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afonsonunes

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19 Abr, 2014

TAMBÉM EU!...

 

 

O meu avozinho tem as suas preferências como toda a gente. Para ele, todos os anos, é ano de um animal qualquer. Assim do tipo chinês, mas ele é bem português e dos tesos, como diz o povo.

De há três para cá, foi sempre ano do coelho e, para ele, nem pensar em mudar. Já lhe sugeri que vai sendo tempo de ter um ano do porco. A resposta foi a que eu esperava. O país só lá vai com coelho.

Já lhe fiz notar que há quem festeje o ano da águia, do dragão ou até do leão. Mas o meu avozinho não vai nisso. Diz-me que é independente. Que escolhe sem pressões de ninguém. Nem de mim.

Bom, eu também sou independente. Mas gostava que ele mudasse. Por exemplo, não gosto de o ver sempre com a mesma cor de vestuário. Claro que eu só vejo por fora. Mas imagino o resto.

Embora ache interessante umas ceroulas laranja. É giro. Mas já lhe disse que o normal é as pessoas variarem. Não, disse ele, eu não vario, eu sou rigoroso. Bom, eu também sou rigoroso, mas tanto…

Na verdade, a virtude que o meu avozinho mais preza é ser isento. Foi sempre assim. Ficou isento de ir à tropa com uma valente cunha. Sempre esteve isento de pagar quase tudo por inteiro. Eu, não.

Gosto muito do meu avozinho. Sou tão independente, tão rigoroso e tão isento como ele. Mas não tenho os mesmos gostos dele. Detesto três anos de coelho. Não gosto de laranja. Não estou isento de nada.

Mas, sobretudo, adorava que o meu querido avozinho não fosse tão veemente a exaltar as suas virtudes. Isso compete aos outros. E o meu avozinho sabe, como ninguém, rotular aqueles que detesta.

Como estamos na Páscoa, sei que o meu querido avozinho, praticante rigoroso, isento e independente da sua fé, já se foi confessar. Espero e acredito que já compreenda melhor o seu neto.

Já agora, acrescento que o meu avozinho é um homem sério. É capaz de chamar estúpido a um homem, mas é incapaz de chamar burro a um coelho. Eu, que também sou sério, não chamo porco a ninguém.

17 Abr, 2014

ELES PARTEM TUDO

 

 

Parece que há uma grande diferença entre Passos e Seguro. Passos é Passos e Seguro não é seguro. Resta saber se Passos, Passos, é mais seguro que Seguro. Passos escorrega todos os dias e Seguro não cai.

É verdade que Passos também ainda não caiu. Contudo, cair da cama, não é o mesmo que cair do teto. Até porque se pode cair do teto em cima da cama e esta não aguentar com a violência do trambolhão. 

Passos e seus companheiros têm partido tudo o que lhes aparece pela frente. Agora, estão a prometer partir menos, para ver se conseguem passar a ideia de que, afinal, ainda há muito para partir.

Porque, generosamente, querem deixar alguma coisa para que Seguro também tenha algo para partir, já que ainda não o deixaram partir nada. E o tempo está mais para deixar partir, que repartir.

Passos tem demonstrado um prazer imenso em partir mais do que pode. Mas ainda não teve sequer a lembrança de que podia colar algumas das peças que tem partido. Mas isso não cola com ele.

Porque Passos é assim mesmo. Para partir contem com ele e com os seus companheiros. Para colar, é garantido, contem com o Seguro quando chegar ao pote que, aliás, já tem uma fenda gigante.   

Já há quem sugira que Seguro renuncie a um pote naquele estado. Pote, sim, mas um pote novo, ainda que meio cheio, ou mesmo meio vazio. Pote partido e vazio é que não. Nem mesmo bem colado.

 

 

 

16 Abr, 2014

CUEILHADA

 

 

Um cueilho genuíno, mesmo estufado, nunca se deve confundir com um gato, por mais temperos que se lhe metam no tacho. Depois de esfolados, cueilho e gato, são parecidos, mas nos tachos não.

