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afonsonunes

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13 Dez, 2010

Os palhacinhos

 

Não sei porque carga de água a vida tem de ser passada nesta dicotomia de termos de aturar palhaços tristes ou palhaços alegres, quando uns ou outros só entram no circo se nós comprarmos o bilhetinho que permite a abertura das portas.

Antes disso, cá fora, na propaganda preliminar, não temos outro remédio senão ouvir as gracinhas do triste e as piadinhas do alegre, embora já tenhamos pago antecipadamente as cotas de membros da organização de todas as palhaçadas que nos perseguem no dia-a-dia.

Estou convencido que é por isso, só pode ser, que depois haja umas claques de palhacinhos que tudo fazem por nos fazer crer que os seus ídolos, o palhaço triste e o palhaço alegre, são a coisa mais fofinha do mundo para cada uma dessas claques.

Como sempre acontece quando a luta aquece, a claque do palhaço triste, diz a pés juntos que o triste é o dito alegre e que o alegre não passa mesmo de um triste. Nesta coisa de palhacinhos é muito difícil encontrar um motivo para soltar um sorriso, ainda que envergonhado.

Porque está mais que visto que os palhacinhos de um lado e do outro, querem superar a graça que eles encontram nos seus ídolos, mas isso é muito difícil. Nunca se pode superar uma coisa que não existe. Por mim, só encontro alguma graça, no facto de uns palhacinhos, não pararem de chamar palhaço ao ídolo dos outros.

Isto é mesmo típico de palhacinhos que, ou já se consideram palhaços crescidos, o que é uma utopia, ou então estão repletos de esperança em que não tardará o dia da sua grande palhaçada. Podiam ser generosamente mais modestos, e ficar-se pela qualidade da sua pequenez.

Anda uma confusão muito grande na minha cabeça, por causa dessa história de quem é mais alegre ou mais triste, deixando para trás essa história do circo, com mais feras menos feras, com mais palhaços menos palhaços. Porque toda a gente pode ser alegre ou triste, por motivos que até podem não ter graça nenhuma.

Talvez nunca venha a compreender perfeitamente, porque raio de motivos pode haver mais alegria à esquerda que à direita, ou mais tristes à direita que à esquerda. Esse é o ponto fulcral das minhas confusões.

Pelo que vou ouvindo daqui e dali, consoante a aragem que corre meigamente, tudo parece indicar que a alegria desliza suavemente entre os ouvidos da minha direita, enquanto a tristeza invade alegremente os ouvidos da minha esquerda.

Sendo este indicador digno de alguma fidelidade, há nele uma contradição que não posso deixar de referir. Se a alegria é um estado de espírito dos alegres e se a tristeza é característica dos tristes, então os palhacinhos andam a ver tudo ao contrário.

Aliás, esta coisa de chamar tristes aos alegres, mais do que chamar alegres aos tristes, só pode acabar por deixar os tristes a rir e os alegres a chorar. Parece que, finalmente, descobri a lógica dos palhacinhos.

 

 

11 Dez, 2010

O pacto dos patos

Não tenho bem a certeza mas tenho cá uma ideia que esta historieta pode ter começado em Aveiro, uma cidade onde começam as coisas mais esquisitas que a minha esquisitice congénita já alguma vez congeminou. Talvez seja porque tem uma ria muito grande, o que quer dizer que mete muita água.

Esse é outro sinal de que pode haver por lá patos, embora os mais vistosos só apareçam de vez em quando, para mostrarem aos de lá, que estão com eles no pensamento, principalmente, quando as águas andam mais agitadas, obrigando todos os patos a tocarem a rebate, para que nenhum deles seja alvejado.

Dois dos patos mais importantes entenderam fazer um pacto de não agressão, por agora, porque um objectivo mais amplo os anima para o futuro que, dia sim, dia não, nos prognósticos, pode vir a ser já amanhã. Mas, se não for amanhã, pensam eles, nunca passará de depois de amanhã.

Para já, não podem mandar bocas um ao outro como faziam até há poucos dias. É um sinal de unanimidade de gentilezas que, assim, ficam todas direccionadas no mesmo sentido. Se a referência é Aveiro, esse sentido é, inequivocamente, para sul e, como não podia deixar de ser, a cidade capital daquilo em que Aveiro não quer meter o bedelho.

