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afonsonunes

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Se não formos à Grécia havemos de ir a qualquer lado, nem que seja a Badajoz. É preciso é sairmos disto para dar um ar internacional aos nossos anseios e às nossas ilusões. Para aqueles que não tenham nada disto servirá, certamente, para lhes acabar com as desilusões de que já não prescindem. Aos outros, aos verdadeiramente internacionais, é mais uma oportunidade de fazerem o frete de trocar o bom pelo péssimo.

 

Porém, se eu digo, se não formos à Grécia, é porque ainda temos essa possibilidade. E não digo que ainda temos essa oportunidade, porque o país ainda está traumatizado com tudo o que tem ouvido acerca das velhas e das novas oportunidades. Mas deixemos lá essas coisas e vamos à possibilidade, que essa, espero, não ofenderá ninguém com certeza. Aliás, em Portugal, ninguém se ofende com coisa nenhuma.

 

Que também não fiquem dúvidas. O facto de irmos à Grécia, não quer dizer que fiquemos por lá. Até porque está por provar que na Grécia se estaria melhor ou pior que entre nós. Haverá alturas em que os gregos se sentem portugueses e em que os portugueses se sentem gregos. A diferença pode estar no facto de eles estarem num estado de maturação mais adiantada. Pode ser uma questão de clima.

 

Depois, a Grécia tem uma tradição filosófica muito superior à nossa, se excetuarmos um curto período de cerca de seis anos, em que a nossa filosofia atingiu o auge, graças à permanência entre nós, do filósofo dos filósofos, ao que parece, precisamente, de ascendência grega. Mas, de tradição bem portuguesa, pois não resistiu à onda que nos leva os melhores crânios. Emigrou, quem sabe, com a ambição de atingir a Grécia.

 

Mas, isso agora não interessa nada, pois o país precisa como de pão para a boca, dos que ficam e não dos que emigram, por muito que digam que só cá ficam os que não têm jeito para nada. Eu diria que aqueles que ficam, estão ansiosos por ir até à Grécia. Eles sabem que isso é uma experiência muito enriquecedora, no meio desta rotina que o país adotou: uma experiência muito empobrecedora.

 

Temos de perceber que seria muito negativo pensarmos que todos os portugueses poderiam ser ricos. Claro que é uma hipótese como qualquer outra. Só que então, os atuais ricos, teriam de passar a ser pobres. É por isso que a hipótese de irmos até à Grécia, tem muitas pernas para andar. Muitas pernas de muitas pessoas, claro. Só para saber se lá, na Grécia, os ricos já começaram a empobrecer. Sei, não!

 

É por isso que já ando a estudar a melhor maneira de chegar à Grécia. A descoberta do Caminho Marítima para a India, também deve ter demorado muitos anos a estudar, até porque era um bocado longe. A Grécia fica um bocadinho mais perto, mas há muitas dúvidas se devemos escolher um caminho marítimo, ou um circuito terrestre, isto para depois decidirmos qual o meio de transporte a utilizar.

 

Por enquanto ainda sou só eu que penso nesta viagem. Daí o meu cuidado de me ir prevenindo, porque sou um bocado lento a pensar. Demoro a estudar e demoro ainda mais a decidir. Mas não sou só eu. Entretanto, pode acontecer que haja alguém que se lembre de criar uma agência especializada que crie condições de levar o país inteiro até à Grécia. Temos cá gente mais que capaz para isso.

 

Nem a Grécia é Portugal, nem Portugal aspira a ser a Grécia. Isto é um lugar-comum que temos de desdramatizar pensando, por exemplo, que muitos portugueses se estão a ver gregos para arranjar maneira de conseguir um lugarzinho num cruzeiro de luxo às ilhas gregas. Claro que isto não é negativo para o país. Pelo contrário, é muito positivo porque, assim, podem ir às nossas ilhas.

 

Agora, a grande oportunidade para Portugal e Grécia, se nós não conseguirmos ir até lá, será convencê-los a virem eles a Portugal. Precisamente, porque nós não somos gregos. Nem nunca viremos a ser. Mas, com toda a naturalidade, os gregos têm muito a lucrar se, lentamente, muito lentamente, se forem convencendo de que a lentidão de Portugal, lhes pode dar outra visão da política.        

