No meio desta divagação ocorreu-me o nome do Pedrinho, sem perceber bem a que propósito, uma vez que estava apenas a pensar em passos, como referi, mais ou menos inúteis. Talvez porque eu próprio, volta não volta, lá vou dando também os meus passos em falso. Mas não sou o único.

Estas conversas são como as cerejas. Falando de passos em falso, logo me vem à ideia que quem os dá, tem de ser responsabilizado. Há quem fale em responsabilidade civil e criminal, mas a minha pessoa não percebe nada dessas responsabilidades logo, fica na dúvida, se o que querem dizer é que tudo devia ir para a choldra, ou libertar os que já lá estão.

No meu entender, deviam dar-se passos noutro sentido bem diferente. Devia ser-se inflexível com o apuramento de responsabilidades verbais. Sim, porque andam por aí, em certas bocas com línguas compridas, uns verbos que ferem de modo irreversível os ouvidos de gente que até precisa de os ter bem apuradinhos.

Ora, atendendo a que há actos dolosos ao privar essa gente das suas faculdades naturais e normais, tem de se falar em crime logo, não pode deixar de se assacarem responsabilidades civis e criminais, resultantes da prática sistemática de infracções no campo das responsabilidades verbais.

Em consequência de tais práticas, nada mais aconselhável que seguir a jurisprudência, também ela verbal, de que alguns deveriam ir todos presos, vulgo, para a choldra, defendida exactamente pela mesma gente que defende agora a responsabilização civil e criminal dos seus colegas de profissão, deixando sem castigo a responsabilidade verbal, além da natural e real co-responsabilização.

Mas, pior que estas, é a verborreia que já nem responsabilidade tem, dados os passos que percorre todos os dias por esse país todo. Aqui, volto a lembrar-me do Pedrinho e, vá lá saber-se porquê, agora até me ocorreu que ao Pedrinho, já se vai juntando o seu padrinho, embora eu não possa falar de associação com fins lucrativos. Mas há quem fale.

Pedrinho e seu padrinho, se fecharem, como tudo indica, um acordo total, bem podem garantir o sucesso de ambos para a eternidade, pois tudo indica que a concorrência vai toda para a choldra a passos largos, por muitos e bons anos. Para não chatear.

Já dizem por aí que o estado social já vai indo. Sabe-se lá para onde. Como as línguas venenosas não cabem todas no mesmo albergue, é natural que se vá substituindo esse estado social, por um estado prisional muito alargado. Porque a ideia agrada a muita gente, os passos parecem ir nesse sentido.      

Porém, tenho uma sugestão muito interessante a apresentar. O estado, mesmo o prisional, não tem instalações para tanta clientela. Então, sugiro de boa fé, que todos os quartéis-generais partidários disponham e disponibilizem, salas destinadas a celas para os incumpridores condenados. É uma questão de proximidade que muito eleva o moral dos interessados.

Depois não digam que neste país ninguém tem ideias. Ideias há, é preciso, é urgente e é necessário, que passos sejam dados no sentido de pôr o país em sentido e, tanto quanto possível na choldra. Com esses passos vamos lá com certeza.

 

 

Isto é assim mesmo quando se encontram dois filósofos frente a frente, numa tribuna que de um lado tinha muito de romana, enquanto do outro havia a inspiração da minha prima Ana, que é portuguesa, madrasta da filosofia serrana, com o seu indesmentível sorriso de magana e o ar agreste de quem a ninguém engana.

Era indispensável que não faltasse a rima poética, neste interessante debate, onde também era previsível que houvesse um orçamento mas, com tanta filosofia e tanta poesia, nada mais lá cabia. Isto é, o orçamento ficou para o ano que vem, até porque me pareceu que ele não vai fazer falta a ninguém. Ora bem.

Isto é, como desde há milhentos anos que ele, o tal de orçamento, nunca é cumprido, não faz falta nenhuma, nem a quem se dá à trabalheira de o fazer e de o apresentar, nem a quem tanto se esforça por ver se o consegue substituir por outro que não tem, contentando-se com meter uns pontos e vírgulas no meio da conversa da discussão do dito.

Isto é, a intervenção do Augusto comparada com a do Maçudo é como a diferença do dia para a noite. Isto é, a filosofia de mãos dadas com a poesia, contra a filosofia aos pontapés nas calças na mão. Isto é, um poema de alguém que anda com as calças na mão, contra alguém que só dá duas, porque nunca dará uma terceira, ainda que sejam oportunidades.

Isto é, segundo o meu desenvolvido entendimento, ficou-me a certeza de que o Augusto, no seu filosofar meio romano, tratou de, poeticamente, retomar a sua velha, mas profícua, tendência para malhar, malhar, não só à direita, como tanto gostava de fazer no passado, mas também agora à esquerda, para não dizerem que ele se repete monotonamente.

Isto é, malhar, malhar, malhar, foi também o que não deixou de fazer o Maçudo, este num filosofar mais boçal e serrano, como diria a tal dura minha prima Ana, um tanto à bruta, isto é, sem um rasgo de meiguice poética, nem um alento de ternura romântica, já que não sabe ou não pode competir com a doçura romana.