Só pelo facto de haver dois patos sintonizados, o pacto já seria muito importante, numa cidade onde, justiça lhe seja feita, há muitas vozes a clamar por ela, como se uns quisessem uma limpeza geral da ria, enquanto os do moliço querem a ria quanto mais suja melhor. Dizem eles, que é assim que os negócios prosperam.

Mas o pacto entre dois, tem subentendido um terceiro, que só não entra nele com assinatura e tudo, porque diz que não deve mostrar a sua adesão à luz do dia, reservando-se o direito de participar de corpo inteiro desde o pôr-do-sol, até que o mesmo se levante no dia seguinte. Nos dias em que o sol não chega a ver-se a participação não tem restrições.

Como estamos em tempo de prendas, coisa que em Aveiro é expressamente proibido, este pacto, na prática entre três patos, corre o risco de vir a ser considerado inconstitucional, pois oferece muitas dúvidas, o facto de ele poder constituir uma prenda de dois deles ao terceiro, como prova de uma amizade que pode ser conivência em negócio.

Não sou constitucionalista, mas parece-me que não vem mal nenhum ao país que dois, ou mesmo três patos, façam os pactos que quiserem, porque a ria tudo engole e tudo evacua, desde que não lhe perturbem as marés. Sim, porque as marés são a vergonha dos homens e a boa-vai-ela dos patos.   

Obviamente que estou a referir-me à vergonha dos patos bravos, porque os outros, agora, deram em sentir vergonha mas só daquilo que não fizeram nos tempos em que voavam livremente por toda a ria e até por todo o lado.

Sim, porque nesse tempo havia comida para todos os patos, mas hoje não é bem assim. Até já ouvi dizer que isso da fome envergonha-nos. Tenho a certeza que há aqui um erro de palmatória, pois a ideia correcta é, sem dúvida, a fome envergonha-me. Há quem não tenha cuidado nenhum com os tempos, com os pronomes e com os verbos.

Já que me voltei para a fome e já fugi de Aveiro, embora continuando na ria e nos patos, ouvi dizer que as gaivotas famintas, porque os patos comem tudo, podem começar a ir à porta dos restaurantes a debicar os restos de comida, talvez as espinhas do peixe e os ossitos da carne, que os chefes passam a depositar ali, e não nos contentores.

Estou muito satisfeito porque ainda ninguém se lembrou de fazer isso com as pessoas. Sim, porque as pessoas não são gaivotas. Nem patos, tão pouco. E os chefes de barrete enfiado na cabeça, não iam gostar que lhes chamassem trouxas, ou otários, ou outra coisa qualquer. Uma dose, é uma dose para uma pessoa, e não uma dose para a pessoa que paga, e mais meia para quem lá vai depois comer à borla.

A menos que andem a escorrer os restos das travessas, e muito menos dos pratos, para matar a fome seja a quem for. É que hoje, já nem os cães, nem os gatos, comem restos.

Não era minha intenção, mas fugiu-me a escrita da ria, de Aveiro e dos patos. Peço perdão.

 

10 Dez, 2010

Olá, Madrinha!

Em primeiro lugar não posso deixar de lhe agradecer o nome que me deu que, para mim, é das coisas mais bonitas que tenho. Até porque não tenho muito mais de meu, como a madrinha bem sabe. Agora, não vá pensar que estou a fazer este paleio todo a ver se me dá uma daquelas prendas que já estão no limite da proibição.

Não, madrinha, agora, eu não quero mais nada, pois um nome tão simpático como o meu, já é uma prenda de se lhe tirar o chapéu. Tanto mais que ainda foi posto no bom tempo, no tempo em que até os padrinhos tinham bom gosto a pôr nomes aos afilhados. Suponho que isso se devia ao facto de, frequentemente, os padrinhos e as madrinhas darem o seu nome de baptismo aos seus afilhados.  

Depois, também se dava o caso de, a maioria dos pais convidarem para madrinhas e padrinhos dos seus filhos, pessoas de família, ou muito próximas, quer pela amizade, ou pela muita estima e consideração recíprocas. Portanto, sempre se escolhiam nomes a condizer com esses pressupostos.

Além disso, havia a preocupação de trocar uns lamirés antes do baptizado, para que ninguém ficasse a torcer o nariz, ou não fosse essa coisa do nome de cada um, uma coisa muito séria. Imagine-se a gente a ouvir um daqueles nomes brutos como as caraças, que vem na nossa direcção e não estamos com os tímpanos sintonizados com ele.

