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afonsonunes

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16 Abr, 2012

Vai-se sabendo

‘Não sei onde é que isto vai parar’, é uma das frases mais ouvidas hoje em dia, neste torrão de dúvidas e de incertezas. Pelos vistos, tem sido assim mas, devagar devagarinho, tudo se vai clareando e toda a gente vai ficando a saber aquilo que uns já esperavam e aquilo que outros temiam. E isso é, precisamente, aquilo que quem pode, quer e manda, já tinha no pensamento há muito tempo.

 

Portanto, isto não vai parar nunca. É isso que vamos sabendo aos soluços, talvez por causa de um receio lógico de um choque destrambelhado, vindo exatamente de setores que, se bem o pensam, melhor são capazes de fazer, até o que nunca tinham pensado, antes do momento do destrambelho. Já do outro lado, vai-se tornando hábito de interesse nacional, destrambelhar às escondidas para não estragar a bondade dos choques.

 

Vamos sabendo que, afinal, já não interessa pensar em ir para fora, pois os que lá estavam, estão a regressar à base. Além disso, parecia mal estarmos a estragar a imagem que os nossos parceiros lá de fora têm já do novo país que nasceu há menos de um ano. Um país onde a felicidade pode e deve vir da satisfação de fazermos felizes os nossos amigos lá de fora, mais do que de prazeres mórbidos como o dinheiro e a vidinha fácil.

 

Vamos sabendo que viver bem não é ter emprego, pois isso é um conceito totalmente ultrapassado e um dos muitos grandes males dos últimos anos. Viver bem é confiar nas grandes descobertas destes últimos meses, em que nada se pode prometer, bem como saber esquecer todas as promessas feitas sem resquícios de maldade. Porque a maldade também se inclui em tudo o que foi dito nesse passado dos últimos anos.

 

Vamos sabendo que tudo mudou de há menos de um ano para cá. Trabalha-se menos, obviamente pelo desemprego, mas temos a certeza de que estamos no bom caminho. Trabalhar mais é mau para os trabalhadores. Receber menos é bom para os bons empresários. E que ninguém tenha dúvidas, nunca os trabalhadores poderão estar bem na vida, se não fizerem felizes, todos os velhos e bons empresários que ainda temos no país.

 

Os maus empresários e os maus desempregados só têm um caminho a seguir. Em primeiro lugar, é seguir sempre pela direita. Porque a esquerda só serve para quem quiser estar sempre de costas direitas. Em segundo lugar, é pegar na enxada e na picareta e ir desbravar os matagais que atualmente cobrem uma grande parte do país. Essa tarefa vai demorar algum tempo, mas ela é fundamental par a retoma da nossa economia.

 

Porque eles estão certíssimos do que estão a fazer. Nós também. Nestes últimos anos ninguém se preocupou com estas coisas. Daí estarmos no ponto a que chegamos. Perdão, a que eles chegaram. Agora, porém, tudo mudou. Portugal ficará com boas terras limpas e aráveis, o que vai permitir restituir essas terras aos homens e mulheres que nunca tiveram calos nas mãos, mas estão agora dispostos a enchê-las.

 

Vamos sabendo que não adianta estarmos preocupados com a situação dos hospitais, os quais cada vez servem mais para infetar pessoas que entram lá cheias de saúde e saem de lá doentes. Para não falar dos que entram para lá com duas pernas e saem só com uma, ou perdem uma das duas orelhas que tinham. Isso acabou. De há menos de ano para cá, ir ao hospital, nem pensar. Cada um que se trate em casa para não correr riscos.

 

Vamos sabendo que as reformas são coisa do passado. Mas do passado irresponsável, que dava reformas como quem dá milho a pombos nas ruas. Estes não são como os outros que davam reformas a quem nunca trabalhou. Estes vão acabar com todas as reformas pois, com toda a lógica, como já não há trabalho para ninguém, também não haverá mais reformas para ninguém. Isto não tem discussão.

 

Vamos sabendo que os trouxas que descontaram trinta e quarenta anos para a reforma, não têm de que se queixar, senão da falta de visão própria, ao votarem nos irresponsáveis que lhes criaram essa triste situação. Porque ninguém tenha dúvidas, estes de agora não vão dar continuidade a esse crime e à irresponsabilidade desses criminosos. Portanto, quem descontou, não tivera descontado. Estes de agora vão já proibir os descontos.

 

Resta-nos a consolação de que estamos muito melhor agora que nos últimos anos. Ainda haverá quem tenha dúvidas. Mas, a olhos vistos, vai-se sabendo que cada vez há menos gente que se engana e muito menos gente que já não tem dúvidas. 

