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afonsonunes

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11 Jul, 2012

Créditos

 

Quem me dera ter alguém que me creditasse ao menos cento e sessenta euros na minha magra conta bancária para que com eles pudesse receber trinta e dois cursos práticos, dos trinta e seis que constituem o pleno da sabedoria humana. Mas, basta olhar para a minha cara e vê-se logo que não tenho perfil para tanta creditação. Nem tão pouco tenho jeito para pedir os cento e sessenta euros a crédito.

Ainda pensei em tirar os quatro cursos que restavam dos créditos, mas a vida não está fácil para toda a gente. Para aproveitar esse bónus, tinha de possuir umas moedas no respetivo porta mas, não chegavam e, por isso, não paguei, pelo que se foram os quatro cursos que, por acaso, eu até nem precisava de fazer exames, nem sentar-me em qualquer cadeira para os arrancar com toda a minha preensão.      

Pensei então, uma vez que estava teso, que não podia deixar voar os trinta e dois cursos, vindos dos cento e sessenta euros de créditos que, por acaso, até nem tinham nada a ver com créditos mal parados. Posso orgulhar-me de que, nesse e noutros aspetos, não há ninguém que me ultrapasse em qualidades creditáveis, em competências transacionáveis e em relações facilmente trocáveis.

Sempre relembro que são trinta e dois cursos que tenho no meu miolo, sem contar com os quatro que estiveram à beirinha de entrar, dois por cada ouvido. Falharam por pouco, mais precisamente, por uma bagatela de vinte euros, diferença entre os cento e sessenta e os cento e oitenta euros dos tão preciosos créditos que eu deixei que ficassem em boas mãos porque, comigo, tudo tem retorno.

Adivinho que há por aí quem esteja a torcer o nariz sobre as competências que demonstrei para cada um dos cursos. Não tenho problema nenhum em torná-las públicas, mesmo correndo o risco de alguns invejosos tentarem seguir-me o exemplo e começarem já a correr em direção à universidade onde me licenciei, com toda a normalidade e com toda a competência que me foi reconhecida em toda a linha.

A mais difícil tarefa que me surgiu veio do curso de relações internacionais. É que eu tinha de demonstrar que já tinha ido ao estrangeiro, senão tinha de me ficar por um curso de relações nacionais. E a dificuldade maior residia na compra de passagens de ida e volta. Com a ajuda de um amigo, lá consegui trocar uns bons conselhos tirados da minha sapiência, por bilhetes de ida e volta a Badajoz.

Quase nem saí do comboio, mas deu para falar com o revisor espanhol enquanto me furava o bilhete e, já na estação, com a empregada dos sanitários, enquanto eu me aliviava. Depois do regresso ao país, tive de apresentar os dois bilhetes, para provar que não tinha ficado por lá. Passada esta trabalheira toda, lá me foi reconhecido o curso com a indicação dos valores gastos nos bilhetes.

O curso de ciências políticas foi muito fácil, como se calcula, em função da minha expertência de muitos anos. É preciso saber trocar bem as tintas e nunca confundir a cor rosa com a cor laranja. Mas, para mim, isso sempre foi canja. Bastava uma simples associação de ideias entre uns amigos adeptos dessas cores e os seus feitos mais importantes. Mais um curso obtido em toda a linha, que nem toda a gente consegue tirar.

Como não podia deixar de ser, também o curso de folclore me deixou agradáveis recordações. Eu tocava qualquer instrumento, e ainda toco, perfeitamente. E, enquanto toco, ainda danço com um, ou uma qualquer. Tanto faz que saia um corridinho, como uma valsa. O que vier, eu danço. Mas, para tirar o curso foi preciso obrigar muita gente a dançar comigo. É que, como eu, nem toda a gente dança em toda a linha.

Só espero que não me peçam para explicar pormenorizadamente como tirei os restantes vinte e nove cursos. Obviamente que foi com a mesma dignidade dos três referidos. Mas, não quero que se entusiasmem demasiado com a minha facilidade em mostrar como se é superior entre inferiores. Nada que se compare com facilitismos. Para mim, para a minha competência, não há créditos que cheguem.

 

 

10 Jul, 2012

Vamos à farmácia

 

Tudo indica que vamos ter dois dias sem médicos, o que quer dizer que não podemos ir à farmácia aviar a receita que não conseguimos que nos fosse passada. Isto, que à primeira impressão parece um problema que vai causar mais doenças que a falta de médicos, não passa de um não problema. Tudo vai da cabeça das pessoas que até são capazes de morrer a pensar que não lhes resta outra receita.

A ver as coisas desta maneira, as farmácias bem podem também fechar as portas, pois sem receitas não há remédios para ninguém. Estou convencido de que nem os médicos acreditam que vai ser assim. Refiro-me aos médicos que exercem nos hospitais e nos consultórios, pois as farmácias estão cheias de médicos e médicas que não precisam de passar receitas para venderem medicamentos.