 

 

12 Mai, 2012

Amigos da onça

 

A onça de tabaco avulso naquele saquinho de papel já tem poucos amigos. Mas no tempo em que os cigarros em maços eram uma carestia para os consumidores pobres, que mal ganhavam para comer, era a mortalha enrolada com uns filamentos de cada vez, que servia de mata vício aos dependentes da fumaça. Também havia os que se contentavam com as tochas feitas com barbas de milho enroladas num papel qualquer.

 

Dantes os camponeses não tinham a quem pedir nada e só podiam contar com os míseros tostões que lhes davam aqueles que lhes pediam trabalho. E esses tostões não davam para mais nada, que para o pão deles e da família. Portanto, se podiam encostar-se a quem lhes deixasse ter o prazer de se servir da sua onça, esse era um amigo verdadeiro, um amigo que se prezava até ao limite. Porque era o amigo que tinha a onça do prazer.

 

Se hoje já não há amigos da onça, pois já nem sequer se veem onças, proliferam os amigos do dinheiro, uma verdadeira onça para os viciados no vil metal. Que, aliás, não está hoje na base de muitas das grandes amizades, no campo das aparências, que parecem mesmo de uma verdade indesmentível. Mas, dinheiro é negócio, não é amizade, porque, amigos, amigos, negócios à parte.

 

Hoje, porém, estou mais voltado para os amigos da onça. Porque me entreguei ao esforço de pensar como é possível haver gente tão importante no nosso meio político que anda completamente na dependência da onça dos outros. Claro que eles podiam fumar havanos puros, uns atrás dos outros, mas a sua dependência está entranhadamente ligada ao vício que lhes vem de pequeninos. Mais e mais, sempre mais.

 

Estou a lembrar-me desse que já nem defende intransigentemente os interesses da família, porque não gosta de um dos filhotes que é muito seu amigo mas, de vez em quando descamba para a desobediência, principalmente verbal, o que irrita a sensibilidade do paizinho. Ora, um e outro, são muito sôfregos da sua autoridade e da sua ânsia de donos dos destinos daqueles de quem se julgam os bons e fiéis tutores exclusivos.

 

Entre o paizinho e o filhote, o clã de outra família muito próxima em rivalidades, conseguiu intrometer-se, numa jogada arriscada, buscando o dono da onça que pode guindá-lo ao lugar do filhote desavindo. O paizinho deste, aceita a cortesia para que o filhote sinta que um pai não tem que estar sempre do lado dos teimosos. Tudo isto, sem beliscar minimamente, as aparentemente boas relações familiares.

 

Depois, no meio de tantos amigos da onça, dará ao paizinho um certo jeito demarcar-se, aparentemente, de alguns, enquanto lhe convirá aproximar-se daqueles a quem negou outrora uma pitada da sua onça. Quando os tempos correm envoltos em sombras provocadas por nuvens imprevisíveis, convém que os acessos à onça se multipliquem não vá o diabo, inesperadamente, tecer alguma surpresa, no meio de algum vendaval inesperado.

 

Aliás, vendavais, é o que não tem faltado a passar por cima das cabeças dessa família aparentemente tão sólida e tão virtuosa. Todos os amigos da onça que andam à volta dela, têm conseguido soprar o cheiro do tabaco para os vizinhos do lado que, não se sabe com que propósito, estão a sujeitar-se ao fumo passivo de quem se tem limitado a soprar esse veneno para o seu lado. Mas, ao que parece, não será para sempre.   

 

Aliás, segundo as últimas profecias do filhote desavindo, pode não ser negativo passar fome durante muitos meses ou anos, pois maior será a sua vontade de comer, quando aparecer um amigo da onça que lhes dê uma oportunidade de desenferrujar as mãos a troco de umas fumaças numa mortalha enrolada sem nada dentro. Será mesmo muito positivo que os donos da onça possam dar uma oportunidade a alguns amigos mais fiéis.

 

O paizinho e o amigo da onça e da ocasião, numa aproximação que cheira a ambiente poluído, divergem muito no conceito dessa poluição: para um, esse ambiente traduz-se num entendimento que não oferece dúvidas a ninguém, pois ele é calmo, sereno e será feliz a curto prazo; para o outro, é tudo grave, cada vez mais grave, com tudo a resvalar, de muito grave para greves a curto prazo.

