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afonsonunes

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21 Dez, 2012

Está aí alguém?

 

Por favor, digam-me que sim, que há gente aí, para eu me convencer que também estou aqui. Com esta coisa de que o mundo acaba hoje, ainda não percebi a que hora é que ele acaba. Ou se já acabou mesmo. 

Se eu não estou a ver? Claro que estou a ver, mas ninguém me pode garantir que a gente nota alguma coisa de especial. Pode acabar o mundo e nós continuarmos aqui, sem saber para onde foi o mundo.

Além disso, anda tanta gente a fazer de nós totós, que é caso para se desconfiar de tudo e de todos. Olho pela janela e vejo a rua. E pergunto a mim próprio se tem alguma lógica haver pessoas a assistir dali ao fim do mundo.

No meu entender essas pessoas deviam estar em casa a telefonar para o fim do mundo. Faz todo o sentido haver alguma preocupação com o que vai acontecer àquelas pessoas que têm obrigação de nos proteger desses incidentes.

Sabendo o que vai acontecer hoje a esses protetores, ficamos a saber as linhas com que eles nos vão coser. No que resta do dia de hoje, ou nos imprevisíveis tempos que se seguem, caso alguém nos tenha andado a enganar.

Quanto ao fim do mundo, obviamente pois, quanto ao resto, só se deixou enganar quem quis. Conhecemos bem quem diz: não estamos aqui para enganar ninguém. Mas, convém não esquecer que a vida é feita de enganos.

Estou em pulgas para saber se realmente o mundo vai acabar. Há quem diga que vai mesmo, mas não no dia de hoje. Está mal. Aposto que estão a fazer o mesmo que nos fazem com as empresas do estado. Que vão, mas ficam.  

E o pior é que não nos dizem quando é que vão. É como fazem connosco. Andamos para aqui à espera de ir hoje, sem saber para onde, e como vamos. Se calhar só podemos ir a pé, nem que seja para o fim do mundo.

 

 

 

20 Dez, 2012

Coragem, doutor PPC

 

A coragem não tem sido o seu melhor atributo ao contrário do que dizem alguns dos seus mais doentios seguidores. Seguidismo, sim, esse tem sido o rumo do seu caminho determinado pelos ventos que sopram de leste.

Sim, porque a leste de Portugal fica toda uma Europa doente, senão com pacientes moribundos, que parecem felizes por estar a embarcar na marcha fúnebre que os vai levar ao céu dos inocentes cumpridores.

A coragem não é isto. A coragem é saber dizer não ao que não interessa à generalidade do povo e que é repudiado pela grande maioria da sua opinião, pese embora a teimosia de quem representa o poder de momento.

O poder de representação não é o poder da imposição. E o que mais temos tido nestes últimos tempos é, precisamente, uma imposição cega de vontades que nada se assemelham ao mandato conquistado no escrutínio do povo.

A doentia visão de que quem ganha eleições tem de governar até ao fim do mandato, está totalmente desacreditada por quem chegou ao poder contrariando essa mesma prática. Tem de ser-se coerente com o que se diz.

Hoje, porém, o senhor doutor PPC teve talvez o seu primeiro ato de coragem, pelo menos que eu conheça. A TAP continua a ter nos seus aviões uma bandeira que é tudo para nós portugueses. Parece que Relvas perdeu.

Agora, ficamos à espera que a RTP tenha o seu momento de libertação, através do segundo ato de coragem de PPC, obviamente, no meu entender, constituindo a segunda derrota de Relvas, o mau vendedor do estado.

Está pois na hora de se meter o estado, pela mão do senhor doutor PPC, no caminho árduo e difícil da austeridade necessária, mas possível, abandonando de vez as negociatas, que nunca se tinha visto, atingirem a vergonha de agora.

 

 

 

19 Dez, 2012

E porque não?

 

Numa altura em que quase toda a gente sabe que o país está à rasca, todas as sugestões para que não sejam os que já não conseguem desenrascar-se, a pagar as favas são, ou podem vir a ser, decisivos contributos para a paz social.

