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afonsonunes

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21 Jul, 2012

Respeito

 

Ouvi dizer que Portugal é hoje um país respeitado. Fiquei muito triste com esse comentário. Considero que se trata de uma lamentável ofensa ao passado de um país multisecular, onde tantos antepassados nossos o cobriram de glórias e feitos nunca dantes postos em causa.

‘Hoje’, é a palavra que, no meu entender, está ali a mais pois, Portugal foi, é, e sempre será, um país respeitado, quer os seus detratores queiram ou não. Quer os infelizes lançadores de farpas despropositadas e mal-intencionadas, se esforcem ou não, por deitar poeira nos olhos dos incautos. 

Este, é o tipo de jogada política que o país dispensava perfeitamente. Mesmo que se pretenda que houve quem, a título individual, governante ou governo, merecesse menos respeito durante algum lapso de tempo, bastaria lembrar que quem lança farpas dessas, bem pode senti-las na própria pele.

Não tenho qualquer tipo de relutância em afirmar que me sinto agora mais desrespeitado do que nunca, por quem devia, no meu entender, respeitar todos os portugueses, esclarecendo o que fez e não devia ter feito e dizendo o que não resiste à prova da mais elementar das verdades.

Aquela palavra hoje, deixa implícito que ontem, Portugal não era respeitado. Ora, se Portugal não era respeitado eu, como cidadão português, também o não fui e isso ofende a minha dignidade, porque não fiz mal a ninguém para merecer esse ferrete vindo de alguém que não se respeita a si próprio.

Porque, quem faz os seus juízos sobre os outros, com base nas suas conveniências pessoais, onde se divisam claramente os interesses que as motivam, destapa esses interesses, que são hoje um livro aberto, recheado de páginas escuras como breu, que tentam ocultar com outras páginas de outros livros.

Se ontem o país não fosse respeitado por ter gente pouco séria, então hoje o país seria ostracizado pela promiscuidade que o poder permite, dentro e fora dele. Mas, o país não deixou, nem deixa de ser respeitado, só porque houve e há, quem não mereça respeito nenhum.

Em Portugal, como nos outros países, sempre houve e continua a haver, em maior ou menor escala, gente que se deixa embalar pela força do vil metal, a ponto de vender a sua palavra, ou hipotecá-la, a troco de milhares ou milhões que, necessariamente, envolvem sempre pessoas que se sublimam ou se abatem.

Esses, sim, esses que tudo trocam, no tempo e no interesse do momento, hoje como ontem, não merecem o respeito de ninguém e não têm o meu, apesar do pouco que ele vale, comparado com o desrespeito enorme que eles, malevolamente, têm por mim, cidadão de corpo inteiro.

Estes que tudo trocam, bem mereciam uma investigação às suas intervenções na sociedade, a par daquelas investigações que duram anos a fio sem resultados, a não ser os rios de dinheiro que custam aos contribuintes que nem sequer podem pedir responsabilidades a ninguém.

Pois, falta de respeito, é cada um não prestar ao país as contas do que faz, quando lhe pagam para que o faça. Mas, falta de seriedade, é enganar o país, fazendo-lhe crer que os erros ou omissões de que é responsável, se devem àqueles que os incomodaram ou continuam a incomodar.

O país continuará a ser respeitado, mas do que menos precisamos é de entregar a nossa cidadania àqueles que só nos elogiam, para melhor nos subjugarem aos seus erros, aos seus vícios e aos seus interesses mais que desajustados do respeito que me não inspiram.

Quem quiser que os respeite. Eu, não respeito. Quem quiser, que se deixe enganar por falinhas mansas. Eu não deixo. O respeitinho é uma coisa muito séria e muito verdadeira. Não é uma espécie de sorriso amarelo para mostrar um completo desrespeito pelos portugueses.

 

 

 

20 Jul, 2012

Corta-me

 

Corta-me esta vontade indómita que eu tenho de me atirar a alguém ou a alguma coisa e descarregar este fogo interior que me deprime quando, mesmo sem querer, não deixo de pensar na vida. Mas, também, no que é que eu havia de pensar, se até o pensamento é uma chama viva que queima.

Ao fazer este pedido para me cortares a vontade, tenho receio que percebas mal o meu pedido e comeces a cortar-me o que eu não quero. Por exemplo, esta necessidade que eu tenho de escrever, ainda que não tivesse ninguém, tantas vezes, a fazer o frete de passar o olhar por cima disto.