Os medicamentos que venderem à quarta e à quinta, sem receita, terão os respetivos descontos com as receitas que os seus compradores forem buscar às consultas de sexta-feira. Portanto, são apenas dois dias de engenho e arte para saber fazer as coisas. Quanto aos doentes com problemas graves, só terão de pensar que os dois dias úteis, afinal, são dois dias seguidos de feriado.

Aliás, os médicos cometeram um erro de palmatória ao prometerem ir praticar a uma quarta e quinta-feira, o horário dos domingos e feriados. Essa estratégia pode retirar-lhes o esperado sucesso da paralisação. É de louvar o espírito de respeito pelos doentes, mas o sucesso dos médicos só será avaliado pelas consequências, obviamente, negativas, sobre as vítimas que causarem.

Por outras palavras, se tudo correr mal para os doentes, tudo correrá bem para a causa da paralisação. Se tudo correr bem para os doentes, a greve dos médicos será, inevitavelmente, uma vitória para o ministro da saúde. E aqui é que está o busílis da questão. Seja qual for o resultado ao longo dos dois dias, ele será avaliado de maneira completamente diferente pelas partes em conflito.

Porque a seguir, tudo o indica, vai haver negociações e na base delas vai estar o resultado e as consequências da greve. Todos sabemos como se fazem contas nestas coisas. Todos sabemos também como o governo, no caso o ministério, usa argumentos muito mais dirigidos aos eleitores, que aos interessados nas negociações, aliás, como aconteceu antes da paralisação.

Por norma, sou contra todos os argumentos que vão no sentido de convencer as pessoas prejudicadas e os governantes e outras entidades patronais, de que os grevistas deste, ou daquele sector, são casos especiais de trabalhadores imprescindíveis à vida do país. Até podem ser, mas não são os únicos, pois, bem vistas as coisas, todos os trabalhadores são imprescindíveis para que o país funcione. Até os indigentes.

Gostava de saber se o país aguentava muito tempo sem a recolha do lixo que todos fazemos. É apenas um exemplo. Quem tem trabalho muito especializado já tem o salário e o estatuto que o distingue. Quanto às greves, todos têm o direito de as fazer, mas fica-lhes bem, a todos, de todos os setores, meterem as mãos na consciência quando invocam argumentos mais que egoístas para as justificar.

Também gostava de saber o que leva entidades patronais, governo incluído, a não terem pena do dinheiro que esbanjam com tantos montes de trabalhos que albergam, inúteis e principescamente pagos, quando depois têm trabalhadores que os sustentam, a todos eles, a ganhar cada vez menos, chegando ao desplante de se aproveitarem de situações aviltantes de desemprego, para humilhar quem vive com fome.

No caso dos médicos, como no dos enfermeiros, como em todos os casos de especialidades com estatuto social mais elevado, é evidente que têm mesmo necessidade de ganhar o correspondente à manutenção desse estatuto e às despesas a ele inerentes. Mas, sobretudo, têm direito a condições de trabalho dignas de gente, e não de simples peças de qualquer fábrica de humilhação humana.

 

 

09 Jul, 2012

Bálsamo

Coisa boa para todos aqueles e aquelas que se habituaram a deixar-se embalar por uma espécie de traficantes de droga verbal, que fazem da vida um negócio balsâmico destinado a suavizar as feridas ou as dores desses embalados pelos movimentos dos sons que os rodeiam. Em lugar de procurarem pensar nas origens do ruído para o eliminarem, preferem o bálsamo que o disfarça.

É uma espécie de perfume que, espalhado sobre cheiros desagradáveis, não os eliminam, mas podem sobrepor-se a eles por mais ou menos tempo. Cheiros desagradáveis que vêm de tempos que muitos já esqueceram e muitos outros pretendem fazer esquecer. E, para isso, gastam montanhas de bálsamos na esperança de que isso resulte. E sempre vai resultando com alguns.

Alguns que inalam sofregamente o perfume que recebem como bálsamo para as suas frustrações, para as suas insuficiências, para a sua cómoda falta de vontade de conhecer os factos, em lugar de se entregarem aos traficantes de invenções suas, ou alheias, mas que não passam de velhas especulações que, de tão repetidas e manipuladas, acabam por ser aceites como verdades incontestadas.

Que isto se passe com pessoas de reduzidos conhecimentos ou de insuficiente instrução, ainda se desculpa, porque nem toda a gente tem as mesmas possibilidades de se manter bem informada, pelos mais variados motivos. O cerne do problema são os profissionais da política, com especial relevância para os que, quando lhes calha a vez, se encontram no poder e se servem dessas sujas habilidades.

De cada vez que as coisas lhes não saem bem, lá recorrem à reposição de cenas que já metem nojo a qualquer mente limpa. Algumas dessas reposições aparecem ciclicamente, sempre da mesma maneira, em jeito de bálsamo suavizante do impacto das suas asneiras, quando não das suas trafulhices. Como se isso fosse uma terapia de substituição para os seus insucessos.