 

 

14 Abr, 2012

Ou vai ou taxa

Também há quem diga, ou vai ou racha, o que é totalmente isento de qualquer taxa de utilização verbal, independentemente de quem está de fora rachar lenha, ou de quem está dentro pagar taxa de entrada. Agora o que está a dar, sem dúvida, como a coisa nunca mais vai, é termos de aguentar com uma taxa ao ritmo de quase uma por dia. E digo quase porque não quero que me chamem pacagaio de serviço.

 

Não posso deixar de esclarecer que tenho o maior respeito por todos os papagaios que ganham a vida com a interminável repetição do seu curto e nem sempre perfeito vocabulário. Mas, a vida é assim, não posso querer que os papagaios não tenham direito à vida, só porque também eles têm a concorrência desleal, mas imbatível, dos pacagaios que até nem precisavam de ter número de contribuinte.

 

De papagaios todos temos um pouco, nem que seja quando o rei faz anos, ou alguém que se arme em seu substituto. Ser papagaio ocasional é quando qualquer coisa nos sobe à cabeça, ainda que momentaneamente, e nos faz esquecer a dimensão ou a origem das coisas. O mesmo acontece quando a mente se nos turva por qualquer acontecimento que nos leva a festejar com algum exagero. Mas isso passa.

 

Já o mesmo não acontece com os pacagaios que, coitados, passam a vida a fazer a festa, a deitar os foguetes e a apanhar as canas. Para estes, sim, justificava-se plenamente a criação de mais uma taxa, a taxa de fidelidade, a taxa de adesão ao que está bem e ao que está mal, a taxa do come e não cala em defesa do que come, mesmo que esteja intragável. Enfim, a taxa de compensação por tanto pacaguear.

 

Haverá, por ventura, quem esteja a contrapor que pagar uma taxa desse tipo não é uma compensação, mas um castigo injusto. Nada mais falso. O pacagaio reza vinte e quatro horas por dia, à sua maneira, pacagueando os atos dos seus santinhos, tal qual mandam as suas crenças. Por elas, sacrifica-se tanto, que aceita de bom grado ser castigado, mesmo fustigado, sofrendo, para alcançar o bem bom do seu reino.

 

Os pacagaios têm por missão destruir ostensivamente todos os papagaios que se queixam da sua sorte, reenviando todas as queixas destes, para a box das reclamações do passado. Porque o presente ainda não tem box disponível por falta de verba. E a verba também ficou esquecida na box do passado por culpa dos papagaios que tanto papaguearam que ensurdeceram quem tinha o dever de recolher a herança por inteiro.

 

E foi assim que os pacagaios ficaram exclusivamente a pensar nas verbas da box vazia, não ligando aos tubarões que tudo vinham limpando desde há muito tempo, incluindo o sebo dos papagaios incautos, apanhados nas suas redes que tudo varreram, deixando este mar de peixe miúdo sem uma única escama. Mas, insistem os pacagaios, que este estado de coisas e de loisas, se deve aos papagaios que falam muito e mal.

 

Seja como for, as coisas e as loisas do passado e do presente, ou seja, a diferença entre papagaios e pacagaios, está no dinheiro. No muito dinheiro que devia haver e não há. Nas taxas que não havia e agora há. Para pagar não se sabe bem o quê. Provavelmente, para pagar muita conversa dos papagaios. Mas, com muitas certezas, para pagar as barrigadas dos tubarões que sempre, e agora ainda mais, se estão pacagueando para todos.

 

Apesar das pacagueadas que diariamente vamos ouvindo, aguentamos firme, muitas vezes recebendo mais um brinde salvador, que é mais uma taxa para que não cheguemos à situação indesejável do vai ou racha, em que a coisa já não se resolverá com taxas, sejam elas de ingerir ou expelir, seja lá o que for. Neste momento, se esquecermos os felizes pacagaios, temos um país em que a ingestão é muito menor que a pacagueação.

 

Do que ainda ninguém se lembrou foi da taxa das barrigadas e respetivas descargas. Ora esse tipo de esquecimento não é compatível com o atual lema do, não vai, mas taxa. Se não vai é porque se tem de mudar para o sistema de, ou vai ou racha. E então, deixem lá as conversas de papagaios e atirem-se aos tubarões. Que são, esses sim, os maiores pacagaios da nossa desgraça.         

 

Tubarões não são, nem nunca foram, os grandes papagaios, em parte alguma do mundo.