 

É assim que podemos ter muita confiança no futuro que se vem anunciando como um vasto pomar cheio de aromas e sabores, cheio de coisas positivas, dentro de pouco tempo, que começam, e ainda bem, por umas coisitas negativas. Amigos da onça.

 

 

 

Antes de mais importa saber o que é isto, pois todas as coisas têm de começar pelo princípio. Se isto fosse fácil de identificar não tenho a mínima dúvida de que nunca se teria chegado a isto. Porque isto é uma coisa muito séria que está a deixar muita gente sem saber o que fazer à vida. E até já houve quem, por causa disto, resolvesse mudar de situação, passando do estado de vivo para o estado de morto.

 

Isto é uma tragédia da qual muitos esperam safar-se, daí que considerem que temos mesmo que aguentar isto, na certeza de que quem aguenta tudo não são eles, mas todos os outros. Aí é que esses estão completamente enganados, porque isto não dá para separar os bons dos maus, nem os que mandam chover dos que se molham. Nem tão pouco dá para separar os que mandam, dos que obedecem.

 

Isto está de tal maneira que já não tem ponta por onde se lhe pegue, por mais que se insista em procurá-la, na esperança de que, com essa descoberta, se consiga dizer que ela é o princípio. Mas não adianta procurar uma coisa que isto não tem. Assim sendo, também fica fora de qualquer hipótese pensar que se vai descobrir o fim disto. Não só o fim, mas também a finalidade, o que ainda complica mais as coisas.

 

Isto pode bem ser o início de uma guerra em que o exército poderoso, dispondo do mais moderno armamento, tenha de procurar por todos os meios derrotar o exército de gente, do tipo formigueiro, que se dispõe em carreiros espalhados pelo mundo inteiro, sem qualquer tipo de armas, que não seja o seu número incontrolado metido em todos os buracos da terra.

 

Isto é gente que não há armas que a vençam nem bombas que a destruam, porque essa é a gente que trabalha como formigas, para produzir alimentos para quem tem as armas e as bombas, que deixarão de vencer batalhas à medida que a fome lhes chegar aos quarteis e às frentes de combate. E à medida que se forem perdendo batalhas, é a guerra que começa a perder-se.

 

Isto será então o princípio do fim. E tudo está a conjugar-se para que os insaciáveis de vitórias através de guerras injustas e violentas, se transformem em derrotados, se persistirem nos seus desígnios de não olharem a meios para atingirem os seus fins. Fins que não serão propriamente desfiles de orgulho e de felicidade dos vencedores, tal como não será o fim dos vencidos aqui ou além.

 

Isto começa a ser o princípio do desespero de quem tem de optar pelo ato de lutar, como única alternativa ao fim inevitável da sua vida, às mãos impiedosas dos seus algozes. Entre entregar-se para morrer, muitos serão os que tentarão vender cara a sua vida. Isto não é mais do que uma regra de sobrevivência. É também um ato de coragem em defesa própria, mas também, e principalmente, em defesa daqueles que lhe compete defender.

 

Isto está a verificar-se cada vez mais nos atos eleitorais dos países em dificuldade. Que vão sendo cada vez mais e cada vez mais asfixiados pelos seus pretensos salvadores. Os eleitores vão perdendo a paciência para com aqueles que sempre os enganaram. Sobretudo, para com aqueles que lhes prometeram dádivas e lhes foram roubando os seus parcos proventos. E os que sempre viveram roubando o próprio país.

 

Isto já fez nascer há muitos anos pequenos movimentos ditos extremistas que nunca foram tomados a sério e está a fazer com que esses movimentos se tornem cada vez maiores, ao ponto de já conseguirem impedir a formação de governos como aqueles em que nunca participaram e em parlamentos em que já começam a ter possibilidades de impor as suas regras de destruição das velhas e tradicionais práticas ditas democráticas.  

 

Isto começa também agora a ser uma prática democrática, visto que é a conquista dos votos que lhes mostra o poder. A democracia não pode ser uma boa prática, apenas quando ganham os habituais. Quando governam os que sempre governaram. Também o é, quando perdem os que sempre governaram mal. Quando perdem os que sempre desprezaram os que nunca tinham ganho.

