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afonsonunes

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10 Dez, 2011

Quem anda à chuva

O mau tempo já não depende apenas do sol ou da chuva, tal como as intempéries que devastam áreas urbanas ou rurais quando os deuses se enfurecem, muitas vezes sem darem o menor sinal da sua vontade destruidora. Quando o sol queima ou a chuva inunda, as nossas defesas são muitas vezes nulas e lá vai gente desta para melhor.

Lá fora a chuva cai teimosamente num dia em que cá, dentro de casa, soam os ecos da noite de todas as esperanças dos optimistas, bem como de todas as certezas de insucesso daqueles que já ditaram a sentença a esta Europa sem rei nem roque, onde todos se abraçam e riem antes de todas as reuniões em que não dizem nada de jeito.

Nas reportagens televisivas mostram-nos sempre os mesmos, ele e ela, com os outros revezando-se ao lado, ou perto deles, espreitando a oportunidade de aparecer lá em casa. Faz pena ver a cara de alguns, principalmente, daqueles que vão ali apenas para ouvir, receosos de perderem alguma palavra que depois faça falta para dizer nos seus países.

Porque se não ouvirem correctamente, pode faltar-lhes o engenho e a arte de falarem por si próprios, ou sair-lhes alguma colossalidade monstruosa que os obrigue àqueles antipáticos recuos quando forem chamados à pedra, na próxima reunião, tão decisiva como as outras, ou forem submetidos ao teste trimestral em que não podem chumbar de jeito nenhum.  

A chuva cai em grande, mas o pequeno ecrã é pequeno demais para traduzir todas as expressões dos rostos ansiosos por ouvir os seus maiores, tal como é demasiado pequeno para nos revelar a angústia daqueles corações em sobressalto, por terem de prescindir das suas vontades e dos seus desejos, para dar lugar às palavras que ouvem religiosamente. 

Naturalmente que, no meio da chuva que cai lá fora, não se divisa um único raio de sol que alegre os alimentadores dos pensamentos mais sombrios. Mas, dentro de casa, até as lâmpadas economizadoras se tornaram mais forretas, imitando o sombrio das imagens televisivas, que restituem os rostos em redor, ao tempo do triste preto e branco.

Obviamente que a culpa não é da chuva que não pára de cair lá fora, nem do sol que nos querem convencer de que vai brilhando cá dentro. A culpa não é dos culpados que se arranjam estrategicamente para justificar a falta de sol, nem tão pouco dos inocentes que passam a vida a lamentar-se da chuva, que não os molha.

Claro que a culpa é do S. Pedro, vigilante do céu, mas também, e por acumulação, director geral da nebulosidade global. Por ser ele quem manda chover, bem lhe ficaria se mandasse uma carga de água para cima daqueles dois, ele e ela, que não acertam na maneira de dizer umas coisas de jeito àqueles que com tanto carinho lá vão ouvi-los.

Sim, porque há ocasiões na vida em que nada é melhor que uma boa carga de água fria em cima de cabeças quentes, para lhes restituir o bom senso que nunca deviam ter perdido. Tal só aconteceria se, de vez em quando, dessem uma voltinha pelo lado de fora dos salões, e apanhassem uns bons pingos de chuva, melhor ainda, da neve que só vêem lá de dentro.

Para nós, homens e mulheres de boa fé, seria um regalo ver uma luzinha baixar do céu à terra, mesmo num dia de chuva como este. Seria uma espécie de arco-íris, mesmo de uma só cor, ainda que fosse alaranjada, que de negro estamos nós fartos e dos tempos cor-de-rosa já vamos estando esquecidos.

E, para mal dos nossos pecados, é bom que vamos esquecendo muitas coisas que não mais voltaremos a ter, mesmo que muitos ainda pensem que, agora, sim, vão ter ainda mais do que sempre tiveram. Julgo que esses, não estão a pensar no bom ou no mau tempo que faz lá fora, porque eles estarão sempre do lado de dentro, onde a chuva nunca entrará.

Sirva ao menos de consolação, o tempo de uma experiência de vida, de rica vida, que muitos não dispensaram, mas que terão, inevitavelmente, de pagá-la, agora, com muitos juros sobre a despesa. Quem anda à chuva molha-se.