Quando algum dos bem queridos trafulhas cai nas malhas das bocas do mundo, logo se vai ressuscitar um, de entre os mal-amados, que vai servir de bálsamo para atenuar as dores. E o pior vem quando os bem queridos indesejáveis são muitos, e vão sendo descobertos quase diariamente, enquanto o bálsamo acaba por ser sempre o mesmo.

Quando se tomam decisões que se presume que vão ser bem aceites, o mérito é de quem as toma, ainda que elas não sejam mais que o seguimento de orientações de outros. Se essas decisões são mal recebidas, então lá virá a desculpa de que isso é uma imposição de necessidades que vêm de trás. Como se o tempo e as circunstâncias se mantivessem inalteráveis.

Já tivemos buracos colossais que mudaram de sítio. Mas provocaram muita confusão sobre os seus obreiros e autores, precisamente, porque se pretendeu tapar com bálsamo, outros buracos supostamente bem escondidos. Já se inventaram roubos e desonestidades que, afinal, vieram, e estão a ser descobertos, do lado oposto. E muito falta investigar para que mais se vá esclarecendo.

Porque, justiça deve ser feita à má justiça que temos tido, porque há sinais de que as investigações estão a alargar um bocadinho o seu âmbito que, durante anos, teve apenas um sentido. Apesar de tudo indicar que o sentido não era único, como se está a verificar agora. Mas, repito, por cada caso que aparece do lado da seriedade e da verdade antigas, logo se vai martelar na técnica do bálsamo.

Mas, estamos ainda na fase das mentiras colossais, em que um, o mau, serve de bálsamo para ocultar todos os bons que vão aparecendo. Esse bálsamo é tão milagroso, e atingiu tal celebridade, que iliba a responsabilidade da hipócrita nata política europeia. Que é, também ela, a nata da mentira colossal, que toda essa nata política está a ocultar e a dissimular, usando bálsamos de marcas ocultas. 

 

        

 

08 Jul, 2012

Pavões à hora

 

O meu respeito por todos os pavões do governo não admite dúvidas, mesmo quando os vejo a correr de porta em porta, sem saberem por qual delas podem entrar, sem porem em risco a segurança de quem esteja por perto. É que os pavões machos andam sempre de cauda em leque e isso requer portas largas para que as vistosas penas não sofram alguma machucadela.

Já as pavoas até entram pela janela se a necessidade a isso as obrigar, mas fá-lo-ão sem qualquer dificuldade, dada a sua leveza de cabeça e ligeireza de asas. Ainda não consegui perceber a razão por que as pessoas gostam mais dos pavões que das pavoas. Deve ser por causa das cores do rabo, perdão, da cauda, que o Criador deve ter trocado por engano.

Repito que respeito todos por igual, mas confesso que sempre tive alguma preferência pelas pavoas. Questões de sexo, mesmo que não me considere machista. Mas, entre um lindo pavão e uma modesta pavoa, nem hesitaria em bater a asa à segunda. Até porque estes vistosos galináceos estão sob a dependência de uma pavoa que parece voar relativamente alto.

Admitindo, com todo o respeito, que temos um governo de pavões e de pavoas, sou levado a concluir que as dificuldades que o país atravessa não se devem, com toda a certeza, a despesas com galináceos, a menos que, também eles, já tenham desistido de voar, para se deslocarem como as pessoas mais abastadas e mais amigas de se pavonear nos aviões e nos salões mais chiques do mundo inteiro.

Eu não acredito que os pavões e as pavoas do governo, além de exibirem as suas deslumbrantes penas coloridas, ainda se dediquem a fazer brindes com champanhes e vinhos de qualidade extra, importados de Portugal, quase exclusivamente para esses beberetes que eles próprios organizam lá fora, para iluminar o gosto e o rosto dos muitos compatriotas que os acompanham.

Mas, por cá, também ficam pavões que se dedicam a atividades congéneres nas nossas quintas e nas nossas fábricas, melhor dito, dos amigos deles. Só que, por cá, os brindes são, por norma, feitos com bebidas estrangeiras, muito mais adequadas ao chiquismo de quem estudou muito e depressa, para dominar perfeitamente as técnicas de parecer o que nunca foram, nem nunca virão a ser.

Fábricas e quintas que estão na berra para quem não pode ir para fora. É verdade que também não podiam ir todos ao mesmo tempo. Quem dera que pudessem e ficassem por lá, para não obrigarem tanta gente pacífica a andar atrás deles por montes e vales, a fazer gritarias que até incomodam outros galináceos, habituados ao sossego desses meios rurais.      

Nos tempos que correm os pavões estão a encontrar muita dificuldade em saírem à rua nos meios urbanos nacionais. É uma confusão que eles lá fora não encontram. Deduzo que isso se deva ao fato de lá fora toda a gente os conhecer, enquanto nas quintas e aldeias que visitam, ninguém os conhece. Depois, toca a tratá-los como malfeitores, que é o que menos se encontra hoje em dia.

