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afonsonunes

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10 Abr, 2013

Coelho descongelado

 

A arca congeladora de Gaspar está agora mais aliviada depois de ter descongelado Relvas há uns dias atrás, e um Coelho no dia de ontem, precisamente, no dia em que resolveu congelar o país inteiro.

Obviamente que não o meteu na sua arca, mas confiscou todos os meios nacionais de congelação. Dizem que Gaspar é um tratado de contradições. Congela o país e descongela Relvas e Coelho. Mas que coisa.

Então não se está mesmo a ver que tudo o que se descongela tem de ser imediatamente consumido? Ora se o país está congelado não pode consumir absolutamente nada. Será que Gaspar é capaz de consumir Relvas e o Coelho?

Tudo indica que é capaz de tudo. Mas também tudo indica que, se os consumir, então também se estará a consumir a si próprio, pois é das regras da congelação, que se corre o risco de se consumir o que já está estragado.  

Esperemos que Gaspar não se congele a si próprio, pois isso seria uma tragédia para um país congelado. Sim, porque só Gaspar nos pode descongelar no futuro. Obviamente, se ele próprio não estiver congelado.

Além disso, Gaspar está a tentar tudo para obter lá fora, o apoio necessário à nossa descongelação. É, sem dúvida, uma política de mestre. Como não pode ter o apoio de gente congelada, vai pedi-lo aos que, como ele, ainda mexem.

O grande perigo desta deriva estrangeira é acabar a pedir ajuda a quem possa interpretar mal o seu pensamento expresso com muita clareza, mas também com um timbre de voz muito sumido, talvez em vias de congelação.

Aliás, se falharem as negociações que tem na mente, ninguém nos garante que não se vira, por exemplo, para a Coreia do Norte, atraído pelo calor dos mísseis que descongelariam tudo e todos num abrir e fechar de olhos.

Mas é que nem os palácios de Lisboa escapariam. Gaspar, sem o Palácio Raton, ficaria radiante, mas sem o de Belém e de S. Bento ficaria muito deprimido. E teria de pedir refúgio na embaixada destruidora. Ora, parvoíces minhas.

Nada de especulações de gente congelada. Há sempre maneira de resolver problemas, ainda que de um técnico de frio como Gaspar. O país encontrará no frio uma solução. Pode ser que haja um descongelado que congele Gaspar.

 

 

 

09 Abr, 2013

PROIBIDO

 

No meio desta bagunça nacional havia que pôr ordem nisto, por muito que isso custasse a muita gente. No entanto, houve a louvável preocupação de abranger, simplesmente, aquela quantidade de gente que valesse a pena.

Evidentemente que não era a mesma coisa, proibir os fumadores de havanos puros, ou proibir os fumadores de cigarros normais. Portanto, quem quiser manter o vício que se converta ao charuto. É apenas um exemplo.

Um exemplo para definir políticas de proibições. Quem tiver muitos milhões, não está proibido de fugir ao fisco. São poucos, dizem, coitados, nem resolveriam os problemas do país. Proibido fugir do fisco é para os outros.

Vai daí, o homem das permissões e das proibições, entendeu que estava cansado de ser enganado pelos pobres contribuintes que, normalmente, também são os contribuintes pobres. E como são muitos, toca a caçá-los. 

Era preciso proibir a sério, pois o país não aguentava tanta permissão. Como facilmente se constatava, cada um fazia o que queria, desde comprar e vender tudo, até consumir o que não havia. O difícil era disciplinar as proibições.

E é assim que a partir de hoje, e por ordem superior, em todas as instalações sanitárias, públicas ou privadas, fica proibido o uso de papel higiénico, bem como a abertura de torneiras de águas, ou descarga de autoclismos. 

O responsável por esta proibição garante que esta medida visa colmatar o atual excesso de limpeza que custa ao país o equivalente ao défice de sujidade que os seus causadores obrigam a que se ponha termo imediatamente.

Dizem que o país necessita desta medida radical, a qual tem de ser acompanhada da proibição de comer fora, durante todo o dia. Que é como quem diz, comer e ir à casa de banho, só e apenas durante a noite e em casa.

O responsável por esta medida que vai salvar o país do excesso de perfumes caros e comidas sem fatura, garante que ela é constitucional. Escusam pois os habituais recalcitrantes de pedir a sua fiscalização preventiva.