Isto é, no meu desenvolvido critério, sempre é mais bonito o estilo do Augusto, porque no meio daquela seriedade toda, sempre se foram ouvindo umas gargalhadas que outros trocaram por uns abanões de cabeças, com os rostos muito sisudos. Isto é, vê-se mesmo que aqueles não percebem nada da arte da dicção e representação, enquanto estes, lá bem no fundo das suas mentes, transformavam a comédia em drama.

Isto é, nem uns nem outros perceberam que mais vale um Augusto com ou sem razão, mas cheio de serena e poética paixão, que um Maçudo com muita ou pouca razão, mas que na sua exaltação fonética da frase, se arrisca à distracção de ficar com as calças fora da mão. Isto é bem elucidativo do que é discutir o orçamento da nação.

Isto é, pois, isto é, no discurso do Augusto, foi a chave da ‘malhação’.   

 

02 Nov, 2010

O nosso PSD

 

Ninguém duvida que o nosso PSD é um grande partido, sobretudo porque prega grandes partidas aos portugueses, mesmo àqueles que detestam que se diga o nosso. Mas, realmente ele é muito grande, principalmente, se o analisarmos apenas sob o aspecto de movimentações bancárias cá dentro e lá fora, por gente que sempre andou nele muito por dentro.

Nesse aspecto de partidas que ele nos tem pregado por intermédio dos seus pares, parece-me importante fazer uma espécie de comparação com outros que, não saindo há muitos anos das bocas do mundo, estão longe de provocar os rombos catastróficos que a justiça vai anunciando, alguns já completamente provados e julgados.

Uma coisa é o que anda nas bocas do mundo, sobretudo no mundo da maledicência e da partidarite baixa, doentia e interesseira, outra bem diferente é a realidade dos factos sistematicamente silenciados, abafados ou ignorados, em que é evidente a má fé e o intuito de ludibriar a opinião pública. Onde prolifera um estilo de linguagem que se tornou imagem de marca do PSD, à base de frases de qualidade especial rasteira.

É sabido que na política nada nem ninguém está inocente. O passado e o presente provam isso mesmo à evidência. Nem os mais pequenos partidos escapam à constatação de que nem eles são perfeitos, apesar de andarem muito longe da roda do poder. Mas, há sempre as cunhas, as influências, as amizades que, não sendo de grande monta, também doem no país.

Os dois maiores, os da área do poder, PS e PSD, onde esporadicamente aparece o CDS, mas com força competitiva, os grandes negócios e as grandes influências dão mesmo cabo de qualquer orçamento, quaisquer que sejam as boas intenções de qualquer deles, antes de os aprovarem ou rejeitarem.   

O que me parece evidente é a contabilidade das burlas que recaíram sobre o estado, diga-se, contribuintes. Do lado do PS fala-se em muitas coisas, em muitos processos mas, verbas retiradas do estado, ou condenações por burlas, não estou a ver grande coisa. Conheço muitas intenções, muitas acusações frustradas. Só porque alguém fala em alguém, porque alguém é investigado, sem nada de grave se ter provado, já há criminosos, gatunos, etc.

Do lado do PSD, temos os heróis dos milhões do BPN e da SLN, que até pareciam instituições privativas do partido, os condenados da ex-vereação da CML, o condenado presidente de Oeiras e tantos outros, que são pessoas sérias de que não se ouve uma palavra de censura sequer. Costuma dizer-se que quem tem amigos destes, não precisa de ter inimigos. Se as pessoas sérias se dão bem com toda esta seriedade, então estamos conversados.

Depois, é o PSD que arma em campeão da luta contra a corrupção. Só se for contra a corrupção da conversa. Por que da outra, a séria, a que faz buracos no nosso bolso, melhor seria que tivessem cuidado com os telhados de vidro e fizessem uma campanha interna para ver se melhoravam a situação.

Nada tenho a ver com estes do PSD, nem com aqueles do PS. Mas não gosto de ficar a meio caminho entre a verdade e a mentira, fazendo de conta que não é nada comigo. Tudo o que se passa neste atoleiro, tem que ver com toda a gente, especialmente, com todos aqueles que contribuíram, contribuem, ou fecham os olhos para não verem aquilo que detestam, ou não querem que se acabe de vez.

 Considero ridícula a ideia, mais uma, do líder do PSD, segundo a qual o seu partido não tem nada a ver com a situação actual do país. Pura hipocrisia e impura demagogia, porque não há cá ninguém que não tenha, muito ou pouco, a ver com isto. O tão conhecido monstro vem do cavaquismo. O guterrismo desertou porque não quis atolar-se no pântano onde já imperava o monstro, e não havia maioria suficiente para o abater. O barrosismo, já com maioria partilhada, não viu soluções e desertou também. O santanismo, pobre dele, mal nasceu, nem chegou a crescer.