Resta-me a consolação de que daí não me vêm cortes porque, mesmo o que não presta, aqui ficará inteiro, tal como o imaginei. Mas, os cortes já vêm sendo tão frequentes, e alguns tão desumanos, que me apetece desabafar quanto a cortes que bem podiam fazer-me esquecer os que me fazem sentir dor.

Corta-me esta sensação que tenho, de que este Verão não é como aqueles que estava habituado a ter. Gostava de ver as esplanadas cheias de gente, com copos de cerveja na frente, com mariscos dos mais baratos aos mais caros, tudo fazendo abrir rostos e soltar umas saudáveis gargalhadas.

Gostava que me cortasses a ideia de que neste período de férias, as praias estão a meia lotação. Que as pessoas levam para o almoço umas sandes de manteiga, ou margarina, e uma garrafa de litro e meio de água que tem de dar para vários bebedores. Talvez porque pesa um quilo e meio.

Os mais inconformados levam uma cerveja, ou duas, com um plástico de tremoços e já nem deixam as cascas no areal. Ainda se vê uma ou outra menina ou senhora que não prescinde do cigarro. Mas são menos que em anos anteriores. Ainda espetam a beata na areia.

Mas, o que mais gostava que me cortasses, era a possibilidade de deixar de ouvir as sentenças da misericordiosa troika que nos governa. Não queria que lhe fizessem tanto mal como ela me está a fazer. Só queria que lhe cortassem a voz que tanto me incomoda.

Porque, agora, até resolveu passar a ser a minha misericórdia. Ela é, ou vai passar a ser, quem, misericordiosamente, passa a dar-me uma ajudinha quando eu estiver mesmo a cair para o lado. Talvez umas bolachas maria. Até lá, vai dar-me todo o apoio moral de que eu precisar. Mas, sem despesa.

Por favor, corta-me o cabelo e, se possível, a todos os portugueses mas, à antiga, com a malga redondinha na cabeça. O cabelo que cair no chão depois do corte, permitirá uma receita extraordinária em favor da misericórdia, no valor de uma data de milhões de euros.

Sim, quando se falar de ajudas, de misericórdias, de assistência, de apoios, de subsídios, de rendimentos, só pode falar-se dos milhões que se poupam. Ora, cabelo cortado, é cabelo vendido e tudo o que se vende é poupança, desde que não se cometa o despesismo de acudir a alguém com a corda na garganta.

Depois de toda esta escrita sem nexo, não sei se não teria sido preferível ter poupado este esforço, bem como a poupança do esforço de quem vai ler isto. Mas, só agora reparo. Estive aqui a pedir cortes diversos a alguém. A verdade é que me esqueci de quem é que podia satisfazer-me os pedidos desses cortes.

 

 

 

19 Jul, 2012

Mais um aprovado

 

Depois de tanto me ter aborrecido e pronunciado sobre a falta das tão anunciadas medidas estruturais que nunca mais chegam, eis que vem aí mais uma das que podem evitar que o país saia da famigerada rede de vigarices que tanto tem contribuído para a ruina de muitos, em favor de alguns.

É vidente que estes muitos, e estes alguns, se podem contar por milhões de portugueses que, direta ou indiretamente, andam a falsear o que devia ser um estado onde a equidade e a justiça social bem podiam atingir a grande maioria dos cidadãos deste depauperado país.

É assim que desta vez aprovo a introdução da obrigatoriedade da fatura em todas as transações comerciais. Mas, que se acabe de vez com a vigarice daqueles talões inúteis e enganadores que dizem, ´não serve de fatura’ ou, na restauração, nos avisam de que se trata de,’ consulta de mesa’.

Certamente que as máquinas que emitem esses desperdícios também podem emitir faturas, retirando aos proprietários dos estabelecimentos, o argumento de que têm mais que fazer que serem passadores de faturas. E com razão. Mas, que não queiram tapar o sol com a peneira.

Quanto às atividades da economia paralela, corre-se o risco de passar por muitas dificuldades na sua substituição por empresas sérias e legalizadas, em múltiplas prestações de serviços que hoje, nos meios mais pequenos, se torna difícil encontrar quem as forneça.

Mas, também é preciso ter em consideração que, ao acabar com os clandestinos, se está a favorecer os legalizados, ou o seu aparecimento que, libertos de concorrência desleal, terão muito mais probabilidades de terem negócios estáveis. E é disso que a economia precisa.

Quanto ao bónus do desconto em IRS, embora a intenção seja boa, na prática, só virão a beneficiar dela, os grandes consumidores. Que, muitos deles, são também os grandes burlões de tudo o que cheira a benesses que o estado dá, ainda que com boas intenções. Mas, de boas intenções está o inferno cheio.