 

 

11 Abr, 2012

Portugal com todos

Este cantinho à beira mar plantado não pode ser apenas o país dos súbditos de D. Pedro dos Passos de Coelho em Portugal. Há muito mais gente que, não sendo tratada com tanta deferência através de nomes compridos do tempo da realeza, tem o mesmo direito a usufruir do nosso sol, a lamentar a falta de chuva, ou a suportar a aselhice de tantos chefes que não param de lhes infligir castigos.

 

Admite-se perfeitamente que o conde de Miguel e Relvas diga aos espanhóis o que devem fazer para não prejudicar a imagem de Portugal junto dos mercados que controlam as massas de que eles e nós tanto precisamos. Mas já me parece um tanto abusivo querer dizer aos socialistas e comunistas portugueses que emigrem em busca dos seus ideais, porque este torrão lusitano não foi feito para eles.

 

Não sei se o conde pensa como o rei, mas presumo que sim, pois é bem evidente que para os súbditos, há sempre um lugar cá dentro. Pode não ser um lugarzinho com cama, mesa e roupa lavada, mas será com certeza bem melhor que o relento disfrutado debaixo da ponte, exclusivo para não súbditos. Pode não haver muitos milhares para cada súbdito, mas haverá sempre muitas centenas, mesmo para aqueles que não nasceram para trabalhar.

 

Assim se cumpre o dito popular de que o sol quando nasce não é para todos. Do mesmo modo, o rei quando reina, não reina para todos. Reina acima de tudo, para mostrar aos socialistas e comunistas que nunca lhes será permitido meter as mãos onde os súbditos as mantêm frequentemente. E não há lugar mais quentinho que os bolsos dos outros, sejam eles o que forem, desde que não sejam os intocáveis súbditos.

 

Isso não impede que o rei, ao discursar nas cerimónias oficiais perante altos dignitários do carcanhol, se intitule o rei de todos os habitantes do reino, incluindo os socialistas e os comunistas, num auto reforço da sua autoridade indiscutível e do poderio da sua extensa e poderosa corte. Onde não falta a riqueza verbal dos condes, a dignidade impoluta dos viscondes e a exuberante luxúria dos barões e das baronesas.      

 

A esta festa da nossa democracia, assistem os comunistas e os socialistas sem direito a intervir. Tal não quer dizer que estejam do mesmo lado da barricada. É sabido que não estão e também é sabido que nunca estiveram. O porquê desse afastamento, sabem-no eles e sabemo-lo nós. Contudo, cada um à sua maneira, ora uns, ora outros, lá vão sendo os sacristãos de uma missa que sempre se dispõe a rezar-lhes pela alma. 

 

Já que o nosso conde de Miguel e Relvas diz aos espanhóis o que devem fazer para não prejudicar Portugal, sugiro que os espanhóis ensinem o nosso conde a saber lidar com socialistas e comunistas para que Portugal seja de todos, como deve ser, e não um reino onde só os súbditos têm direito a falar. Por muito que lhes custe, Portugal só não sairá vencido desta negra batalha, se Portugal puder contar com todos os portugueses.

 

 

10 Abr, 2012

Donos de más vozes

A voz do dono ecoa cada vez mais forte por montanhas e vales atordoando quem anda nos campos, nas aldeias e nas cidades deste nosso país geograficamente entalado e economicamente depenado. Se é verdade que, aparentemente, tudo tem um dono, nem o país, nem qualquer ser humano o deviam ter. Infelizmente, não se pode dizer que é isso que acontece.

Quando se desce ao nível da miséria que atinge uma apreciável quantidade de cidadãos, as limitações são tantas que não é difícil a quem tem algum poder, controlar e dominar todas as capacidades das pessoas com necessidades básicas. Muitas, no limite da sobrevivência, têm de obedecer à voz do seu dono, que é como quem diz, à voz de quem lhe vai dando a esmola dita salvadora.

Por mais incrível que pareça neste século em que vivemos, há donos de vozes que só entendem a sociedade assim mesmo, ao seu jeito, à sua vontade, onde não têm qualquer dificuldade em obter o que necessitam ou desejam, a troco de esmolas que, muitas vezes, até nem passam de histórias de coitadinhos e palavras de um conforto bafiento e imoral.

E é com essa autoridade imoral que os caracteriza, que dão conselhos a toda a gente, pondo a sua voz ao serviço das suas conveniências, fazendo a apologia dos seus interesses, disfarçadamente, direta ou indiretamente, fazendo ataques cerrados a quem lhes contraria a sua propaganda. Ataques cerrados aos que leem de forma correta a cartilha que aqueles só sabem ler se estiver voltada ao contrário.