Se não se inventam formas decentes de sair deste conflito, a sua generalização vai, com certeza, fazer muitos estragos na sociedade portuguesa, muito maiores do que aqueles que já fez. Os otimistas que se cuidem.

Não quero ser daqueles que estão sentados à sombra fresca, ignorando o calor que anda nas ruas batidas pelo sol escaldante. Daí que me apresse a dar mais uma brilhante ideia, como outras que já dei, para por termo a isto.

Julgo que toda a gente sabe o que é isto. Portanto, nada de más interpretações, pois os tempos não estão para palavreados tergiversados, que são aquilo que mais ouvimos aos defensores de que isto deve continuar assim.

Os responsáveis andam numa lufa-lufa a vender ao desbarato os bens que todos sabemos que não valem nada. Daí que também não adiantem nem atrasem, no pagamento dos enormes calotes que nos sufocam.

Grandes calotes só se pagam com grandes e valiosas vendas. Somos um país cheio de palácios, mosteiros e outros grandes monumentos, jardins encantadores, castelos históricos memoráveis, etc. e tal.

Claro e evidente que nem tudo isto está devidamente ocupado, sobretudo, bem ocupado. Então, sugiro um estudo, por exemplo, sobre o aproveitamento para venda, dos palácios suficientes para encher o buraco com massa fresca.

Pois, eu sei que as joias da coroa não se deviam vender, mas a verdade é que não se pode correr com os portugueses daqui para fora, para ficarem cá os palácios com as moscas como inquilinas. Porque elas nem sequer pagam renda.

Portanto, que se vão os palácios mal ocupados, mas que fiquem os portugueses, mesmo os que viviam em casas que os impediram de pagar. Mas que já foram postos na rua. Ninguém viu os palácios que podiam ser vendidos.

Mas, muita atenção. Desnecessário será dizer que a escolha dos palácios a vender e a sua avaliação, não podia ser decidida pelos mesmos leiloeiros que estão a tratar da venda destes bens, quase sem valor, que está em curso.  

Aposto que compradores não faltavam. E nem era preciso gastar um dinheirão com promoções no estrangeiro. Há por aí portugueses que tudo fariam para salvaguardar o orgulho nacional. E o meu orgulho nesta ideia está cumprido.

 

 

 

18 Dez, 2012

Mas que desaforo!

 

Vai por aí um tal desaforo que até parece que o mundo todo se voltou contra o homem. Coisa sem pés nem cabeça, pois toda a gente sabe que ele é um homem sério, íntegro e socialmente impecável.

Além disso é, reconhecidamente, insubstituível no alto cargo que ocupa sobretudo, porque serve de exemplo e de estímulo a quem está abaixo dele e, mais ainda, a quem está acima dele. Que, por sinal, já esteve abaixo.

Pode parecer um exagero da minha parte mas, sinceramente, estou convencido que é a pura realidade: o país sem ele, perderia todo o prestígio que tem lá fora, sobretudo no Brasil, onde é um grande ‘sinhô’.

Não, não é da canarinho e, se dá pontapés em alguma coisa, não é na bola, não. No entanto, tem cá, em Portugal, um naipe de fãs que é de se lhe tirar o chapéu. Desconfia-se que há, entre eles, uma fortíssima amizade.

Depois, esses fãs têm medo de o perder. Se ele tivesse mesmo que se ir embora, como querem alguns, poucos e maus, o país perderia um dos seus melhores. Aliás, ele também pensa que só os pobrezinhos podem emigrar.

A propósito de pobrezinhos, lembra-se a alguém que anda por aí, que não fale de pobres. É indigno. Pobres, é coisa que não há cá. Há, sim, pobrezinhos, coitadinhos, que precisam do amoroso apoio dos fãs do homem. E têm-no.

O país não pode dar-se ao luxo de deixar sair gente como o homem, com o seu gabarito e a sua estaleca. Este, não iria para Paris porque não sabe falar francês. Mas não havia problema, porque ele gosta mesmo muito é do Brasil.

É evidente que aí, não teria problemas com a língua, nem com o nome. Já está formado em português do Brasil e toda a gente o conhece por ‘doutô’. Mas, por ‘favô’, não pressionem o homem a tomar uma decisão absurda.