Como seria de esperar, a situação agrava-se muito quando os maiores pavões nacionais, tudo fazem para se pavonear espaventosamente, enquanto cacarejam no meio de outras aves, muitas delas reconhecidamente ditas de rapina, até pelos pobres galos e galinhas dos mais pobres e simples galinheiros. Depois, acontece aquele ruído de aviário sem farinha. E as bicadas nunca mais acabam.

Mas, bem podiam acabar, se os pavões, ao invadirem o espaço de todos os outros galináceos, cacarejassem de uma maneira inteligível para todos e, sobretudo, que não mexessem na farinha dos outros. E, já agora, se nos aviários se vive à hora, seria conveniente que os pavões adotassem para si próprios, um regime de salários à hora, para que a farinha não faltasse e todos tivessem a mesma esperança de vida.

 

 

07 Jul, 2012

O 8º. Mandamento

8 - Nomeações com critério
"O desempenho de funções públicas e a selecção dos altos responsáveis da Administração têm de ser pautados exclusivamente por critérios de competência e de mérito. As eleições servem para devolver a escolha ao povo, não para promover o rotativismo das clientelas".

É assim que reza o oitavo mandamento do discurso presidencial da tomada de posse do atual governo. Todos sabemos como ele tem sido cumprido na íntegra, sem um mínimo de razão para se contestar a adequação a qualquer lugar, do mais modesto ao mais faustoso da nossa administração pública. Tudo com o devido respeito pelo determinado no respetivo mandamento.

Basta olhar para o seu articulado para se ver como ele está bem feito, bem estruturado, verdadeiro em cada palavra. Real em cada ponto final e até uma verdade autêntica nas aspas com que abre e com que termina. Em suma, tudo como deve ser. Nem mais nem menos do que se deveria esperar de uma obra-prima originária da mais alta instituição nacional. Perfeita.

Veja-se a sintonia entre o citado desempenho e a selecção, esta ainda fora do acordo, mas já com a marca de uma vontade férrea de firmeza, ao acrescentar-lhe, têm de ser pautados, com a relevância de um oportuno e claro, exclusivamente, que casam perfeitamente com o objetivo, que são os critérios de competência e de mérito. Isto não é por acaso. Isto é uma súmula bem doseada de mérito e competência. 

Depois, no segundo parágrafo deste oitavo mandamento, deparamos logo com a palavra eleições, coisa em que já então, se pensava muito a sério, mas que não deixa de se pensar agora, ainda mais a sério, uma vez que, como ali também se refere, elas servem para devolver a escolha ao povo. Este oitavo mandamento é uma lição de vida, é um desígnio democrático do mais puro que se pode imaginar.

 

E termina com a sábia sentença de que (as eleições) não servem para promover o rotativismo das clientelas. Nem a Bíblia poderia conter coisa mais sagrada que esta máxima que, nem o, ou os, seus autores, devem ter medido corretamente o alcance do seu âmbito. Vai muito para além do momento em que foi proclamado este fim do rotativismo que eles próprios viveram e sustentaram.  

 

Daí que o valor e a coragem deste oitavo mandamento, constitua o momento mais alto da história da democracia portuguesa. Porque é já hoje bem visível que ele acabou com o rotativismo mas, acabou sobretudo, com todas, e eram muitas, as clientelas que vinham de muito longe. De tão longe que o autor, ou autores do oitavo, já não se lembram, nem têm obrigação de se lembrar.

 

Hoje por hoje, já não faz sentido, recordar essas clientelas, dado o perigo de se reavivarem memórias demasiado sórdidas. Este talvez seja o único ponto menos positivo do oitavo mandamento. As más recordações que pode ter suscitado. Mas, a firme decisão ali bem vincada de as não permitir, resolveu esse assunto, limpando línguas e memórias. Já não há clientelas e ponto final.

 

Hoje há uma consciência globalizada em que o povo português acredita que se pode viver bem, mesmo muito bem, seguindo as indiscutíveis orientações que vêm de Pequim, que fazem uma paragem em Berlim e seguem depois para Lisboa. Uma vez aqui, são acrescentadas com uns pozinhos de S. Bento e uns recados de Belém. Deixam-se fermentar sob as rezas da missa parlamentar e aí as temos.

 

O oitavo mandamento fez de Portugal um país mais limpo do que alguma vez foi o Tejo no Terreiro do Paço, mesmo quando servia de piscina a gente limpa. Os critérios de nomeações para tudo, já vêm de Pequim e de Berlim. A seleção é feita exclusivamente em mandarim, com autorização de Berlim. Portanto, nada de culpar, quem não manda nada. Nada de mandar calar, quem nunca teve voz ativa.