É que hoje vêem-se madrinhas e padrinhos, que não têm gosto absolutamente nenhum, mais, demonstram até um mau gosto a que podia chamar-se estúpido, ao imporem nomes aos seus afilhados, que dava vontade de os aconselhar a que os enviassem de volta, com a obrigatoriedade de serem usados como identificação na testa dos seus criadores.

Madrinha, lembrei-me de te dizer estas coisas, porque sei que concordas comigo. Como certamente sabes, há madrinhas e padrinhos que se dedicam a pôr nomes às pessoas sem nunca terem sido convidados para os seus baptizados. E que nomes! Estou mesmo convencido de que, a estas madrinhas e padrinhos só lhes ocorrem os nomes que gostariam que lhes tivessem sido postos, quando do seu longínquo baptizado.

Olha madrinha, nem tenho lata para reproduzir aqui nenhum desses nomes. Até porque sei que podiam pensar que eu era igual a eles e a elas e com isso pensarem que tu, madrinha, também podias ter tido o mau gosto de me baptizar com os mesmos nomes de que eles têm a boca cheia.

Algumas dessas madrinhas e padrinhos até se dão ao luxo de espalharem os nomes das suas listas nos órgãos que, por sua vez, também são padrinhos de outros afilhados, todos sintonizados na mesma onda, constituída por todos aqueles que, nada sabendo ou querendo fazer, arranjam mil e uma desculpas para cuspir para o lado.

Diga lá madrinha, se não é verdade que ambos conhecemos casos em que milhentos padrinhos se ocupam diariamente da árdua tarefa de encontrar nomes porreiros para baptizarem o seu único e comum afilhado. São mimos que qualquer mimado poderia ser levado ao choro, primeiro, e ao desespero, depois.

Mas qual quê, madrinha! Já são tantos os nomes pelos quais o chamam, que ele se transformou numa espécie de muro onde os nomes batem, fazem ricochete, e aí vão eles direitinhos para os gentis padrinhos e madrinhas.

Mas, madrinha querida, também há o reverso da medalha, como já uma vez me disseste. São aqueles milhentos de afilhados que se desunham todos os dias por tentar captar a atenção de um padrinho, ou de uma madrinha, que lhes garanta o folar de um sorriso, o qual poderá vir a ser o princípio de mais um felizardo que não vai morrer moiro.

Adeus madrinha, que a carta já vai longa e a tua vista já não aguenta estas digressões com letra demasiado miudinha. Só porque me deste um nome tão decente, já podes dizer, e eu também, que és a melhor madrinha do mundo.     

 

09 Dez, 2010

Seus corruptos!

 

Evidentemente que isto era o que me apetecia gritar bem alto, num local onde estivessem todos aqueles que me infernizam a vida, bem como a milhões de portugueses que, tal como eu, são vítimas dessa praga de sanguessugas que secam as veias do país. Mas, não vale a pena gritar, porque poderes mais altos se levantam.

Fiquei muito surpreendido com as conclusões de um estudo que hoje foi divulgado, exactamente, no dia mundial contra a dita e redita corrupção. Surpreendido porque, por cá, só há um corrupto, na boca de muita gente que, nem por sombras, digo eu, contribui para que ela exista e esteja em fase de crescimento.

Curiosamente, esse estudo aponta para os partidos, repito, os partidos, como fonte de uma boa parte desse veneno que contamina toda a sociedade. No entanto, de todos eles ouvimos largas dissertações de combate sem tréguas e de paladinos de implantação de medidas de que nunca chegamos a ver os resultados.

 A minha maior surpresa vai para o facto de ouvir falar em partidos, no plural, sublinho, pois estava eu convencido de que havia partidos, plural, também, que só estavam embrulhados nesta matéria, porque passam a vida a culpar um deles que, logicamente, pode não ser sempre o mesmo.

Refere o mesmo relatório que outra das fontes venenosas é a assembleia, suponho eu, que na pessoa dos deputados que por lá vivem e convivem. Dou comigo a pensar que, também aqui, é a assembleia toda que está em causa e não os deputados de qualquer um dos partidos ali representados.

É muito curioso, para mim, evidentemente, que todos eles passem a vida lá dentro a lutar, mas a lutar como muita gente não imagina, com vozes arreganhadas, com gestos de virar a cara para o lado e com mimos de fazer inveja a qualquer casal de namorados em fase difícil. Tudo, por causa dela, a maldita corrupção que só poisa nos braços dos outros.