Até porque a gente abre um jornal qualquer, abre os olhos e os ouvidos na rua ou em casa, e só vê e ouve os mais rasgados elogios ao seu trabalho. Do Brasil, como se compreende, só vêm confirmações do que de bom se pensa por cá.

Mais uma vez apelo aos seus fãs que não se calem na sua defesa. Ele e ‘sus muchachos’ merecem toda a vossa confiança e elogios, ainda que através de todos aqueles que ele mantem no topo da simpatia nacional. Inegável.

Àqueles que nos serrazinam os ouvidos com as suas exigências de o ver pelas costas, lembro que estão redondamente enganados. Pensem no vosso futuro, o qual ficaria em eminente risco de vos levar para onde o quereis mandar. 

Valha-nos que o homem não fala nessa mediocridade das caneladas. De quem as dá e de quem as leva. E de quem gostava que dessem mais, a quem querem menos. Por ‘favô’, deixem lá essa linguagem para a bola e para o ‘coicebol’. 

 

 

 

 

 

O professor Marcelo tem coisas muito engraçadas. Temos de lhe reconhecer essa virtude, entre muitas outras que enchem as medidas a muita gente. Se assim não fosse, como é que a estrela noticiosa da TVI, a grande Judite, era capaz de estar tanto tempo com ele num domingo à noite. Sim, porque um domingo é um domingo e à noite, não é uma hora qualquer.

Num desses espaços de humor de primeira qualidade, ambos se deliciaram com a abordagem da possibilidade, ou não, de um herbívoro se transformar em carnívoro. Espero que eles não me levem a mal as incorreções de interpretação das palavras e do sentido que eles quiseram dar às criaturas que se alimentam de ervinhas e àquelas que preferem as grandes bifalhadas.

Por vezes sou um pouco surdo e não ouço as coisas como devia de ser. Outras vezes estou a pensar na morte da bezerra e lá se vai o meu sentido de destrinça entre um herbívoro e um carnívoro. Portanto, com isto quero dizer que nem sou melhor nem pior do que os muitos que se encontram por aí a falar de coisas que nunca aconteceram ou que foram vistas de pernas para o ar.

A verdade é que não cheguei a perceber se ele era, ou estava a fazer o papel, de herbívoro ou de carnívoro. Mas tenho a certeza de que o seu grau de conhecimentos, muito acima da média, lhe dá uma autoridade plena para falar de ambas as espécies do mundo animal, que é muito mais complicado do que muitos pensam. Basta pensar que há bom e mau nas ervas como nas carnes.

Muito claramente, pareceu-me entender que não se pode pedir a um ruminante que experimente atacar uma entremeada de porco, por mais apetitosa que ela esteja. Assim como não se pode exigir a um tigre que meta o dente numas boas favas, ainda que com muito chouriço. Isto foi, assim por alto, o que eu deduzi da agradável, como sempre, conversa entre os dois astros.

Não cheguei a perceber, porque sou demasiado lento de raciocínio, se eles estavam a associar o mundo animal a algum ser racional que é, ou se pensa que possa ser, vegetariano. Se assim foi, confesso que não cheguei lá. Porém, admito que se trate de algum vegetariano que vai ao talho. Agora, não penso sequer, que o professor e a Judite falassem mesmo de um herbívoro qualquer.

 

 

 

16 Dez, 2012

Já cheira a Natal

 

Quando se aproxima esta época do ano ouve-se falar muito de solidariedade e de amor pelo próximo. Há campanhas de todo o género para ajudar os mais necessitados e as televisões enchem as suas programações de festas em que reúnem a nata dos artistas nacionais, para levar algum alento aos que se encontram em situações mais complicadas e que ainda veem televisão.

Este ano as atenções têm-se concentrado muito em torno das diferenças entre solidariedade e caridade com as habituais divergências atribuídas aos pontos de vista políticos dos intervenientes nas conversas. O tema tem muito que se lhe diga, tanto mais que o país parece ter optado pelo rumo de entregar a quem faz caridade, uma boa parte do muito que retira da solidariedade.