 

 

 

Não há bons enchidos sem bons porcos. Esta é uma verdade que nem qualquer entidade desregulada consegue subverter, nem qualquer deputado artolas, por mais sagaz que se julgue, é capaz de contrariar. E quanto a bons porcos, não é só nos montados alentejanos que os vemos nascer, crescer e ser desmanchados, para nos dar tudo o que consta nos catálogos da especialidade.

 

Obviamente que não se pode dizer que temos bons porcos se não tiverem cumprido um bom plano de engorda, não apenas com boa bolota, mas com todas as técnicas dos melhores chefes da especialidade. Só assim, poderemos ter as gorduras de suínos bem enchidos, gorduras que vulgarmente se designam de ‘tócinhos’, fundamentais para o paladar de qualquer enchido de qualidade.

 

Há quem fale muito nas gorduras do estado suíno, exigindo a sua eliminação. Esquece-se que não se pode fazer uma simples farinheira sem uma elevada percentagem de gordura. Do mesmo modo que não se pode apresentar uma morcela confecionada apenas com o sangue cozido do porco. Ou um chouriço que resulte do encher da tripa com febras e colorau. Em tudo tem de entrar uma dose maior ou menor de gordura.

 

É que o bucho das pessoas não é como o bucho de porco, onde se mete o que se quiser. O bucho humano tem aquele dom de saber o que é bom, mesmo que tenha gorduras a mais. E nem sempre quem as tem, as quer perder. Esta tendência para a gordura de porco, é uma tendência que começa a ser levada lá para fora, com a vantagem de ficar menos gordura entre nós.

 

Imagine-se o desvario que vai por aí. Há países que vêm cá buscar os nossos enchidos para os venderem lá fora, como se fossem deles. Ora isso quer dizer que o nosso chouriço é um espanto de apetência e de aparência, pois basta olhar para ele para fazer esquecer todos os chouriços dos locais. E isso, não tenho dúvidas nenhumas, deve-se às nossas gorduras de porcos muito anafados.

 

Já lá diziam os antigos, que não há nada como um bom ‘txóriço’ para consolo de quem o oferece e regalo de quem o recebe. Mas isso era dantes. Hoje temos embaixadores plenipotenciários à volta do mundo, à procura de colocar o seu precioso chouriço, por bom preço e com o respetivo rótulo de origem. E aí, na China ou no Bangladesh, se é bom, é mesmo chouriço de português legítimo.

 

Se já inundámos o mundo com os nossos pastéis de Belém, ou mesmo com os simples pastéis de nata, ou ainda de fofas cavacas portuguesas, ainda mais facilmente podemos inundar o mundo com tromba e cabeça de porco fumado, ou de pezinhos de coentrada do dito, para não se discriminarem apenas os enchidos ou os também célebres presuntos, símbolos de tantas cunhas bem-sucedidas.

 

Talvez passe por aqui a revitalização deste país deprimido. Mas, atenção. Não se pode levar por diante um plano tão audacioso sem ter-mos porcos a dar com um pau. Isto quer dizer que não podemos hostilizar os porcos que temos, senão serão eles a criar ondas de depressão e lá se vai o negócio salvador. Não se pense que se podem vender morcelas ou farinheiras sem a aurífera gordura dos nossos porcos.

 

Temos de ter porcos. Muitos porcos. Não só nos montados alentejanos, mas em todo o país. Não só nos campos e nas aldeias mas, e principalmente, nas cidades, em todas as cidades, das maiores às mais pequenas. Porcos menores nas aldeias, porcos tanto maiores, quanto maiores forem as cidades. É tudo uma questão de pias onde eles possam chafurdar. E, por enquanto, é coisa que não falta.

 

Muita atenção, também, aos nossos propagandistas da banha de porco. Aconselha-se a que não levem esse produto para a estranja porque, com as mudanças climáticas por que passam, derrete-se e fica rançosa. Um desperdício. É preferível que levem o enchido pronto a servir. Principalmente, aquela linguiça fininha, um petisco que não precisa de fogão para assar. Já o chouriço é próprio de refeição mais elaborada.

 

 

 

 

A verdade é que, bem analisada a coisa, ela também já não gosta de ninguém, embora haja uma ou outra exceção, devidamente comprovada e justificada com a necessidade que ela tem de mostrar que não há regra absolutamente rígida. Isto de se gostar ou não gostar, aliás, é um conceito muito discutível, pois está provado que quanto mais pancada o cão apanha, mais gosta do dono.

 

Eu sei que o cão não era para aqui chamado, mas a escrita tem destas coisas. A gente embala e às tantas não consegue parar quando quer, qual carro que, de repente, fica sem travões. Queria eu dizer cá na minha, que ela diz umas coisas muito sonoras que, tal como a primeira, arranca cheia de força, mas depois a velocidade não aumenta. É mais o barulho que o rendimento.