E depois o tal relatório lembra-se da justiça. Pois é. Então eu ia lá pensar que na justiça também havia corrupção? Não, eu não devo estar a ver bem o que é essa coisa da justiça. Será que também por lá se dão e recebem prendas? Só podem ser prendas de baixo valor, porque as de médio e alto, só se forem para os porteiros, por facilitarem a entrada a alguém.

Mas, cá para mim, isso não é corrupção, pois o problema não está na entrada. Toda a gente sabe que as pessoas não vão levar nada aos tribunais. Toda a gente sabe também, que as pessoas vão aos tribunais para trazerem de lá qualquer coisa. Portanto, se há corrupção é à saída, porque as prendas que se trazem de lá, valem muito mais que os presentes que dizem que origina a dita e a maldita.

Há qualquer coisa no tal relatório que não me convence. Ou ele tem muitas omissões, ou então são as citações que, como habitualmente, andam a saltar de linha em linha, à procura de palavras mais bonitas para dizer e passar por cima daquelas que não soam lá muito bem. Já tentei chegar a uma conclusão, mas, nicles.

Segundo ele, o combate à corrupção, é ineficaz por parte dos governos. Como os governos não entram na corrupção, tinham de entrar no combate. Será que os governos sozinhos podem combater a sério, ou têm de a combater a brincar como convém? Por exemplo, como é que o governo português pode combater a corrupção na justiça?

A justiça fez com que o país passasse de 23 para 32 no ranking respectivo. Deve ser engano na colocação dos algarismos. Também deve ser engano que as organizações não governamentais que lidam com a solidariedade também estão a contribuir para esse aumento. Quem os ouve, quem diria.

Agora de espantar, é o caso dos religiosos. São dos menos corruptos até agora. Mas, em contrapartida, são dos que mais aumentaram nessa matéria. E o meu espanto vai, precisamente, para o facto de, cada vez mais, muitos dos religiosos, falarem mais em público sobre política do que sobre religião. Será que a crise nesta é menor que naquela?

Finalmente, no mundo, os mais sensíveis à corrupção são a polícia, a justiça e os registos. Não é difícil ver como é por cá. Petisca-se, bebe-se e come-se muito nos meandros desses meios. Os locais onde se faz isso, podem falar sem se engasgarem. Isto, para além das verbas que andam por baixo da mesa.

É verdade que os governos não fazem tudo o que está ao seu alcance no combate. Mas os combatidos seriam tantos, que o cheiro a podre mataria os restantes.

 

Anda quase tudo descontrolado à nossa volta e não sei se muitos de nós não o andaremos também, envoltos nesta onda que cresce a cada metro que avança. Talvez por isso, me apetecesse dizer que nunca vi tanta onda gigante, por metro quadrado, como agora.

Ah pois, estou como aquela jornalista (?) da SIC, há uns dias atrás, que também nunca tinha visto tantos veículos todo o terreno, por metro quadrado, num sítio qualquer que já não me lembro. Mas isso não é nada, comparado com as sumidades que se vêem, por milímetro quadrado, na televisão em geral, a botar asneiras por todos os poros.

Mas, Deus me livre de dizer, só por isso, que eles e elas andam descontrolados, longe disso, até porque todos e todas sabem muito bem manter os seus controladores em níveis bastante elevados, de modo a que esteja sempre tudo sob controlo, mesmo que haja o perigo de serem os do lado de cá a perderem isso.

Realmente, são cada vez mais os sinais de que os descontrolados se preparam para descontrolar os que ainda estão convencidos de que se mantêm na linhaça. O exemplo dos dês controladores aéreos espanhóis é bem sintomático de que há umas tantas classes de barrigudos endinheirados que querem mesmo descontrolar. 

Se quem manda nos países e no mundo não arranja maneira de controlar todos os papa-dinheiro, então estamos bem aviados não tarda. Chegou a hora de mostrar a todos aqueles que não olham senão para as suas sedentas barrigas, só porque a sociedade não pode passar sem eles, que eles também não podem passar sem a sociedade.

Sim, porque se eles, todos os descontrolados, pensam que parar o mundo é a chantagem que lhes faz crescer as barrigas, é natural que chegue uma altura em que o mundo parado os obrigue a eles a ficarem parados de vez também. A chantagem da força, seja ela qual for, não pode servir para parar ninguém.