Depois de algum vento de recuperação, veio a crise, a tal que levou trinta milhões de empregos no mundo e levou a quase totalidade dos países da EU ao défice excessivo. Apesar disso, por cá, continuou a boa vida, ou a vida boa, como se queira, de que ninguém esteve disposto a abdicar, como ainda agora muitos não estão. Portanto, continuam a divertir-se atirando pedras uns aos outros, convencidos que elas só partem as cabeças de uns, os maus. Mas, os bons, não vão ter a salvação eterna.    

Quando os bons do presente tomarem posse do pântano, não venham com cara de anjinhos dizer que têm de nos lixar ainda mais, porque não sabiam a herança que lhes deixaram. Se não sabem o que vão receber e não sabem como pagar os calotes, não a aceitem, até terem tudo bem estudado. Até lá, deixem tudo como está, para terem pedras para atirar. Senão, não tardará que lhes partam também as suas próprias cabeças.

Depois, tudo isto é a nossa antiga sina. E também a sina do nosso PSD.

 

01 Nov, 2010

A estátua, já!

Afinal sou como os outros que tanto critico, por atirarem coisas cá para fora sem terem a garantia de que possuem, no mínimo, um fundo de verdade. No entanto, anda aqui qualquer coisa às voltas dentro de mim que, se não a deito cá para fora, rebento mesmo, temendo ficar sem conserto. Uma pena, evidentemente.

Ora sendo assim, o melhor é desopilar, e já, antes que seja tarde. Li em qualquer lado, a memória atraiçoa-me sempre que lhe peço ajuda, que um ‘very vip’ só estava à espera que lhe fizessem uma estátua, para mudar de vida. Não gosto nada de dizer, seja a quem for, que está na hora de dar o fora.

Por mais que tente, não consigo recordar o nome dessa ilustre personalidade. Mas recordo-me perfeitamente que é mesmo um craque nas notícias diárias, com ligações muito fortes ao mundo animal, talvez ao mundo cão que, se bem me recordo, lhe dão uma prestimosa protecção contra o inimigo de Lisboa. Não, não consigo recordar mais nada.

Mas, o mais importante da notícia era exactamente a construção da estátua. Afinal, é muito fácil a alguém satisfazer esse sonho, a um homem que a merece a duzentos por cento. Até porque ele não exige tamanho mínimo para ela, ou lugar especial para a colocar, o que facilita extraordinariamente a concessão de tão sonhado e importante desejo.

É claro que também não se pode estar a pensar numa estatueta, senão ainda alguém ia exigir à Academia USA, um óscar para o melhor presidente do século. Tão pouco se pode arrumar o assunto com uma estatueta de madeira, ainda que seja de pau à maneira, pois o laureado sentir-se-ia pequeno demais para tanta obra feita.

Mas, caramba, o nome é que me anda debaixo da língua, como se realmente fosse tão pequeno que se afogasse debaixo da saliva. Já pensei em várias personalidades, numa tentativa de chegar lá, por exclusão de partes. O pior é que consigo excluir toda a gente, menos aquele que me parece que é.

Já admiti que fosse o nosso Sócrates, dada a circunstância de se considerar que é melhor ele ir andando, deixando a estátua para depois, com a certeza de que ela será uma realidade, mais tarde ou mais cedo. Mas, depois pensei que ele prefere, de longe, ter mais um mês de governo, que uma estátua em quinze dias.  

Para o nosso Sócrates, era muito mais importante que se fizesse uma estátua a quem conseguir provar a primeira das muitas tramóias de que o acusam. Mais, ainda segundo ele, devia sair também uma estátua para o melhor, ou maior, criador do insulto mais decente de entre todos os que já lhe dedicaram. 

Depois, virei-me para o nosso Passos, o coelhinho que se transformou em mascote nacional, o homem que pôs o país a sonhar, havendo até quem tenha misturado sonhos com pesadelos pela sua causa. Porém, houve logo quem dissesse que o seu tom de voz habitual, não condizia com a imagem de uma estátua normal.

Aliás, seria um contra senso, ele, o nosso Passos, aceitar a estátua para ir andando, quando ainda nem sequer chegou. Por vezes o meu raciocínio é lento demais. Mas, também pode ser rápido demais, se atender ao facto da estátua poder ser atribuída pela sua ida antecipada para as reservas morais do partido. Não, nem pensar.

Mais um esforço mental e aí estou eu perante o nosso Aníbal, o homem do conhecimento e da obra, o honorário trabalhador incansável não sindicalizado, o grande protector de todos os cidadãos e suas, não, não é isso que queria dizer, mas sim o homem que talvez aceitasse a estátua. Porém, para ir andando, é que não tem o mínimo sentido estratégico. Ele sente que os portugueses nunca o deixariam ir.

Ora, se não era nenhum destes três o visado na notícia da estátua, certamente que estarão a pensar de mim, umas coisinhas que eu cá sei. Mas, juro que não inventei nada e que li mesmo essa notícia. Alto e pára o baile. Se não era ninguém da política, só podia ser alguém da bola. Bolas, custou mas cheguei lá. Afinal a minha memória ainda não está assim tão, tão.  

Ai, ninguém sabe de quem se trata? Façam como eu. Puxem, vá, puxem mais um bocadinho. Não é qualquer um que pede uma estátua. Ir andando é que não é nada fácil.

 

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