A única permissão atribuída aos mais sensíveis e sujeitos a contra indicações, será o uso de máscaras anti gases, depois de obtida licença do governo e da troika, permissão que também lhes está atribuída por lei, a título de exceção.

Escusado será dizer que ninguém fica de fora desta mobilização geral, por se tratar da salvação do país e de uma ordem irrecusável de quem tem mandato indiscutível para a dar. Portanto, fica o aviso aos irresponsáveis do costume.

 

 

   

 

O Constitucional acaba de prestar um grande favor ao governo da república mostrando-lhe o caminho que de há muito lhe fora indicado pelos seus temidos e ao mesmo tempo adorados credores.

Dadas as hesitações das duas partes no avanço da decisão em implementar as medidas agora tão malevolamente chumbadas, no dizer do primeiro-ministro, o Constitucional tomou a iniciativa de tranquilizar os hesitantes.

Assim, os credores viram concretizados os seus desejos, sem terem de se chatear com mais insistências, sem resultado, para que fossem feitos os cortes que já estavam em atraso. O governo arranjou um alibi para cortar mais fundo.

O que o governo não previu foi a argolada que meteu ao demonstrar que de Constituição não percebe nada. E ao demonstrar que, de Constitucional, ainda percebe menos, tal como já tinha demonstrado o mesmo quanto a governar.

No entanto, e para compensar essas falhas, percebe imenso de cortes, mas sempre nos mesmos, defendendo assim, que o seu princípio de igualdade, assenta na simplicidade do corte, não se metendo em cortes mais elaborados.

Tal como ontem, vamos ter hoje uma matiné às seis e meia da tarde. Até parece que pretende ser uma réplica ao filme de terror que o primeiro-ministro teve a gentileza de nos oferecer ontem e do qual ainda não nos refizemos.

Daí que se aconselhe vivamente a que ninguém falte à réplica de hoje, pois até pode acontecer que seja exibido um filme cómico para nos desanuviar a cabeça dos horrores de ontem. De qualquer modo, vale muito mais rir que chorar.

Embora, estranhamente, também tivesse encontrado por aí quem risse muito no domingo, quando devia limpar as lágrimas. Mas hoje, segunda-feira, ainda antes da matiné, já vejo foguetes de lágrimas que podem rebentar nas mãos.   

Bem me parece que os humores de muitos portugueses andam ao contrário. Mas também há aqueles que ainda não decidiram se devem rir ou chorar. Realmente, o que nos chega de todos os lados só dá para fechar os olhos.

 

 

 

07 Abr, 2013

O TRIO

 

Há uma coisa de somenos importância de que muita gente se está a esquecer, mas que convém lembrar para que se compreenda a grande importância da incoerência de altos responsáveis do país e seus fidelíssimos seguidores.

Essa coisa tem a ver com o compromisso e a responsabilidade que todos eles assumiram de tirar o país da má situação em que se encontrava quando pensaram no poder. E isso passava por eleições antecipadas. Ponto final.

Mas quais consensos, quais interesses do país, quais competências, quais preparações para governar. Substituir a meio do mandato o governo eleito e nada mais, ponto final, parágrafo, porque os ‘sabões’ sabiam tudo, de tudo.

Não quero fazer juízos valorizando ou desvalorizando o passado. Mas convém fazer comparações, porque já chega de se fazer crer que a minha bancarrota é muito melhor que a tua, sabendo que a situação do país está muito pior agora.

É preciso comparar as disponibilidades de colaboração de antes e depois, para se poder condenar agora, aquilo que se aplaudiu há dois anos. É preciso condenar agora o culto da miséria, tão condenada antes de existir como agora.

É fácil pensar que o superior interesse nacional de agora, é diferente e melhor, que o inferior interesse nacional de há dois anos, tendo em conta que os resultados nos convencem que os superiores são melhores que os inferiores.

Melhores são também as leituras que este governo faz da sua atuação e da atuação de todos os outros polos da política nacional, porque sabe ler melhor as suas letras miudinhas que as letras garrafais de todos os outros.  

Além disso, tem o privilégio de saber distinguir e valorizar sempre os efeitos positivos de tudo o que diz e faz e os efeitos negativos de tudo o que os outros dizem e fazem. Daí que não queira, nem precise, da colaboração de ninguém.