Mesmo assim, continuamos a ver cada vez mais pessoas na rua, sentadas no chão, com este frio, sem agasalhos, de rosto meio tapado, implorando uma esmola, com vozes por vezes lancinantes, refletindo a dor que mostra bem o desespero de quem nada tem na vida. Sem solidariedade social, também não se vê que a caridade cumpra mais que os seus serviços mínimos.    

Custa muito ver gente assim, pessoas que já perderam toda a dignidade, sujeitas à dependência de uns escassos e míseros cêntimos que, perante a indiferença de muitos, caem de mãos anónimas, para manter vidas no limite do sustentável. Quantas vezes, esses cêntimos vêm de gente que tem grande dificuldade, ela própria, em manter a sua vida normal.

Porque no Natal vemos luzes de todas as cores profusamente espalhadas pelas principais ruas, avenidas e praças de tantas vilas e cidades, seria bom que não houvesse escuridão total em tantas casas e barracas nos subúrbios dessas mesmas localidades. Haveria sempre maneira de minorar essas situações, assim houvesse vontade de quem tem condições e a obrigação de o fazer.

A situação de muitos dos lares nessa escuridão, resultou dos milhões subtraídos à solidariedade para transferir alguns para a caridade. E a caridade, como facilmente se constata na rua, deixa de fora, não se sabe por que motivos, os casos mais gritantes de miséria. Casos que ninguém quer ver. Talvez porque se vai perdendo a olhos vistos a noção do que é a dignidade.

Por uma questão que pode parecer de sanidade mental, não se deve cometer o abominável erro da mais pura hipocrisia, que é pretender que estas pessoas humilhadas, à beira do desespero, tenham esperança no futuro. Imagino o que elas sentirão quando alguém lhes desejar boas festas. O Natal é a festa da família, mas as famílias destroçadas não podem ter festas de Natal.

 

 

 

15 Dez, 2012

Aí está ela

 

Antes do assalto, muito se falou em claustrofobia democrática, esse terrível fantasma que amedrontou o país e o levou a calar as boquinhas senão lá ia tudo para o chilindró. Felizmente, que o assalto foi concretizado com êxito e o fantasma desapareceu misteriosamente, tal como tinha aparecido.  

Surpreendentemente, nos dias de hoje o fantasma da claustrofobia democrática já deu sinais de ter adquirido a vida que antes não chegara a ganhar. Assim, essa coisa esquisita sente-se nos corredores do poder com a sensação de que foi ressuscitada pelos seus criadores, agora com vida e muito utilizada.

Talvez porque o poder tenha hoje os seus claustros onde não abunda a luz nem o calor humano. Cá fora, há quem sinta um certo frio na espinha dorsal, sempre que mete o pensamento por esses corredores húmidos e os relaciona com os calafrios que lhe causam certas decisões que infernizam a vida de tanta gente ao mesmo tempo.

Os grandes criadores desse fantasma que passou agora a ser coisa real em desenvolvimento, sentem-se hoje completamente seguros nos seus claustros, para eles agora bem arejados, espaçosos e bem frequentados. Fobias, todas as fobias, são coisas do passado. Há mesmo quem pense que o Portugal democrático está a ressuscitar.

No entanto, nem toda a gente pensa da mesma maneira. Enquanto uns pensam que é preciso não perder a esperança, outros dizem que o pior está para vir. Não consigo conciliar estas duas ideias contraditórias. Até porque, é difícil colocar esperança sobre a fome, aceitando que aquela torne a fome mais suportável.

Há quem pense que vivemos um evidente e preocupante retrocesso democrático. É evidente que temos obrigação de ter esperança que este perigoso processo à vista, tenha um rápido recuo por obra e graça de quem nos pode encher de esperança, através, não apenas de boas palavras, mas de boas obras que afastem os fantasmas.

Esperemos mesmo que o pior não esteja para vir. Que as condições básicas de vida estão a afetar muita gente, e continuarão a afetar, já poucos terão dúvidas. Para que a esperança não morra de vez, não ressuscitem e nos brindem agora com a maldita claustrofobia. Falem-nos de democracia que, essa sim, pode trazer alguma esperança.

 

 

 

14 Dez, 2012

Será verdade?