O mesmo se passa com os papa-dinheiro das grandes empresas públicas e privadas que não param de engolir o vil papel, só porque são imprescindíveis para que os lucros não decresçam. É caso para lhes perguntar como era antes deles, ou como será quando eles forem desta para melhor, digo eu.  

Sempre ouvi dizer que não há ninguém imprescindível nem insubstituível, logo que se destrua a cadeia dos que se protegem uns aos outros, para que se desagreguem cada vez mais aqueles que os servem. Como se esses não fossem imprescindíveis, só porque são muito mais facilmente substituíveis.

Se estes tivessem a veleidade de deixar de prestar os seus serviços indispensáveis à sociedade, não faltariam cargas policiais, despedimentos em massa e retaliações de toda a ordem. Aqueles, os que têm os poderes que lhes são dados por terem os bolsos cheios, nada lhes acontece, depois de terem estragado a vida a muita gente que contribuiu, e contribui, para a sua engorda. 

Esta espécie de gente, mais tarde ou mais cedo, terá de ser metida na ordem, talvez por aqueles que hoje são, de certo modo, escravizados por eles, já que não há mais ninguém com coragem e determinação para o fazer, exactamente, porque são elos da mesma cadeia de insubstituíveis e da mesma casta de barrigudos.

No lado contrário da barricada estão os que têm a barriga metida para dentro devido ao desvio sistemático do que nelas devia entrar, que acaba por lhes passar ao lado e vai meter-se nas mais volumosas e confortadas barrigas.      

Controlos, controladores e descontrolados constituem uma relação que o tempo acabará por revelar completamente desajustada à evolução de uma sociedade mais justa e solidária. Por mais que os tortos lhes chamem direitos.

 

04 Dez, 2010

Vem cá, Lula, vem!

É uma pena que a partir de trinta e um de Dezembro fique desempregado, embora, certamente, muito bem pago como, aliás, bem merece, ao contrário de tantos calaceiros, bem ou mal conhecidos, que nunca fizeram nada na vida.

É, sobretudo, uma pena que um homem que levantou um país e o colocou entre os maiores do mundo, ao mesmo tempo que nunca esqueceu que esse país estava inundado de pobreza extrema e de crime organizado que explorava essa mesma pobreza, esteja em risco aparente de ir tomar conta dos netos que não sei se tem.

Lula da Silva, Silva como muitos portugueses, corajoso como nenhum dos portugueses do seu nível, não vai certamente calçar as pantufas, nem dedicar-se à pesca ou à caça na Amazónia, porque lhe está na massa do sangue aquele prazer de olhar para os outros e descortinar o que lhes faz falta.

Ainda agora o mostrou na última cimeira da sua carreira presidencial, ao juntar as suas mãos às dos nossos presidente e primeiro-ministro para que, todas juntas, mostrassem o que faz falta ao nosso país.

Gesto que faz contrastar a sua inteligência com a casmurrice que tanto se evidencia por cá todos os dias, como se pretendessem dizer que, se nunca se entenderam os maiorais dos tempos passados, para que haviam estes de se entender agora.  

Assim, o Brasil cresce enquanto Portugal decresce, Lula parte e deixa saudades, enquanto os de cá, parece nunca mais partirem, nem nunca deixarão saudades, mesmo que venham outros ainda piores, como já vem sendo hábito geracional.

Mais que justos, portanto, os muitos e entusiásticos elogios dos nossos representantes nessa cimeira ao senhor Silva brasileiro, mais conhecido por Lula, que se emocionou, como vem sendo hábito, sinal de que tem um coração que palpita e vibra nos momentos próprios.

O nosso país está a ficar inundado de brasileiros e brasileiras, gente que nem sempre seria aquela de que mais necessitamos. Tal como também não necessitaríamos de muitos dos portugueses que por aí vagueiam, fugindo do trabalho como o diabo da cruz.

É evidente que isso acontece em grande parte porque, quem tinha a obrigação de ver essas coisas e arranjar solução para elas, anda distraído a pensar em coisas que não interessam, nem ao Menino Jesus, como diz o povo que não tem por onde se distrair.

Devia causar estranheza que, com tantas presenças em tantas cimeiras por todo o mundo, onde decorreram tantas conversas bilaterais, trilaterais e por aí adiante, com gente da dimensão de Lula da Silva, parece que nunca se aprendeu nada que nos tirasse desta sina.