Contudo, na hora da aflição, eis que aí vai ele a caminho do pedido de ajuda e, sobretudo, proteção, ao ‘papá’ salvador que, na iminência de ter de usar a cabeça e pensar, lhe diz simplesmente que se desenrasque. Ou que se aguente.

E assim, depois do lanche que, tal como o do seu patrono, deve constar de torradas e chá, este, sobrou de ontem, mais logo dirá ao país que vai mesmo aguentar forte e feio, como convém a quem já deu o que tinha a dar.  

Todas estas danças e contra danças se desenrolam com a participação ativa de um trio. Trio que já foi mais que isso. Há dias o quarto elemento deu o fora. O quinto, que entretanto não foi para Marrocos, também não foi a Belém.

É neste contexto que o maestro sem braço direito vai fazer, mais logo, uma declaração afirmativa da sua força e do seu poder sobre todas as forças do mal que a sua nação ainda alimenta. Mas isso vai acabar, dirá. O trio vencerá.

 

 

 

 

Esperava-se a ocorrência de uma trovoada para o dia de ontem mas, à medida que o sol se ia escondendo, as esperanças iam-se diluindo. Esperanças num raio que partisse estes receios crescentes de que ninguém tinha mãos neles.

Afinal, o raio caiu mesmo e com força maior do que aquela que muita gente esperava. Afinal ainda há, ou pelo menos ainda houve, um clarão que ofuscou arrogâncias e complexos de vitória sobre tudo e sobre todos.

Nada indica que isto não venha a ser o raio que nos parta, a nós, cidadãos contribuintes, mas já é um consolo verificar que também foi um raio que os parta a eles, inconsoláveis derrotados, já a pensar numa desforra vingativa.

Porque aquela ideia de que outros tinham baixado de divisão, como acontece aos clubes incompetentes, afinal, este raio que não esperavam, atirou-os, a eles, para o último dos escalões, não do futebol, mas da sociedade em geral.    

Desta vez saiu-lhes a dura fava do bolo, quando já estavam com a língua de fora para lamber o tenro grelo do nabo. Agora, a mastigação da fava seca, vai ser difícil e demorada, enquanto os nabos podem folgar um pouco.

No entanto, a trovoada continua por aí, os raios e os trovões vão continuar a cortar os céus. Cortes que vão continuar a não atingir as grandes insanidades, quer as absolutas, quer as relativas. A estas, não há raio que as parta.

Afinal, o raio que partiu os descontentes, que é, dizem, de mil e tal milhões, não chega para fazer tremer todos aqueles que roubaram ou beneficiaram das fraudes de grandes dimensões que continuam intocáveis.

Já há quem, há algum tempo, reclame que se vão cobrar esses muitos milhares de milhões, para que o raio que os parta a eles, não nos parta a nós, a quem já partiram tudo e mais alguma coisa. Basta que lhes cortem o que não é deles.

 

 

 

 

Para mim é uma interrogação, mas para alguém, o destino daquele que se foi, já deve estar bem combinado, negociado, ou imposto, como troca pelo favor de deixar vago o lugar que, estando ocupado, há muito que estava vazio.     

Eu, que apenas tenho um dedo mindinho que me ajuda a adivinhar coisas simples, quase não tenho dúvidas de que irá parar a um alto cargo, pois é prova disso, o facto de já, à cautela, ter um curso de língua chinesa por equivalência.

Aliás, a língua chinesa e as chinesices são já o modo de vida da nossa classe política, especialmente, aquela que detém o poder neste momento. Os portugueses que ainda falam português, cada vez os entendem menos.

Aquele que se foi sozinho, não merecia tanta solidão, mas também não merecia tantos elogios, se atendermos a que eles foram feitos em português, precisamente, para que ninguém entendesse. Para eles, é a língua da mentira.

Quando querem dizer alguma coisa aos portugueses, usam a linguagem da mentira. Quando querem dizer alguma coisa aos estrangeiros, falam em chinês. Isso quer dizer, que sabem que é a única maneira de ainda acreditarem neles.

O povo português está cercado de falsidades por todos os lados. Mesmo fazendo de conta que não se pode falar de fraudes, pode falar-se de mentiras, omissões, contradições, hipocrisias. O povo já não tem confiança em ninguém.