Sendo a sociedade formada inevitavelmente por extratos sociais diversificados, ninguém de bom senso se lembra de proclamar o direito à igualdade entre todos, com vista à sua unificação num só. Tarefa, obviamente, impossível, até porque nem todos os cidadãos estariam disponíveis para se integrar num esquema com regras que lhes não agradariam.

Contudo, a nível de pensamento político as coisas passam-se de modo completamente diferente. Parece que muitos dos integrantes de forças políticas diversas, têm tendência para ver no seu ideário o modelo único de sociedade, pretendendo a todo o momento, através das suas vozes de donos da verdade, ridicularizar todas as outras ideias, como se fossem atropelos a essa mesma sociedade.

Depois, no seguimento de tão singulares teorias, não hesitam em ridicularizar pessoas, mesmo figuras de reconhecidos méritos do país ou do estrangeiro, pelo simples facto de que não defendem essas mesmas teorias. E, sempre que lhes apetece, lá se permitem o insulto soez, a arrogância de crer fazer o papel de voz do dono de quem podia, mas não quereria, ser dono deles.

Estranha maneira de pensar, em que para dar solidariedade, aceitam e proclamam as virtudes da diversificação de extratos sociais bem definidos, com a existência de pobres, remediados, ricos e muito ricos. Já para a liberdade de pensamento, tudo fazem no sentido de conseguir que só se pense de uma maneira, à sua maneira, considerando os outros e o seu pensamento, uma condenável aberração.

Para que o mundo fique ao seu jeito, ao jeito das suas ilimitadas ambições, ao jeito da sua ignorância, ou ao jeito das suas limitações, em parte alguma do seu país deveria existir mais que o seu partido, que deveria ser único e inatacável. Porque o outro, principalmente o outro, é um antro de vigarices e de ladrões sem exceção. O deles, não. Pobre, porca, ignóbil e triste visão.     

Assim, não se cansam esses iluminados, de dar sugestões, conselhos e até um certo tipo de ordens, como donos que se julgam, a quem não precisa, a quem nada lhes pediu, a quem sabe bem como tratar da sua vida, a quem, eventualmente, sabe muito mais que eles. Até vemos com frequência quase diária, um partido, ou seus representantes, dizer a outro como devem proceder internamente.

Todas as tentativas de instituir o pensamento único caíram, e cairão sempre, no caixote do lixo do tempo. É já bem evidente que, embora muitas bocas sejam caladas pela fome, as consciências cada vez estão mais abertas e atentas a quem ainda usa esses métodos. E, mais tarde ou mais cedo, o tempo se encarregará de julgar esses donos de vozes perversas. Aliás, como algures já está a acontecer. 

 

 

O sonho já vinha de muito longe. Um presidente, um governo e uma maioria. Aos presidentes de esquerda sucederam-se governos de direita. Com mais ou menos tolerância nesta convivência entre as duas alas. A verdade é que, mesmo quando os presidentes foram também primeiros-ministros, nunca o sonho da unanimidade se realizou. Foram muitas as diatribes entre uns e outros.

Portanto, desde a aurora da nossa democracia que governos e presidentes demonstravam grandes ou pequenas divergências que abortavam aquela ânsia de poder absoluto ou quase, com vista a implantar no terreno, no país, aqueles sonhos que os manuais de políticas destinados a principiantes tanto exaltavam. Todos eles, sempre, com a boca cheia de interesses do povo.

Havia muitos democratas numa democracia acabada de nascer, o que significa que esses democratas já sabiam muito de outra espécie de democracia, a deles, mas que tinha outro nome que eles quiseram apagar. Ingloriamente, pois o tempo foi abrindo olhos, foi calando vozes, foi mudando o tom de muitas outras vozes que souberam cavalgar a onda. Mas, as raízes estavam lá.

E, que ninguém duvide, sempre que o tempo traz ventos que sentem mais de feição, lá estão eles, voltando à velha democracia, a deles, fazendo tentativas de colocar os seus defeitos, naqueles que querem ver borda fora, porque só assim os seus sonhos podem aflorar-lhes aos lábios e os seus interesses podem começar as conquistas compensadoras das derrotas passadas.