 

Também a primeira não era para aqui chamada. Mas o primeiro, sim, que é a verdadeira governanta cá do sítio. E é dela que já ninguém gosta, no dizer de ilustres que tudo discutem, mas que de nada servem agora, pois já só sabem falar de tudo o que, no dizer deles, anda totalmente desgovernado. Nada de novo, visto que já no tempo deles era assim. Claro que eles podem já ter aprendido alguma coisa.

 

Também temos de dar tempo à governanta para que passe da fase de formação à fase de execução. O problema é que a governanta está a formar-se em não gostar de ninguém. Aliás, tem o hábito de considerar não assuntos, todos os problemas que não lhe apetece analisar. Ora, os que não gostam dela, não se conformam com tantos não assuntos que vão ficando atrás das costas dela.      

 

Esta coisa dos sim assuntos e dos não assuntos deixam muita coisa no ar. Por exemplo, um curso inferior tirado a um domingo, é um sim assunto que tem de ser, forçosamente, assunto para discussões de muitos anos e investigação que nunca mais tem conclusão definitiva no blá blá das serviçais da governanta. Já o curso de um dos seus serviçais é um não assunto, apesar do sim que o traz para a ribalta.

 

Isto, porque não foi tirado a um domingo, mas ao longo de todos os domingos de um ano. Que são quarenta e oito domingos, se é que o meu curso de contas não me atraiçoa. A mim, que sou especialista em análises ao sabor do saber, tem muito mais mérito quem consegue tirar um curso num só domingo. E isto não é uma não análise, porque eu valorizo muito quem trabalha bem e depressa.

 

O próprio curso da governanta, também tem que se lhe diga, mas com a particularidade de ser um curso, sim, mas um curso tão lento como o serviçal cursado a sério Gaspar. Pois, pasme-se, o curso da governanta foi conseguido ao longo de todos os dias da semana de muitos anos a fio, num marranço que só pode ter resultado numa preparação excecional, para uma governança sem mácula.

 

Mas o maior não assunto é, sem dúvida, o não gosto de todos os membros da família por uma governanta competente em todas as matérias bem estudadas e bem executadas. Situação que leva a governanta, muito contra a sua vontade, a considerar que isso é uma não situação, provocada por não cidadãos, não amigos da família e não contribuintes para a não segurança da mansão governada.

 

A governanta está mesmo convencida de que há uma onda de burlões especializados em destruir todos aqueles que deviam gostar dela e já não gostam. Ela sabe que até já lhe entram na despensa e limpam todas as prateleiras com uma suavidade impressionante. Assim, ela tende a ser uma não governanta que a breve trecho não terá nada para pôr na mesa na hora da não refeição.

 

A continuar assim, até os não descontentes passarão, mais tarde ou mais cedo, a também não gostarem dela nem deles próprios pois, tal como indicam as sondagens não credíveis, já não se pode dizer que há gostos para tudo. Em boa verdade já ninguém gosta de ninguém. A governanta cada vez vê mais portas que  não controla. Portas que cada vez mais se fecham cá dentro e se abrem lá fora. São modos de não gostar.

 

 

 

Estou certo de que não vou cometer nenhuma brutidade se disser que o país tem quase tudo para ser um dos mais felizes da Europa. E vou apenas falar de pessoas, pois do sol, do tempo e das belezas naturais, já toda a gente falou e ninguém se viu contestado, ou mesmo insultado, por não dizer as verdades que não tenham recebido os consensos que fazem a nossa grandeza.

 

É a falar de pessoas que engrandeceram, engrandecem agora, e vão engrandecer de futuro, este país de ordem e de trabalho, onde ninguém anda por aí a dizer mal de ninguém, nem muito menos a agredir seja quem for, nem fisicamente, nem através de uma linguagem de antigos carroceiros que, todos sabemos, hoje já não existem. Há quem diga que somos um povo bem-educado e eu confirmo.

 

Tem-se falado muito de finanças e de economia. Do estado da nação e dos seus representantes. E é por aqui que começo. Temos um presidente que em tudo, mas mesmo em tudo, tem dado provas evidentes de que sabe o que diz e quando o deve dizer. Que sabe o que faz e quando o deve fazer. Que tem sido decisivo na superior orientação e nos sábios conselhos que regularmente transmite ao país.

 

País que o ouve avidamente, que anseia mesmo por cada uma das palavras, pausadamente, mas sabiamente pronunciadas, especialmente quando fala do que mais sabe, que é a sua formação de base. Economicamente, não falha, financeiramente, um relógio suíço. E o governo, todo o governo, como gente do povo que é, não perde uma palavra de cada conselho, mesmo que venha em forma de recado.

 

Temos um governo coeso, com um primeiro-ministro recheado de ideias modernas, sensatas e claras que não deixa dúvidas a ninguém sobre o que pretende, e sobre o conhecimento que tem das necessidades do seu povo. E, assim, os portugueses estão com ele, porque quem fala claro não mente, e quem não mente sabe que fala sempre claro. E os seus ministros, sem exceção, seguem-lhe o exemplo.