Porque cueilho é cueilho. O gato, mesmo escondido, fica sempre com o rabo de fora. E o rabo do gato não é rabo de cueilho. O gato não tem estofo, enquanto o cueilho é estofado, tem estofo próprio.

Também não se pode comparar com a lebre, pois é muito mais lento que ela e, quanto a feijoada, fica a milhas. Isso não quer dizer que o cueilho não seja ele próprio. É, mas precisa ser bem esfolado.

Para ser e parecer mesmo um cueilho, tem de ser verdadeiro nos tachos, mas mentiroso na coutada. Senão, acaba por levar chumbo no pelo e, sem ele, ninguém mais vai querer acreditar que é cueilho.

Já o cueilho citadino tem características algo singulares que o distinguem do cueilho rural. Tem mais propriedade no mentir, mais subtileza na língua e mais doçura na voz. Muito mais original.

Por vezes, devido à sua correria, nota-se que é um cueilho estafado, mas igualmente autêntico, como aqueles concorrentes dos bigs da TV que, sendo sempre eles próprios, não esquecem as boas mentirolas.

Mas é precisamente assim que a cueilhada gosta dele. Porque ninguém mais neste país seria capaz de comer gato por lebre. Mas, comer gato por cueilho, é um petisco que não pode perder-se.

 

 

 

15 Abr, 2014

ESTOU SEM...

 

 

Não estou a querer recriar aquele famoso, estou sim, do pastor que tinha um telemóvel. Quero dizer apenas que estou sem assunto para escrever as minhas habituais linhas de descontração mental.

É inconcebível dizer uma coisa destas num dia em que se anunciavam acontecimentos relevantes para a vida dos portugueses. Refiro-me obviamente a cortes, pois aqui, de mais nada se podia tratar.

Sinceramente, não vou tocar nesse assunto, pois não ouvi nada que correspondesse à espectativa criada. Se não ouvi nada, é porque ninguém quis traduzir à letra o que ouviu. E eu, hoje, estive surdo.

Quanto à lengalenga habitual, também já nem sei o que dizer mais, do que tenho escrito por aqui. E se há quem diga sempre a mesma coisa, eu evito adotar esse critério, porque entendo que chateia.

No entanto, vou continuar a minha ginástica mental, que é também o exercício que escolhi para manter os dedos ativos. Isto enquanto não aprender a tocar guitarra ou viola. Depois, talvez a meta no saco.

 

 

 

14 Abr, 2014

SÃO COISAS...

 

 

Os dois principais candidatos da coligação PSD/CDS às eleições europeias não se cansam de falar de bancarrota e de ‘bancarroteiros’ como tema central das suas inteligentes e dignas campanhas.

Não há dúvida de que os seus discursos são de uma suculência extrema e as suas mensagens abarrotadas de uma sapiência e de uma moralidade incomparáveis. Dá gosto ouvir políticos destes.

Porque os seus exemplos e os seus currículos lhes dão uma autoridade indiscutível para falar do que falam. Eles obrigaram a ir buscar a troica, mas serão eles a mandar embora a troica. Quando?

Não se sabe, mas o que fizeram, é já um ato de heroísmo nacional. Que lhes dá crédito ilimitado para considerar os opositores do PS, uns atrasados mentais e um estorvo ao desenvolvimento do país.  

Este é o seu discurso. Esta é a sua mensagem. Eles são únicos e perfeitos. O resultado está à vista. Melhor que Passos e Portas, ninguém. Melhor que Nuno Melo e Paulo Rangel, só os seus chefes.

Todos eles já provaram que são ótimos no que dizem e no que fazem. Seguro é um nabo qualquer, porque até é um perigo deixá-lo experimentar a fazer qualquer coisa. Porque não lhes ensinou nada.  

Alguém anda a tratar de correr com o Sócrates da RTP. Deve ser o Seguro. Não se sabe bem porquê. Imagina-se que deve pensar mal dele. Por causa das mentiras que põe no ar nos domingos à tarde.

Tudo porque ninguém, em Portugal, mente mais que ele. E agora, época de eleições, mentir na televisão pública, é um sacrilégio. Até agora, por delicadeza, ainda ninguém o desmentiu. Mas vão fazê-lo. 