De nada nos adianta ter-mos tantos Silvas no país, se não temos nenhum como Lula, que também é Silva, mas de outro silvado. Que vai agora ficar a pensar numa transferência, quem sabe, tão sensacional como as dos seus compatriotas futebolistas que, por cá, ganham balúrdios.  

Balúrdios que não aparecem para aquilo que é preciso e urgente. Que alguém permite que esses balúrdios sejam desviados para onde nada tem de retorno, ou acrescentados aos muitos milhões que fazem o super balúrdio das dívidas do país.

Mas, do alto da minha estreita janela de observação, de onde não vejo muitas das misérias que conheço, imagino o bem que seria para o país e para os portugueses, conseguir assegurar a transferência de Lula da Silva para treinar o clube político que é Portugal.

Para que tal fosse possível, até nem me importaria que me aumentassem os impostos mais uma vez. Ao menos, ficaria a pensar que era por uma boa causa.

 

03 Dez, 2010

Qualidade angelical

Há palavras na língua portuguesa que não merecem ser citadas em vão, sob pena de quem as pronunciar estar a incorrer numa heresia de que desconheço as consequências se ainda estivéssemos no tempo da inquisição. Mas, estamos em pleno século vinte e um, em que todas as barboridades são legítimas.

No meu caso, até gosto de ver estes tracinhos vermelhos por baixo de algumas dessas palavras, no momento em que as escrevo, o que não quer dizer que eu seja daqueles fulanos que adore tudo o que é vermelho, nomeadamente, o sangue a escorrer por aí, seja do corpo de alguém, seja do olhar raivoso que chispa raios e coriscos.

A colidade é uma coisa que se mede logo que alguém quer um artigo bom, ainda que não tenha muito valor, porque a colidade não se mede aos palmos, mas apalpa-se com os dedos em determinados casos, ou sente-se cá dentro, quando estamos a medir sentimentos que, volta não volta, se revoltam com a falta da dita.

Quem mais sente a falta dessa colidade são os que mais se consideram bons demócritas. Mas, cá para mim, os hipocratas são os que mais se consideram em termos de qualquer coisa e são também os que mais desconsideram as verdadeiras regras da democrácia, que é aquela ciência que proíbe bocas foleiras sobre quem se quer desconsiderar. E é dentro dela que a gente vê as semelhanças entre os demócritas e os hipocratas.

Julgo que posso concluir que qualquer demócrita fica sempre mal colocado para falar da colidade da democrácia. Julgo ainda que quem insiste na estipudez de falar daquilo que nunca praticou no verdadeiro sentido da palavra está, inequivocamente, a trair a colidade das palavras que devem ser respeitadas segundo a nossa respeitável gramática.

Acho muita piada a um ou outro demócrita de bom nível, que gosta imenso de aconselhar outros demócritas de nível médio, a não falarem de coisas chatas para o pessoal, mas comete o error de nunca mais se calar, insistindo em falar das mesmas coisas de que não gosta de ouvir no trombone dos outros.

É assim que se chega à colidade da faladura de quem, posicionado acima de todos os seus ebidoentes çubordinados, olha cá para baixo e pensa que os seus cualificados conselhos açentam na carapussa de quem não conkorda com lui. Mais, além de pençar, pega na sua cartilla paternal e diz altivamente que ela é para comprir.    

Neste momento, volto-me para S. Tomás e oiço uma voz angelical que parece vir do além. Não foi muito fácil ouvir, porque os ouvidos são muito renitentes em deixar entrar coisas que não interessam. Depois, com um espírito de sacrifício digno de um não hipócrita, percebi que a voz me incitava a fazer o que ele diz, mas não o que ele faz.

Fiquei a pensar que talvez, procedendo assim, me pudesse considerar um bom democrata, num país onde a democracia, ainda assim, tem diversas qualidades, tal como o pão que comemos.

Aperfeiçoando e aprofundando o meu pensamento, concluí que a qualidade da democracia é muito boa cá em baixo, média a meio e muito má lá em cima. Portanto, inversamente proporcional à obrigação de a aplicar correctamente.

É por isso que eu resolvi compará-la a este texto: com colidade ou sem qualidade, sem demócritas ou com hipócritas, só vejo erros por todo o lado.

 

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