 

Isto quer dizer que alguém anda há muitos anos a abusar da democracia, dando início àquilo de que hoje já começa a ter medo. Quem tem medo de monstros nunca devia ter a veleidade de os criar. Pode muito bem ser o princípio de uma guerra como já houve outras. A sociedade já está a ficar monstruosa. E começa a ser tarde para que isto não seja o fim de uma era.   

 

O princípio disto já está à vista e o fim começa a adivinhar-se.

 

 

 

Compreensivelmente ainda está tudo muito indefinido até porque até ao próximo dia quinze o Senhor Sark tem uns probleminhas a resolver em Paris, antes de marcar a viagem para Portugal, bem como divulgar a universidade que pretende frequentar. No entanto, decidido está já que, não pode ficar muito distante de S. Bento, devido a uma agenda que ele ainda não conhece, mas que está ansioso por conhecer.

 

Ansioso e ambicioso, tal como a agenda misteriosa e o seu possuidor, que só a revela depois de ter o seu parceiro Sark ao lado, não vá a Senhora Merk ficar a pensar que, afinal, essa agenda podia ter sido discutida e cumprida com uma conversata entre os dois. De qualquer forma, e amizades à parte, para estas personalidades, uma agenda é sempre motivo para badalados encontros, com mais uns beijos e uns abraços.

 

Claro que esta misteriosa e ambiciosa agenda é submetida ao Senhor Sark em jeito de primeiro teste. Depois, será a vez da Senhora Merk dar o seu consentimento à prossecução dessa incomensurável ambição. Ultrapassados estes dois testes, a tal misteriosa agenda seguirá para o seu destinatário final. Fica no ar a esperança do seu crescimento ou a deceção da notícia da sua inutilidade.

 

Mas voltemos à escolha da universidade que até parece que estava a ficar fora da agenda. O Senhor Sark ainda não sabe o que lhe aconteceu e como lhe aconteceu. Mas tem lá em Paris um belo exemplo de como essas coisas acontecem. Tal como anteriormente, entendeu continuar a ser um bom discípulo, nos bons e nos maus momentos. O Senhor Sókrak ensinou-o a gerir e agora vai ensiná-lo a digerir.

 

Além disso, se o remédio esteve numa boa universidade em Paris, também está numa boa universidade em Lisboa. Sókrak, como o nome indica, continua a ser um indispensável orientador de craques. Depois, é bom não esquecer que Lisboa tem um handicap ainda melhor que Paris: Tem o Senhor Passak, um génio em inventar saks, uma coisa que, dizem as fugas de informação, consta da tão falada agenda ambiciosa.   

 

Com todas estas voltas ao texto, está a ficar para trás a finalidade desta agenda misteriosa, mas que se sabe, sem qualquer espécie de mistério, que ela é, acima de tudo, ambiciosa. Ora só o poderá ser, se conseguir convencer o homem que acaba de pôr fim à seca francesa, o Senhor Hollak, de que adere ao plano que consta da agenda ambiciosa do Senhor Passak, e que o recebe orgulhosamente como membro do seu staffak em formação.

 

São já conhecidas várias reações muito positivas quanto às vantagens do aparecimento do Senhor Hollak na cena europeia dos calotes. O Senhor Ranjelak já se manifestou disponível para aderir à causa, opinando que se trata de uma coisa muito boa que vai ter consequências muito boas. Certamente não esquece que até o socialismak pode trazer uma vida mais tranquila que aquela que atualmente lhe turva a vista.

 

Ainda não ouvi a abalizada opinião do Senhor Cavak, desconhecendo portanto se também ele está a embrulhar alguma agenda a que já se tenha referido há muito tempo. Suponho que já tenha o papel com florinhas. Sá falta a fitinha de um vermelho vistoso e brilhante. É natural que esta agenda não seja tão ambiciosa como a outra, a do Senhor Passak, mas é preciso ter em conta que o Senhor Cavak quer agora é que não o chateiem muito.

 

As dúvidas são como as cerejas. Atrás de umas vêm outras. Está a causar muita agitação a falta de reações rápidas dos Senhores Relvak, Gasparak e Pereirak. São conhecidas as suas convicções patrióticas e o seu apego a uma linguagem completamente desconhecida na Bastilha. Já ouviram falar da Torre Eiffel e, principalmente, da seca do Sena. Mas, certamente, nunca tinham ouvido falar do Hollak. Portanto, mais um mistério.  