Seguro é já um elemento imprescindível aos candidatos às europeias e aos seus apoiantes. Sem ele, restava-lhes falar do Sócrates. Porque falar de Passos e Portas, consideram eles, é pura perda de tempo.

 

 

 

13 Abr, 2014

OS ACEITANTES

 

 

Há pessoas que nem precisam de assaltar bancos para que fiquem a nadar em dinheiro. Em primeiro lugar, certamente, porque não gostariam que lhes chamassem assaltantes. Preferem ser aceitantes.

E nem sequer precisam de estender a mão para aceitar o que os amigos do peito lhes metem na conta bancária. Fácil, cómodo e útil. Prometem pagar mais tarde. Nem é preciso dizerem quando.

O banco deles é uma maravilha. Àqueles amigos que aceitem colocar lá as suas poupanças (aos milhares), têm a garantia de vir a ser aceitantes de valores multiplicados, como os pães do Evangelho.

Ser aceitante é que está a dar. Ainda há pouco tempo, vi o primeiro-ministro, contente, aceitar um par de sapatos. Bons sapatos, claro. Aposto que há quem ande à brocha por prendas menos valiosas.

Mas, os aceitantes não são todos iguais. Por exemplo, os aceitantes obsequiados pelos bancos são, realmente, uns privilegiados, pois aceitam muitos milhões e nem sequer restituem uns extintos tostões.

Daí que os reformados e pensionistas queiram ver as sua pensões indexadas a esses valores não restituídos. Isto é, que elas aumentem, na medida em que aumentem as retenções dos aceitantes.

Por outro lado, exigem que os aceitantes passem a chamar-se assaltantes, para que os funcionários e reformados se libertem de pagar assaltos, deixando isso por conta dos próprios assaltados.

 

 

 

12 Abr, 2014

BICHO NA CABEÇA

 

 

Vi num jornal uma foto do primeiro-ministro com um dedo metido entre os ralos cabelos da cabeça. Depois, a notícia de uma frase sua que dizia que os cortes não eram um bicho-de-sete-cabeças.

Bicho-de-sete-cabeças, ou cabeças com mais ou menos de sete bichos, sempre existiram e vão continuar a existir. Não em todas as cabeças, porque nem todas são iguais. Até depende da trunfa.

Se calhar foi por isso que o primeiro-ministro referiu essa frase em relação aos cortes. Suponho que se referia aos cortes de cabelo, pois os bichos escondem-se melhor quando a trunfa é mais avantajada.

Como a bicharada se transfere com muita facilidade de cabeça para cabeças, é necessário ter especial cuidado com as trocas, quando somos surpreendidos por uma invasão de comissários europeus.

Todo esse comissariado e seus acolhedores, não são com certeza um bicho-de-sete-cabeças para o país, pois vêm por bem. Sobretudo, vêm em socorro de alguém que bem precisa e isso é benemerência.

Espera-se que não acabem por ser vítimas de cortes ocasionais de criar bicho, ou de algum assédio de bichos com origem desconhecida. Sabemos quem anda a falar muito de bicho, mas não sabemos mais.

Aliás, isso dos bichos e dos cortes, não passam de ‘episódios laterais’ do género dos protagonizados pela presidente da AR e pelos capitães de Abril. Que não diferem muito de outros incontáveis episódios.

 

 

 

11 Abr, 2014

24 e 25

 

 

Vai fazer precisamente quarenta anos que o país acordou com o 25 de Abril, aquele que se celebra desde então. Curiosamente, há muita gente que celebra o seu 24 na data errada. Um dia depois.

A tendência vai no sentido de serem estes a monopolizar a data para o fazerem à sua maneira. Isto é, abafando cada vez mais as vozes que não lhes convém ouvir e subvertendo o sentido popular das festas.

Não prescindem de o fazer em espaço fechado, onde melhor podem controlar os acontecimentos, beneficiando da rigidez das normas de utilização do espaço, evitando assim, a presença do povo anónimo.

