Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

16 Dez, 2011

Tendencialmente

 

Esta palavra, tendencialmente, é uma das tais que podia surgir todos os dias nas teclas dos computadores, como geradora de polémicas bem mais suculentas do que aquelas que nos saem na rifa das notícias. Isto, devido á incoerência com que ela, a palavra, chega até nós com aquela aparência de uma coisa bestial mas, vendo bem, não é nada.

Sabemos perfeitamente quanto nos vai custar aquilo que é tendencialmente gratuito, mas não sabemos o que vai ser de nós quando já não soubermos o que vai ser tendencialmente constitucional, ou constitucionalmente tendencioso. Tudo porque a tendência anda muito indefinida, em resultado de antigos palavrões que já se democratizaram.

Apesar disso, as palavras em geral não estão democratizadas pois provocam reacções completamente diferentes consoante quem as emprega. Ora isso leva-nos à conclusão de que também a sociedade não está democratizada pois, tendencialmente, uma parte dela pode dizer aquilo que está proibido à outra parte.

Podia citar o exemplo do emprego da palavra ‘asneirar’. Alguém dirá que ela não existe. Eu afirmo que existe, tanto assim é que a escrevi. Agora, tendencialmente, ninguém devia asneirar mas, a começar por mim, há sempre quem entenda que tem o direito de aliviar a pressão que tem dentro de si e … lá vai disto.

Mas o pior é que nem todos podem asneirar da mesma maneira. Por exemplo, os estudantes andam há anos a clamar – não pagamos! Mas, todos sabemos que eles pagam sempre, depois de muita ou pouca conversa, de muitos ou poucos desabafos, mais ou menos inofensivos, mais ou menos irreverentes.

Porém, aparece muita gente a dizer que não quer pagar esta crise, que não tem que pagar o que não pediu emprestado e não acontece nada, porque todos pagam e não bufam. Também ninguém ligou nenhuma a essa treta, como é normal. Mas, aparece um deputado socialista a dizer uma treta qualquer, sobre pagar ou não pagar, e temos aí a desgraça do país.

Será que nunca ninguém reparou nas tendências asneirais de outros deputados de todas as outras bancadas? Ah, então anda muita gente distraída neste país, pois muito raramente lhes dão importância. Não vou citar nenhum nem nenhuma, mas podia. Não me cabe acusar nem defender nenhum, mas gosto de reparar nas distracções tendencialmente suspeitas.

Sobre o dito caloteiro, interrogo-me se o homem não terá o direito de asneirar como qualquer outro, como tantos de todos os partidos, que dizem coisas bem piores e ninguém liga nenhuma. Já para não meter ao barulho membros do governo que nos fazem corar de vergonha com algumas afirmações, e até determinações, que passam despercebidas.

E isso vê-se em tantas outras situações a todos os níveis, sem criar polémicas, sem desonrar ninguém, nem o país. Suponho que quem tem esta apetência pelo partido socialista, demonstra uma espécie de temor de que o que sai dessas bandas lhes esmaga o poder, como se não se habituassem à ideia de que, neste momento, o poder é deles e não do PS.

Sosseguem pois os medrosos que o reinado não está em perigo. Aquele que mais medo meteu, e a alguns ainda mete, está longe e, tendencialmente, desactivado. O sucessor ainda está em maré de assentar as ideias, para lá das amizades. Se houver por lá quem tenha ideias ou seja mais reguila, não há problema. Ele, seguramente, sossega-vos.

Portanto, já que, tendencialmente, o poder actual caminha para a democratização de tudo, com princípios indiscutíveis, nada há a recear. Quem mandar bocas foleiras, mesmo que seja do PS, do maior ao mais pequeno, não merece atenção, ou não merece mais atenção que todos os governantes, deputados e outros, afectos à maioria.

Vão por mim, que sou tendencialmente contra a maioria, mas não sou tendencialmente a favor da minoria socialista. As minhas tendências estão mais viradas para aquilo que me convém. E isso, estou farto de o verificar ao longo dos anos, nenhum deles ainda foi capaz de trazer à luz do dia. Uma governação séria, justa e imparcial.

Que esteja tendencialmente virada para o povo, que é de onde o poder deve emanar. Enquanto assim não for, também a mim me apetecia gritar que não paguemos a essa tropa fandanga que nos esfola. Mas para quê gritar? Já me conforta que ninguém se indigne com o que eu faço ou digo. Ou ainda com as minhas tendências.