 

Finalmente, faz-se um veemente apelo a todos os que se interessam ardentemente por estas coisas e por estas pessoas que se sentem felizes sempre que há uma mudak, que participem na receção ao senhor Sark, que lhe façam sentir o nosso prazer em que tenha uma boa estadia, num bom hotel, numa boa universidade e que aprenda muita coisa que não sabia. O nosso país é hospitaleiro e retribui os favores recebidos. Obrigado.

 

 

 

Qualquer dos três elementos deste trio percorre o mundo em todas as direções e em todos os sentidos, sempre com o pensamento e o discurso no bem-estar dos seus protegidos. Sempre com o sentido das suas responsabilidades na proteção dos direitos dos contribuintes que lhes pagam as viagens, as luxuosas estadias e os altos vencimentos saídos das austeridades dos seus paroquianos.

 

Os elementos deste trio pagam todos os sacrifícios que provocam na paróquia, com os sacrifícios que fazem ao terem de inventar discursos inéditos todos os dias, ao terem de trocar o sono com frequência por causa dos fusos horários e, com muita frequência, terem de dizer umas coisas que não lhes soam nada bem ao ouvido mas, mesmo assim, acreditam que elas soarão muito bem aos ouvidos de outros.

 

A isto não se pode chamar uma vida airada normal porque eles não se parecem nada mesmo com os três marmelos dessa história. É evidente que nenhum deles tem perfil de Cócó, por sinal, todos eles muito perfumados conforme mandam as regras dos ambientes que frequentam e onde qualquer indício de mau hálito seria o suficiente para que os assistentes virassem a cara para o lado ao ouvirem os proféticos discursos.

 

Tão pouco se podia atribuir a qualquer dos elementos do trio a mínima semelhança com o Ranheta, nome que, só por si, afastaria a mais indesejada das assistências. Este trio é da vida airada sim, mas de uma vida airada decente, que se assoa sem ruídos, porque quem os ouve atentamente não pode ser dissuadido de o fazer do princípio ao fim, ainda que tenha de colocar o dedo no nariz para não incomodar os outros.

 

Tão pouco haveria neste trio alguém comparável a um Facada qualquer que, sem dó nem piedade, tivesse o desplante de se aproximar de um dos seus protegidos e pagantes, levando na mão uma faca, ou mesmo um pequeno canivete, que pudesse meter medo a quem está plenamente confiante na sua salvação, por via da ação de tão generosas dádivas de corações abertos a todos os amigos que precisam.

 

O trio da vida airada não é nada disso. Ainda agora esteve em Cascais e, numa ação perfeitamente organizada, falou como se de um evento a solo se tratasse. Ali, não se vislumbrou uma palavra de propaganda. Até porque já está esgotado esse conceito de propaganda em política. Já se provou à evidência que hoje há factos, factos reais, palpáveis, que demonstram à evidência que a propaganda feita antes, já deu os seus resultados.

 

Voltou a falar-se de imagem, lá está, nada de se pensar em Cócó, Ranheta e Facada, mas sim, nos descobridores do caminho marítimo para Lisboa, ou de descobrir o novo visual do país observado lá de cima através do Google Earth. Temos muito para onde olhar. Principalmente, para quem, não pertencendo a este trio, andou a brincar às descobertas, quando podia ter feito o que este trio já fez e que tanto orgulho está a causar ao país.

 

Voltou a falar-se de reformas. De muitas e boas reformas que o país logo aplaudiu em uníssono. Tal como se manifestou veementemente contra todas as contrarreformas que, ao arrepio de todas as recomendações vindas do paraíso europeu, acabaram por levar o país e o mundo a um estado de pré banca rota. Foi o país do Facadas. Valeu a este sacrificado país, que voltou a ser repetida a coragem inabalável de não voltar ao país do Cócó.

 

Mas, e isto é muito importante. Para que se esqueça de vez a vida airada é necessário, é imprescindível, que este trio se mantenha unido aos outros trios. Que arranjem um consenso qualquer. Que o Cócó, oiça o Ranheta e o Facada, mesmo que tenha de colocar tapas nos ouvidos. Mas, mesmo assim, o Cócó não ouve, insulta, e exige consenso. Porque quer, pode e borrifa-se. Assim, sem consenso, lá se vai a coragem do Cócó.      