E, acima de tudo, obrigando ainda todos os convidados ao severo regimento e às palminhas da ordem aos seus costumeiros discursadores. O silêncio tem de ser a regra de oiro. Ouvir e calar.

Já não há maneira de dar a volta a isto, tal como as coisas estão agora. Mas, tudo tem solução e não me admiraria nada se, já este ano, se desse uma alteração profunda nas comemorações.

Os do 24, que se encerrem onde se sentem bem a comemorar o que realmente sentem, sem ter de tentar mostrar o que não sentem. Os do 25, que tenham a coragem de comemorar onde lhes apetecer.

Mas, sobretudo, que o façam com quem está de coração aberto, sem portas fechadas, para que seja o povo a colorir os festejos e a deitar cá para fora o que lhe vai na alma. É tempo de clarificar.

Mas, há que clarificar outra coisa importante. Que os do 24 façam os seus festejos e comemorações no seu dia preferido, o dia 24. Não faz sentido nenhum andar a fazer o frete de adiar o seu dia.

 

 

    

10 Abr, 2014

ELA E O GOVERNO

 

 

Não sei se um homenageado pode, ou não pode, querer falar numa cerimónia em sua honra. Mas acho descabido querer que fique de boca calada perante os elogios gerais que lhe são feitos.

Alguns desses elogios têm aquele sabor amargo do tamanho de um sorriso hipócrita que, certamente, não deixariam de estar em contramão com o discurso direto e incisivo do homenageado.

No fim de contas, o homenageado só queria fazer um discurso. Provavelmente a condizer com outros discursos que ali vão ser feitos. Mas ela e o governo entendem que o discurso é problema deles.

E o homenageado dirá que o problema é dela e dele, governo. Porque todos sabemos, o homenageado e nós, que ela e ele, governo, não se desviam uma vírgula no discurso de ambos.

Mas que raio de discurso é esse que tanto os preocupa. É uma vergonha que se crie um problema, sobretudo pela linguagem utilizada na discussão do pode, ou não pode, falar. Será falta de chá?

Mais lhes valia, a ela e ao governo, não terem discurso nenhum, isto é, andarem calados, que terem saídas destas, que só mostram o quanto lhes custa que alguém fale sobre os seus discursos tristes.

Lá diz o povo que o calado é o melhor. Mas há quem entenda que sempre é melhor asneirar que estar calado. E também há quem se morda, por fora e por dentro, para morder nos outros. São gostos.

 

 

 

09 Abr, 2014

A FALAR...

 

 

Nem mais nem menos, a falar é que a gente devia entender-se, se toda a gente percebesse que a razão só se alcança, depois de convencer os outros da validade dos nossos argumentos.

Acontece que há quem queira falar, sem querer ouvir nada que contrarie a sua vontade, ou os seus desejos, ou os seus interesses, por mais contrários que sejam ao que dizem os seus interlocutores.

Há um dito popular que retrata bem o espírito negocial de muita gente. Oferece um chouriço a quem lhe der um porco. Bom negócio, não é? Que bom falar com este argumento na ponta da língua.

Para esses, e para todos aqueles que acham muito bem que estas tentativas devam ser feitas, apetece dizer que se deixem de fazer dos outros tolos. E a estes, dizer-lhes que os deixem a falar sozinhos.   

Não vale a pena falar com quem não quer ouvir. E quem não quer ouvir, já sabe perfeitamente quem não está disposto a colaborar em jogos de hipocrisia e de faz de conta, só e apenas para outros verem.

Obviamente que isto não tem nada a ver com o governo que temos. E que, por muitas e boas razões já não devíamos ter. Por isso, não se compreende por que motivo, ainda convoca todos os partidos.

Já se sabe o que lhes vai dizer e também já se sabe as respostas que vai ter. Sempre as mesmas. Não se compreende porque não falam mais entre si, resolvam o que devem fazer, e façam. Não podem?

Podem, tanto que é isso mesmo que fazem. Deve ser só para dizer lá fora, que ouviram toda a gente. E que até ofereceram o tal chouriço. De mal-agradecidos está o inferno cheio. Ninguém quis dar o porco.