A crise, pois, a crise que só agora começa a ser reconhecida, depois de tanto ter sido minimizada ou substituída por outros argumentos mais proveitosos, essa crise que deu muito jeito, foi quem deu mesmo o empurrão definitivo que garantiu o início do sonho do presidente, do governo e da maioria. Essa mesma crise começa também a ser o pesadelo de não saber lidar com tanto poder.

O poder precisa de ideias e de uma consolidação permanente. O poder não pode ser o poder de tirar poder a uns, para o tomar em exclusivo, a fim de distribuir benesses aos seus, depois do prazer incontrolável de retirar direitos àqueles que não têm o poder de parar ou de mudar as coisas. A gula do poder assim exercido acabará, inevitavelmente, por ter o destino daquele que foi substituído.

Nove meses depois da mudança, já era tempo de vermos o nascituro como símbolo do novo triplo poder, tão desejado como apregoado salvador de uma situação ímpar na nossa história. A acumulação de conhecimentos em aulas franco germânicas, nas quais ser excelente aluno, só nos conduziu, e continua a conduzir, ao chumbo inevitável do exame final.

Essa é a experiência de um bom aluno que fez tudo direitinho como lhe mandaram, mas que acabou por ter muito azar no exame do meio do período. O resultado foi um rotundo chumbo que fez dele uma vítima do abandono escolar. O segundo bom aluno ainda resiste, metendo os pés pelas mãos na matéria já dada. Mas o chumbo está à vista, a qualquer momento do período em curso.

Para cúmulo da nossa pouca sorte, quando ela parecia sorrir-nos irresistivelmente, com um presidente que sabia tudo, com um governo que ia mudar tudo para melhor e uma maioria que ia acabar com a bagunça parlamentar reinante, eis que surge indomável, como nuvem de areia vinda do deserto, a tal crise de que ainda ninguém tinha dado por ela, até que sentiu essa areia a bater-lhe nos olhos.

Agora sim, temos uma crise vinda de fora, temos uma herança ruinosa provocada exclusivamente cá dentro e temos, ao que parece, resultados completamente inesperados e surpreendentes. E agora não adianta dizer que temos um presidente que não sabe nada, um governo que destrói o que estava bem e piora o que estava mal, além de um parlamento que não muda nenhum dos seus vícios.

Andamos tanto tempo a ouvir falar de mentiras que já nem sabemos o que isso é, tal como já não sabemos o que são verdades. Ouvimos falar tanto do sucesso de reformas já feitas, e do efeito benéfico das reformas a fazer, mas só conhecemos as reformas desfeitas aos reformados e a reforma a que muitos deixarão de ter acesso no futuro. Daqueles que lá chegarem, obviamente.

Os portugueses azarados que já saíram do paraíso do sonho, esperam ansiosamente que não venham a cair em breve no inferno que vem atrás do pesadelo que já sentem à sua volta. É muito triste trocar sonhos por pesadelos.            

 

 

07 Abr, 2012

Não há dinheiro

Não há o quê? Esta afirmação de que não há dinheiro nunca poderia ser feita por alguém que vive a nadar nele. Pela simples razão de que, quem não tem nenhum, é que não tem dúvidas: existe muito dinheiro só que, quem o tem, nunca diz que tem muito, nem demais. A nível de governantes é evidente que eles só não o têm, quando se trata de o dar a quem tem mesmo de menos.

Dizer que não há dinheiro é um disparate tão grande como dizer que o país está na banca rota. Para desfazer dúvidas basta dizer que os bancos estão a engolir milhares de milhões que o estado lhes mete na boca, sem que se veja que eles a fecham. E enquanto estiver aberta, será sempre a meter mais e mais papinha, como fazem as mamãs na boquinha dos bebés.

Quanto à banca rota, apetece dizer que rotas estão as cabecinhas que não alcançam mais que isso. Rotas estão as mãos que tudo surripiam de onde o dinheiro faz falta para o desenvolvimento e o progresso. Para o meterem nos locais e nas pessoas que, até hoje, só nos deram o desgosto de o fazerem desaparecer da nossa vista e da nossa vida, que bem podia ser melhor sem essas roturas danosas.

Aqueles que se mostram solidários com esta falta de dinheiro vociferando contra tudo o que não lhes cheira a proximidade, não podem conhecer a verdadeira solidariedade. E se a conhecem estão-se marimbando para ela, porque preferem estar do lado de quem retira a quem trabalha, e a quem se esforça por ajudar, todas as possibilidades de se criar uma sociedade mais justa.