Em lugar dos milhões que o estado vai gastar em bónus, sugiro que gaste os milhões em fiscalizações intensivas, que até podem combater o desemprego, metendo mais fiscais. Depois, cuidado, que há por aí um determinado tipo de agentes que em lugar de fiscalizar, comem do prato que exigem lhes seja servido.

Portanto, volto a aprovar mais uma medida, das muitas que ainda estarão na gaveta e que não há meio de verem a luz do dia. O país não dispensa o sacrifício de todos, apesar de não terem sido todos a cavar os muitos buracos que todos os dias se nos vão deparando pelo caminho.

Pelo contrário, quem cavou esses buracos, todos os dias é compensado com novas benesses, que mais buracos abrem em lugar de taparem os que já existiam. Não adianta conceder milhões de benefícios fiscais aos mesmos de sempre, se tiverem de sair dos bolsos dos que não têm por onde gastar.

Como bom exemplo, recordo que a corte espanhola cortou os salários da realeza, apesar de já ganhar menos que os nossos ilustres representantes da república, os quais, por dever de consciência, deviam meter as mãos na dita e tapar os buraquinhos que por lá andam.

Depois, que se acabe de vez com que, neste país, os representantes da república, tenham a noção de que é preciso ter conhecimentos. Para isso é preciso ter aprendido. Porque nunca se deve pretender ser professor, antes ainda de ter sido aluno. Senão, nunca serão aprovados.

 

 

18 Jul, 2012

Veneno no sangue

 

Até parece que o país anda envenenado, tal o frenesim que vai por tudo o que é informação, se é que não anda por aí muita desinformação misturada. Como resultado de uma ou de outra, os seus destinatários entraram em órbita, divididos em dois grupos de astronautas, cada qual no seu foguetão.

Um dos grupos está injetado com um veneno alaranjado que não pensa noutra coisa que não seja o abate do outro foguetão, onde se instalaram os envenenados com uma mistura resultante de vários venenos obtidos em colheitas multicores com predominância dos tons avermelhados.

Os envenenados, quer os de um foguetão quer os do outro, têm em comum o desejo de voltar à terra em situação de poder dominar os ocupantes do outro, depois da aterragem. Porém, já é por demais evidente que os alaranjados estão mesmo dispostos a arriscar tudo, incluindo a própria sobrevivência.

Nota-se que já disparam em todas as direções, convictos de que táticas antigas ainda são praticáveis nos dias de hoje, sobretudo, depois de terem errado quase todos os alvos perseguidos ao longo de muitos anos. Agora, a tarefa está muito mais difícil, pois o tiroteio parece ter feito ricochetes incríveis.

E as balas que ainda disparam carregadas de venenos, acabam por vir a atingir o seu próprio foguetão, provocando o caos nas suas próprias hostes. Hostes, que se sentem cada vez menos protegidas, além de sentirem que já não estão tão imunes ao envenenamento, quanto era usual.

Até já há quem clame que qualquer um dos dois foguetões deve ser abatido e que o país deve abandonar esta loucura do espaço onde o ar está cada vez mais rarefeito e a possibilidade de escapar ao envenenamento é cada vez mais uma utopia.

O convencimento de que esta gente que manda andar, e anda nos foguetões espaciais, nunca viveu verdadeiramente na terra, bem como os que se habituaram a ser enviados lá para cima. Daí que a habituação aos venenos e aos venenosos, seja já uma rotina de vida.

Depois, habituaram-se a um rol de adjetivos com que se mimam uns aos outros, conforme o ciclo de poder. Por exemplo, quem está no poder é sempre corrupto. Mas, o mais curioso é que, fora do poder, também vão arranjando por onde se amanhar, porque o espaço é grande e os foguetões são só dois.

Os envenenados do foguetão multicores estão a pensar em pedir uma análise séria que divulgue o grau de envenenamento dos ocupantes dos dois foguetões. Estão convencidos que os envenenados alaranjados já excederam todos os limites toleráveis de venenos. Portanto, já deviam estar mortos.     

A verdade é que estão vivos e resistem incompreensivelmente aos seus próprios venenos. O seu foguetão auto incendiado, sem receber qualquer ataque digno desse nome do foguetão inimigo, vai perdendo amigos a todo o momento e corre já o risco de ter de cancelar próximas idas ao espaço.