 

O seu adjunto Relvas, é um tratado de bem dizer e de bem-fazer, culto como é, um comunicador excecional, como paradigma de um exemplo para toda a comunicação social, no que à liberdade de expressão diz respeito, mas também à verdade das notícias, ao respeito pelas opiniões que, neste clima de dignidade e de respeito mútuo, nem podiam divergir dos seus pontos de vista.

 

As virtualidades de outros ministros podiam aqui ser realçadas, mas não vale a pena ocupar tempo e espaço a dizer o que toda a gente sabe. Todos eles e elas são, modelos de competência, de seriedade intelectual, irredutíveis defensores da verdade dos seus atos, com um relacionamento perfeito com o povo, nas áreas da sua competência. Povo que lhes retribui esse respeito com o carinho que o caracteriza.

 

Mas o país tem muito mais. Quem precisa de dinheiro não tem problemas. Vai ao banco e traz o que quiser. Só paga quando quiser e se quiser. O país tem um serviço de saúde em que só morre quem é desleixado e fica em casa à espera que lhe mandem um médico ainda mais barato que uma enfermeira. Mas o país também tem um polícia sempre à mão, que basta chamá-lo da janela de casa.

 

Nem seria preciso dizê-lo, mas nada é feito à bruta. Não há cidadão que pense sequer em ser violento. Porque todos os cidadãos gostam de toda a gente. Dizer impropérios para ganhar notoriedade, é coisa impensável. Todos os cidadãos têm nome próprio e apelido. Não são isto nem aquilo, como em tempos que já lá vão. E, quem tem cargos importantes, é sempre tratado por excelência.    

 

É por isso que Portugal é um país que dá exemplos ao mundo, através de uma vivência que rejeita todas as formas de egoísmos e todas as manifestações de inveja. Que aceita com toda a convicção a coexistência da riqueza opulenta com a pobreza miserável que a rodeia. Portugal, feliz na sua diversidade, tem quase tudo. Mas o pouco que lhe falta, tarde ou nunca vai chegar. Porque também não lhe faz falta.  

 

 

02 Jul, 2012

Portugal chinês

 

As viagens entre Portugal e a China estão a incrementar-se a um ritmo alucinante, logo, geradoras de muitas outras viagens entre a China e Portugal. Não só porque quem vai daqui para lá tem de voltar, como os que vem de lá para cá, tem de regressar. Por acaso nunca me tinha lembrado disto, mas a gente está sempre a aprender. E, pelos vistos, os chineses também.

 

Ora isto quer dizer que os meios de transporte tendem a aumentar devido à grande procura, o que significa que nem tudo está parado neste tempo de dificuldades. Há viajantes portugueses que estão a procurar bater o record de viagens no curto espaço de tempo, julgam eles, de que dispõem. Eles até nem sabem se o seu tempo não se esgota enquanto andam por lá.

 

Isto leva-os a ter aquele natural receio de que, a acontecer essa eventualidade, tenham de pagar a viagem de regresso do seu bolso, pois nunca se sabe quando é que acaba o cabimento para essa rubrica do orçamento, à custa do qual se passeiam tão frequente e demoradamente. Fica a sensação de que muitos deles, até ganham nessas viagens aquele bronzeado que podiam ganhar no Algarve.

 

Mas, a verdade é que esses turistas muito especiais, não suportariam ver-se comparados com aquela gente de uma certa idade que vem lá de cima, embora cheia daquilo com que se compram os melões. Porque há a ideia que se vai entranhando no nosso país, de que essa gente lá de cima, que ainda vai frequentando o Algarve, já compra menos melões que aquela gente de cá, que vem acampar nos areais.

 

Os nossos viajantes que vão à China e os chineses que vêm cá, devem ter um intercâmbio que lhes permite frequentar hotéis, cá e lá, um pouco melhores que aqueles que os algarvios proporcionam a preços de saldo. Daí que, nada de misturas. Até porque na China não há crise, logo, quem vai à China, também não tem nada que estar a olhar para o porta-moedas e para o que lá não tem dentro.  

 

Pondo de lado estas minudências, Portugal está voltado para a China, disposto a navegar as vezes que forem necessárias. Por agora, vai navegando pela via aérea, talvez porque ainda não se tenha aventurado nos mares, esses mares que tantas honrarias nos deram. Mas, os navegadores desta geração, ainda estão a estudar as vantagens do transporte marítimo e a maneira de se orientarem através da bússola.

 

Como é sabido, eles já são mestres na sua orientação, que é aquela que já vem dos tempos da descoberta do caminho marítimo para India. Nessa altura todos se orientavam com as especiarias. Agora, as especiarias chamam-se milhões, como se fossem minhocas desenterrados em cada cavadela que dão lá fora e que trazem cá para dentro. São especialistas em cavadelas especiais.