Cheios de dinheiro devem estar todos os modelos de seriedade que vomitam ódios inflamados contra aqueles a quem acusam de ter sumido o dinheiro que dizem faltar agora. Quantos desses endinheirados, sabe-se lá como e porque o são, não foram os causadores do desaparecimento do dinheiro que agora não há, mas que para eles não falta. Isto chega a cheirar a esperteza saloia.

Mas, os mais fanáticos endinheirados são de um nível uns furos abaixo dos verdadeiros beneficiados. Dos beneficiados das suas próprias jogadas. Facto tanto mais estranho se considerarmos que para esses não há ódios inflamados expelidos pelos seus fãs mais exaltados, que preferem voltar as línguas em sentido contrário. Para alvos errados. Estranha proximidade. Estranha solidariedade.

Efetivamente este dinheiro que não há, está a causar estranhas reações na nossa sociedade, toda ela já envolta em estranhas vicissitudes. Já não se disfarça o descaramento de pretender esconder as coisas mais estranhas que estão mal e à vista desarmada. Há quem lhes chame maneiras de enganar, manhas, matreirices ou mentiras descaradas. Mas também há quem veja transparência nesta opacidade.

O dinheiro nunca chegou, nem nunca chegará para todos. O que nunca devia acontecer era haver sempre muito dinheiro para alguns, sempre os mesmos, e dizer-se a outros, sempre os mesmos também, que não há dinheiro para eles. Com a agravante de que para o dar aos primeiros, à socapa e sem motivo que o justifique, tem de se subtrair sub-repticiamente aos segundos.

Em boa verdade, não há dinheiro porque já não há vergonha. Não há dinheiro que pague tanta falta de senso no que se diz e no que se faz. No que de diz hoje e se faz o contrário amanhã. Até já nos tiraram a vontade de lhes chamar mentirosos. Em boa verdade, falar de mentiras nestes tempos que atravessamos, já seria uma benesse que eles não merecem de todo.

Aqueles que se orgulham desta etapa da nossa vida coletiva estão contentes e felizes. Estão felizes, porque não lhes falta aquilo que falta a muita gente. Peçam sacrifícios mas não nos escandalizem com as suas estravagâncias e com as suas descaradas faltas de sensatez. E, sobretudo, com a ligeireza da sua argumentação para os sacrifícios que impõem mas não praticam. Dinheiro é coisa que não lhes falta.      

 

 

O país está a precisar de muitos ajustamentos para evitar que acabe por se tornar num todo completamente desajustado, se é que não o é já nesta altura, se deixarmos de estar ligados à corrente que, cada vez mais frequentemente, se encontra em curto-circuito. É mesmo muito duvidoso que nos livremos de choques em cadeia, se não se fizerem os devidos ajustamentos.

Os patrões dizem que precisam de ajustamentos salariais, mas não nos deles, para que as contas passem a bater certas. O governo promete a toda a hora fazer os ajustamentos necessários para que a troika se mantenha sorridente e disposta a ir abrindo os cordões à bolsa. Ao mesmo tempo mostram-se surpreendidos com o avolumar do desemprego, que cresce sem lhes pedir autorização.    

O Presidente da Câmara do Porto, destacado membro do partido do governo disse que só por cima do seu cadáver, se estivesse nesse governo, passariam medidas que ele entende inaceitáveis. Um secretário de estado bateu com a porta por causa das coisas energéticas que lhe davam choques tremendos, até que lá veio um ‘choque mate’ que o levou de vez.

Muito mais importante que isso, e muito mais, para a comunicação social, é o facto de um deputado, vice-presidente da bancada do PS, partido na oposição, lembro eu, ter resolvido bater com a sua pequena janela. Que, lembro eu, não tem qualquer relevância, nem na governação, obviamente, nem tão pouco na oposição. Sendo assim, não vejo a quem interessa este choque de ruído massivo.

O mesmo se passa com o folhetim novelesco Marcelo/ Seguro. Tanta aleivosia por parte de dois protagonistas, que parecem ter surgido de um mundo novo, onde as palavras e os juízos de cada pessoa são um valor inviolável. Ambos se terão esquecido do mundo poluído em que se movem, e ao qual há muito se dedicam, como peças que bem precisam de fortes ajustamentos.  

É evidente que esta novela é, mais uma vez, a luta pelos interesses instalados e pelos interesses desinstalados. Qualquer desses interesses vai provocando pequenos incêndios para que o grande incêndio em que o país está envolvido não passe para primeiro plano. E assim, os bombeiros desta guerra, estão entretidos a brincar às fogueiras, enquanto o grande fogo tudo devasta.