O foguetão inimigo navega nas calmas. Pensa que o tempo corre a seu favor, esperando o fim definitivo da perda de gás do seu contendor. É o costume, de há muitos, muitos anos a esta parte. Talvez por isso, está mais que provado que continuaremos a não ir para parte alguma. Anda por aí muito veneno no sangue.

 

 

17 Jul, 2012

Calma gente!!!

 

Há portugueses que estão a ficar muito agitados, correndo o risco de ter de recorrer a alguém que os leve a uma urgência hospitalar. É bom que se vão apercebendo que essa agitação se torna cada vez mais perigosa e, além de nem sempre terem por perto quem os leve lá, podem também não ter tempo de lá chegar.

Portanto, o melhor é mesmo manter muita calma, beber um chazinho quente com frequência e deitar para trás das costas essas preocupações mesquinhas de que o país vai acabar, porque não temos gente competente que nos garanta que vamos ter dinheiro para comer e para ir às urgências.

É tudo coisas de gente transtornada. É evidente que temos gente que nos garante que daqui a algum tempo vamos ter dinheiro, muito dinheiro, para tudo, até para contratarmos os melhores políticos do mundo, para virem aqui entortar o que ainda está direito. Já falta pouco tempo.

Parece uma parvoíce mas não é. O que ainda está direito é um diabinho do governo que D. Torgal já viu em forma de gente. Certamente que haverá quem não acredite. Mas quem sou eu para duvidar de tão eclesiástica voz? Até porque me parece que ele também terá visto muitos anjinhos no mesmo sítio.

O que ainda está direito é o sentido de humor desses anjinhos que dizem que não há melhor companhia, para terem momentos de relax e prazer, que um diabinho sempre à mão. Dizem até, que é muito fixe. Muito melhor que passarem a viver a poucos metros de uma urgência hospitalar.   

Isso equivale a dizer que no governo não há quem corra o risco de um bafo repentino que necessite de um nim-nó-nim para o levar à urgência, o que tranquiliza todos os portugueses. E, acima de tudo, é uma garantia de que, tal como eles, também nós estamos seguríssimos.  

Provadíssimo fica também que, afinal, um diabinho sempre à mão dá muito jeito à saúde do governo e do país, que é como quem diz, de todos os portugueses. Portanto, renovo o pedido de calma, muita calma, porque essa agitação, esse nervoso miudinho que se vai notando por aí, não tem razão de ser.

A não ser para quem não possa passar sem ir todos os dias à urgência. Porque isso faz parte do seu dia-a-dia. É o seu momento de diversão. Portanto, para esses, aconselho que se mudem para a rua ou a avenida onde se encontra instalada a urgência.

Mas, nada de precipitações. Informem-se primeiro, não vá a urgência mudar-se para outra cidade a menos de uma hora. Não sei se a uma hora de charrete ou de helicóptero. Mas não se preocupe, em todos os casos, a sua saúde está completamente garantida. Ou o seu prazer, se for esse o caso.

O país estava cheio de riscos. Riscos, nas paredes, nas estradas, em S. Bento, em Belém, enfim, não havia nada que não estivesse riscado. E até se notava um desejo ardente de riscar pessoas, como quem risca outra coisa qualquer. E, ou me engano muito, ou ainda há quem queira riscar alguém.

Mas, tenham calma, muita calma, porque o que havia a riscar já foi riscado. Agora já não há que endireitar nada. É tudo uma questão de encarar a vida. O país segue em frente, sem qualquer espécie de dúvida. Mas quem quiser ficar para trás, que não tenha problema. A sua vontade é soberana.

Tão soberana como nunca foi nos nossos longos séculos de existência, como país de vanguarda e de vanguardistas. Não degeneres, senão ainda dizem que não és de cá. Calma, tem muita calma, que isto vai lá. Com urgência ou sem urgência.

 

 

 

16 Jul, 2012

Aprovado

 

Toda a gente tem o dever de ser sério para com o estado, ainda que o estado nem sempre seja sério para com todos os cidadãos. Se houver uma ou mais pessoas que estejam a vigarizar o estado conscientemente, são todos os cidadãos cumpridores que estão a ser vigarizados.

Na problemática dos impostos que se pagam ou não pagam, como na questão dos subsídios que se recebem ou não se recebem. Trata-se, obviamente, de quem vive e trabalha para que o país seja viável, ou de quem vive e, podendo trabalhar, prefere viver dormindo à sombra do estado.

Nesse caso, o mesmo é dizer que há quem prefira viver à sombra de quem se esfalfa a trabalhar para sustentar a preguiça e a inutilidade. E não é difícil encontrar quem, descaradamente, faça questão de mostrar que assim é que se está bem.