 

 

Bem podia começar por perguntar se ainda há mentirosos. Cheguei a convencer-me que já tínhamos ultrapassado essa fase da vida nacional em que os mentirosos eram muito poucos e estavam bem identificados e localizados. Até porque não faltaram zelosos e atentos defensores da verdade nacional que tudo fizeram para os denunciar.

Muitos fizeram-no pelo método tradicional da coscuvilhice que ainda é, segundo eles, a melhor maneira de espalhar a sua informação segura. Como se sabe, não faltam meios nem oportunidades para o fazer. Nas conversas de rua, de café ou de clube, ou ainda de caneta, esferográfica ou teclado, sempre com mão firme e ideias claras.

Admiro a coragem e a lucidez de quem escolhe a velha carta para fazer essas tão úteis e esclarecedoras missivas para denunciar o que não sabe mas, lá na sua, a coisa não tem outra explicação. Portanto, antes que a coisa fique nos segredos dos deuses, toca a desabafar de esferográfica em punho e depois meter dentro do sobrescrito.

Normalmente, cometem um pequeno erro antes de fechar e endereçar essa preciosa mensagem. Esquecem-se de a assinar. Mas, isso também não é óbice, pois as autoridades investigam na mesma. Estranhamente, por vezes, só conseguem descobrir os anónimos delatores. Do denunciado, nem rasto. Mas foi bom. Houve festa da rija.

Mas, será verdade que ainda há mentirosos? Temos sido confrontados com ditos e desmentidos que envolvem gente e entidades muito respeitáveis. Tudo gente que não pode mentir. Mas, alguém mente. Isso é inacreditável quando mexe com a dignidade de quem, dos dois lados, é vista como não podendo mentir sobre crianças.

Componentes da instituição religiosa, porque não podem cometer pecados de espécie alguma. Exceto aqueles que perdoam uns aos outros. Mas, no que toca a pecados com crianças, nem pensar. Tal como uma senhora que tem passado a vida preocupada com a defesa de crianças abusadas, também não pode pecar. Mas alguém pecou.

Será verdade que uma ministra e um ministro deste governo falam do mesmo ambiente? O ambiente que ela defende com ardor e ele ataca com toda a sua habitual sede de destruição, para criar o mundo que o vai destruir? Se a política do ambiente, como outra qualquer, de qualquer governo, só pode ser uma, um deles está a mentir.  

Através de uma notícia de um jornal, garante-se que o presidente vai promulgar a lei do orçamento, embora tenha dúvidas sobre algumas matérias ali contidas. De imediato, pensei, e bem, que isso não tem qualquer sentido. É sabido que o presidente nunca se engana e raramente tem dúvidas. Ora, aprendi eu, que a ordem dos fatores é arbitrária.

Não é verdade, com certeza, que ali se gastem cinquenta mil euros por dia. Sei que há lá muita gente. Nisso não há dúvidas. Mas alguém se deve ter enganado nos números. E isso fica mal, vindo dali. São mais de dois mil por hora. Se assim fosse, ninguém podia fazer mais nada, que não fosse gastar dinheiro. Não pode ser. Há muito mais que fazer.

Também ouvi dizer que o mais feliz dos banqueiros portugueses e angolanos, vaticinou que a queda deste governo era um disparate. Já não me lembro se disse grande ou não. Talvez isso queira dizer que havia o risco de alguém lhe perguntar depois, como conseguiu ele um negócio daqueles, com um banco que foi um turbilhão de negócios.

Apesar de tudo isto, ainda acredito que Portugal não seja um país de mentirosos. Especialmente agora. Talvez se trate de um pequeno descuido de alguns grandes faladores que, quando abrem a boca, estarão a pensar em coisas mais importantes. Depois, em lugar de entrar mosca, sai o que diz o velho ditado.

 

 

 

13 Dez, 2012

O etíope

 

Para secundar as ordens de uma poderosa mulher alemã, nada melhor que um fundista etíope que nos vem ensinar a correr atrás do prejuízo. Nestas corridas de desgaste rápido, mas de recuperação extremamente lenta, se não mesmo muito duvidosa, em lugar de uma lebre a marcar o ritmo, temos um coelho mais lento que o seu cágado.