A guerra e a paz entre Passos e Seguro lá vai dando mostras de que assim, a troika está satisfeita. Seguro gosta de aparecer na fotografia ao lado de Passos, como se ambos estivessem em competição de charme. O país aparenta estar em paz. Passos lembra aos seus superiores que está de bem com Seguro logo, com todo o país. Sem dúvida, que há quem não duvide e confirme.

Ambos estão a representar uma paz podre. Ou uma guerra surda de que ambos tiraram dividendos em devido tempo. Qualquer deles, até agora, ainda não conseguiu demonstrar que valeu a pena terem sujeito o país às mudanças de que estamos a viver os resultados. Só assim se explica que haja tantas surpresas no caminho que ambos estão a trilhar.

Tudo parece indicar que há uma estratégia comum. Lá dentro, nos locais sem fotógrafos, trocam uns abraços longos de amizade duradoira. Cá fora, com o mundo das luzes em cima, trocam galhardetes antes de cada round de batatada verbal. Secundados pelos meninos e meninas do coro de cada um deles. Aqui, não há ajustamento possível. Ou fazem a paz ou fazem a guerra.

Porque a hipocrisia não tem ajustamentos, nem pode ser oleada. Se o PSD, só quer o PS para sorrir lá fora, e se o PS só quer o PSD para ficar na fotografia, então estão ambos no mau caminho. O PSD não precisa do PS para governar. Então que governe e assuma a governação por inteiro. O PS não tem que se preocupar com fotografia. Assuma que está na sombra e faça o seu caminho.

Não podemos continuar a fazer de conta que somos o que nunca fomos e que temos o que realmente nunca tivemos. Isto é que convinha ser ajustado de uma vez por todas. Antes que se passe à fase dos ajustes diretos de contas.

 

 

03 Abr, 2012

Bitolas

É bem provável que haja quem esteja a pensar em carris para comboios e até quem já veja locomotivas a apitar e a circular na ferrovia de Sines com muitos vagões carregados de combustíveis que, não tarda, não fazem lá falta nenhuma. Obviamente, se os postos de venda fecham e os consumidores vão abastecer-se a Espanha o país não precisa de comboios de Espanha para Sines.

Este é um juízo de alguém que tem a tola estreita e, consequentemente, aprecia as coisas a curtas distâncias, como são as que se verificam entre Sines e a fronteira espanhola. Também não se pode falar para lá dela, pois as bitolas não são compatíveis com as tolas de lá e de cá, motivo porque, como de costume, em lugar de comboios deviam antes falar de carros à frente dos bois.

Só espero que as brilhantes tolas que mataram o TGV e todas as hipóteses de alta velocidade, tenham o bom senso de aprofundarem os estudos para a construção do novo aeroporto à luz da nova realidade energética. É que parece evidente que não dá, fazer um aeroporto em Alcochete e ir buscar combustíveis com jerricãs a Espanha, tendo em conta a falta de bitola.

Então, a minha mente muito mais brilhante que a deles, apesar de ter a tola mais estreita, resolveu partilhar a minha solução que me parece sensata e despretensiosa. O aeroporto de Alcochete deve ser desde já ultra congelado e guardado no mesmo gavetão do TGV. Devem ser feitos novos projetos, oriundos de tolas mais largas, mas construído do lado de lá da fronteira.

É evidente que a poupança nos combustíveis para aeronaves, em pouco tempo compensa as alterações bitolares. É que fazer obras não custa, o que custa e muito, é acertar nas tolas que fazem os bonecos no papel. Agora, como tantas vezes acontece, é preciso que alguma tola mais avantajada não se esqueça de comprar os terrenos aos espanhóis. E fazer as escrituras direitinho.    

É verdade que no país temos muita tola europeia e muita tola exclusivamente nacional. É muito difícil fazer comparações entre elas. Sobretudo ao nível da eficácia do produto que cada uma delas gera. Mas já é muito fácil verificar que, juntando umas com as outras, dá as celebérrimas bitolas, que segregam uma espécie de biomassa que só tem servido para encher pneus.     

Daí que tenhamos de fazer um exame muito minucioso à bitola intelectual das tolas que têm passado o seu tempo a pensar em coisas tão voláteis como estas dos projetos e contra projetos, de aeroportos onde há combustíveis baratos ou caros, ou onde os carris têm bitola decente ou indecente. Porque cada vez que decidem há sempre tolas que descobrem novas vantagens e velhos inconvenientes.