Há muitas teorias sobre esta justiça ou injustiça do estado tratar estes cidadãos, parecendo até que há quem sustente que deve ser o estado a meter o trabalho nas mãos de quem o não quer aceitar. E, nesse caso, não deve ser o estado a cortar o privilégio de não querer trabalhar.

No meio desta tão controversa matéria, parece que finalmente o estado vai tomar, ou já tomou, uma decisão. Que é a questão do contrato que deve ligar a situação do cidadão ao estado, que lhe concede direitos em troca de obrigações, ou deveres.

E é aqui que coloco o meu aprovado pois, se quem recebe salário tem de pagar com trabalho prestado, quem recebe um subsídio, ou uma compensação qualquer, também deve pagar com contrapartidas ao seu alcance. Ainda que elas sejam meramente uma questão de filtro de situações irregulares.

É evidente que quem gosta de praticar irregularidades, e há quem as tenha praticado ao longo de toda a vida, vai lançar raios e coriscos sobre a desgraça que lhe vai acontecer. Desgraça que passa, sobretudo, por ter de deixar muitos trabalhos a que chamam biscates.

Tal determinação vai acabar com situações de algum fausto de vida incompatível com a evidente condição de subsidiados que nada fazem para sair de casa em busca de um modo de vida mais transparente e, sobretudo, mais justo aos olhos de quem paga privilégios de que não beneficia.

No entanto, que esta medida moralizadora não sirva para excluir do sistema quem não tem possibilidade de sobreviver à incapacidade e, ou, à doença que impeça a procura de outro modo de vida. Como também não pode atingir quem caia em situações de pobreza de que, por si só, não possa ultrapassar.

Mas deve servir para excluir do sistema, quem pensa que tem direitos que são devidos apenas à sua pessoa, ou a grupos de pessoas que se habituaram, ou têm hábitos adquiridos, de que são casos especiais, com comportamentos que não são admitidos à sociedade em geral.

As facilidades, tal como as dificuldades, têm de ser coerentemente distribuídas com criteriosa igualdade de tratamento, porque só assim se responde ao que vi inscrito num cartaz exibido numa manifestação no país vizinho, ‘ Solução ou Revolução’.

Por agora, parece-me que vai sendo tempo de vermos mais medidas como esta, de pôr ordem no país das irregularidades e das incongruências que minam a sociedade portuguesa. Aprovado, portanto.

 

 

 

 

Longe vão os tempos em que estes temas estavam sempre presentes nos grandes discursos da nação valente e imortal. Nos dias de hoje ainda há quem os invoque, mas já são poucos os que o fazem e terão até algum receio de os associar. Separadamente, lá se vão referindo a cada um deles como guiões para as suas vidas pretensamente dedicadas às causas em prol da sociedade.

Deus é a luz de olhos voltados lá para cima, enquanto bocas temerosas balbuciam rezas ardentes. Porque Deus, para muitos portugueses, está lá no alto a olhar para todos nós. Cada pessoa tem o seu deus, consoante as espectativas que tem de ajudas divinas. Quem é crente, espera de Deus o que não espera dos homens que fazem da vida dos seus semelhantes, um autêntico inferno.

São aqueles que muito invocam Deus que nada fazem para seguir os seus mandamentos. Certamente que o invocam em vão, porque tudo o que dizem está em total contradição com o que fazem. Portanto, fazem-no, hipocritamente, não por obediência a princípios e deveres de consciência, mas por interesses que apenas têm a ver com a sua obstinação em ludibriar aqueles que realmente são crentes a sério.

Ser patriota não é bem a mesma coisa que ser doente por um clube qualquer, e trazer sempre o seu emblema na lapela. Nem tão pouco dizer amiudadas vezes que devemos amor e respeito à Pátria que nos viu nascer. Mais que isso, em todas as circunstâncias, deviam demonstrar a todo o momento que são capazes de lutar por ela e, se preciso, morrer por ela. Mas esses andam mortos por trair os patriotas.         

Patriotas não são os que estão prontos a vender parcelas da Pátria, como se ela fosse coisa que se venda a retalho. Temos exemplos de sobra de atuais vendilhões da sua Pátria, autênticos vendilhões do templo, capazes de vender a alma ao diabo, recebendo em troca uma sociedade dividida e revoltada, em lutas desenfreadas causadas por instintos de proteção de clientelas.