 

Os navegadores da era moderna andam, também agora, entusiasmados com a esperança de que a China venha a construir submarinos. Embora ainda sigilosamente, essa possibilidade contempla um compromisso ainda dependente de mais algumas viagens e de mais alguns viajantes, com o objetivo de se fixar a quantidade de unidades e o preço de aquisição de cada unidade.

 

É evidente que isso é o mais fácil de acertar, pois os preços no mercado alemão são bem conhecidos e, por comparação, a concretização do negócio são favas contadas. Pelo contrário, são bem conhecidas as dificuldades de acordo sobre as chamadas contrapartidas. Como o nome indica, são problemas que se caracterizam exatamente por partidas que têm os seus contras.

 

E ainda mais complicado é o uso de luvas adequadas a qualquer contágio proveniente da ferrugem das partes submersas. Não é qualquer pessoa que pode usar essas luvas especiais e extremamente cáusticas para mãos menos cuidadosas. Mas, uma vez usadas segundo as modernas técnicas de manuseamento do material, são cem por cento eficazes. Venham de lá os submarinos chineses para o Portugal chinês.

 

 

 

Hoje jogam eles, espanhóis e italianos, o que quer dizer que hoje não haverá festa de arromba para os portugueses. Dizer que isso não nos toca minimamente, também não corresponde à verdade, porque sempre haverá as simpatias individuais, mesmo quando os interesses pessoais não signifiquem grande coisa para um lado ou para o outro.

 

Só que os espanhóis estão aqui ao nosso lado, mesmo à mão de semear, quando pretendemos fazer uma incursão de reconhecimento, para medir o clima para lá da fronteira. Até há quem diga que são nossos irmãos mas, até determinada altura, mais parecia que eram nossos patrões, pela quantidade de mão-de-obra que constituíam os muitos dos nossos trabalhadores no desemprego.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

Já os italianos não têm muitas afinidades connosco, nem nós com eles, mas sempre nos fazem lembrar o Papa e as bênçãos que muita gente lá vai receber com toda a devoção. Outros, recebem essas bênçãos com igual fervor e fé nas suas próprias casas, nem que seja através da sua própria imaginação. Depois, também há um papa que está em muitas mentes de portugueses que o adoram.

 

Isso também é lá com eles e não tem nada a ver com o jogo decisivo de hoje. Para nós, portugueses, a questão é muito simples. Um dos contendores de hoje vai receber um troféu que podia e devia ser nosso, não fora aquele azar que nos deram aqueles ferros malditos daquelas balizas azarentas, que estragaram muitas festas nacionais e obrigaram a engolir muitas bebidas de consolação.

 

Daí que espanhóis ou italianos tanto dá, até porque, presentemente, nenhuns deles nos dão nada que nos salve dos males de que também eles padecem. Todos eles vão hoje emborcar muitos goles de vinho ou cerveja, por causa dos golos que as suas equipas vão, ou não vão, marcar. Os que ganham fazem a festa e vai uma de caixão à cova e os que perdem lá terão de apanhá-la para afogar as mágoas.

 

É sempre assim. A moeda tem sempre duas faces e o jogo, mesmo empatado, nunca deixa toda a gente a festejar. Mas, aqui, nem sequer há empate que lhes valha. Uns, levam a taça e os outros, ficam a chuchar no dedo. E nós, que já não temos nada a ver com isso, ficamos a vê-la por um canudo. Alguns ainda verterão uma ou outra lágrima de ver nas mãos de outros, uma tacinha que dava um jeitão cá dentro.   

 

No entanto, temos de pensar em alguma coisa que nos console. E há sempre um motivo de consolação, desde que não sejamos obsessivos sobre o que não ganhámos. Vamos ser otimistas, vamos pensar que temos lá um homem português que está acima de espanhóis e italianos. Um português que pode, se quiser, fazer um milagre para uma das equipas contendoras.

 

Um daqueles milagres a que assistimos por cá, domingo a domingo, hoje até já pode ser em outro dia qualquer, em que este e outros portugueses, que têm uma fé incomensurável nas orações do papa, ou em bispos quase tão venerados como ele, apitam em certas jogadas, como se o apito fosse telecomandado, como se o sopro no dito viesse do além e, milagre, o jogo fica decidido.

 

Hoje, nós, os que estamos cá fora, e que aparentemente nem têm nada a ver com aquilo, vamos sofrer para que aquele português não faça nenhum milagre que dê muito nas vistas. Ele sabe como deve fazer isso. Mas é sempre bom recordar-lho. Ele também sabe que, lá tão longe, está protegido dos maus-olhados que sente cá dentro.        

 

Pode parecer que hoje aquilo é lá com os espanhóis e italianos. E eu acredito que seja mesmo. Porque também acredito que os portugueses, em dias de grande responsabilidade, são capazes de mostrar que estão mesmo imunes às pressões que sentem no dia-a-dia. Ainda que elas sejam quase insuportáveis. Mas, dos fracos não reza a história. O país precisa dos fortes. Hoje e sempre.

 

 

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