Os hipócritas e os mentirosos sabem sempre para onde vão, mesmo sendo corridos de onde estão. Já o povo português, não sabe como sair de onde está, nem para onde o querem conduzir, tentando vendar-lhes os olhos.

A esta hora o povo está suspenso da sentença sobre o Orçamento de Estado e eu vou fechar estas linhas antes que fique sem palavras para as terminar. Entretanto, vou digerindo este fartote de decisões de última hora.

 

 

 

 

Meteorologicamente falando, até parece que estamos na época das monções, com esta invernia a invadir o espaço da primavera. Politicamente falando, até parece que estamos num frutuoso diálogo que visa a eleição do rei da parvoíce.

Esta ‘monção’ de censura, desde há muito aguardada na Assembleia da República, foi recebida e discutida com enormes salvas de palmas, muita gritaria, muito entusiasmo, como se de um circo de feras se tratasse.

Não chegou a haver inundações, apesar de ali se ter metido tanta água que, em certos momentos, se ouviu tal algazarra, como se hordas incontroladas e ululantes estivessem a festejar vitórias dos seus guerreiros heróis.    

Parece uma enormidade mas atrevo-me a dizer que naquela assembleia se assistiu a uma guerra em que as vítimas faziam uma ruidosa e constante festa, com o gozo de dar e receber golpes baixos, vindos de armas com veneno letal.

Ali, devia discutir-se construtivamente o presente do país, com vista a garantir um futuro melhor que o passado, o recente e o longínquo. Mas, o passado é, será sempre, a discussão, como se fosse dele que todos nós dependêssemos.

Aquela assembleia está transformada numa arena onde há gente que parece ter comportamento de bestas que escoiceiam coletivamente, abdicando da linguagem normal de pessoas que têm cursos e instrução suficiente para tal.

 

 

 

03 Abr, 2013

Cenas sem narrativa

 

Cenas não faltam por aí para nos dar a volta à cabeça. Desgraçadamente, nem sequer há quem nos faça uma narrativa das suas origens e, muito menos, das suas consequências. Assim, há muito tempo que nos colocaram fora de cena.

Portanto, há cenas a mais e narrativas a menos. Com a agravante de uma ou outra narrativa recebida por via da especulação, nos deixar à beira de outras cenas que até podem ser tristes, senão mesmo dramáticas. Boas é que não.

Chegam-nos notícias de que o Tribunal Constitucional só vai fazer a narrativa dos seus bem guardados segredos, acumulados ao longo destes três últimos meses, depois de discutida a cena da moção de censura do PS ao governo.

Já sabíamos que o governo quer uma Constituição à sua maneira. Ficamos a saber agora que o TC tem uma interpretação das leis constitucionais, consoante o resultado do que diz o PS e do que faz o governo como resposta.

Faz pois todo o sentido pensar que estas cenas estão intrinsecamente ligadas à narrativa que mais jeito der para uma decisão, que até podia já não servir para nada, se a moção fosse aprovada. Não é o caso, segundo a narrativa normal.

Já ninguém compreende estas cenas de silêncios de gente altamente responsável pelos destinos do país, quando proliferam narrativas que os põem em causa, e quando bastariam duas linhas de uma narrativa séria e atempada. 

Provavelmente, tudo isto não passará de cenas que visam manter, senão ampliar, o já vasto campo de atuação da catrefada de narradores, que trazem o país suspenso das suas cenas, muito mais que das suas narrativas.

A continuar nesta senda de inovações, muitas coisas haverá a extinguir por desnecessárias. A primeira delas, seria a Constituição, essa que cada um quer à sua maneira e que já não há quem a saiba interpretar sem lunetas distorcidas.

Sem Constituição, também não precisamos do TC. Para o substituir, cria-se o Conselho de Narradores. Vai tudo dar ao mesmo, mas ao menos faz-se a vontade ao governo, que estrutura, mudando apenas o nome às coisas.

 

 

 

02 Abr, 2013

MAS QUE SECA

 

Vai por aí água que nunca mais acaba, pelo menos nos tempos mais próximos, o que também é uma ajuda, triste ajuda, para quem já não conhece motivo algum para pensar numa vida normal, sem prejuízos em cima de desgraças.