 

É notório que há aqui umas misturas de trios que podem provocar alguma confusão. Isto acontece porque o país só agora saiu da confusão. Portanto, como há trios com fartura, também não faltam Cócós, Ranhetas e Facadas. Que não são nada do que pressupõem esses nomes que nos fazem tapar o nariz.

 

 

03 Mai, 2012

Dúvidas

 

Pensava eu que quando alguém tem dúvidas sobre qualquer assunto a primeira coisa que tem a fazer é procurar por todos os meios acabar com elas. E a melhor maneira de o fazer é não decidir nada enquanto não tiver a certeza do que está a fazer.

 

Tomar uma decisão tendo por base uma dúvida, é arriscar a prática de uma injustiça, visto que uma dúvida assenta sempre na escolha de uma de duas ou mais hipóteses em questão. Escolher uma das hipóteses é praticar uma injustiça, seja qual for a parte beneficiada.

 

Dizer-se que na dúvida sobre se alguém é ou não culpado, pura e simplesmente se elimina a possibilidade de esse alguém ser escolhido é precisamente o contrário do pressuposto adotado na justiça: na dúvida nunca se condena o acusado ou o réu, na impossibilidade de se apurar a verdade da acusação.

 

Vem isto a propósito de uma polémica em que os nossos atores políticos são mestres na arte de representar. Porque, ao que me parece ter ouvido, há um sujeito que é proposto pelo PS para integrar o Tribunal Constitucional, partido que alega que estão reunidos todos os requisitos pelo seu candidato.

 

O PSD diz que esse candidato não reúne essas condições mas, ao que me parece, não consegue provar à evidência que os seus argumentos são irrefutáveis. Tanto assim é que logo vieram vozes internas a querer confirmar esses argumentos com o facto de o candidato ter sido membro do governo anterior.

 

 A Presidente da AR, a quem compete vetar ou não os candidatos, decide-se efetivamente pelo veto, porque a situação do candidato lhe suscita dúvidas. Mais, porque, na dúvida, entende que a sua decisão tem de ser contra o candidato. Ora aqui é que está, para o meu perro entendimento, o busílis do problema.

 

Mas então, não será fácil esclarecer se o candidato é ou não juiz de carreira? Não haverá documentos, instituições, caso das universidades, dos tribunais, dos ministérios, especialmente o da Justiça, que comprovem quem é que está a puxar a sardinha para brasas apagadas?

 

Não posso imaginar que a Presidente da AR não tenha meios credíveis de tirar todas as dúvidas que tenha na sua ilustre e bem formada cabeça, adequada à sua condição de número dois na hierarquia do estado. Dúvidas tenho-as eu sobre muita coisa, mas a Senhora Presidenta não as pode ter. Digo eu!

 

Também me parece que o grande problema reside no facto de se tratar de um ex-secretário de estado de José Sócrates. Se assim for, parece-me que o PS devia ir de imediato convidar um ex-ministro de Cavaco Silva, ficando assim o PSD muito contente com a prova de confiança recebida.

 

De notar que, presentemente, temos um presidente que nunca teve dúvidas, e ainda agora não tem, mas também temos uma presidenta que faz das dúvidas que tem, a sua maneira de presidir. Dada a natureza das presidências, talvez pudessem trocá-las, se o país saísse a ganhar. Na dúvida, que troquem.

 

Voltando ao convite do PS, se ele não for aceite, o que se compreende, devido aos seus estatutos atuais, o PS deve convidar o próprio José Sócrates, em nome do seu estatuto de juiz que mete medo a todos os réus que pululam na área do PSD, apesar de alguns ainda não terem esse estatuto. Mas não há dúvidas de que vão ter.

 

PS1: O estatuto de juiz foi-lhe conferido no domingo passado, em Paris, sendo o diploma datado do dia 1 de Maio seguinte. Portanto (seguramente) que reúne todas as condições.

PS2: O diploma está acompanhado de um certificado de qualidade e de competência, coisa que cá não existe.

PS3: Em Paris (de França) está tudo aberto aos domingos e feriados. (Até o Pingo Doce).