E assim não vamos a Sines, nem a Alcochete. Não vamos de comboio por causa da tola de uns e da bitola de outros. Não vamos a Alcochete porque os bois continuam a pastar nos verdejantes campos de pastagens onde já devia estar o aeroporto. Acabamos por andar sempre no vai vem do caminho da fronteira para encher os depósitos de combustível.

Mas isto também não dura sempre e as tolas de maior bitola ainda não perceberam que não tardará o dia em que também já não vai haver carros, porque já se vendem metade dos que se vendiam ainda há pouco tempo. Portanto, os sucateiros já estão à espera dos que ainda rolam a caminho da fronteira. Nem tudo isto é mau: está cada vez melhor para os ambientalistas.

E é assim que vamos tendo um país cada vez mais limpo. Não há fumos poluentes dos carros nas estradas e nas cidades do território. Quem quiser ter carro que vá para o lado de lá da fronteira. Quando quiser vir até cá matar saudades, pode vir a pé ou de bicicleta, pois as portagens já foram para aprovação. Portugal será em breve o país mais limpo do mundo. Graças às nossas grandes bitolas.

 

 

Não consigo entender o motivo por que tem de ser assim. Sabido como é que, em todos os dias do ano se dizem mentiras, e das grossas, ainda haja quem insista em querer fazer crer que é salutar dizer umas brincadeiras com verdades no dia um de Abril. Como se alguém ainda pensasse em mentiras e verdades durante todos os santos dias do ano.

Usando aquela lengalenga já tão banalizada, os portugueses sabem que eu não digo mentiras, que mais não seja, pelo simples motivo de que os portugueses não me conhecem de parte nenhuma. Mas conhecem perfeitamente todos aqueles que todos os dias do ano não fazem outra coisa que não seja mentir-lhes. Ocasionalmente, podem dizer uma ou outra verdade no dia um de Abril.

Desta vez, e neste dia um, estou mesmo à beira de morrer porque não oiço ninguém de jeito botar falas em público. Nem mesmo os loquazes e entusiasmantes caraterizadores do regime, como se todos tivessem resolvido meterem uma dispensa ao abrigo do artigo quarto, para que não lhe marquem a dolorosa falta injustificada. 

Talvez tenham uma carrada de razões para recearem o pior, pois fazer uma exceção de boca fechada, precisamente no dia em que a podiam manter mais aberta, levaria logo os seus seguidores a desconfiar da solidez do regime e do significado dos longos, tristes ou cómicos discursos, entre os dias dois de Abril e trinta e um de Março.

Está assim quebrada mais uma tradição tão querida do nosso sereno povo. Lá se vão os discursos inflamados nos feriados políticos que se apagam, bem como as orações nos feriados religiosos que se finam, agora confirmados com a transformação do dia um de Abril, no dia de todas as verdades, que passam ser a voz oficial do regime.

Em contrapartida, nos restantes dias do ano, mesmo nos dos feriados idos ou a ir, continua a poder-se mentir sem qualquer perigo de se ser chamado à responsabilidade. Continuam felizes, aqueles que não sabem fazer outra coisa. Mal dos agarrados à santa ideia de que mentir é um sacrilégio em todos os dias do ano. Só que o problema é saber quem fala verdade e quem diz mentiras.

Chego a ter a sensação de que os tempos que correm estão a levar-me por um estreito caminho que cairá inevitavelmente numa abominável traição à tradição. As palavras parecem estar muito próximas no que à sua grafia diz respeito, mas muito mais próximo me sinto eu do abismo que me precipitará no fundo de um poço sem história nem memória.

Já sinto muitas saudades de ver nos jornais e nas televisões aquelas mentiras próprias do dia um de Abril. Porque essas eram exclusivas dessa data. Mas faziam-me vibrar nesse dia feliz com as boas mentiras, ou arrepiavam-me com as incríveis verdades nuas e cruas. Não havia melhores emoções que os momentos da separação da realidade e da ficção.         

Há lá pior tristeza que esta sensaboria de já não haver nada de novo para nos confortar o espírito e distrair o pensamento. De já não ter-mos sequer uma pequena dúvida de que andam mentiras no ar durante todos os dias e todas as noites. De que os piores mentirosos são os que dizem saber todas as verdades. De que as verdades se escondem nas costas dos maiores mentirosos.

Eu adoro mentiras bem contadas. Daquelas mentiras que não fazem mal a ninguém. Por exemplo, as mentiras sobre o tempo. Dizem-me que vai chover. Mas continua tudo seco. Em boa verdade, o país está mesmo metido numa grande seca.  

 

 

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