Para a maior parte dos portugueses, as suas vidas transformaram-se numa seca incontornável no meio de tanta água, seca que lhes é imposta pelos homens que comandam os seus destinos, mas também pelos deuses das intempéries.

Certamente que nesta seca insuportável, não se morre de sede, mas pode morrer-se de fome, se houver quem, teimosamente, continuar a meter água, a acrescentar à água que desapiedadamente não para de cair dos céus.

Não podemos falar de crueldade dos deuses que não preservam a nossa segurança e o nosso bem-estar, por respeito à nossa condição de seres sujeitos às regras da divina natureza, ainda que por vezes tão injustas nos pareçam.

Mas, bem podemos falar da rude crueldade praticada por todos os homens e mulheres que desviam o olhar da miséria, ignorando-a, consentindo-a, ou provocando-a, sem que sintam minimamente a vergonha dos seus atos.

Para esses, a vida não é uma seca. É antes uma encharcada de ódios misturados com prazeres sádicos, num mar de discriminações, perseguições e simulações, quantas vezes sob a capa de pretensas orações.

Estas chuvas quase diluvianas, que parece servir apenas para agravar a crise de muita gente que vê destruídos os seus bens, têm também a utilidade de limpar as cidades e as serras, os rios e os campos, que tantos persistem em sujar.

Mas, há sempre alguma sujidade que fica agarrada a quem nem sequer se deixa molhar no meio das intempéries. Essa sujidade chama-se maldade congénita, hipocrisia sistémica, falta de vergonha intratável.

Os deuses bem se esforçam por mandar muita água para que todos se lavem como devia ser. Tal como se esforçam por mandar umas secas periódicas para fazer lembrar como a água é preciosa. Mas há gente que é mesmo uma seca.

 

 

 

01 Abr, 2013

BRAVO, PRESIDENTE !

 

Finalmente, um gesto de relevo em prol de uma RTP mais pública e, já agora mais decente. É apenas um gesto vindo do seu presidente, mas sempre é melhor que nada. Até porque ainda não tinha mostrado nada de jeito.

Pelo contrário, a demissão do ex-diretor de programas mostrou um lado muito ao mau jeito de mandar mal, próprio da corrente que nos governa. Daí que esta surpresa chamada Sócrates tenha caído como uma bomba no país.

Bomba que surpreendeu quem gosta do ex-primeiro ministro pelo inesperado da reviravolta no conceito de interesse público. Como bomba para quem o detesta, pela destruição da ideia de que lhe devia ser negado falar para o país. 

Quando o presidente da RTP diz que a empresa precisa de mais independência, mais serviço público e mais audiências, no meu entender, e pela primeira vez, parece ter encontrado o caminho que se espera de um qualificado gestor.

Sem dúvida que foi resultado do efeito demolidor das televisões privadas sobre a pública, ao enveredarem pela diversificação da opinião, através do combate ao monopólio de uma informação seletiva sempre inclinada para a direita.

De espantar foi o assentimento da tutela, que não tinha de ser consultada sobre o contrato com Sócrates, mas foi e, (como foi possível!) aceite sem tugir nem mugir. Miguel Relvas deve estar muito frágil para aceitar coisas destas.

Aliás, todo o governo deve estar já muito pouco senhor das suas habituais resistências à concessão de oportunidades que lhe são hostis. Dar a Sócrates a oportunidade de se defender, sabendo que ele ia atacar, é uma bela pirueta.

Fez bem a RTP e fez bem o governo. Se Sócrates enveredar pelo caminho errado, só verá o seu futuro ficar mais negro do que foi o seu passado. Se conseguir demonstrar que lhe fizeram a vida negra, o país só tem a ganhar.

Diz-se, e bem, que da discussão nasce a luz. E, particularmente, desta discussão, também nasce o dinheiro que uma televisão pública precisa para ser independente. E deixar de esfolar os contribuintes que já não a podem ver.

Muito bem, o presidente que quer uma televisão que se governe fora do orçamento do estado. Muito mal, o presidente que quer ver nela mais futebol. É melhor deixar essa coisa para as privadas, pois isso é negócio prestes a falir.

Vamos ver se o tempo não virá a aconselhar que também os comentários políticos e os comentaristas, todos eles, se transfiram para as privadas. Mas, enquanto isso não acontecer, que a palavra seja para todos. E o dinheiro, claro.

 

 

 

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