 

 

02 Mai, 2012

Está de chuva

Mas que saudades que eu tinha

Desta chuva miudinha

 

Sim, esta seca que se prolongava há largo tempo estava a deixar-me angustiado. Se há coisa que eu preciso é de ver água, sentir água à minha volta mas, sobretudo, vê-la cair lá do alto, sobre os telhados da cidade, sempre pensando que ela também está a cair nos campos, onde a terra nada nos dá se não for bem regada depois de cada seca que o nosso astro rei resolve infligir-nos por mais ou menos tempo.

 

É evidente que não gosto de ver meter água a quem devia estar a fazer outras coisas. Essa, tomara eu vê-la pelas costas, bem como os seus dispensáveis portadores. Mas adoro aquela chuva miudinha, também chamada a chuva de molha parvos. Obviamente que ela só molha os parvos que a ela se expõem e, confesso, quantas vezes sou eu a submeter-me a esse teste de parvoíce, deixando que ela me molhe mesmo a sério.

 

Contudo, há alturas em que a chuva miudinha, por muito prazer que proporcione a quem gosta de senti-la no rosto, não resolve os problemas que a seca nos levanta. E então, só umas boas chuvadas que façam correr barrocas e ribeiras, poderão encharcar os campos, engrossar os rios e encher as barragens de onde a nossa vida depende. Daí que até haja quem cante – tomara que chova, sete dias sem parar.

 

Sabendo que não é essa a sensibilidade de muita gente, que se sente deprimida quando chove, que odeia ter de trazer um guarda-chuva pendurado, ou ter de dar uma corridinha quando se esquece dele, a minha depressão ocorre precisamente quando o sol e a lua teimam, durante muito tempo, em não deixar que as nuvens os ocultem para cumprirem a sua missão de acordar a terra com uma oportuna chuvarada regeneradora.

 

Depois da festa de tantos meses de sol de que tanta gente gosta, finalmente começou a chover. Dizem que é S. Pedro que manda nesses domínios. Parece que só se lembrou dos portugueses e da sua sede, nestes dias que já deviam ser de praia para os amantes do mar. Apesar de tardia, venha de lá essa chuva que a praia pode esperar, até porque as carteiras também estão à espera, e podem esperar, por melhores dias.

 

Nestes domínios das carteiras é o Pedro de S. Bento que tem a última palavra a dizer. Por mim, estou com muita dificuldade em saber qual é a sua última palavra, visto que não posso estar minuto a minuto à espera que ela saia. Porque ele é muito mais inconstante que o santo meteorologista que mora lá nos altos. Que, tal como o Pedro cá de baixo, tem o senão de se esquecer das necessidades do pessoal, porque já não reza tanto como costumava.

 

A chuva miudinha também parece ter assentado arraiais ali para os lados de Belém. Cheira-me a que ela se deve a humidades vindas do Tejo. O chefe Silva, que é fervoroso adepto do Belenenses, diz que não tem nada a ver com isso, pois ele gosta muito é do mar e Belém fica em terra firme. Depois, anda agora muito deprimido porque o seu clube, que já foi grande e triunfador, anda a arrastar-se pela liga dos últimos.

 

E há quem diga que o chefe Silva nunca mais será o mesmo. Porque o Belenenses também está como ele. E um sem o outro, nada feito. Para mim, a chuva comanda o país. Gosto muito da chuva miudinha mas, repito, há alturas de seca em que se precisam mais de sete dias seguidos de chuva sem parar, daquela que faz estrondo ao cair no chão seco como as palhas. Só assim se poderá regenerar algumas das perdas já registadas.   

 

Provavelmente, teríamos uma ou outra inundação. Mas o país está a precisar de uma boa lavagem. E o mar acolhe tudo o que água da chuva lhe manda. Talvez ela levasse um ou outro embrulho misterioso que ninguém consegue abrir. Problemas desses só dependem mesmo de S. Pedro. Mas, infelizmente para nós, portugueses, tinha de haver dois santinhos desses. Para que cada um levasse os embrulhos que lhe convinha.

 

Está de chuva e o resto é conversa. Por mim vou-me contentando com a chuva miudinha que me refresca e me mantem a esperança de que a chuva engrosse, faça correr os rios e encha as barragens, para que o peixe continue a desovar e as pessoas continuem a falar do que corre e do que devia correr. Mas, haja chuva, para que depois, o sol volte a brilhar.

  

 

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