A Pátria, na imaginação dos muitos vendilhões que dizem que a representam, está transformada nas feiras e nos mercados, onde tudo se compra e tudo se vende por preços diabólicos e onde, com a muita e confessada fé em Deus, mas com diabólica agilidade negocial, todos estes patriotas de meia tigela, até conseguem enganar os deuses e os diabos que, distraidamente, se ponham a rezar com eles.

Porém, cuidado, que eles podem insinuar que fazem parte da grande família que, potencialmente pode unir os crentes e os patriotas. Costumam considerar-se irmãos por afinidades que só eles sabem inventar. Porque os laços de família são o inimigo daqueles que sempre viveram sós, para melhor pensarem em si próprios e na maneira de fazer com que todos os outros trabalhem para eles.        

Não se pode falar de família quando tudo o que se faz, na prática, é destruí-la, através do corte sistemático dos recursos que podiam mantê-la coesa. Através das mil e uma dificuldades que impedem que se mantenha unida nos locais onde sempre viveram. Através da permanente ameaça de que nada do que outrora foram laços familiares indestrutíveis, lhes pode ser hoje garantido.

A família não pode, como está a ser hoje, empurrada para a compaixão alheia, por troca com os direitos aos quais já estava justamente habituada. As famílias honestas não podem ser o bode expiatório dos que não veem nelas, senão o sugadouro dos réditos que julgam pertencer-lhes em exclusivo. A família não pode ser uma bandeira para agitar aos ventos da hipocrisia e da propaganda de um falso humanismo.

Deus, Pátria, Família. Três bandeiras que deviam ser de paz, de união e de solidariedade. E que o são ainda para muita gente que não esqueceu o que herdou dos seus antepassados. O que herdou de bom, os sentimentos que antecederam estas guerras de egoísmos, de crenças exacerbadas, de riquezas, de ódios, de vinganças, de invejas, de sedes de poder, que a tudo se sobrepõem. Que todos os deuses nos ajudem.

 

 

 

 

Já alguém muito mais importante que eu, deve estar prestes a mandar dizer-me que não me admitem que ande para aqui a escrever coisas inadmissíveis sobre quem está a fazer tudo, mas mesmo tudo, dentro da legalidade. Ainda que eu pense que também estou dentro da legalidade. Mas é preciso ter em conta, dizem, que a legalidade deles é muito mais legal que a minha.

Dentro deste princípio, não me restaria outra solução que não fosse meter a língua na caixa e ir escrever para outro lado, desde que me passasse para o lado deles. O problema é que eu só conheço um lado e esse é o meu lado. Porque nunca conheci outro, e espero bem que não venha a conhecer, por mais danças e contradanças que se exibam à minha volta.

Ainda estão a tempo de reverem o que têm dito ao longo do tempo, todos aqueles que notaram um ambiente irrespirável à sua volta. O ambiente que nos rodeia hoje em dia, talvez os deixe mais tranquilos mas, de modo nenhum, os pode deixar mais seguros. Porque também eles, tal como eu, não podem deixar de ouvir ruídos de ventoinhas gigantes, capazes de levantar nuvens de poeiras daninhas.  

Para mim, o problema até não está nas ventoinhas, agora trazidas para a ribalta. O problema está na porcaria que os atacados pelo calor, deixam acumular no lugar onde põem as ventoinhas para se refrescar. Depois, dizem que não colocam porcaria nelas. Pois não, vivem cercados por ela. O maior problema é que ela só se nota quando eles ligam a ventoinha.

Sinceramente que não me admiraria nada que ainda viesse a ser acusado de ser uma velha e ruidosa ventoinha. Mas, lembro eu, a ventoinha só espalha o que lhe põem na frente. Acontece que as ventoinhas de grande potência, que gastam muita energia, que até está cara que se farta, levantam muito mais porcaria, causando muito mais danos aos que a provocam.

Se eu fosse realmente uma ventoinha, seria uma daquelas caravelas de papel de lustro que as crianças voltam ao vento, praticamente inofensivas, para as quais ninguém olha, a não ser a criança que a segura na mão. E a minha caravela, lenta muito lenta, rodopia com a débil energia de uma aragem suave, que não tem nada a ver com as ventanias que tantas vezes se sentem.

Ainda um dia destes puseram na minha frente um dito que em nada me surpreendeu: alguém disse para um seu subordinado, que não lhe tolerava que voltasse a criticar o senhor doutor. Ora eu, simples e modesta ventoinha, considero que isto, sim, é colocar porcaria da grande, na frente da própria boca que, a soprar assim, é das ventoinhas que mais difundem porcaria neste país.   