O etíope começa a maratona marcando uma diferença abismal entre o seu diagnóstico sobre o percurso, e o diagnóstico repetido até à exaustão pelo coelho e a equipa técnica que o orienta. Porque o coelho não é o orientador da sua equipa, mas uma desorientada lebre à frente de vários atletas que não aguentam mais que uns metros.  

Depois do diagnóstico vem a receita. Mais uma vez, o etíope e o coelho estão em completo desacordo quanto à receita. O que até se compreende. Quando há diagnósticos diferentes, não admira que haja receitas diferentes. O etíope, que é muito rápido, receita medicamentos lentos. O coelho que é lento, quer dose de cavalo.

Durante a corrida, os concorrentes discutem constantemente, pois sabem que lá na frente, o coelho que faz de lebre não olha para trás, sabendo que ninguém ousará ultrapassá-lo. Porque as regras da corrida são assim. E também tem como certo que, sendo coelho ou lebre, não haverá por ali caçador que se atreva a disparar sobre ele.  

No meio destas incongruências, numa corrida que se afigura de vida ou de morte para muitos espetadores ansiosos, certamente com as corridas da Etiópia no pensamento, há quem deite foguetes antecipados, festejando o final da nossa corrida, da corrida à portuguesa, onde só há uma certeza: o coelho que faz de lebre sobreviverá.

 

 

 

12 Dez, 2012

Luz laranja

 

Há uns tempos atrás, a luz verde era o sinal convencional para que se pudesse avançar em segurança. Os tempos desta nova ordem democrática estão a transformar o verde numa cor ultrapassada e ao mesmo tempo perigosa pois, se olhamos para ela com excesso de confiança, corremos o risco de ser violentamente atropelados.

Agora, o vermelho está cada vez mais um sinal de proibição absoluta e inultrapassável em tudo o que mexa com a vida dos cidadãos. Pior ainda se o vermelho tiver uma coloração mais suave, pois embora fira menos a vista de certas pessoas, traz à memória aquela intolerável coisa que dá pelo nome de cor-de-rosa.

Já ninguém ignora que a cor laranja, que até já substituiu o amarelo dos semáforos, é o sinal mais seguro para que se evitem percalços de toda a ordem. Mesmo o laranja intermitente dá garantia máxima, pois ninguém se atreve a desrespeitá-lo. Mais, até fora da rua, com o sinal laranja aberto, todas as portas se abrem de par em par.

A gente percorre o país de lés-a-lés e encontra à porta de tudo o que ainda é público, uma espécie de raminho imaginário de flor de laranjeira que denuncia a existência do exército laranja que já ocupou tudo o que manda vir com o tal pagode de que um deles falou há dias. Manda vir e também manda ir muita gente a um lado que eu cá sei.    

Esse exército parece uma extensa linha de montagem onde cada um deles monta uma peça, ou um conjunto de peças, até chegar ao fim da linha, onde o montador mor só tem que dar o seu ok ao produto final. Daí que, se o produto final é um fiasco, ninguém tem culpa, ninguém é responsabilizado, porque o problema está na insubstituível linha.

Obviamente que ao longo de toda a linha há muitos controladores que vigiam tudo e todos os que querem intrometer o seu olhar crítico, pois isso pode significar que acabe por se tornar perigosamente inquisitório. Acima desses controladores, sente-se a mão e o poder de forças invisíveis que substituem todos os elos que desafinam na linha.

A luz laranja está permanentemente acesa, não sendo permitida outra fonte de luz nesta linha de montagem que se estende pelo país inteiro. Podia parecer que ia demorar muito tempo a instalar, devido à sua complexidade. Afinal, demorou muito menos tempo que a implantação das tão propaladas medidas estruturais.

Ou talvez tenha a sua lógica. As medidas estruturais não podiam ser implementadas sem que a linha de montagem estivesse a funcionar em pleno. Daí que a prioridade fosse inteiramente para a estratégia seguida. Primeiro, montou-se o circo e colocaram-se os artistas. Só depois começou a pensar-se no espetáculo. Só com luzes laranja.