O mais preocupante é que ninguém, que eu saiba, tenha sequer estranhado a energia que uma ventoinha deste quilate gasta ao país. Que não tenha havido quem se indignasse com esta porcaria que provoca aquela coisa a que já em tempos chamaram uma espécie de claustrofobia não sei de quê. É muito curiosa a forma como evoluem os sintomas e a maneira como se avaliam as curas.

Nem vale a pena referir outras ventoinhas que se fazem sentir diariamente e que nada têm a ver com esta que vos sopra agora neste local. Parece que aumentam as rotações de uma forma cada vez mais preocupante. Ora, mais rotações, equivale a maior poder de levantamento das porcarias que têm debaixo dos sapatos e não se vê um gesto sequer que nos afaste da sua nefasta influência.    

Estou disposto a voltar imediatamente a minha ventoinha de costas para o vento, desde que deixe de sentir a ameaça das grandes e poderosas ventoinhas que, devido à sua potência, ninguém parece ter coragem de carregar no botão que as desligue da corrente. Até parece que alguém está com medo de apanhar um choque valente e fatal. Alguém, ainda está a tempo de evitar grandes contaminações.

 

 

13 Jul, 2012

Ingratatões

 

É inadmissível o procedimento de pessoas de tanta categoria e credoras de tanta admiração por todo o país, fazerem uma desfeita daquela natureza, a quem tanto lhes tem dado, em termos de notoriedade, tanto a nível deste abençoado território, como ao nível máximo a que qualquer ambicioso pode aspirar, que é o nível europeu, quando se chega a estrela exemplar.

Mas, só pode ser estrela exemplar quem tiver o privilégio de receber uma mão amiga que o puxe para cima, um protetor que o eleve aos píncaros do exemplo. Só por pertencer a um grupo de seres sob o comando do mais competente e rigoroso homem europeu. Daí que seja inadmissível que essa dezena dos seus colaboradores mais próximos, o tenham deixado quase sozinho naquela noite tão especial.

É verdade que tinha lá os dois fiéis Miguéis na primeira fila. Que até poderia argumentar que nem precisava de mais ninguém. Que até podia prescindir também dos dois Miguéis, sem que alguém fizesse qualquer observação. Mas, o protetor ficou furioso porque essa dezena de servidores do escalão máximo, tinham o dever inalienável de estar presentes, para que toda a assistência os pudesse aplaudir.

Porque o protetor já não precisa de aplausos, tal a veneração que já conquistou cá dentro e lá fora. Já mostrou todas as suas virtudes e a sua coragem e determinação na obtenção dos objetivos que a si próprio impôs. Mas precisa de mostrar a sua equipa de generosos e incansáveis colaboradores, para que se reconheça que ele, protetor, também é exemplar a escolher quem o rodeia.

Por isso, ficou furioso ao ver que eles faltaram à cerimónia onde queria apresentá-los como coautores do seu êxito, apesar de saber que essas faltas se deveram exclusivamente à modéstia que sempre os caracterizou. Isso não impede o protetor de os considerar uns ingratos, muito mais, uns ingratatões, que deviam saber que não há modéstia que justifique um momento de abandono do seu exemplar protetor.    

Protetor que tinha todo o interesse em fazer ouvir de viva voz, a explicação da colossal lentidão do Vítor. Lentidão que justifica plenamente a sua eficiência, já para não falar da sua eficácia, quando usa o seu habitual silêncio. A sua falta foi ainda mais notada, porque não teve a compensá-la a presença do envergonhado Paulo, que nunca está disponível para falar em frente de tanta gente. Muito menos ali.

Tal como o Paulo, também o Mota e a Assunção entenderam que não estavam à vontade naquela sessão tardia de mais, para lhes ser permitido recuperar o sono acumulado da tarde toda sem sesta. Certamente que o protetor não ficou furioso com estas faltas pois, toda a gente sabe que eles gostam de ir pregar para outra freguesia, onde o Paulo também gosta de ser protetor, ali sim, muito mais falador.

Agora, os maiores causadores da fúria do protetor foram, sem dúvida, o Álvaro e a Paula. Porque estes são os dois exemplos de como se trabalha e, ao mesmo tempo, como se põe o país em descanso permanente, tarefa que contribui decisivamente para o elevado grau de confiança que os portugueses não se cansam de lhes manifestar e aplaudir. E era para eles que o protetor reservava os maiores elogios nesta sessão.        

O guerreiro José, o saudável Macedo e o educado Nuno, também contribuíram para a fúria do protetor. Especialmente o primeiro, habitual e fiel devoto, já que os outros dois podem ter pensado que não faziam lá falta. Foi um lapso de intenções que, certamente, depois de pedidas as desculpas da ordem, tudo voltaria à normalidade. Mas o José não passaria sem um valente puxão de orelhas.

Todos os ingratatões, ingratos elevados ao expoente máximo, sentiram o peso da voz do protetor. Uns, porque sabiam perfeitamente que deviam ter ido àquela missa, rezar pela sua própria alma, outros, porque tiveram receio de ir entregar a alma ao demo. Mas, afinal, tudo acabou em bem, depois de sentirem um calor estranho nas orelhas. Porque a voz do protetor, um tal de Pedro, era um bocado quente.  

 

 

12 Jul, 2012

O estudo da nação

 

Estudar uma nação não é uma tarefa fácil para qualquer cidadão em estado de espírito a tender para a preguiça mental e recetivo à badalada que soa aos quatro ventos. Esse estudo, que tem de ser sério, não pode ser veiculado pelos ministros que se auto elogiam muito, ou pelos partidarizados que se flagelam constantemente para exigir que os membros do governo façam o mesmo.

O estudo e a nação são duas coisas completamente diferentes, apesar de haver quem goste de as misturar, com o argumento de que andam à procura de coisas melhores e piores que aquelas que temos. Até podem estar a pretender dar um bom contributo à nação, mas a verdade é que, muitas vezes, as coisas que eles descobrem como as melhores, acabam por ser as piores.

Ontem foi um daqueles dias em que o estudo da nação se fez na aula grande do país, onde os estudantes e os professores percorreram páginas e páginas de oratória, em busca de qualquer coisa que eles sabem que existe, mas que continua oculta. Essa coisa deve ser a verdade e a seriedade dos estudos que eles, por muito que se esforcem, não conseguem compreender.

Mas, alguns encontram-nas de cada vez que abrem a boca. E então soltam um chorrilho de reflexões loucas em que atiram as bojardas ao ar e, logo de seguida, abrem fogo sobre elas. São como aqueles caçadores que levam o coelho dentro de um saco e, chegados ao campo, soltam-no e atiram sobre ele. É a maneira mais eficaz de poderem dizer que já não ficaram a bode. Se não falharem o tiro.

Tudo isto faz parte do estudo da nação valente, que tantos valentes deu ao mundo, em contraste com os fracos que gostam de armar em fortes, quando nem sequer sabem estudar, porque sempre passaram o seu tempo a impedir, através dos seus ruídos despropositados, que os bons estudantes descubram algo de jeito através do estudo sério, no caso, ouvindo e falando, com ordem e respeito pelo que ouvem.

O estudo da nação a que ontem assistimos permitiu-me concluir que há estudantes que nem estudam, nem deixam estudar. Talvez seja por isso que aquela aula não funciona mesmo. Com dois professores externos que não convidam mesmo nada aos consensos que tanto se esforçam por pedir, mas que tudo fazem para que apenas encontrem matéria nos remoques dirigidos aos estudantes que vêm de outras turmas.

Mas, muito piores que esses dois professores são alguns chefes de turma que, no desejo de lamberem as botas aos professores, usam uma linguagem imprópria da escola que frequentam, além de uma falta de ética e de espírito de repulsa pelas verdades mais elementares, que me arrepiam. Toca-me profundamente ver como, descaradamente, se mente em nome de verdades que não passam de pura má-língua.

Tudo porque aquela escola, aqueles professores e muitos daqueles alunos, não estão ali para fazer o estudo da nação. Estão ali para difundir as lições que lhes foram ministradas em outras turmas, com outros professores e programas completamente diferentes. Acontece que esses vários grupos de alunos, agora debaixo do mesmo teto, não encontram outra maneira de estudar que não seja pelo insulto mais soez.

Portanto, eles não estudam a nação porque já estudaram os seus domínios, que são vastos e ricos em ideias e em diretrizes convergentes com os seus interesses de turma. O estudo da nação não lhes interessa, na medida em que outros estudos contraditórios lhes garantem a cadeira, sem pagamento de propinas e com prémios pecuniários garantidos sem terem de fazer exames.

E, assim, assistimos ao desespero de uns, porque entendem que o diálogo é a submissão dos outros às suas teorias, que dizem sem alternativas, enquanto os opositores lhes fazem ver que, diálogo é troca de ideias sem restrições nem condições, para que se encontre um ponto de convergência em que todos possam ter de ceder alguma coisa. Só assim o estudo da nação, pode realmente vir a ter alguma utilidade.